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sábado, 4 de março de 2023

PORTUGUESA - As contas e o rosário

Em cima da minha mesa de trabalho eu tenho um Galo de Barcelos, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e um terço de madeira. No telemóvel ou no micro, posso usar a calculadora, isso se eu não pegar a caneta que ora repousa sobre minha orelha. Papeis, aos montes, espalhados à mesa. O galo, coitado, está todo remendado. A senhorinha da limpeza o derrubou. Mas se em Barcelos o bicho cantou quando estava assado, não será uma queda que o aplacará. 

Uma não. Algumas, na verdade. Também por minha culpa, mas ele segue aqui, firme, forte e remendado. 

Sou um profissional híbrido, daqueles que não dispensam papel, caneta e bagunça. E café, já que não posso beber em e no serviço. Se a Portuguesa me obriga a beber, mas eu não posso, ela faz com que eu faça contas e reze. Reze e faça contas. E beba café. E me lembre da última rodada do Campeonato Brasileiro de 1996. 

Após cinco vitórias seguidas, entre as rodadas 16 e 20, a Lusa chegou à última das 23 jornadas com duas derrotas na lomba, uma delas por 4 a 0 para o Coritiba. Como desgraça pouca é bobagem, iria jogar com o Botafogo, então campeão nacional, no Couto Pereira porque havíamos perdido mandos de campo por causa de uma confusão na oitava rodada. Sim, oitava rodada. 

Tinha que vencer e torcer por uma combinação improvável: tendo despencado ao 11º lugar – classificavam oito –, com 33 pontos, tinha que ganhar do Botafogo e secar três dos quatro adversários por uma das duas vagas restantes, pois do Grêmio, o sexto, para cima, todos estavam garantidos: Inter (35), que enfrentaria o rebaixado Bragantino; Sport (35), que visitaria o classificado Palmeiras; Goiás (34), que tinha pela frente um Grêmio nada preocupado com a Hora do Brasil e podendo sacanear o rival; e o São Paulo (34), que jogaria fora de casa contra um Paraná Clube sem nada mais para fazer.

Bom, todos sabem no que deu e nosso pão caiu com a manteiga virada para cima.

Naquele ano, brigamos pela vaga, que veio. Quase 30 anos depois, vencer é uma questão de sobrevivência e a missão, teoricamente, é menos complicada. Com sete pontos, a Lusa pode chegar a dez, mas não alcança a Inter de Limeira, que tem a tal dezena de pontos, mas duas vitórias a mais. Nosso negócio é com São Bento, Ituano e Ferroviária. 

Na ordem: os de Sorocaba, com 10, recebem o Bragantino, que já está classificado, mas precisa pelo menos empatar para terminar em primeiro sua chave. Aqui, a Lusa precisa torcer pela derrota do Bentão e tirar a diferença do saldo de gols (-6 a -3); o Ituano, que tem nove pontos e um saldo de gols de -10, joga em casa com o Santos, que está precisado de fazer ao menos um ponto a mais que o Botafogo; e a Ferroviária, que tem oito pontos, joga com a Inter, que joga pelo empate para se garantir. Aqui, basta os de Araraquara não ganharem.

Os três concorrentes jogam em casa e somente um destes resultados pode ser ruim para nós. Se dois deles fizerem sua parte, um abraço!

Ah, sim. Vem o mais difícil, que é a Portuguesa desfalcada vencer o descompromissado Mirassol no Interior. No inacreditável rebaixamento de 2012, o empate bastava na última rodada, que também foi contra o Mirassol, eliminado como agora. E perdemos por 4 a 2. 

Então, quem tiver fé, a hora é agora. Quem não tiver, que arrume uma. Porque, ora, na zona do rebaixamento não existem ateus.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

sexta-feira, 13 de março de 2020

Gre-Nal 424 - uma estupidez

EM VEZ DE HISTÓRIA, VERGONHA Primeiro Gre-Nal da
Libertadores acabou nisso aí (Foto: Diego da Rosa)
Ontem o pau cantou no Gre-Nal 424, histórico Gre-Nal por ser o primeiro pela Libertadores. Ninguém afinou pra ninguém, todo torcedor raiz, de verdade mesmo, achou lindo. Soco no ar, chute por trás, esganadura. Quem ficou horrorizado é Nutella, é Enzo, é o caralho a quatro. O futebol respira, não é mesmo?


Não. O futebol agoniza. Ele respira quando os times são organizados. Respira quando há metodologia em campo. Respira, de verdade, quando há um projeto com início, meios e fins devidamente programados dentro da realidade de cada escudo. Respira mesmo é quando os dirigentes entendem que sem tempo, apoio, método e respeito pela instituição, o máximo que vai acontecer é conquistar algo sem a menor ideia de como fez. Anda a plenos pulmões quando um time não precisa vender o mando de jogo para honrar parte da folha salarial, inchada porque, se der merda, não é o deles que estará na reta.

