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terça-feira, 10 de setembro de 2024

PORTUGAL - Renovar ou garantir, mas e o futuro?

DUPLA INFERNAL Félix e Cristiano estiveram em grande (Profimedia)

A versão portuguesa pré-competições voltou a dar as caras em Lisboa, para os dois primeiros jogos da Liga da Nações. E nem parecia aquele time sonolento e previsível que conseguiu ficar três jogos sem ir às redes, com as poderosas Geórgia e Eslovênia a anteceder a França, quando finalmente os de Martinez deram luta e justificaram a fama. 

Se por um lado haverá quem diga que já viu este filme antes, com as 10 vitórias em outros tantos jogos na fase de classificação ao Euro, por outro, o nível dos adversários é melhor que as peras doces à catrefada que o sorteio indicara. 

Ao que tudo indica, tendo tido três oponentes relativamente acessíveis - Croácia, Escócia e Polônia -, o maior desafio ao selecionador será arrumar formas de testar soluções além das que já conhecia. Das novidades em relação aos 26 que estiveram na competição vencida há quase dois meses pela Espanha, Rui Silva, Pedro Gonçalves e Francisco Trincão retornaram ao lote de convocados, mas Tiago Santos (defesa direito do Lille), Renato Veiga (que joga a central e defesa esquerdo no Chelsea) e Geovany Quenda (extremo/avançado do Sporting) foram chamados pela primeira vez para a seleção principal.

Destes, apenas Pote teve direito a minutos - um, para ser exato - no jogo com a Croácia. A ideia, portanto, seria dar tempo de jogo aos novos internacionais, mas a dureza dos jogos impediu, segundo o mister, que experiências fossem realizadas, já que é importante garantir o apuramento aos quartos da competição para garantir, sem depender do posicionamento no ranking de seleções, uma vaga como cabeça de chave de um dos 12 grupos das eliminatórias da Copa do Mundo.

Este ponto faz levantar algumas questões? Com um lote alargado a 35 jogadores, por que Roberto Martinez confia nos mesmos? Trincão e Pote, que já mereceram um lugar na comitiva que foi ao Euro, não têm tido nível para as primeiras jornadas da Liga das Nações? Nem falo de Quenda, cuja expectativa era que pudesse derrubar a marca de mais jovem de sempre a defender as Quinas, honraria que pertence desde 1983, portanto há 40 anos, a Paulo Futre, mas seria bom ter um leque mais amplo.
 
Em campo, porém, alguns dos erros vistos na Alemanha não se repetiram, como a demora a reagir em condições adversas que fizeram com que resultados, como a vitória sobre a Chéquia, fosse arrancada a ferros. Nestes dois jogos que marcam o início do novo ciclo, Portugal fez um primeiro tempo de excelência com os croatas, que deverão ser, ao cabo, com quem discutirá a primeira colocação da chave. As dificuldades vistas nesta partida estão mais relacionadas às qualidades dos axadrezados que a alguma quebra de rendimento da turma lusitana.

O segundo jogo teve drama, reviravolta no fim e bons indicadores, embora fragilidades defensivas ainda sejam marca de Portugal, que terá que aprender a andar sem Pepe e procura seu substituto - por ora, Gonçalo Inácio parece estar à frente de António Silva, que tem demonstrado alguma insegurança "trazida", afinal, do mesmo estádio da Luz, e que será missão de Bruno Lage resolver neste retorno ao Benfica.

Sem Vitinha, em grande na estreia, dispensado por lesão, coube a João Palhinha ser o amálgama entre os setores, tendo recuado Bernardo Silva para auxiliá-lo na função. Na frente, Cristiano Ronaldo ficou no banco e Diogo Jota foi o jogador mais adiantado, ladeado por Rafael Leão e Pedro Neto, com Nelson Semedo a dar largura, ocupando a vaga que foi do mais acutilante Diogo Dalot. Como o gol escocês saiu muito cedo, o jogo acabou condicionado e os britânicos atuaram em bloco mais baixo ainda. Martinez recorreu no intervalo a um passador melhor - Ruben Neves - para render o mais garantidor de posse Palhinha e a produção ofensiva resultou no golo de empate, em chute longo do aniversariante Bruno Fernandes.

Steve Clark respondeu adiantando a marcação e, com maior imposição física, a Escócia cresceu na partida e teve uma mão cheia de jogadas perigosas e maior domínio territorial, o que só acabou quando João Neves, o pequeno gladiador do meio-de-campo português, foi lançado para o lugar de Bernardo Silva, muitos furos abaixo do habitual, e João Félix rendeu Rafael Leão para ter mais jogo pelo meio e mais espaço para Nuno Mendes fazer o que faz de melhor, que é atacar e aterrorizar defesas contrárias. A partir daí, o que se seguiu foi uma blitz que só não deu em gol antes porque o goleiro Gunn e os postes resolveram contrariar.

Já perto do fim, Cristiano iniciou a contagem regressiva para o milésimo golo. Ele, que tinha feito gosto ao pé no seu tento 900 frente aos croatas, repetiu a dose a dois minutos do fim ao completar, como no jogo anterior, um passe teleguiado de Nuno Mendes para definir, como de costume, a vitória portuguesa nesta, na prática, eliminatória para definir os oito que avançarão na disputa pelo título. Sem dramas ao ficar como suplente, Cristiano parece ter entendido, depois da malograda prestação no Euro, sua importância mesmo fora do onze inicial.

A ver se será assim nos jogos a doer mais à frente, como também fica no ar a utilização de mais jogadores que os habituais. Não que isso garanta alguma coisa, porque nada garante, mas afasta a frustração de ver bons jogos somente contra grandes seleções, invariavelmente nas partidas que marcam as eliminações. 

    

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

PORTUGAL - Novo ciclo, discurso antigo

QUEM DISSE? Ideias e práticas não têm andado juntas (Reuters)

Passados dois meses da decepcionante participação no Euro 24, o selecionador Roberto Martinez anunciou a convocatória para a jornada dupla pela Liga da Nações. Com alterações, ausências e novidades, saltam aos olhos dois que lá não estão se tivermos como parâmetro o discurso anterior à malograda competição de seleções: Toti Gomes e Ricardo Horta.

