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terça-feira, 2 de maio de 2017

A ampulheta de Cristiano

Há uma espécie de ampulheta imaginária que é virada todos os anos. Ela marca o início do declínio de um dos jogadores mais absurdos, possivelmente o maior atleta do futebol, de todos os tempos. 

Sim, falo de Cristiano Ronaldo.

Após a temporada praticamente perfeita de 2016, quando venceu os dois troféus mais importantes do ano (a Liga dos Campeões pelo Real Madrid e a Eurocopa por Portugal), houve um declínio natural que, normalmente, sucede o ápice.

Este fato, combinado com a virada sobrenatural do Barcelona sobre o pouco respeitável time do PSG, na qual Neymar só não fez chover nos últimos oito minutos, fez os donos da ampulheta, mais uma vez, vaticinarem: é o começo do fim! Mais que isso, finalmente, chegou a vez de Neymar!

Mesmo que tenha sido por um jogo. Ok, um grande jogo, mas ainda assim um jogo, e contra um adversário de grandeza questionável. Estávamos apenas em fevereiro, mas já tínhamos o melhor do ano. Deve ser outra a ampulheta neste caso. 




E daí que Cristiano, com o passar do tempo, começa a mudar o posicionamento em campo? "Mas ele fez pouco mais de 30 gols na temporada".

Realmente, para os padrões de Ronaldo, 30 gols em uma temporada é pouco. Ele é o primeiro - e único, por ora - a romper os 50 gols em seis temporadas consecutivas. 

O prêmio de melhor do mundo tem suas peculiaridades, e desde que surgiram Cristiano e Messi pode ser resumido a Melhor da Dupla, e por mais que a pachecada de plantão esperneie, não haverá espaço para Neymar tão cedo, mesmo porque a Liga dos Campeões tem um peso absurdo (principalmente o mata-mata) e quem chega mais longe entre os dois coloca uma mão e meia na honraria. Para azar do craque brasileiro, se pensarmos na possibilidade de ser eleito, Messi está no seu time e Neymar precisará fazer chover para superar o argentino, o que, honestamente, não vejo ser possível simplesmente porque ele é muito melhor.

Nem deveríamos discutir isso.

Mas discutimos. E a ampulheta que contém a areia lusitana já estava mais cheia da metade para baixo. Neymar despachou o PSG e Cristiano se limitou a dar passes para gol contra o Napoli. Messi, por sua vez, que tinha feito 11 gols na fase de grupos da Liga dos Campeões, passou em branco nas oitavas e nas quartas, mas acabou com El Clasico e voltou a ser o melhor de todos os 
tempos. 

OITO MINUTOS Neymar foi o melhor do mundo
no fim do jogo com o PSG (Getty Images)
Há uma ampulheta relativamente mais apertada para o gênio argentino. De quebra, chegou a 500 gols só com a camisa blaugrana em uma partida que Neymar não jogou por estar suspenso de forma estúpida. Mesmo assim, os oito minutos de fantasia pura ainda lhe mantinham no topo de melhor-do-mundo-de-2017-ainda-estando-em-abril. 

Nos jogos contra a Juventus, Neymar e Messi não jogaram absolutamente nada, mas mantiveram-se intactos. O mesmo tratamento não teve o português pelo desempenho pífio no jogo com o Barcelona, mesmo que este valha menos, embora seja um dos maiores clássicos do mundo. A areia do portuga quase não era vista na parte de cima.

Mas da mesma forma que os 500 gols de Messi pesaram, Cristiano passar de 100 em competições europeias, depois chegar - e passar - a 100 só pela Liga dos Campeões e desandar a fazer gols decisivos (cinco dos seis contra o Bayern nas quartas de final e os três do primeiro jogo das semifinais contra o Atleti) também devolveram ao português o status de semideus (como se isso tivesse sido construído em apenas um jogo ou em uma temporada).

IMPARÁVEL Três gols e atuação de gala na
Liga dos Campeões (Getty Images)
Frases prontas como "o pior momento desde que chegou ao topo", "declínio físico aos 30 e poucos anos chegou" ou "só faz gol de pênalti" (mesmo sendo só 11, dos 103 na Champions, dessa forma) voltam para a gaveta, ou ao menos até a final da competição, quando sua ampulheta poderá ser zerada outra vez e estará acabado ou no topo do mundo.