Quando a imprensa perde dias a fio cobrando resultado com um mês de trabalho porque sim, o futebol, no máximo, arfa com dificuldade, ofega, arqueja.

O que os jogadores de Grêmio e Inter fizeram ontem foi dar razão a quem defende a torcida única, essa imbecilidade/atestado de incapacidade de quem deveria garantir a realização das partidas, seja dirigente de clubes, federações ou autoridades de segurança. Foi dar sentido ao discurso de quem vê desrespeito quando o time que desceu de divisão é alvo de chacota.

Isso não é futebol.

O Gre-Nal foi vergonhoso, uma ode à rivalidade cega, ao ódio, à intolerância. Foi uma estupidez.

sábado, 16 de dezembro de 2017

O que sobrou de nós

MAIS UM Cristiano Ronaldo iguala Pelé como maior artilheiro
 do Mundial de Clubes ((Mike Hewitt - FIFA/Getty Images)

O pior Real Madrid possível pôs o Grêmio no bolso, dominou os gaúchos como quis. Jogou pro gasto. Ganhou como quis, mesmo parecendo, às vezes, que não queria. O Tricolor Gaúcho, pela terceira vez campeão sul-americano, se contentou em tentar uma bola, literalmente. Tivesse um balde d'água no lugar de Navas, o placar seria o mesmo.

É isso o que sobrou para os times da América do Sul no confronto com os europeus: tentar não passar vergonha, isso quando chegam à decisão. A disparidade é imensa, e não só em se tratando de talentos em campo. É na filosofia de jogo, na estrutura, na organização.

O Real Madrid, quando avançava, o fazia como faca na manteiga e só parava na monstruosa atuação de Geromel ou em Marcelo Grohe. Já o Grêmio parecia uma faca de rocambole cortanto um pão italiano a cada vez que tentava trocar três passes nos campo de defesa madridista.

Para definir de forma grosseira a diferença entre tricolores e merengues, basta imaginar que os de Madrid poderiam errar por atacado e, ainda assim, teriam enormes chances de ficarem com a sexta taça mundial. Aos comandados de Renato Portaluppi, porém, um erro poderia ser fatal.

E foi.

Falar que o problema não é perder, mas perder sem chutar uma bola ao gol, é ser simplista demais. Chegar à decisão com essa perspectiva é de doer. E está ficando normal enaltecer a raça, a entregar, o cair de pé, quando isso é o mínimo, não é mais que obrigação. Nos contentamos em jogar pela tal única bola e ganhar - ou perder - na raça, único parâmetro independente e qualidade técnica ou filosofia de trabalho.

Ano após ano, assistimos a um campeonato nacional de baixíssima qualidade e, por conseguinte, os parâmetros caem. Aí entram oito porcarias na farra de vagas da Libertadores e vestimos, brasileiramente, a capa de favoritos. Aí apanhamos e ficamos com cara de idiotas, tentando achar explicações onde elas não estão. É fácil: somos muito fracos.

Mas sabe o que incomoda? De verdade? É o otimismo de que, no fim, tudo vai dar certo. O Cássio vai pegar tudo; o Aloísio vai deixar o Mineiro na cara do gol; o Gabirú vai derrubar o Barcelona. Como se isso fosse regra, não exceção. Vivemos do herói cada vez mais improvável, quando o improvável mesmo é, cada vez mais, deixar de ser zebra. Inclusive jogando contra a pior versão do atual campeão do mundo, com seu melhor jogador em uma jornada apagada.

É o que sobrou de nós.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Ronaldinho, o populismo e o truque do desaparecimento

Jogar para a torcida não é uma prática recente no futebol brasileiro. Aliás, justiça seja feita, não é sequer uma exclusividade do futebol. Exemplos na política existem as montes. A isso chamamos populismo.

Ações populistas são aquelas pouco sensatas, mas que agradam à audiência, ao público, ao povo. Ao torcedor. Uma equipe lá do Rio de Janeiro vinha bem no Campeonato Brasileiro e brigava pelas primeiras posições quando resolveu trazer aquele que havia sido o melhor do mundo por duas vezes e que estava dando sopa no rico, mas desprestigiado, futebol mexicano: Ronaldinho Gaúcho.