O defensor do Wolverhampton, que esteve em bom plano em alguns jogos durante a preparação, era, segundo palavras do treinador, o sexto na hierarquia de centrais (foram cinco os chamados para o torneio na Alemanha). Logo, era o primeiro na fila para a sucessão de Pepe, que se retirou. Já o jogador do Braga foi o único a merecer um telefonema selecionador para justificar sua ausência, segundo o próprio Martinez. Era, portanto, expectável que eles estivessem na calha para o início do novo ciclo, a exemplo dos sportinguistas Francisco Trincão e Pedro Gonçalves, o popular Pote, que só não estiveram entre os 26 da lista final porque se lesionaram e perderam o penúltimo estágio antes da definição dos que foram tentar o troféu conquistado em 2016.

É notável como as ideias do mister mudam ao sabor dos ventos. Samuel Soares, João Mario, Diogo Leite, Jota Silva e Bruma estiveram na lista de março e, segundo Martinez, era seguro que estariam no início do ciclo para o Mundial.

Estreando, temos as surpresas Renato Veiga (Chelsea), Tiago Santos (Lille), há muito reclamando um lugar, e a maior delas, o leonino Giovany Quenda, além do retorno do goleiro Rui Silva (Bétis). Por outro lado, saltaram da lista Pepe (aposentado), Gonçalo Ramos (lesionado e fora de ação por pelo menos quatro meses), Danilo, João Cancelo, Matheus Nunes, Francisco Conceição e Rui Patrício. Segundo Martinez, os que não tiveram minutos na pré-época por estarem em negociações para trocar de time não estariam no primeiro lote, como é o caso de Cancelo, Chico Conceição, Rui Patricio e Danilo. João Félix, que trocou o Atlético de Madrid pelo Chelsea, participou da pré-temporada colchonera, e em bom plano - até estreou com gol no retorno aos azuis -, por isso está lá.

Matheus Nunes, por sua vez, que só apanhou o comboio para a Alemanha já andando para substituir o machucado Otávio (que segue de fora pelo mesmo motivo), parece não gozar do prestígio do selecionador e parte em desvantagem justamente numa posição em que talentos não faltam, visto que Florentino (Benfica), Daniel Bragança (Sporting) e Tomás Händel (Vitória SC) reúnem argumentos para as próximas chamadas. Até Renato Sanches, se estiver em forma, conta com mais simpatia da parte do careca espanhol.

Portugal enfrentará a Croácia na próxima quinta-feira (5) e a Escócia no domingo seguinte (8), pelas rodadas iniciais do Grupo 1 da Liga das Nações A, ambos os jogos no Estádio da Luz. A Polônia completa a chave.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

PORTUGAL - São Diogo

*Originalmente publicado no Netlusa

Na noite em que faltou treinador e os veteranos quase
ruíram, sobroua sobrenatural atuação para expiar
 os pecados portugueses (Heiko Becker/Reuters)

Portugal orgulha-se de ser o país mais católico do mundo. Ao menos quando miúdo ouvi muitas vezes esta ideia. Os tempos podem ser outros, mas não haverá um português, seja em Portugal, na Alemanha ou em algures no mundo que não tenha acendido uma vela para São Diogo.

Mas nem era preciso tanto sofrimento. Se existiu um acerto da parte de Roberto Martinez, este foi a escalação. Depois das mal sucedidas e mal explicadas experiências com a Geórgia, Portugal foi a Frankfurt com o sistema com dois zagueiros, tendo Nuno Mendes e João Cancelo nas laterais; os incansáveis João Palhinha e Vitinha como trincos, tendo este a missão de ser amálgama para toda a equipa. Bruno Fernandes mais próximo da área e Bernardo Silva dando largura à direita para Cristiano Ronaldo e Rafael Leão, este sempre aberto do outro lado, completarem o onze inicial. 

Sem surpresas, pois.

Surpreendente, de fato, foi o espaço que Portugal encontrou no início acutilante, na melhor entrada da turma de Martinez nesta Eurocopa. Há quem diga que Portugal andava pendido à esquerda, mas as principais jogadas sempre iam ter pelos lados de Rafael Leão, que deu as caras na competição, e Nuno Mendes, um verdadeiro tormento. E o placar só não foi movimentado porque sempre faltava algo, fossem pernas para Bernardo Silva alcançar o passe de Bruno Fernandes ou Cristiano fazer jus ao bom nome de goleador que tem. 

Os cinquenta e poucos jogos que suas pernas levam na temporada parecem pesar, a ponto de lhe tirar explosão e tempo de bola, justamente as suas principais armas. Não tem sido raras as vezes em que o camisa 7 quase chega à bola. Foi assim contra a Geórgia, foi assim no Qatar, há um ano e meio.

Ainda não ter levado o pão à sopa tem trazido à tona o pior de Cristiano Ronaldo: a ansiedade. Contra a Eslovênia, aquele atacante associativo deu lugar à versão atabalhoada e mesquinha, que invariavelmente tomará a pior decisão, como na cobrança de falta praticamente sem ângulo nem cabimento, em que tentou mandar direto para o gol, como se lá estivesse um qualquer.

Como Portugal não marcou, a intensidade caiu e a Eslovênia conseguiu respirar um bocado e vez ou outra até criou problemas, ora com Sesko - perigoso avançado de 21 anos, que venceu alguns duelos com Pepe, o monumental defensor com quase o dobro da sua idade -, ora com Sporar, de quem a bola foi tirada uma par de vezes por um Nuno Mendes insinuante a apoiar e diligente a defender. 

A segunda metade da primeira etapa teve alguma calmaria, quebrada somente quando João Palhinha, novamente soberbo, acertou o poste de Oblak pouco antes do final da primeira parte. Não faltava muito para acertar para poder encaminhar uma classificação relativamente tranquila.

Mas o segundo tempo teve duas partes distintas: uma em que Portugal teve inventividade e a que não teve nada a partir dos 20 minutos, quando da inexplicável dupla mudança promovida por Roberto Martinez, que tirou seus dois melhores homens, Vitinha e Rafael Leão, e colocou Diogo Jota e Francisco Conceição. Bruno Fernandes foi recuado para terrenos mais baixos, quando o ideal seria aproximá-lo de Bernardo Silva; Leão, um verdadeiro tormento, um felino livre e faminto na Savana, deu lugar para Chico Conceição, numa troca de imposição pelo drible que não resultou. 

O tempo foi passando, o jogo ficou partido e os eslovenos só não conseguiram algo ainda no tempo normal pela sua inaptidão ao ataque e o inevitável nulo permaneceu até o fim do tempo regulamentar. 

Como estava, já não havia mais sentido coletivo algum em Portugal, que ficou dependendo dos seus valores individuais. E Diogo Jota disse presente quando rompeu com a bola entre os defensores e só parou quando foi derrubado na área: pênalti indiscutível e a grande chance de Cristiano finalmente marcar o seu e estabelecer o recorde que, mesmo dizendo o contrário, incomodará até que consiga, mas faltou-lhe a calma de costume e o chute, forte e à meia-altura, foi desviado por Oblak e encontrou seu poste esquerdo antes de sair. 

