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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

O louco futebol brasileiro e a dança das cadeiras




Vamos brincar de “Explique a um europeu que gosta de futebol o fim de setembro de 2019 no futebol brasileiro”? Quero ver quem consegue. Ok, pode até ter sucesso ao elencar as peripécias dos dirigentes e – pior ainda – jogadores, mas se ele vai achar normal são outros quinhentos. Ontem, Cuca (que "caiu a si mesmo") e Rogério Ceni deixaram seus cargos; hoje, Zé Ricardo e Oswaldo de Oliveira foram demitidos. Todas as trocas foram bizarras, sem exceção.


Cuca não conseguiu dar padrão ao estrelado time do Tricolor e entregou o cargo de forma até inesperada. Rogério foi fritado em óleo bem quente pelos medalhões do elenco do Cruzeiro, o que mostra que ele ainda não está pronto para ser treinador de ponta, o que é absolutamente normal para quem acabou de iniciar a carreira à beira do campo. Ter sido o craque sob as traves não é garantia de nada ao mudar de função. Ter sido um líder no gramado também não.

Ao que parece, sobrou para o Zé Ricardo, que teve o pescoço colocado na guilhotina quando o ex-goleiro foi demitido e a dúvida sobre o retorno de Ceni ao Fortaleza não é se vai, mas quando vai.

Por fim, a ópera bufa do Maracanã, que envolveu um quase ex-craque - e possivelmente a maior decepção do futebol brasileiro no século XXI - e um treinador que sempre chega com a certeza de que será demitido. Neste caso, todos erraram. Ganso, mimado desde o Santos, não é mais o menino que se recusou a sair na final do Paulista de 2010, desacatando o então técnico Dorival Júnior.  Oswaldo, por sua vez, mostrou o dedo do meio para o torcedor, que ficou ao lado do camisa 10. Um profissional com a experiência dele não poderia jamais entrar nessa pilha. Se a coisa já não estava boa pra ele, ficou insustentável. "Burro pra c*" pra lá, "Você é vagabundo" pra cá, a demissão era questão de horas.

Quem quiser descascar o abacaxi azul de Minas Gerais, terá à disposição - não sei exatamente se este é o termo mais adequado - um elenco que acabou de derrubar o treinador. Não que isso seja raro, mas poucas vezes se viu de forma tão explícita. O mesmo se aplica ao time das Laranjeiras. 

Assim caminha o futebol brasileiro. De surpresa em surpresa, a única certeza é que não há certeza nenhuma. E nenhuma surpresa também.

Atualização:

i) Rogério, que pediu demissão do Fortaleza para acertar com o Cruzeiro, voltou ao Fortaleza, que recebeu dos mineiros uma indenização de R$ 1 milhão pela quebra de contrato do treinador quando este foi para Minas, o que só deixa a situação mais estarrecedora ainda.
...
ii) Abel Braga foi anunciado como treinador do Cruzeiro.
...
iii) Fernando Diniz, que foi demitido do Tricolor carioca, foi contratado pelo Tricolor Paulista. Vagner Mancini, coordenador técnico do clube e que havia sido anunciado como substituto de Cuca, pediu demissão ao saber que havia a intenção de trazer Diniz. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O dia em que morri



Foi no dia 15 ou 16 de dezembro de 2013 – não estou certo quanto à data exata – que começou a morrer o torcedor de futebol que nasceu em junho de 1985, num Portuguesa 2; Marília 0, pelo Paulistão daquele ano. Os sintomas, porém, começaram a aparecer pouco mais de uma semana antes.

9 de dezembro, segunda-feira. Festa do troféu Mesa Redonda, da TV Gazeta. Eu era assessor de imprensa da Lusa e estava com uma taça de vinho branco na mão quando a bomba estourou: o meia Héverton, na véspera, teria sido escalado irregularmente na última rodada do Brasileirão. É desnecessário falar dos acontecimentos que se seguiram até o primeiro “julgamento” na sede do infame stjd (espero que o editor mantenha em caixa baixa), na Rua da Ajuda, Rio de Janeiro.