Ronaldinho, enquanto levou uma vida de atleta, fez a diferença. Foi assim no Grêmio, no PSG e no Barcelona, onde foi aplaudido em pé pela torcida do Real Madrid, que acabava de destroçar no Santiago Bernabeu. Quando resolveu desfrutar da fama e da fortuna que a bola o proporcionou, virou o fio. Ainda jogou no Milan, mas ambos, ele e o Rossonero, já não eram os mesmos.

REVERÊNCIA Puyol entrega troféu Joan Gamper a Ronaldinho.
Barcelona venceu o amistoso em 2010 (Albert Olivé/EFE)
Prometeu ir para o Grêmio, mas mudou a rota e desembarcou no Flamengo. Veio a conquista do Campeonato Carioca, com direito à barba, cabelo e bigode. Fora de campo, porém, as farras, com direito à barba, cabelo e bigode, não deixaram que ele fosse além de um título estadual. E só. Sem brilho.

A recuperação chegou com a ida ao Atlético Mineiro, onde ajudou o clube a conquistar seu principal título, a Libertadores. Parecia que voltaria a ser o grande jogador que foi até 2005. Só parecia. Foi se esconder no Querétaro, do México. Dou um bolinho de bacalhau para quem conhecia o clube antes de ele ir para lá.

Só que nem lá ele jogou. Eis que aparece o tradicional clube carioca e resolve contar com ele. Diz-se que investiu dois milhões de reais no sonho nababesco de contar com ele. Nove jogos. Nenhum gol. Nada de assistências. Lances mágicos? Só o truque do desaparecimento.

Saiu sem sequer ter chegado. Não vai deixar saudade. Nenhuma. Que ao menos sirva para que os dirigentes, seja do tradicional time do Rio ou outro qualquer, entendam que não há estratégia de marketing que resista à falta de bola. E que Ronaldinho decida se quer preservar o pouco de poético do seu nome ou se quer seguir jogando fora o que fez entre 1999 e 2005.

sábado, 29 de junho de 2013

Desse jeito não dá, "profexô"

Se esse cidadão não foi craque dentro das quatro linhas como lateral-esquerdo defendendo grandes clubes do Brasil, como Flamengo, Internacional e Botafogo, como treinador a história é muito diferente. Largou o futebol precocemente, devido a uma contusão, em 1980.

Formou-se em Educação Física no Rio de Janeiro. Em 1983 resolveu ficar fora das quatro linhas, só que na beira do gramado como treinador do Campo Grande, do Rio de Janeiro. Mas, um convite de um time Capixaba, o Rio Branco, fez com que ele começasse a trilhar a sua história no futebol brasileiro. Resultado: Rio Branco campeão capixaba. Ali tinha um treinador bom de tática e de muita cobrança dentro de campo.

Bom, esse foi o primeiro título dele como treinador. Mas, seria no ano de 1990 que ele ganharia reconhecimento dos apaixonados pelo futebol. Calma, leitores, daqui a pouco eu vou falar o nome dele para aqueles que ainda não descobriram. Enfim, foi nos anos 90 que esse cara ficou conhecido no futebol nacional. Títulos inéditos com o Bragantino: Série B do Campeonato Brasileiro em 1989 e Campeonato Paulista no ano seguinte.

Dali em diante, ele se tornaria o principal treinador brasileiro da época. Por quê? Bom, conquistou seu primeiro título em um clube de destaque em 1993, no estadual, treinando o Palmeiras. Aliás, o titulo que tirou o clube alviverde de uma secura grandiosa, 16 anos sem conquistas. Luxemburgo já havia entrado para a história do Palmeiras. Mas calma, não acabou. No mesmo ano, título do extinto Torneio Rio-São Paulo e do Campeonato Brasileiro.  Em 94, novamente campeão paulista e brasileiro. Nome: Vanderlei Luxemburgo. Status: melhor técnico do Brasil.

Sua segunda passagem pelo Palmeiras não seria diferente. Em 1996, Luxemburgo levou o elenco a mais um título paulista. Para quem não se lembra, esse estadual ficou marcado pelos mais de 100 gols anotados pela equipe alviverde. Já em 1997, Vanderlei Luxemburgo trocou o Palmeiras pelo Santos e conseguiu mais um título Rio-São Paulo para a caderneta.

Vanderlei Luxemburgo chamava a atenção pela sua eficiência em organizar taticamente a equipe, fazer substituições certeiras, que faziam a diferença na partida e que mudavam o placar do jogo. Pois bem, agora que todos sabem como foi o inicio de carreira desse treinador, serei breve nos outros títulos conquistados pelo mesmo: Corinthians – Campeonato Brasileiro (1998), Campeonato Paulista (2001); Seleção Brasileira – Copa América (1999) - o primeiro ápice na carreira de Vanderlei Luxemburgo; Cruzeiro – Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro (2003); Santos – Campeonato Brasileiro (2004), Campeonato Paulista (2006 e 2007); Palmeiras – Campeonato Paulista (2008); Atlético Mineiro – Campeonato Mineiro (2010) e Flamengo -  Campeonato Carioca (2011).