Se o veterano avançado falhou, o jogador com mais rodagem da Terra entre todos que já estiveram pelas andanças da Eurocopa, o monumental Pepe, foi tentar um passe em zona proibida e errou tudo: bola, chão e tempo de bola. E Sesko, 20 anos mais moço, ficou com o gol à sua frente, mas desperdiçou. Ou melhor, Diogo Costa, com o pé, operou o primeiro milagre da noite já a dois minutos do fim. Seria injusto Portugal cair por erros justamente de Pepe e de Cristiano.

Quando acabou o jogo, o capitão caiu. Trocou o chilique dos gols falhados por um choro que o fez tocar o chão dos mortais, posto que é humano. Daí surgiu Diogo Dalot, seu melhor - e talvez único - amigo na segunda passagem pelo Manchester United, e o consolou. 

Mas ainda faltava o fado, o drama, o palco perfeito para o surgimento de heróis e vilões. E santos. 

A canonização é possível quando dois milagres são comprovados. Faltava um. E este veio na forma de três pênaltis defendidos, mas não daqueles em que o goleiro escolhe um canto e seja o que Deus quiser. Foi buscar os três, a começar pela injustiça da perda nos pés de Ilicic, que venceu uma depressão e é um dos vencedores desta Euro. 

Cristiano, mais calmo, se redimiu com uma cobrança perfeita que, não o fosse, teria parado nas mãos do outro santo dos postes. Bruno Fernandes e Bernardo Silva também foram chamados e colocaram Portugal no comboio para Hamburgo, onde a França, também de prestações mininas até aqui, espera para mais um duelo entre os países que disputaram uma final e duas meias finais. 

O apuramento aos quartos teve todo o drama que toda a gente mais dada a emoções e histórias de superação mais gosta. Se resultar em um troféu ao alto no dia 14, lembrar-se ao dos campeões forjados com lágrimas, suor e sofrimento. Se não resultar, e isto sempre é o mais provável, perguntarão por que um jogo acessível se arrastou a ponto de extenuar toda a gente? Por que Vitinha, o melhor em campo, saiu? Por que Bernardo Silva fica fixo como extremo, se joga melhor quando se associa por mais partes do relvado? Por que colocar os objetivos de Cristiano Ronaldo acima da própria equipa? 

E será preciso mais, pois milagres não acontecem todos os dias.

(Getty Images)


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As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Se algum português estiver a escolher o nome do filho e não pensar em Diogo estará morto por dentro. E se for menina? Nomes compostos servem pra isso;
João Cancelo: Queira descobrir algum segredo cabeludo do mister para usar contra ele quando pensar em te tirar da lateral (Nelson Semedo: Tenho para mim que o Semedo sabe);
Rúben Dias: Estupendo, como sempre. Mas podia correr um bocadinho mais quando o Pepe deu aquela fífia;
Pepe: Os monumentos tombam, afinal (Rúben Neves: "Ó, mister, duvidas que eu dê um pontapé e meta a bola pra fora do estádio?" E foi assim que Rúben Neves entrou);
Nuno Mendes: Jogas tanto, mas tanto, que nem pareces jogador do PSG;
João Palhinha: Já que tens que marcar por todos, faça uma pergunta ao mister: "VAIS TIRAR O VITINHA? ÉS PARVO OU O QUÊ?";
Vitinha: Não erras um cara** de um passe e és tu que sais? (Diogo Jota: Não inventes mais de sofrer um pênalti quando o Cristiano estiver ansioso);
Bruno Fernandes: Já pensaste em colocar laxante no suco do mister? Ele jamais desconfiaria de ti; 
Bernardo Silva: Interessante, a ideia do mister ao te tirar da ponta direita, onde não rendes, e te passar para a esquerda, onde nunca jogas. Nem Jorge Jesus faria isso. Não hoje;
Cristiano Ronaldo: Que a humanização do seu choro e a humildade do pedido de desculpas te façam ver que podes não jogar sempre; 
Rafael Leão: Excelente estreia, Rafael Alexandre. Onde estiveste este tempo todo? (Francisco Conceição: "Eu? No lugar do Rafa? É isso mesmo?" Essas eram as únicas perguntas a serem feitas, pá, até ele cair em si);
Roberto Martinez: Não basta ter os ovos para fazer a omelete; tens que quebrá-los. Sim, é do Cristiano que estou falando.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

PORTUGAL - Vivendo e aprendendo a jogar

*Originalmente publicado no Netlusa

PESADELO Na noite em que nada resultou, Portugal sofreu sua primeira
derrota oficial com Roberto Martinez (Foto: Patrícia Melo Moreira/AFP)

Portugal tem motivos para reclamar na primeira derrota em jogos oficiais sob o comando de Roberto Martinez e que impede o registro limpo na primeira fase. Pode reclamar do pênalti não marcado sobre Cristiano Ronaldo quando o placar ainda apontava o 1-0 ofertado por um infeliz e deslocado António Silva; poderá reclamar do suíço que estava a dormir na cabine do VAR, enquanto o outro suíço estava a cochilar no relvado, a ponto de não ver o puxão que testou a elasticidade da belíssima camisola azulejada do capitão; poderá reclamar da monstruosa atuação de Mamardashvili, que já havia feito pela vida contra os turcos. Mas o maior motivo de reclamação deve ser endereçado às escolhas de Martinez, da abordagem ao jogo ao onze que escolheu. Ao cabo, os maiores responsáveis pela derrota terão sido o próprio selecionado e seu selecionador.

Martinez, que escolheu dar minutos a uns e descansar outros, voltou ao sistema com o trio de centrais, formado por Danilo, ao centro, ladeado pelos jovens António Silva e Gonçalo Inácio. Nas alas, Diogo Dalot e um estranho Pedro Neto dariam largura para que a dupla de Joões – Palhinha e Neves – tivesse algum espaço para avançar com a bola e levá-la a Francisco Conceição, enquanto Cristiano Ronaldo e João Félix teriam liberdade para trocar de lugar e criar alguma dificuldade para o sistema defensivo de Willy Sagnol.

Com menos de dois minutos, toda a gente se colocou no campo de ataque e António Silva carregou, carregou, carregou. Era um tanto cedo para essa desorganização. Mais fora de hora ainda para o passe errado, com desleixo, de quem esteve intimamente ligado também ao segundo tento, e que apanhou tudo fora do lugar e acabou com Kvaratskhelia a comemorar seu primeiro golo na prova do jeito que mais lhes apetecia: o roubo da bola em zona proibida, a descida em velocidade e a bola no pé do seu melhor jogador.