Naquele maldito dezembro, dormi mal em todas as noites. Trabalhei mais na sala do departamento jurídico da Lusa do que na minha própria mesa. Presenciei todas as trapalhadas cometidas pelos homens da Lusa. Uma por uma. E não forma poucas. Falei mais com o Júlio Gomes, colega de profissão e de infortúnio luso, do que com a minha própria mãe naquele período, tentando achar uma saída para o clube.

Não achamos.

Mesmo que tivéssemos encontrado uma luz que não fosse a do trem vindo no sentido contrário, o fado já estava escrito: a execução sumária travestida de julgamento teve de tudo: torcida do tricolor carioca (não escrevo o nome daquele time nas minhas tribunas) na porta do tribunaleco, com faixas, com bandeiras, mas sem dignidade; voto do relator escrito na véspera devidamente guardado na gaveta, à espera do momento certo para atingir o coração de um clube que foi morto porque cometeu o crime de querer lutar contra o Negócio futebol, o business. Morreu porque quis ser grande.

Leia também:
Eduardo Baptista e o imediatismo tupiniquim


Comecei a morrer como torcedor quando o massacre de 9 a 0 foi consumado no patético e hediondo “julgamento” da citação do Pequeno Príncipe; quando vi hienas de verde e grená rindo sobre o cadáver ainda quente, como se fosse parte do seu instinto animal. Não, não é. Aquilo era uma mostra do pior que pode haver naquela gente. É esse tipo de pessoa que brada feito louca quando um pênalti legítimo é marcado contra si, mas regozija-se a cada lance ou armação ou tapetão a favor do seu time.

Eles, como tantos outros, sob outras camisas, são os mesmos que, com este comportamento deplorável, fiam as maracutaias existentes em todos os níveis sociais. O “levar um por fora”, o “quanto é que eu levo nisso”, é inerente a esse tipo de gente.

Tornei-me, então, um ser completamente isento de qualquer cor ou sentimento positivo relativo ao futebol brasileiro. Tal qual o Homem de Pedra do Trio Parada Dura (ouçam), decidi que ninguém mais pisaria em mim. Torço sim! Mas só quando o Benfica joga, quando A Portuguesa é tocada antes de cada partida da Seleção de Portugal. E contra o time da CBF.

Já a Lusa segue definhando num espiral infinito, uma queda em parafuso que não para. Foi num 8 de dezembro que o sistema achou o motivo torpe para nos matar. 8 também era a camisa que o Rei Enéas, o gênio esquecido, usava quando acordava para destroçar adversário por adversário dentro de campo. No dia 27 de dezembro de 2013, a morte do craque da camisa 8 completou 25 anos. No mesmo dia, os doutos donos da lei da ópera bufa e farsante da Rua da Ajuda deram o tiro de misericórdia.

E eu morri.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Por que torço contra a Seleção Brasileira


Foi em 2013. Durante a festa dos melhores do Campeonato Brasileiro organizada pelo Mesa Redonda, uma terça-feira, a bomba do Caso Heverton estourou. Os dias seguintes foram uma sucessão de cartas marcadas. O julgamento da Rua da Ajuda, o posicionamento antecipado do procurador irregular do STJD, as bobagens que a Portuguesa fez ao longo do processo. O rebaixamento. A festa dos torcedores daquela porcaria de time do Rio de Janeiro, cujo nome não pronuncio fora do ar. Tudo isso matou meu lado torcedor como um tiro bem no meio do coração.

Desde então, me reservo o direito de não torcer para nada que se refira ao futebol brasileiro. Virou trabalho e só trabalho. Quando eu estive sem nada para fazer, após uma pessoa decidir na Portuguesa que não faço o perfil do clube e, por isso, não servia para a função de assessor de imprensa, era como se os jogos daqui não existissem. Nenhum deles.