Contudo, parece que a trajetória no futebol não vem fazendo a diferença para o “profexô”, afinal, por onde tem passado nos últimos anos, vem tendo problemas com elenco e diretoria. Não tem sido feliz em organizações táticas, substituições eficazes e sempre bate boca com profissionais da imprensa. Está virando apenas um treinador com um vasto currículo,  mas que está perdendo toda a sua credibilidade. Não à toa, hoje foi demitido de mais um clube, o Grêmio, uniformizado e pronto para treinar os jogadores. Motivo: desgaste entre diretoria e treinador, segundo o presidente do Grêmio, Fabio Koff.

                            Luxemburgo é demitido mais uma vez (Foto: Ricardo Rímoli/LANCE!Press)

Novos treinadores estão surgindo com táticas que vêm fazendo a diferença, Luxemburgo parece ter ficado para trás, não vem fazendo nada de diferente. E nós, amantes do futebol, sabemos que o futebol não para, vem um jogador ou treinador diferente e disposto a fazer história a cada ano. Ah! Eu comentei sobre o primeiro ápice de Vanderlei Luxemburgo, o segundo foi treinar o Real Madri, em 2005. 

domingo, 18 de novembro de 2012

A inércia e o merecimento

Hoje a Portuguesa jogou fora toda a possibilidade de reclamar de influências externas caso retorne para a Segunda Divisão do futebol brasileiro. Vencia bem o Grêmio por 2 a 0, até o segundo terço da segunda parte, mas permitiu uma reação impressionante do time do Sul, que só não virou o jogo porque o (péssimo) árbitro carioca Marcelo de Lima Henrique deu só um minuto de acréscimo.

Não dá para entender. Não dá mesmo. O primeiro tempo foi equilibrado, com uma leve superioridade lusa. O Grêmio, sem o esquentadinho Kléber, tinha apenas Marcelo Moreno à frente, com Zé Roberto muito afim de jogo no meio. O problema gremista é que apenas o ex-luso jogava, fazendo com que o Grêmio só chegasse ao gol defendido por Gledson nas muitas faltas que o time luso cometia. Isso facilitou muito as coisas para a Portuguesa, que jogava um futebol parecido com aquele do começo do campeonato, como boa movimentação, posse de bola e chutes de longe.

A igualdade foi mantida até o intervalo, muito graças ao apitador carioca, que anulou um gol legal do Grêmio, num misto de desatenção e infantilidade da linha defensiva rubro-verde: nunca, nunca mesmo, pode-se fazer linha de impedimento em falta frontal. E fizeram. E o gremista Werley fez o gol. No segundo tempo, a Lusa voltou feito um trator e abriu 2 a 0 com facilidade. Parecia ser o dia da redenção. Jogava bem, dominava um adversário desinteressado e até a arbitragem colaborava. 

Aí veio outra falta da intermediária. Frontal. Aí deixaram novamente um adversário sozinho. Foi só escorar, como no gol mal anulado. Só que dessa vez a arbitragem acertou. Dai o que se viu foi um Grêmio infinitamente superior, com um Zé Roberto endiabrado, levando o time todo da Lusa à loucura. Todo não. Do banco, Geninho assitia, inerte, o rolo compressor tricolor encurralar o adversário no seu campo de defesa. Quatro minutos depois do primeiro golo, Zé Roberto assinou uma pintura e empatou o jogo. 

Pareceu um passe de mágica, mas não foi. Minutos antes de tomar o segundo gol, o técnico Vanderlei Luxemburgo mudou tudo no Grêmio. Tirou o lateral Anderson Pico, passou Léo Gago do meio pra lateral, entrando Marquinhos no meio; sacou os inoperantes Elano e Marcelo Moreno, colocando Leandro e André Lima. Assim, passou a dominar amplamente o jogo. O problema é que Geninho não mexeu e ficou assistindo ao time do Grêmio. 

Temos ainda dois jogos e precisamos vencer os dois. A sorte é que o time do Internacional, que nos recebe em Porto Alegre, é tão sem-vergonha quanto o nosso, o que deixa aberta qualquer perspectiva no Beira-Rio. O Inter pode tanto aplicar um 5 a 0 como perder com a mesma naturalidade. Depois tem a desinteressada Ponte Preta, no Canindé.