Fora de lugar. Se as escolhas da estreia foram justificadas pela expectativa de uma Chéquia que mudou a si própria para enganar Portugal – e conseguiu -, a falta de rotina numa defesa a três do jovem benfiquista novamente foi flagrante. Da mesma forma, Pedro Neto não tem as valências defensivas de Nuno Mendes e sua presença na ala era, é e será algo injustificável.

Também não se explica, a não ser pela possibilidade de deixar o capitão levar o pão à sopa e afastar a ansiedade que costumeiramente atrapalha e contamina toda a gente, a presença de Cristiano Ronaldo no time que começou o jogo, mesmo que Diogo Jota e Gonçalo Ramos tenham feito somente um treino.

Mesmo assim, Portugal ainda fez por onde merecer melhor sorte, sobretudo porque João Félix e Francisco Conceição estiveram à altura da missão, que talvez seria mais bem conseguida com Vítinha, melhor português da Euro, pudesse encher as medidas do campo como o fez nos outros dois jogos.

Haverá a reclamação pela grande penalidade sonegada pela arbitragem, e com o auxílio da vídeo arbitragem é ainda mais inaceitável que o lance tenha passado sem maiores consequências. Mas há que ser perguntar: i) por que escalar Pedro Neto em vez de João Cancelo?) por que diabos Dalot, se Nelson Semedo está em melhor forma e vai mais ao fundo? iii) por que João Palhinha, se era para sair ao intervalo para evitar um segundo cartão amarelo e a suspensão nos oitavos? e iv) por que voltar ao sistema em que toda a gente fica desconfortável e que nunca resultou?

Pelas características de quem estava em campo, faltou paciência e critério para furar o bloqueio com cinco ou até seis defensores. Como na estreia, havia gente para conduzir, não para passar a bola ou buscar um passe a rasgar entre os contrários. A essa altura, ao cabo da fase em que ainda era permitido perder sem maiores consequências diretas no apuramento, é preocupante tornar a ver os mesmos problemas da estreia.

Enquanto Portugal usou o jogo para poupar e dar a chance de Cristiano Ronaldo marcar um gol – o fantasma do dono do time que se coloca acima dos interesses do grupo sempre aparece quando as coisas não correm a contento -, a Geórgia ousou sonhar e, com seus dois craques a decidir, fez história e se classificou logo na sua primeira fase final de uma grande competição. Aqui, o sonho foi capaz de abrandar as terríveis falhas defensivas que fizeram do seu goleiro o melhor da posição na primeira fase.

Com a derrota, calhou-nos a Eslovênia, mesmo adversário de um dos amigáveis depois da fase de classificação. Na ocasião, Roberto Martinez convocou mais de 30 jogadores e os distribuiu em em três turmas, resultando numa equipe alternativa na primeira derrota de Portugal sob sua direção. Dali, tirou notas sobre como não jogar.

Que o desaire frente aos georgianos tenha servido ao menos para isso.

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As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Camisolas azuis e brancas, golos oferecidos. Parecia que estavas a defender o Porto;
António Silva: era preciso avisar que, no jogo entre malta de camisolas vermelhas e os de azul e branco, tu estavas com esses últimos? (Nelson Semedo: se a sua missão era ser melhor que o António Silva, já o farias se dissesse seu nome corretamente a quem eventualmente perguntasse);
Danilo Pereira: podias estar de férias, podias estar a pensar em como fazer para o timinho que tu defendes em França ganhar qualquer caralho além das fronteiras. Tu sabes que não estavas, Comendador?
Gonçalo Inácio: Ora viva! Tu foste o melhor dos três da defesa. Não era preciso muita coisa, que fique claro;
Diogo Dalot: quando o mister disser que tu precisas jogar como um avançado, será de bom tom dar com algo teso na cabeça dele. Se não for possível, queiras tropeçar na escada da saída do balneário. Não havia escadas? Então fica difícil, pá. Mais difícil que furar defesas a cinco, como a que vem aí;
João Palhinha: entre as perguntas que deverias fazer antes do jogo, a principal seria “Eh, pá! Vais mesmo me escalar sendo o único gajo a arriscar uma suspensão para o jogo a doer? Não que ia resultar, mas ficava o registo (Rúben Neves: o mister sabe que não és avançado?);
João Neves: Saudade do Florentino, né, meu filho? (Matheus Nunes: até o fim do Euro, será que consegues jogar um tempo completo? Já disseste ao mister que podes?);
Pedro Neto: Ó, miúdo, faz favor, anda cá. O mister disse que te escalou a ala porque já havias jogado assim no Wolverhampton. Por que caraças não disseste que não eras tu? (Diogo Jota: foste o único a entrar na posição certa. Aproveite essa predileção para, sei lá, fazer com que o Rafael Leão fique no banco caso Portugal passe pelos eslovenos);
Francisco Conceição: ao par de João Félix, teu melhor amigo, eras o mais inconformado com o que (não) aconteceu. Faça o favor de ser amigo de todos os outros também. E do mister;
Cristiano Ronaldo: Peça o quadro usado pelo Rafael Leão após a estreia e escrevas o seguinte, quanto baste: “Os interesses coletivos estão acima dos individuais”. Pela atenção, obrigado (Gonçalo Ramos: não jogas no Paris, não jogas na seleção nacional. Sabia que na Segunda Circular, em Lisboa, há um clube em que tu jogarias? Não, não é o Sporting, lá também não jogarias);
João Félix: se este jogo serviu pra algo, foi pra mostrar que há vida no gajo que não quer ser um flop. Depende mais de ti que dos outros;
Roberto Martinez: cantas A Portuguesa e és teimoso feito um cavalo. Para ser um português completo, falta gritar ao Ronaldo: “Ó, pá, pro caralho com os recordes! Foda-se! Vê-se que não falta muito.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

PORTUGAL - O altruísmo, a sorte e o domínio absoluto

 Texto originalmente publicado no Netlusa

CASA PORTUGUESA A alegria está na riqueza de dar e
ficar contente (Federação Portuguesa de Futebol)
 

Já está! O primeiro dos objetivos de Portugal no Euro foi atingido já na segunda jornada do Grupo F, com a vitória por um insuspeito 3 a 0 contra uma tão perigosa quanto inocente Turquia.