Durante a Copa de 2014, voltei a ser torcedor. Por Portugal, é claro. E contra o Brasil. Hoje eu volto a ser daqueles que brigam com a TV em ocasiões especiais: Benfica, Portugal ou Brasil em campo. Nos dois primeiros casos, torço, brigo, reclamo, comemoro. No caso da seleção da CBF, quero mais é que exploda.



A cereja do bolo fétido expurgado pela turma que vem roubando o futebol nacional está às portas. E nem é o 7 a 1 que, constrangido, nem cheguei a comemorar. Apenas um riso solto após o apito final daquela vergonha. Nem ficar, pela primeira vez na história, sequer entre os oito da Copa América, que é uma grande porcaria. Será, num grupo de dez e com cinco vagas à disposição, ficar de fora da fase final da Copa do Mundo.

A safra não é das melhores, o único craque não resolve absolutamente nada e o "técnico" é autoexplicativo.

Leia também:
A culpa

Pode ser que troquem o Dunga pelo Tite, pelo Jorginho, pelo diabo. Seguirei torcendo contra. Constrangido, mas satisfeito por ver a cara de imbecis da pachecada que não vê, ou finge que não vê, que a culpa é de todo mundo: menos do Dunga e de quem o escolheu, mas, sobretudo, de quem escolheu e legitimou quem o escolheu.

Dunga disse, na coletiva de pós-jogo, que foi eliminado por causa de um gol de mão. Não, professor! A mão que te eliminou não foi a peruana. Foi a mesma que vem roubando o futebol do país há quase 30 anos.

Lucas Figueredo (MOVA PRESS)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O futebol faz mal ao Brasil

*por Fabio Venturini

Sempre defendi que essa ideia de que o futebol é desimportante, por isso um mundo separado, é conversa para boi dormir. O futebol é dialético com todos os demais momentos e lugares de nossas vidas. Ele é reflexo do que pensamos assim como molda o nosso pensamento, seja na condição de jogador, torcedor, peladeiro, árbitro, juiz do STJD etc.

Esta semana particularmente chamou-me  a atenção três momentos. Relendo Paulo Freire me aparece um trecho memorável de Pedagogia do Oprimido:

“Não haveria oprimidos se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão. Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que oprimem como outro.”

Freire descreve longamente uma dinâmica em que o opressor responsabiliza o oprimido pelas violências e injustiças a que são submetidos. Nos intervalos da leitura, tive a (in) felicidade de ver um jogo daqueles eletrizantes do campeonato inglês, Manchester City x Chelsea.

No desenrolar da partida, o zagueiro Zabaleta, do City, fez uma falta dura em Diego Costa. Não satisfeito, foi para cima do atacante do Chelsea e iniciou uma ríspida discussão, com troca de afagos que não chegaram a ser agressão. O árbitro expulsou Zabaleta, apenas, pela falta e por ter gerado a confusão.
Qual é a dúvida de que no Brasil ambos seriam expulsos?

Os homens de preto daqui sempre tomam a decisão que os comprometem menos. O maior sintoma é quando Sandro Meira Rici vai à Copa do Mundo e apita como se estivesse na Bundesliga, não nas “arenas” do Brasil.

Toda vez que um comentarista de arbitragem quer justificar os erros absurdos, daqueles que acomodam opinião pública, times em questão e “orientações” da comissão de arbitragem, falam em “imprudência”.
Se um jogador colocou a mão no rosto do adversário que se atirou no chão e foi expulso, sua atitude foi imprudente. Se deu um carrinho, o atacante se atira no chão e o juiz marca equivocadamente o pênalti, a responsabilidade é do zagueiro e sua imprudência, sua inconsequência.

Assim se difundem padrões de opressão pelas telinhas todas quartas à noite e nas tardes de domingo.
O que faz então pessoas como Sandro Meira Rici terem uma postura em torneios internacionais e outra nos campeonatos locais?

Na Inglaterra, na Alemanha e, em menor medida, na Copa do Mundo, o objetivo do árbitro é cumprir a regra. No Brasil, é “controlar o jogo”, como expõem sem o menor constrangimento os comentaristas de arbitragem: Arnaldo Cézar Coelho, Leonardo Gaciba, José Roberto Wright, Paulo César de Oliveira e até Sálvio Espínola, que está na ESPN, uma emissora cujos comentaristas tanto exaltam o futebol europeu, mas, quando se tratam de torneios brasileiros, acomodam-se na ideia de “imprudência” do injustiçado.