O que não dá pra entender também são os motivos que levaram o treinador a não agir. O time cansou, como tem cansado em todos os jogos, e Geninho não mexeu. Tinha o volante Zé Antônio pra tentar segurar o ímpeto gremista e não fez nada, absolutamente nada. 

A inércia do treinador reflete o momento do clube, que espera, como disse certa vez o presidente Manuel da Lupa, o pão cair com a manteiga pra cima. O problema é que, do jeito que as coisas vão, em breve não haverá nem pão para cair. Apenas a própria Portuguesa, e com todo merecimento.    

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um trabalho sujo

* por Vinícius Carrilho

Um dos grandes sucessos da TV mundial é o programa Trabalho Sujo, apresentado e produzido por Mike Rowe. No Brasil, a série é transmitida há tempos pelo canal pago Discovery e também pela TV Bandeirantes, porém, neste último canal, em pequenos trechos. A ideia do programa é simples: mostrar os piores empregos do mundo.

Toda esta apresentação foi necessária para que de fato começasse a desenvolver o assunto inicial deste texto. Se algum dia encontrasse Mike Rowe pela rua, daria uma sugestão de emprego para que ele colocasse em seu programa. Sem dúvidas, falaria ao americano que uma das piores profissões do mundo é ser técnico da Seleção Brasileira de Futebol.

Escolher os melhores jogadores do Brasil parece ser um trabalho fácil, porém torna-se um verdadeiro martírio quando se tem mais de 190 milhões de patrões, sendo que a grande maioria é de uma incoerência digna de estudos. A começar pelo fato de que todos batem no peito e dizem não estão nem um pouco interessado na Seleção Brasileira, porém não é bem assim que as coisas são.

Comece pensando nos acontecidos pós Copa do Mundo de 2002. Parreira assumiu a Seleção Brasileira após um grande trabalho no Corinthians. Credenciado por sua longa carreira no futebol, tinha em mãos uma equipe repleta de bons jogadores, todos já com bagagem no mundo da bola. Reeditando a dupla tetracampeã do mundo com Zagallo, o treinador viu seus comandados conquistarem uma vitória heroica na Copa América de 2004 e ressurgirem das cinzas na Copa das Confederações de 2005, passando por equipes como Alemanha e Argentina após uma derrota para o México e um empate com o Japão na primeira fase.

Chegou então o ano de 2006 e o Brasil aparecia como a melhor equipe da Copa do Mundo da Alemanha, muito pelo chamado “quadrado mágico”, formado por Ronaldinho Gaúcho, melhor do mundo por duas vezes; Kaká, grande estrela do Milan; Ronaldo, o fenômeno e herói da última Copa do Mundo; e Adriano, ainda considerado o Imperador de Milão. Parreira não titubeou, atendeu ao apelo de seus 190 milhões de incoerentes patrões, que na época exaltavam essa grande equipe, e os colocou em campo. Porém, a magia do quadrado desapareceu e o Brasil acabou eliminado daquela copa por um gênio, que atende pelo nome de Zinedine Zidane. A partir deste momento, todas as conquistas anteriores foram esquecidas e então Parreira, de grande criador do quadrado mágico, passou a ser considerado velho demais por seus patrões. Resultado: deixou o comando da Seleção Brasileira.

Os patrões, que clamavam por renovação na comissão técnica e no time titular, tiveram mais uma vez seu pedido atendido. Dunga, em seu primeiro trabalho como treinador, chegava ao comando da Seleção Brasileira e promovia uma renovação moderada. Nomes conhecidos, como os de Júlio César, Lúcio e Kaká receberam a companhia de nomes até então desconhecidos, como os de Afondo Alves e Felipe Melo. A pressão sob o treinador começou aí e ele foi resistindo, vencendo a Copa América e a Copa das Confederações. Chegava então 2010.

A Copa da África do Sul começou com algum susto para o Brasil, após uma vitória magra por 2 a 1 sobre a Coréia do Norte. Na sequência, um trunfo sobre a Costa do Marfim e um empate com Portugal deram ao time o primeiro lugar do grupo. Nas oitavas, o Chile foi presa fácil e então chegou a Holanda. Com uma falha de Júlio César e uma expulsão de Felipe Melo (que antes havia dado a assistência para o gol de Robinho), a Seleção Brasileira estava mais uma vez fora do mundial e os dias de Dunga, que acabava de perder seu primeiro campeonato profissional, contados. Os patrões demitiam mais um treinador.

Então era a vez de Mano Menezes desempenhar um dos piores trabalhos do mundo. Vitorioso no Corinthians, o jovem treinador chegava credenciado também pelo trabalho realizado do Grêmio, anos antes. Os patrões, mais uma vez, clamavam por renovação e Mano atendeu, trocando praticamente todos os outros antigos convocados do último mundial. A safra de atletas era uma das mais fracas dos últimos tempos, porém a média de idade do time caiu consideravelmente.