Como em todos os anos. 
      

terça-feira, 31 de maio de 2016

Zizou e o reparo histórico

por Vinicius Carrilho*

SEGUNDA Zidane entra para o seleto grupo de campeões
 como jogador e treinador (Getty Images)
A vida é um eterno ciclo de erros e acertos. Por melhor que seja a intenção, todos nós, em algum momento, cometemos erros. Aliás, há quem acredite que durante toda a nossa existência, mais erramos do que acertamos e esta é uma regra vital que atinge a todos, dos gênios ou relés mortais.

Zinedine Zidane foi gênio em sua arte. Com uma elegância e simplicidade que só é possível ser executada com muita complexidade, o eterno camisa 5, digno da categoria de um 10, encantou o planeta com seu futebol durante mais de uma década. Merecedor de aplausos em grande parte do tempo, Zidane também errou e guardou o mais marcante deslize para aquele que seria, ao menos naquele instante, seu último grande ato no sagrado palco de grama verde.

TRISTE EPÍLOGO A despedida que ninguém queria (Peter Schols/AFP)
Em 09 de julho de 2006, um domingo, sua comum e encantadora genialidade deu lugar a um desconhecido e assustador gênio forte. Ao invés de mais um inacreditável lance de habilidade com os pés, aos 05 minutos do tempo extra da final da Copa do Mundo da Alemanha, diante da Itália, Zidane desferiu uma inimaginável cabeçada em Marco Materazzi. Houve justificativa para aquilo, assim como aconteceu um posterior pedido de perdão, mas naquele momento, em seu gran finale, Zidane saia de cena, no fechar das cortinas de sua carreira, sendo expulso do espetáculo. Logo ele, um gênio, que tanto acertou e que tantas vezes deve ter sido convidado para mostrar mais um pouco de sua arte, naquele momento era convidado a se retirar do seu habitat natural e por um erro exclusivamente seu.

É claro que aquele ato, completamente impensado pela mente que tantas vezes criou jogadas impensáveis, de forma alguma apagaria o que fez o francês ao longo de sua vitoriosa carreira. Porém, também é verdade que tudo o que foi feito não serviria de desculpa para excluir da história aquele erro. Além disso, o fato de ser aquele seu último grande ato, a última cena, o apagar das luzes, deixava a situação ainda mais triste e obscura.

Porém, o tempo, conhecido como o senhor da razão, haveria de agir e, com a calma que lhe é peculiar, cumpriu seu papel. Três mil seiscentos e sessenta e um dias depois, em território italiano, terra daquele que o levou ao maior erro de sua carreira, Zidane triunfava. Naquele sábado, 28 de maio de 2016, o francês não aparecia como a grande estrela da constelação, mas era o astro guia que comandava toda a órbita daquele Real Madrid, time que assumirá cinco meses antes, totalmente devastado pelo meteoro Rafa Benítez.

Na hora em que o pênalti batido por Cristiano Ronaldo ultrapassou a linha do gol defendido por Oblak, a história de Zidane se alterou, bem como a da França, nação pela qual ele errou, mas que também muito sorriu a suas custas. Ali, o país mais uma vez comemorava uma conquista ao ver seu primeiro técnico campeão da UEFA Champions League e ele era Zinedine Yazid Zidane, que também comemoraria no mesmo instante seu primeiro título como treinador.

Não, seu erro não foi apagado e, obviamente, jamais será. Mas, em sua biografia foi adicionada uma nova cena final, muito mais condizente com todo o restante da trama. O novo final, desta vez feliz, não foi uma alteração inescrupulosa de todo o enredo, mas sim um reparo histórico que Zidane merecia por tudo que fez. Ele, dono de uma elegância ímpar, não poderia, de forma alguma, ter em sua última cena um ato tão rude, típico dos brutos.


NO LUGAR CERTO Zidane recuperou um time recheado de craques, mas desacreditado
 e desmoralizado sob o comando de Rafa Benitez (AP)
Quando aquela bola passou a linha, o último ato de Zinedine Zidane deixou de ser uma agressão na final do maior campeonato do mundo e passou para uma conquista, desta vez como treinador, do maior campeonato de clubes do planeta. O futebol, meus caros, não é justo, mas seus deuses parecem ser. Ainda bem para nós, ainda bem para Zidane, ainda bem para a história.

* Vinicius Carrilho tem 24 anos, é jornalista, morador
de Osasco e gostaria de ganhar a vida fazendo
humor, mas escreve melhor do que conta piadas.