Essa mentalidade faz com que uma falta seja digna de expulsão aos 38 minutos do segundo tempo, quando o time da casa já tem um a mais e está ganhando o jogo, mas lances idênticos não sejam punidos com cartão amarelo no primeiro tempo ou sequer se marque falta. O mesmo critério que faz uma bola tocada na mão vire pênalti contra o visitante, mas uma mão intencional na bola no meio de campo pelo atacante adversário não lhe renda o segundo amarelo.

Imagine o seguinte lance: um atacante que desde o começo do jogo está procurando contato com os zagueiros e se atirando dentro da área corre na direção do gol adversário com a bola dominada. Um zagueiro corre e o alcança, mas para dar tempo de impedir o gol estica a perna e se joga à frente da trajetória da bola. O atacante, atrapalhado, erra o chute e na sequência dobra os joelhos. Na sequência ambos se embolam. O atacante, tocado na perna esquerda, dá três rolamentos gritando como se fosse amputado a sangue frio com a mão no joelho direito.

O lance é dentro da grande área. É falta?

A regra do jogo manda avaliar se a bola estava em disputa, mas as orientações de arbitragem no Brasil mandam jogar a partida.

As chances de o juiz ser ludibriado e marcar um pênalti são grandes em qualquer lugar do mundo, mesmo na Inglaterra e na Alemanha, onde joga a maioria dos jogadores dos quatro semifinalistas da última Copa do Mundo. Nesses locais há também uma boa possibilidade de o árbitro, estando próximo da jogada, aproximadamente seis ou sete metros e com visão frontal do lance, perceber a acrobacia do atacante e não botar a bola na marca penal.

No Brasil essas duas possibilidades estão condicionadas aos mesmos critérios que fazem um time ter 60% mais pênaltis em seu estádio do que qualquer outro adversário, os mesmos que fazem uma agremiação perder pontos e ser rebaixada pelos mesmos motivos que outras são absolvidas.

Em poucas horas o jogador expulso e o time rebaixado se tornam “imprudentes”, responsáveis pela violência a que foram submetidos. O jogador vítima do racismo se torna culpado por ter feito uma denúncia e as vaias, tão ou mais racistas do que gritos de “macaco”, se tornam sua obra. Críticos de pastores homofóbicos chegam ao delírio chamando o torcedor adversário de viado. Inconformados com a corrupção “de tudo que está aí” buscam releituras das regras para justificar uma vitória conduzida desde o primeiro minuto pela arbitragem.

E assim, nos dias em que não há futebol, a criança de um ano de idade bombardeada com lacrimogêneo é a culpada por não respirar oxigênio, pois estava onde não deveria. O pobre é culpado por não ter nascido em condições de ficar rico. O camelô que leva um tiro na boca é tão responsável pela sua morte quanto o homicida que puxou o gatilho.

Esporte é para dar sanidade a corpo e mente. Na TV tem feito justamente o contrário.

*Fabio Venturini é jornalista

terça-feira, 3 de junho de 2014

Com muito gosto

Não é de hoje que um sentimento anti-Seleção Brasileira cresce no país. Mesmo representando uma parcela diminuta da população, sobretudo formada por jovens que têm acesso ao futebol internacional e acabam se identificando mais com o futebol visto na ecrã de um computador ou pela TV a cabo do que aquele praticado a poucos metros do seu quintal, é um fenômeno que chama a atenção pelo fato de que, até bem pouco tempo, era impensável alguém que não torcesse pelo escrete nacional.