Em campo, o técnico colocou o que havia de melhor e todos os jogadores em suas posições de preferências, da forma como atuam em seus respectivos clubes. Até então se passaram dois anos desde a contratação de Mano e em duas competições (sendo uma os Jogos Olímpicos, formado por jogadores Sub23), duas derrotas.

Mais uma vez os patrões não perdoam e pedem o cargo do treinador, que realiza exatamente o que antes era pedido a ele. Mano Menezes sabe que a paciência dos inconstantes donos da Seleção Brasileira se esgotará em seu próximo revés e a Copa do Mundo de 2014, antes meta imposta ao mesmo, pode ser vista apenas pela televisão. A última reclamação por parte dos patrões foi a convocação do goleiro Cássio, considerado o melhor arqueiro da Copa Libertadores da América de 2012. Acusam o técnico de ter convocado o jogador por ele ser empresariado por Carlos Leite, também empresário de Mano Menezes.

É por essas e outras que indicaria este cargo para o programa de Mike Rowe. Parece ser impossível conseguir agradar tanta gente que não suporta uma derrota ou a ideia que seu produto já não tem mais a qualidade de outros tempos. Parece impossível imaginar que algum dia, após tantas atitudes tomadas e pouco resultado final, passem os patrões a entender que deve ser cobrado aqueles que de fato fazem o jogo, dentro das quatro linhas. E se encontrasse Mano Menezes, acho que apenas diria para ele: “mas que trabalho sujo esse que você arrumou, hein mano?!”.

* Vinícius Carrilho tem 21 anos, é estudante de Jornalismo, 
morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida fazendo humor, 
mas escreve melhor do que conta piada.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Terça-feira gorda

Em um dia de tantos assuntos, não poderia ficar apenas comentando o jogo da Lusa. Teve a lei da mordaça, implantada pelo Felipão, no Palmeiras, a suíte do pedido de dispensa do Mário Fernandes do time caseiro da CBF, a rodada da Champions, com direito à ressurreição do Kaká, a vitória do Benfica e a esperadíssima falta de profissionalismo de Tevez, no City.


Começando pelo Palmeiras, onde todo mundo grita e ninguém tem razão, não por falta de pão, mas de controle, Luís Felipe Scolari baixou determinação proibindo declarações dos jogadores à imprensa. A desculpa, esfarrapadíssima, por sinal, é que assim evita-se declarações polêmicas de alguém do grupo antes do jogo contra o lanterna América Mineiro.


O estopim foram as declarações do atacante Kléber, que reclamou de o time só fazer golos de bola parada. Falando em golos, o Gladiador não os marca há 100 dias. Muita resenha, pouca bola e nenhum respeito pelos companheiros. Felipão, perdido, não percebe que não será amordaçando o elenco que resolverá o problema. O buraco é muito mais embaixo: está na politicagem do clube, onde todo mundo manda, ninguém obedece e é o próprio Palmeiras quem perde com isso.


No Grêmio, Mário Fernandes voltou aos treinos um dia após dar uma bica na seleção caseira da CBF. Tudo o que tinha que ser dito a respeito o foi ontem. A vida segue, o lateral gremista terá outras chances com a camisa amarela e a seleção continuará agonizando na banalização promovida pela própria CBF, que conseguiu a proeza de transformar um Brasil x Argentina em um Araçatuba x Paysandu, só para manter as cores dos fardamentos.


Indo para o Velho Continente, rodada nobre pela Liga dos Campeões, com destaque para a vitória do meu Benfica (apenas porque é meu time), contra o romeno Otelul Galati, a ressurreição do futebol de Kaká na vitória madridista diante do Ajax, em dia de show do trio Ronaldo-Kaká-Benzema, e de mais uma molecagem do argentino Carlitos Tevez, que se recusou a entrar em campo na derrota do nanico endinheirado Manchester City para o enorme e fortíssimo Bayern de Munique.


A atuação do meia merengue é um alento para a Seleção, pois não há um meia sequer capaz de segurar o rojão. Kaká pode ser esse homem. Ganso é uma incógnita e Ronaldinho Gaúcho liderando o Brasil é uma piada de gosto extremamente duvidoso.


Em Munique, Tevez fez o que sempre fez: deu uma banana para o contrato que assinou e forçou, mais uma vez, a saída de mais um clube, como já fez no Boca, no Corínthians e no Manchester United. O clima é insustentável e o treinador Roberto Mancini disse que, com ele, Carlitos não joga mais. Agora ou o City o vende por um preço bem baixo ou vai ficar rasgando dinheiro com um ótimo jogador (e péssimo profissional) mofando, encostado.