Se a passividade vista na estreia ligava as luzes de alerta, a concentração para não cair na esparrela das respostas fáceis notou-se quando o onze de Portugal foi anunciado. Por muito menos, revoluções já foram promovidas depois de uma partida mal conseguida, mas a atuação cinzenta em Leipzig esteve mais ligada à abordagem ao jogo do que problemas técnicos ou exibicionais. Roberto Martinez trocou somente Diogo Dalot por João Palhinha, que era o que o jogo com os turcos, ricos de talento no setor de criação, exigia.

Assim, o trio de centrais que se esfumaçou às condições com o tchecos não retornou sequer em eventuais descidas de Palhinha ou encaixes de Nuno Mendes. Pelo contrário, uma clara e sólida linha de quatro defensores foi formada com João Cancelo e Nuno Mendes nas laterais e os habituais Pepe e Rubén Dias ao centro.

À frente, eram protegidos pelo médio-centro-limpa-trilhos que deve deixar o Fulham e pelo multifuncional Vitinha, novamente soberbo em campo. Livre das amarras da cabeça-de-área; o ataque, também municiado por Bruno Fernandes, se manteve com o trio da estreia: Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.

Diversos comentadores pediam Palhinha, mas queriam que Bernardo e Leão dessem lugar a Chico Conceição e Diogo Jota, como se as condições da primeira partida se repetissem. Não existem jogos iguais e as características do jogo da Turquia indicava dificuldades – e oportunidades – diferentes. Se os tchecos eram praticamente herméticos e mal se aventuravam no ataque, os turcos podiam até ter jogadores de qualidade inquestionável, mas nunca foi um time confiável defensivamente – já o mostrara na estreia.

Do lado turco, o italiano Vincenzo Montella poupou o ótimo Arda Guler, apoquentado por problemas físicos, mas ainda assim havia quem espalhasse perfume no Signal Iduna Park, casa do Borussia Dortmund e da temida Muralha Amarela, tingida de vermelho e branco numa proporção 4x1 em que as vozes portuguesas mal eram ouvidas.

Com Kökçü, Çalhanoglu e Aktürkoglu capazes de causar problemas, a presença de Palhinha foi essencial para impedir que a bola chegasse aos pés de Yilmaz, bem vigiado pelos centrais. Pepe, a cada lance, dava uma aula de vitalidade, posicionamento e liderança em campo. O lance, já no segundo tempo, em que desarma um abusado Arda Guler, como a dizer “tens muito o que aprender, miúdo, fez levantar o estádio em reverência à lenda brasileira que chegou a Portugal e teve que optar entre comprar uma sandes ou ligar para a mãe.

Na frente, Rafael Leão se aproveitava da companhia de Nuno Mendes para causar dores de cabeça a Çelik. O primeiro gol português nasce de uma jogada deles, em que o lateral do PSG foi ao fundo e procurou Cristiano Ronaldo, mas o desvio no pé de Kökçü levou a bola a Bernardo Silva, que bateu com gosto, com curva, com a alegria de quem marcou seu primeiro gol em fases finais de competições.

Lembram-se da sorte da estreia? João Cancelo roubou a bola no meio e deu um passe completamente disparatado para Cristiano, que desatou a ralhar. A câmera fechou no lateral e só abriu depois de que o sorriso repentino do português denunciou a trapalhada de Akaydin, que desrespeitou um dos princípios básicos do jogo: não se deve atrasar a bola ao goleiro na direção do gol. Mais que isso, recuou no contrapé, e um eventual mal-estar acabou na comemoração do insólito gol que basicamente definiu o jogo ainda antes dos 30 minutos.

A partir daí, Portugal empilhou chances de ampliar, mas viu Rafael Leão simular uma falta e receber o segundo cartão amarelo na prova, e pelo mesmo motivo. Palhinha, um dos responsáveis pela exibição em grande de toda a equipe, também foi advertido e, para não correr o risco de recolocar a Turquia no jogo, Roberto Martinez deixou ambos no balneário e voltou para a segunda parte com Pedro Neto e Rúben Neves. Havia quem esperasse Diogo Jota ou mesmo Francisco Conceição, mas o treinador quis manter o sistema com um jogador que abrisse o jogo e desse espaço para o jogo interior de Nuno Mendes, que pode ter feito sua melhor partida pela equipa nacional.

Com os turcos entregues, exceto por um ou outro fogachinho no ataque, Portugal usou o segundo tempo para gerir a partida. Logo no décimo minuto, um lance que pode marcar uma nova era: antes, a paciente troca de passes de um lado para outro do campo com o objetivo de criar espaços e desorganizações defensivas, com Nuno Mendes a buscar Bernardo Silva e este a acionar Rúben Neves, o homem dos passes teleguiados, que encontrou Cristiano Ronaldo livre, somente com o goleiro Bayindir para tentar evitar que escrevesse seu nome pela sexta vez na lista de goleadores em que já é o líder com folga, mas Bruno Fernandes estava livre ao seu lado para receber o passe do solidário CR7.

A partir daí, a missão portuguesa passou a ser fazer de Cristiano um dos goleadores do dia, ao passo que aos turcos coube tentar evitar. Assim, o jogo perdeu algum fulgor, mas serviu para demonstrar que Pepe, aos 41 anos, é um dos melhores zagueiros do mundo e que o Porto cometerá um erro terrível se não prolongar por mais um ano o vínculo com este monumento de jogador.

Com seis pontos e a liderança do Grupo F garantida, Roberto Martinez deverá usar o jogo com a Geórgia para dar minutos a quem não teve e descansar algumas pernas. É mister, porém, notar que entre o jogo de ontem e as oitavas, vão nove dias, tempo suficiente para perder ritmo de jogo. Uma revolução no onze é perigosa, pois.

O adversário dos oitavos-de-finais será um dos terceiros colocados dos grupos A, B ou C, e só o saberemos ao final da primeira fase.