Vários motivos podem ser apontados: o "complexo de vira-latas" rodrigueano, de achar que tudo o que vem de fora é melhor, mesmo o Brasil sendo exportador do pé-de-obra usado lá fora para encantar o incauto tupiniquim insatisfeito; a ida cada vez mais precoce deste pé-de-obra, que pouco acrescenta na história dos clubes formadores e o consequente distanciamento da própria equipe nacional; o arroubo rebelde e questionador resultante dos protestos que começaram em 2013 e que fizeram com que nada prestasse no Brasil. 

Acontece que a Copa não é, e nunca foi, a culpada pelos desmandos e barbaridades feitos no Brasil desde nossos antepassados portugueses cá aportaram (vocês também têm sangue português. Nem tentem negar isso). A Copa não traz estrutura. Em lugar nenhum isso aconteceu e não seria aqui que aconteceria. É compreensível que o desalento esteja à flor da pele, uma vez que há uma enorme carência no que diz respeito às necessidades básicas das pessoas, mas se o problema é o evento, depois de junho não haverá motivo para reclamar?

Mesmo assim, faço parte do ínfimo grupo que torcerá para que a Copa do Mundo fique com qualquer umas das outras 31 seleções que estão chegando. Particularmente, já não torço pela Seleção desde que entendi que ela é instrumento de manobra não de um governo (pura alienação, má vontade e pobreza nos argumentos de quem se diz anti-PT e nem sabe por que, achar que é), mas de um grupo que usurpou o futebol do Brasil e desde 1987 virou posseiro dele.

Assistir aos jogos do Brasil me causava o mesmo furor de uma partida entre Figueirense e Goiás, pela oitava rodada de qualquer campeonato modorrento de pontos corridos. Só que depois do que foi feito com a Portuguesa no ano passado, a indiferença se tornou aversão a tudo o que lembre ou tenha a chancela da CBF.

Eu poderia torcer pela Alemanha pela forma que eles tratam não só o futebol, mas de tudo. Ou pela Argentina, já que seria divertidíssimo ver a cara da pachecaiada se entreolhando enquanto Messi erguesse a taça. Ou por Portugal, por uma questão óbvia.

Mas não. Apenas torcerei contra. E com gosto, muito gosto.

domingo, 6 de abril de 2014

Companheiro é companheiro

Durante esta semana a Portuguesa, enfim, entrou na Justiça Comum para tentar (por ora, com sucesso) restabelecer o resultado aferido dentro de campo no Campeonato Brasileiro de 2013/14/... e restaurar os quatro pontos descaradamente extraídos pelo tribunal da Rua da Ajuda, lá no Rio.

Todos que me conhecem sabem a minha opinião acerca do tema, e desde o começo da contenda, que é ir para a porrada mesmo. No entanto, existem inúmeras complicações, qualquer que fosse a postura tomada pela diretoria rubro-verde. 

Exceto o apoio irrestrito e incondicional e óbvio da torcida e de parte da imprensa, não houve um movimento sequer em termos desportivos, seja dos clubes (co-irmãos é o cacete) ou do Bom Senso FC, que desde o início manteve-se inerte, insosso, dando uma de João-sem-braço, como se não tivesse nada com isso. Dos clubes, o único apoio veio de fora, de Barcelos, a cidade portuguesa onde o galo já morto cantou para salvar a vida de um peregrino inocente, sede do Gil Vicente, clube igualmente rebaixado pelos tapetões e que ainda luta para recuperar seu lugar na elite do futebol português.

Aqui, por estas plagas, os clubes não só viraram as costas para a Lusa, como fecharam com a CBF e a rede que detém os direitos do futebol tupiniquim, no ilegal, vergonhoso e despudorado (e quantos adjetivos desabonadores mais houverem para classificar a treta) acordo que reza que os times não recorrerão ou aceitarão que seus torcedores recorram à esfera cível quando seus direitos forem usurpados, sob pena de perder a cota da TV, estrategicamente, a mais significativa fonte de renda dos emblemas nacionais.