Para fechar o dia, nada melhor que mais um espetáculo da Lusa. De manto novo e futebol à moda antiga, atropelou o Goiás no Canindé e abriu seis pontos do Náutico, segundo colocado. Rogério, Henrique e Marcelo Cordeiro marcaram, numa noite em que o maestro Marco Antonio desfalcou a equipa e Edno perdeu um comboio de golos, mas participou de dois dos que foram anotados. Mais Barcelusa do que nunca, o grená da camisa nova combina perfeitamente com o azul do céu que cobre as águas calmas que a nau lusitana navega em busca do porto seguro da primeira divisão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Hora da verdade

A campanha da Lusa na Série-B chama a atenção. Além de estar ponteando o certame, o futebol praticado pelos comandados de Jorginho é vistoso, de encher os olhos. E o fato de estar brilhando em uma divisão menor acaba tendo o lado ruim, uma contra-indicação: o interesse dos clubes da Primeira Divisão.

O primeiro a ser sondado foi o próprio Jorginho, que teve propostas de Grêmio e Atlético Paranaense, além de ter seu nome envolvido em boatos vindos do Morumbi, onde a fritura do então treineiro Carpegiani já se encontrava em óleo fervente. Como o Cantinflas do Canindé é luso desde as bancadas e não abandonaria a caravela nem para ir ao Barcelona, não houve mudanças no comando técnico rubro-verde.


Agora o assédio é sobre o elenco. As informações são de que o atacante Jael, o Cruel, que já esteve na ordem do dia de Santos e Grêmio, está prestes a se transferir ao Flamengo. Embora seja um jogador que conta com o apoio dos adeptos lusos, não seria uma perda das maiores, já que mais tem estado suspenso do que jogando. Tem boa técnica, sabe abrir espaços, é raçudo, carismático e fazedor de golos, mas é uma bomba-relógio, pronta para explodir a qualquer momento.


Outro atleta visado é o jovem volante Guilherme. Um volante completo, mesmo aos 20 anos. Marca forte sem dar pancada, dificilmente erra um passe e tem um chute forte e certeiro à longa distância (a torcida esmeraldina que o diga), além da excelente chegada à frente. Seria titular em qualquer time do Brasil. Este sim, caso saia, fará uma falta enorme à Lusa.


É este o momento mais delicado do campeonato. Se a Lusa resistir às investidas dos "co-irmãos", tem tudo para navegar tranquila o revolto mar da Série-B. Caso contrário, a tormenta poderá pôr a pique a nau rubro-verde.

domingo, 9 de novembro de 2008

A estranha viagem nos sentimentos

No último fim-de-semana experimentei algumas sensações estranhas. Ir do êxtase à decepção em questão de segundos é muito interessante. Senti isso no GP do Brasil de Fórmula 1, por motivos óbvios. Um dia antes tinha sentido algo semelhante no Flamengo e Lusa, mas não com tanta intensidade.

Ontem, novamente, foi dia de me submeter aos meus sentidos. Mais um jogo da Lusa, mais um clássico, mais um líder, mais uma decisão, mais um jogaço de bola. E mais uma vez deu São Paulo.

Até o começo do segundo turno, ninguém dava bola pro Tricolor. Estando 11 pontos atrás do líder Grêmio, jogava muito mal. Aí, sorrateiramente, foi chegando, chegando, e chegou! Num ano em que fez tudo errado, quando se submeteu a ser reformatório de jogadores, tem sido ajudado, não pelas arbitragens, como está sendo a dupla moribunda do Rio, mas pela incompetência dos adversários.

Todos os outros que experimentaram o torpor da liderança tropeçaram, inebriados, nas próprias pernas. Como o São Paulo está acostumado ao cume, parece não padecer desse mal.

Voltando ao jogo, foi um clássico eletrizante. Logo de cara, gol do São Paulo. No finalzinho, gol da Lusa. Nos acréscimos, mais um gol do São Paulo. No segundo tempo os papéis quase se inverteram. Quase. A Lusa buscou o empate. Quase no fim, o São Paulo fez outro. Aí, nos acréscimos, o tipo de lance que dói, mas mostra quem é o escolhido pela sorte. Quando o Edno apareceu nas “fuças” do Rogério eu já estava pronto pra gritar, ensandecido, mas a bola, caprichosa que é, escolheu pelo travessão, ao invés de aconchegar-se às redes, a despeito do que fizera minutos antes, na outra baliza.