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As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Foi tão bem com os pés que usou um deles para defender a única investida no alvo dos turcos;
João Cancelo: Mais uma atuação dessas e é capaz de o Guardiola pedir desculpas e chamar de volta. Façamos votos para que estejas assim até 15 de julho (Nelson Semedo: façamos assim: o Cancelo joga 60 e tu, os outros 30. E todos ficam felizes pra caraças);
Rúben Dias: “Eu é que não vou perder a vaga para este miúdo do Sporting”, terá pensado o Rúben. Segue assim, ao mais alto nível, e é capaz de seres o capitão quando o Cristiano se retirar, depois de ser o primeiro acima de 50 anos a jogar a fase final de uma grande competição;
Pepe: Foi visto no vestiário adversário devolvendo os 16 turcos que estavam no bolso ao fim do jogo porque eles ainda jogam com os tchecos (António Silva: Poderá dizer aos netos que substituiu o maior zagueiro da história do futebol português);
Nuno Mendes: O Nuno Alexandre Tavares Mendes é o único Nuno Tavares do mundo que sabe jogar como lateral. E dos bons. E se precisar, ainda é um extremo bem porreiro;
Bruno Fernandes: Não sendo brilhante, esteve ligado ao segundo gol e marcou o terceiro porque estava disponível para receber a prenda do Cristiano;
João Palhinha: Tivesse jogado além do primeiro tempo, teria sido o melhor em campo. Um polvo a esticar os tentáculos por todo o campo – ou algures havia algum turco mal-intencionado com a bola e chance de causar estragos. Quanto não esteve para cobrir, fez a falta tática perfeita que resultou no cartão amarelo (Rúben Neves: Desculpa lá pelas vezes em que disse que a falta de competitividade do Arabão deveria contar para não ser chamado. A capacidade do passe teleguiado não se perde);
Vitinha: Procure um jogador melhor que o Vitinha na Eurocopa e falhe miseravelmente (João Neves: Cinco minutos hoje, seis no próximo jogo, até a final, com alguma sorte, jogas uns 10 minutinhos;
Bernardo Silva: Já prometa ao João Cancelo que, se continuarem assim juntos, voltarás com ele para Manchester. Duvido que o mister Guardiola se oponha;
Cristiano Ronaldo: Este camisola 7 não lembra vagamente aquele outro camisola 7 que só encheu o saco no Qatar? Gostamos mais deste, que fique claro;
Rafael Leão: Já que não vais acertar o passe depois do drible mesmo, que bom que o mister meteu ao seu pé o Nuno Mendes para fazer a parte mais difícil. Mudando de assunto, tens andado a tomar dicas com o Taremi? Que mania do caraças essa de se jogar, pá (Pedro Neto: entrou para manter o desenho tático e a capacidade de errar os passes. Cumpriu à risca);
Roberto Martinez: Se ele se aprofundar na cultura portuguesa, já terá aprendido alguns clássicos, como Casa Portuguesa, que poderá ter cantado que "essa franqueza fica bem e o povo nunca desmente que a alegria da pobreza está na riqueza de dar e ficar contente", quando Cristiano ofertou o golo quase certo a Bruno Fernandes. Espero que ele saiba a Caninha Verde e não caia numa esparrela, caso pense em trocar toda a malta para o próximo jogo. Seja como for, temos um técnico.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

PORTUGAL - O vira à espanhola da tocata de Martinez

Texto originalmente publicado no Netlusa

No encontro entre dois times que não jogaram como sabem,
venceu quem tentou vencer e, ao cabo, teve mais
sorte (Foto: 
Lisi Niesner/UEFA/Getty Images)

Johann Sebastian Bach é um dos grandes gênios da música universal. Nasceu em Leipzig e uma de suas obras mais consagradas é a Tocata e Fuga em Ré Maior. Roberto Martinez, por sua vez, é espanhol. Não sei se é um fã do maestro alemão, mas já deve ter ouvido alguma tocata portuguesa com suas concertinas, bumbo, reco-recos e cavaquinhos – a castanhola é opcional.

A concertina é o principal instrumento das tocatas dos ranchos folclóricos portugueses. Quanto aos demais, é prudente que o gajo que toca o cavaquinho saiba tocar o cavaquinho, como ao senhor responsável pelo bumbo pede-se a perícia necessária para não atravessar o ritmo.

Mas que raio tem a ver isso aí com o jogo de Portugal? Ora, tudo! Basta ver como a equipe entrou em campo e perceber que, se se tratasse do conjunto que acompanha os dançarinos, os instrumentos estariam trocados. 

Prevendo uma linha de marcação capaz de pressionar a saída de bola lusa com Schick, Kuchta, Souček e Provod, Martinez escalou Portugal com três zagueiros e quatro (ou cinco) no meio e três (ou dois) no ataque. A surpresa era a presença de Nuno Mendes jogando terceiro central, pela esquerda. Assim, João Cancelo faria a ala de mesmo lado, com Diogo Dalot na direita, o que não é novidade. Quem dançou foi João Palhinha, de grande imposição física, para que Vitinha fizesse a saída de bola atrás dos marcadores.

“Jogadores mais técnicos para romper essa primeira barreira”, deve ter pensado o espanhol. 

Com a bola, Nuno Mendes avançava como lateral e Cancelo tinha liberdade para vadiar pelo meio e Portugal passava a jogar num 4-3-3 para explorar os espaços que surgiriam depois que fosse superada a primeira linha de marcação. O problema é que a República Tcheca surpreendeu, chegando a ter até seis jogadores alinhados à frente da sua área, com os outros quatro mal cruzando a linha de meio-campo, e os atacantes Kuchta e Schick só sendo assim chamados na ficha do jogo.

Vocês já devem ter visto o episódio do Pica-pau envelhecido e amassando o bico quando tentava passar uma árvore. Foi a representação perfeita de Portugal no primeiro tempo: tentava o passe em profundidade e a bola batia e voltava, muito em função de o jogo pedir o passe a rasgar para um dos da frente receber em diagonal, mas o que havia era um excesso de carregadores de bola e avançados com pouca movimentação. Vitinha desfilava, Cristiano saia da área e buscava associações e o acerto do último quase não acontecia. O melhor passador, Bruno Fernandes, estava encaixotado pela marcação e a falta de movimentação dos gajos frente não ajudava em nada.

Para piorar, a segunda bola na defesa nos poucos momentos em que os tchecos afastaram o rabo da sua linha de fundo era deles. E foi assim que saiu o gol tcheco, no início do segundo tempo: dois cruzamentos seguidos, sete dos de vermelho na área e ninguém para impedir que Provod pegasse sozinho para inaugurar o placar.

Imediatamente, Rafael Leão – que ganhava todas as jogadas e as desperdiçava, uma a uma – e Diogo Dalot foram trocados por Diogo Jota e Gonçalo Inácio, respectivamente. Portugal assumia de vez o 3-5-2, mas sem improvisações e com laterais capazes de chegar ao fundo. E o empate veio com uma boa dose de: Bernardo Silva recuou as soberbo Vitinha, que cruzou no segundo pau, onde fechava Nuno Mendes. Stanek espalmou para a frente e encontrou a perna de um infeliz Hranác - que voltaria a estar ligado ao infortúnio dos seus. E foi justamente a tempo de impedir que uma pressão maior pesasse sobre Portugal, que seguiu criando pouco e, com o tempo, com o cansaço acusando.