Por outro lado, caso aceitasse bovinamente disputar o segundo escalão do futebol nacional, como "aconselhou" a dupla biônica Marin-Del Nero, mesmo em troca de uma cota mais polpuda, seria a morte moral da Portuguesa. Acatar a decisão tomada no "julgamento" da Rua da Ajuda deporia contra a própria história rubro-verde. Mais que isso: decretaria definitivamente o início do fim de um clube que sempre lutou contra as inúmeras sacanagens cometidas contra si ao longo dos anos, desde que decidiu estar entre os grandes.

Hoje somos vistos como os paladinos da justiça, mas, se, no frigir dos ovos, dermos com os burros n'água, ninguém virá nos dar as mãos. Não se engane, torcedor, luso ou não. Estamos sozinhos nessa. Se vencermos, no fim, será somente por nós mesmos. Se perdermos, teremos somente a nós também. 

E não haverá galo a cantar para nos livrar da forca. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Retalhos e rebotalhos

Um nome conhecido voltou à baila recentemente por dois motivos distintos: a eleição de um dos maiores clubes do mundo e uma das maiores sacanagens da história: Carlos Miguel Aidar.

Aidar é o candidato da situação no pleito do São Paulo. Figura histórica do Tricolor, foi Aidar um dos principais responsáveis pela criação do Clube dos 13, lá nos anos 1980. Graças a Aidar foi criada a Copa União, que deixou como legado o futebol para a Rede Globo, além da primeira prova inconteste da incompetência dos dirigentes brasileiros para gerir um campeonato sem a chancela da CBF ou de outra entidade-mamadora-nas-tetas-dos-clubes, como é a FPF, só para dar um exemplo.

Durante anos, por causa da disputa com o Flamengo (time do coração de Ricardo Teixeira) pela Taça das Bolinhas, o São Paulo viveu às turras com a CBF. Depois que o Don Corleone largou o osso e a cadeira em favor do amigo da medalha alheia, o time da fidalguia paulistana se reaproximou da entidade máxima do ludopédio tupiniquim.


Agora Aidar é o advogado contratado pela CBF para cassar as liminares que a obriga a restituir o resultado aferido dentro de campo no Brasileirão-13. Além de ser o escolhido pela entidade para defender, segundo suas próprias palavras, a decisão do STJD, que é (ou deveria ser) teórica e estatutariamente independente, se presta ao triste e rasteiro serviço de porta-voz das ameaças vindas da Barra da Tijuca.

Mas se engana quem pensa que é recente o histórico de Carlos Miguel Aidar quando o assunto é afrontar a gente do Canindé. Foi Aidar o responsável pela Portuguesa ter sido posta à margem na concepção do Clube dos 13, fato que a alijou da disputa do primeiro campeonato com virada de mesa do país, a Copa União, aquela concebida por Aidar, em 1987 (em 86 o Botafogo não atingiu a pontuação necessária para garantir em campo o seu lugar na elite, coisa que América-RJ, Guarani e Portuguesa fizeram com sobras).

É imoral e promíscua a relação dele com a CBF. Ora, se for o presidente do São Paulo, como poderá opor-se à CBF em alguma contenda? Ah, mas o Marin criou-se no São Paulo, né? Sim, e na ditadura também. E na aristocracia que manteve a ditadura, como assim também foi com a Globo, que tem interesse em ter o Tricolor carioca na Série A. Os retalhos estão aí. É só costurar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

As cerejas do seu Coriolano



O seu Coriolano era um português bravo. E tinha uma quinta. Na quinta, seu Coriolano tinha uma cerejeira carregadinha e, de olho nela, meu pai e seus amigos, outros putos daquela Castelo de Paiva dos anos 1950. 

Certa vez, meu pai chamou os outros rapazotes, todos com 11 ou 12 anos, se muito, para pegar as cerejas do seu Coriolano. 
- Mas ó, Tinito, e se ele descobre?
- Ficai tranquilo, que ele está na venda pela manhã.
- Ah, então está bem! Amanhã vamos lá comer as cerejas.

No outro dia, logo cedo, lá foi o jovem Constantino à venda do senhor Coriolano.
- Senhor Coriolano, daqui a pouco os meninos da escola vão roubar suas cerejas.
- Escuta aqui, ó Tinito! Como sabes?
- Eu os ouvi a conversar após a aula. 
- Ai, Jesus! Vou dar uma trepa nestes malandritos!