Estou maravilhado com o nível do jogo. Mas estou triste com o resultado. É um estranha viagem nos meus próprios sentimentos. Escrever é muito mais fácil do que falar, pois os dedos não soluçam, nem têm embargos, com os tem a voz. Estou com os olhos marejados, mas estou orgulhoso. É muito estranho sentir coisas tão diferentes, quase que ao mesmo tempo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O preço do bacalhau

O afastamento do árbitro Leandro Pedro Vuaden por ter prejudicado o Tricolor do Rio não soa bem, principalmente porque outros árbitros tiveram atuações igualmente desastrosas e nem por isso foram pra geladeira. O carioca Marcelo de Lima Henrique causou danos claramente o Santos no jogo contra o Grêmio. Na ocasião, Henrique não anotou um pênalti claríssimo a favor dos paulistas, além de expulsar o zagueiro Fabiano Eller após este sequer ter cometido a falta que lhe acarretou o cartão vermelho.

Outra arbitragem polêmica foi a do paranaense Evandro Rogério Roman, que apitou o jogo entre Portuguesa e Flamengo, quando validou dois gols em que houve o uso das mãos, ambos marcados pelo Flamengo.

Em comum nos três está o fato de que todos foram muito contestados, mas somente Vuaden foi punido. Foram usados, como reza o ditado, dois pesos e duas medidas. Fatos iguais existem aos cântaros, para justificar a preocupação da diretoria da Portuguesa, que, gato escaldado que é, já solicitou à Federação Paulista que envie observadores para acompanharem os próximos jogos da equipe, a começar já no próximo sábado, quando a Lusa vai a Recife encarar o Náutico. Aliás, os visitantes do Timbu não costumam encontrar um clima dos mais aprazíveis.

E a direção rubro-verde está certa, aliás, certíssima, pois enquanto continuarem vendendo o bacalhau de acordo com a cara do freguês, todo cuidado é pouco. Afinal de contas, como diz o velho Jorge Ben, ”canja de galinha não faz mal a ninguém”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Nada como um fim-de-semana gordo

Nesse fim-de-semana gordo, esportivamente dizendo, eu estava chato. Principalmente sábado. Sabe aquele dia em que se puder, você sequer sai da cama? Pois é, era um dia daqueles.

Tempo encoberto, Lewis Hamilton cravando a poli-position na Fórmula 1, campeonato português sem rodada, início de horário de verão (não estamos na primavera?), um tédio só! Enfim, um dia daqueles! Pra não falar que nada se aproveitaria do sábado, tinha um churrasquinho pra ir à noite. Mas à noite, choveu, e muito...

Mas como tudo na vida tem remédio, o sábado chegou ao fim. Após assistir com minha esposa a um filmaço na madrugada, acertei o despertador pra poder acordar às 5 horas, pois queria “secar” o Hamilton.

Pois bem, acordei às 6:45, e só vi a festa do inglês, já no pódio. Pelo visto o domingo seria “tão bom” quanto o dia anterior. E o pior é que a Lusa ainda jogaria com o Grêmio, o líder do campeonato, e sabe como é, né? Como dizem os espanhóis, “lo que empéza mal...”

Nem fiz questão de assistir à final do Mundial de futsal, mas me disseram que Brasil e Espanha fizeram um jogo contra-indicado para cardíacos, até as últimas conseqüências, ou melhor, disputa de tiros-livres, e o Brasil levou a melhor.

Na hora do almoço assisti maravilhado ao banho de bola que o Manchester United deu no West Bromwich, pelo Campeonato Inglês. Que maravilha! Sem contar que o público foi de 75 mil pessoas, na oitava rodada. Raro um clássico que atraia tanta gente no Brasil atual.

Era um sinal de que o domingo poderia ser bom. Tinha “Choquei-Rei” no Morumbi, e o clima antes do jogo já estava carregado por conta das declarações de ambos os lados, principalmente por parte do presidente são-paulino, Juvenal Juvêncio, useiro e vezeiro em criar factóides antes de jogos dessa envergadura. Ou seja, prenúncio de um jogão.

E foi mesmo! Teve tudo que um clássico de verdade deve ter: rivalidade, lances ríspidos, expulsões, gols e polêmica, muita polêmica. No fim o empate traduziu muito bem o que foi o jogo. Mas faltava o prato principal: o jogo da Lusa! E que jogo! Fazia tempo que a Portuguesa não jogava com tanta frieza e inteligência. Torcida cantando o tempo todo, futebol raçudo, vistoso... Teve maior volume de jogo, mais tranqüilidade e paciência para esperar o momento certo para “dar o bote”, sem deixar possibilidades para o líder.

Enfim, um desfecho perfeito para um fim-de-semana gordo.