Não sei se Roberto Martinez confia muito nos titulares e pouco nos suplentes que ele mesmo escolheu, mas a demora a voltar a trocar jogadores por mais frescura nas pernas teria feito inveja a Fernando Santos em seus dias mais, digamos, sonolentos. Só no minuto 90 é que atirou os seus à frente. Um pouquinho antes, em nova jogada pela direita, o penúltimo dos 29 cruzamento encontrou a cabeça de Cristiano Ronaldo, que atirou ao poste e sorriu ao ver Diogo Jota carregar a recarga também de cabeça para o gol, anulado por meio peito de CR7 à frente.

Quando tudo parecia definido e nos preparávamos a voltar ao velho hábito de sacar a calculadora à algibeira – ou a caneta à orelha -, a sorte decidiu soprar a careca de Martinez novamente: Pedro Neto e Francisco Conceição, o “espalha brasas”, mal haviam entrado e decidiram o jogo na única intervenção de ambos. O extremo do Wolverhampton ganhou a dividida pela esquerda, tal como Leão teria feito, mas passou tenso para área, onde haveria um desvio, como Leão não teria conseguido fazer. Hranác se enrolou todo com a bola e ela ficou às ordens do portista, que encheu o pé e carregou Sérgio Conceição para o grupo em que somente os italianos Enrico (o pai) e Federico Chiesa (o filho) estavam: o de marcadores na Eurocopa sendo pai e filho.

No próximo sábado, dificilmente a Turquia dará tanto campo a Portugal. Também não é razoável pensar que Vitinha será suficiente para segurar Çalhanoğlu, Kökçü e Arda Guler, ainda mais com tantos turcos a viverem na Alemanha, suficientes para transformar o Signal Iduna Park em uma sucursal do inferno para alguém que se demonstrou incapaz de reagir às adversidades tão logo apareceram.

Que a tocata de Martinez esteja ensaiada e com cada gajo com o instrumento de costume.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: apanhou uma chuva do caraças à toa. Espero que tenha tomado um bagaço após o jogo. Ajuda? Claro que não, mas nunca se deve dispensar um bagaço;
Rúben Dias: de tanto esperar algo acontecer ao pé de si, foi ter do outro lado para poder justificar os minutos em campo. Calma, pá! Contra a Turquia terás trabalho;
Pepe: é sério que o Villas-Boas dispensou o Pepe e mandou voltar o David Carmo? Olha, se quiser jogar na Lusa até os 50 anos, faço questão de buscar o gajo em Cumbica;
Nuno Mendes: convém lembrar ao mister que cinco centrais foram convocados e tu não és um deles, SFF (Pedro Neto: podes mostrar ao Rafael Leão como dar continuidade sem estragar a jogada?);
Diogo Dalot: quando fores dormir, ó, José Diogo, poderias pegar uns auriculares para fixar o mantra "posso tabelar e chegar ao fundo"? (Gonçalo Inácio: onde estavas durante a semana, que o mister escolheu outro? Faça assim, sente-se ao lado dele, ande ao pé do careca e ele não se esquecerá que tu és o gajo para jogar pela esquerda);
Vitinha: o gajo de Santo Tirso não sabe jogar mal (Francisco Conceição: primeiro toque na bola na sua primeira Euro para espalhar brasas e salvar a pele do professor Martinez em seu momento Roger Schmidt);
Bruno Fernandes: "Como é, pá? Algum puto vai se movimentar ou querem a pelota ao colo, car***? F***"", terá dito o senhor Bruno Miguel quando tentou, sem sucesso, achar alguém para um passe dos seus";
João Cancelo: dizem que o mister ficou admirado quando descobriu que o João Cancelo também pode jogar, e bem, pela ala direita (Nélson Semedo: entrou para poder participar da comemoração do gol da vitória como reconhecimento por não ter reclamado que deveria ter entrado mais cedo);
Bernardo Silva: é importante explicar ao mister que o fato de teres "e Silva" em seu nome não significa que és mais que um, então jogar sozinho na ponta não deve resultar, como nunca resulta;
Cristiano Ronaldo: interessante essa tática de bater um recorde por vez: primeiro, jogar em seis edições; depois, marcar em seis edições. Era bom já ser com os turcos, pá; 
Rafael Leão: que seja providenciada uma lousa na concentração para que o Rafael Alexandre escreva cinquenta vezes "Devo olhar antes de passar a bola e buscar algum gajo com uma camisola igual à minha" (Diogo Jota: o tipo de atuação em que bastava acertar o nome de um companheiro para faze mais que o que saiu);
Roberto Martinez: experimente perguntar à malta em que posição eles jogam antes do treino, SFF. 

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PORTUGAL - A melhor versão é a de sempre: a que tem Ronaldo


UM DIA COMO OUTROS QUALQUER Em Aveiro, aquele que tem Aveiro
no nome fez história outra vez e sepultou as dúvidas
sobre seu papel no Euro (Foto: Gualter Fatia)

"Cristiano Ronaldo atingiu uma marca histórica…” Esta crônica começa como tantas outras desde que o maior artilheiro do futebol de seleções de todos os tempos colocou na cabeça que não anda atrás dos recordes, são estes que o perseguem. Contra a República da Irlanda, contra quem já havia eternizado seu nome como o maior artilheiro de equipes nacionais nas eliminatórias para a Copa de 2022, o capitão chegou a incríveis e inimagináveis 130 gols com a camisa das Quinas, além de ser o primeiro da história, segundo informou o ótimo Leonardo Bertozzi durante a transmissão, pela ESPN, a marcar em 21 temporadas seguidas em jogos de selecionados nacionais.

Não é pouca coisa. Como também não será pequeno aquilo que ele deverá alcançar, de hoje a oito, quando Portugal estrear na competição, contra a Chéquia, caso nada fora do normal ocorrer até lá: estar em campo em seis edições. Não só não é para qualquer um, como ele será o único até então.

Se havia alguma dúvida sobre ele estar no onze inicial, esta dissipou-se no belíssimo e praticamente inútil Estádio Municipal de Aveiro, cujo costumeiro mandante anda a rastejar-se no quarto escalão do futebol nacional. E não foi o CR7 de costume, também porque o jogo pedia que não o fosse.