E lá foram eles: seu Coriolano, o filho dele e meu pai. E varas de marmelo. Na frente, meu pai apontou os outros miúdos já na copa da árvore.

- Ai, que estão uma delícia estas cerejas, ó, Quinzinho!
- Ah, é, Arthur! Estão pintadinhas!

De repente, a voz vinda lá de baixo, como o prenúncio do apocalipse para aqueles dois:
- Descei daí, malandritos!
- Ó, seu Coriolano, não bate na gente.
- Já falei: vós desceis daí, antes que seja pior.
- Zummmmm! Zummmm! Ai, não batei, ai, Jesus! Ai, estupor!
- Quero ver andar a roubar as cerejas agora, 

Ao longe, meu pai ria com o êxito da empreitada.
- Obrigado, ó, Tinito! E levai uma cerejinhas pra ti. Olha que estão pintadinhas!

Assim fez a CBF. Através do "BID da suspensão" e do desmazelo na forma de lidar com os clubes, deixou Héverton liberado para jogar contra o Grêmio, para depois ela mesma denunciar. A traquinagem do meu pai, lá em Portugal, não tinha maldade alguma, mas não dá para dizer o mesmo sobre a entidade máxima do futebol nacional. E é isso o que ela terá que explicar ao Ministério Público.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os doutos donos da lei

Os doutos donos da lei se reuniram na manhã quente da Rua da Ajuda para decidir o fado do futebol brasileiro. Engravatados, os doutos donos da lei tinham o calor suavizado pelos equipamentos de ar-condicionado da sala do tribunal.

Assim, os doutos donos da lei colocaram-se acima do bem e do mal. Inatingíveis, desfilaram um rosário de termos complicados para quem, diferentemente deles, não é sábio, não tem o condão da lei sob o braço ou os pés.

Não os pés que chutam a bola. Estes calçam chuteiras coloridas (ou não), não sapatos de cromo alemão impecavelmente engraxados e, quiçá, nunca estiveram dentro de um kichute, cujo cadarço era amarrado nas canelas. Os pés em questão pisaram na bola.

Parte de um grupo de ungidos não pela Providência Divina, mas pelas benesses de um sistema feudal, os doutos donos da lei foram mais importantes que os 14 gols de um centroavante ou o tento marcado pelo goleiro, já nos acréscimos de um jogo praticamente perdido.

Os doutos donos da lei não julgaram, mas promoveram uma execução sumária. Sob o argumento roto de preservar as leis do jogo, modificaram o resultado aferido dentro de campo. O mesmo rigor não foi adotado com o fluminense (com caixa baixa mesmo) em 2010 ou com o Cruzeiro neste ano que finda em três dias.

Consideraram não haver prejuízo para a competição. Para outros, porém, foi aplicado o rigor da lei: Dura Lex, Sed Lex, disseram os doutos donos da lei. Só que o Dura Lex, Sed Lex não é Ad Aeternum. Depende da cara do freguês.



O comportamento dos doutos donos da lei foi assustador. Pareciam predadores em uma savana, babando diante da presa, à espera pelo momento de refestelarem-se. E assim foi feito o banquete.

O que os doutos donos da lei fizeram não foi manter a lisura da competição. Foi cobrir com lama o pior campeonato brasileiro de todos os tempos.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O dia do fico

Quando o STJD puniu a Portuguesa com a perda de quatro pontos por causa da suposta irregularidade na escalação do meia Héverton na última rodada do Brasileirão, eu perdi o tesão pelo futebol. Não por causa da punição, mas da forma.

Ficou a sensação de que, por mais que façamos, não será o suficiente para atender as demandas desse futebol/business, que muitos chamam de moderno. Não que eu considere importante a adequação lusa nesta mesquinharia na qual o futebol se transformou, mas o fato é que nossa simples presença incomoda.

Desde a noite da encenação que teve lugar na Rua da Ajuda, Rio de Janeiro, não assisti a absolutamente nada que fosse relacionado ao futebol. Liga dos Campeões, Mundial de Clubes ou qualquer coisa que ao menos lembre o esporte que Charles Miller trouxe ao Brasil.

Não me via mais naquilo. Não fazia sentido algum sair todos os dias para trabalhar, com raras folgas, para que, por causa da ação nefasta de um procurador qualquer, fosse deitado ao solo tudo o que fizemos durante um ano. 

Por conta disso, resolvi que largaria tudo, voltaria a estudar, faria meu mestrado e seria professor. Afinal de contas, o que eu perdi foi a fé no futebol, não no jornalismo, e como professor eu poderia ao menos passar aos meus alunos os meus valores. No futebol de hoje, caro leitor, há pouco espaço para a lisura e a decência.

Eis que neste sábado resolvi dar mais uma chance para mim mesmo e fui ao protesto organizado pela torcida da Portuguesa na Paulista. Vi tanta gente, com tantas camisas diferentes; vi o maestro João Carlos Martins, o Roberto Leal e, principalmente, gente como o Dr. Michel Muniz, lá da Lusa, e o Carlos Ferreira, que fizeram parte do grupo neste ano. 

Vi o amor e a gana dos torcedores da Portuguesa. Eles, diferentemente de mim, não haviam desistido. Em vez disso, resolveram lutar e mostrar para quem quer que seja que não será um tribunal, um procurador ou seja lá o que for que nos alijará do direito de defender nossa grandeza, essa grandeza forjada na luta, na lágrima, no sangue e no suor. Essa grandeza de verdade, que não é bancada por nenhuma emissora de TV ou estatal. 

Ora muito bem! Não será isso que me fará desistir de lutar pelo que acredito, qualquer que seja o resultado do recurso que será julgado no pleno do STJD na próxima sexta-feira. Ganhamos o direito de permanecer na elite dentro de campo e somente nele é que aceitamos discutir nosso fado. É nisso que eu acredito e é por isso que eu seguirei lutando.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A Lei de Gérson

Montagem feita pelos amigos do site Doentes Por Futebol
Vi torcedores do Tricolor do Rio comemorando na frente do STJD (fica na Rua da Ajuda, é bom que não se perca pelo nome) o resultado do julgamento de hoje como se fosse um título. Um deles, à Fox Sports, usava gravata e mostrava, orgulhoso, o dedo indicador, em alusão à primeira divisão que seu time acabara de ganhar de presente pela terceira vez. Outro, em primeiro plano, dizia que não tinha vergonha do que acontecera minutos antes do tribunal.

Riam feito hienas que acabaram de encontrar um cadáver fresquinho, pronto para ser consumido. São os mesmos que, há alguns dias, foram às ruas protestar por causa do aumento da condução, da corrupção e outras querelas diárias tão comuns neste país.

São os mesmos que bradam feito loucos quando um pênalti legítimo é marcado contra si, mas regozijam-se a cada lance ou armação ou tapetão a favor do seu time. Eis o limite entre o júbilo e a revolta. São os mesmos que, com este comportamento deplorável, fiam as maracutaias existentes em todos os níveis sociais. O "levar um por fora", o "quanto é que eu levo nisso", é inerente a esse tipo de gente.

Para não mostrar a cara dos imbecis que foram fazer troça na frente
do tribunal, publicamos uma foto de um lixão. Dá no mesmo.
Os abraços de felicidade, as lágrimas de alegria que foram derramadas pelos maus torcedores do Tricolor (três cores, uma para cada tapete) são o mais fiel retrato que há da sociedade nos dias que correm. Esta é uma geração praticamente perdida, que pouco ou nada tem para levar consigo como valor. Moral? Virtude? Perdoe-me a expressão, mas FODA-SE! Para ficar no jargão eternizado pelo craque (tricolor, diga-se) Gérson, o negócio é levar vantagem em tudo, certo?

No lugar deles, eu teria vergonha de vestir a camisa do meu time. Mas aí é questão de berço.