Roberto Martinez trouxe preocupações por causa da permeabilidade que a defesa apresentou nos últimos quatro jogos, contra Suécia, Eslovênia, Finlândia e Croácia. Por isso, e porque tinha Pepe de volta ao menos por meio tempo, armou o time com um trio defensivo de raíz, com o monumental zagueiro ladeado à direita por António Silva e à esquerda por Gonçalo Inácio, numa inusitada mistura de Benfica, Porto e Sporting, pelo menos enquanto por lá estiverem.

Em vez de Palhinha, João Neves na vértice mais recuado do losango, tendo à frente Bruno Fernandes e, nas alas, Diogo Dalot e João Cancelo, com papéis diferentes em cada lado do campo: o primeiro a abrir e a buscar combinações com Bruno Fernandes e o outro, centralizando para Rafael Leão atacar os adversários como se estivesse a correr numa savana. João Félix e Cristiano, sem posicionamento fixo, tinham liberdade para tentar combinações, com a diferença do (bem) mais jovem ser imbuído de obrigações defensivas para atrasar um bocado a saída de bola irlandesa.

É o ônus de ter Cristiano na equipe: não haverá pressão para tentar retomar a bola o mais perto possível do gol adversário. Por outro lado, Portugal com Cristiano tem o que mais ninguém tem ou teve: o próprio Cristiano. E o melhor: numa versão mais solidária, jogando para o time, não tentando resolver sozinho. E nem poderia ser assim, com tantos pés pensantes juntos.

Félix, que havia roçado a inutilidade contra os croatas, fez um grande primeiro tempo e foi premiado com um belíssimo gol segundos depois de ter visto um, também muito bonito, negado pelo goleiraço do Liverpool, Kelleher, depois de boa trama que envolveu Dalot e Ronaldo, que parou na trave em cobrança de falta que desviou na barreira, além de reclamar um pênalti não marcado.

A segunda etapa chegou com mudanças (Dalot e Cancelo por Semedo e Nuno Mendes, Pepe por Danilo, João Félix por Rúben Neves e Rafael Leão por Diogo Jota). A presença de Rúben Neves fez com que o outro Neves tivesse companhia no papel de marcador no meio e acabou com o fogo que vez ou outra aparecia pelo lado dos bebedores de cerveja e liberou Bruno Fernandes, o que faria com que qualquer time do mundo ficasse mais forte.

As férias fizeram bem a Rúben Neves, que deu um passe teleguiado de 30 metros (com margem de erro de cinco metros, para mais ou menos, que seja) para Ronaldo tirar um defensor cujo nome eu não sei duvido que ele saiba depois do que se passou e atirar com efeito, no ângulo e de esquerda, numa obra de arte que faz por merecer estar entre os cinco mais bonitos dos 129 até então. Este número durou por 10 minutos, quando Diogo Jota tirou a bola de um contrário com uma facilidade constrangedora e deu de trivela para o 130, também de esquerda.

Mesmo com muitos reparos a serem feitos na defesa, sobretudo na saída de bola, cujos erros podem ser fatais contra equipes não tão mansinhas no ataque como a Irlanda, é provável que Roberto Martinez tenha encontrado a melhor formação na volta do balneário. Aí, não se trata dos nomes, e sim do papel que cada um desempenhará, principalmente um certo senhor que, mesmo praticando um futebol altruísta muito raro para os seus padrões, não deixou o faro de gol na Arábia.

***
As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: podia ter aproveitado a noite para assar umas castanhas ou defumar um chouriço. Ou então gritar para alguns cabrões pararem de errar passes no campo de defesa;
António Silva: está até mais fortinho, o gajo. Ouvi dizer que ganhou oito quilos de músculos. Só falta jogar sem essa cara de criança para poder assustar os contrários. Podia pedir umas dicas ao Pepe;
Pepe: quando não anda às cacetadas, é um monumento de jogador, mesmo jogando com medo de se machucar. Nessa idade é difícil, eu sei (Danilo Pereira: espero que essas atuações bisonhas sejam para que o mister ocupe a cabeça com problemas mais difíceis de resolver, como o Rafael Leão aprender a passar a bola ou o Gonçalo Inácio não atravessar a bola na frente da própria área quando por lá estiverem alguns gajos com camisolas diferentes das dele);
Gonçalo Inácio: uma ou outra rateada na primeira parte. Impecável na segunda, quando os irlandeses pararam de atacar;
Diogo Dalot: nota-se a alegria de quem não precisará voltar para Manchester nos próximos dias. Que isso ajude a esticar a estada na Alemanha até o dia 14 do mês que vem (Nelson Semedo: até lembra aquele gajo que apareceu no Benfica e depois não jogou em sótio nenhum. Qual era o nome mesmo? Nelson? Isso, esse mesmo);
João Neves: querido João, faça o favor de não mostrar este futebol soberbo na Eurocopa, ou acontecerá a ti o que ocorreu ao Renato Sanches. Não, não falo da carreira deitada fora pelas lesões, e sim de uma transferência que faria o Benfica gastar todo o dinheiro com jogadores que não precisa (Matheus Nunes: entrou para desenferrujar um bocadinho a mais, já que o Guardiola usa pouco);
Bruno Fernandes: o gajo não joga mal nem se tentar; 
João Félix: ora veja! Um grande jogo do Joãozinho! Como todos em que não era preciso ajudar na marcação. Pena que na Euro não haverá partidas assim a partir dos oitavos (Rúben Neves: disseram que não deveria ser convocado por jogar contra camelos mancos. Ele, com o orgulho de quem foi o capitão mais jovem da história do Porto, resolveu mostrar que também pode jogar contra irlandeses, o que é praticamente a mesma coisa);
João Cancelo: quando estiveres à esquerda, cochiche ao Rafael Leão que é aconselhável olhar para onde quer meter a bola antes de tentar fazê-lo (Nuno Mendes: mais um jogo em grande, mais um jogo sem sair lesionado. Como faz bem ficar longe dos preparadores físicos do PSG);
Cristiano Ronaldo: associativo e solidário. Nem parecia aquele gajo que deitou tudo a perder em 2022 porque Fernando Santos estragou seus planos de mostrar a língua ao Ten Hag. Viu como é possível jogar pela equipa e marcar golos?
Rafael Leão: é o Sandoval Quaresma português: faz tudo certinho até chegar ao momento do 10. Depois é o que se viu. Resolveria olhar antes de passar a bola (Diogo Jota: se vais convencer o mister que deves ser o titular, que sigas a fazer isso durante a competição).
Roberto Martinez: já que a versão avassaladora voltou das eliminatórias voltou, fica a pergunta: e nos jogos contra os que não são fraquinhos? Na Euro, para a primeira fase - e contra os ingleses -, o que temos visto, dá.