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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Pílulas amadoras - 36 - a caça às bruxas e a covardia

*por Humberto Pereira da Silva

Acompanho futebol há muito tempo. Em pouco anos fará seis décadas que vejo ininterruptamente partidas de futebol. Nessas seis décadas que se aproximam, vi de tudo e um pouco mais. Algumas coisas, com certeza, marcantes.

A eliminação do Corinthians na Libertadores para o Estudiantes é um dos acontecimentos mais impressionantes que vi nos anos recentes. Poderia acontecer de tudo na partida. Como em qualquer partida. E aconteceu de tudo e mais que tudo.

Minha expectativa era de que a vaga à semifinal se decidiria no tempo normal de um jogo de futebol. 40 minutos do segundo tempo e se teria a classificação ou eliminação do Corinthians. 

Ocorre que exatamente aos 41 minutos do segundo tempo, depois de um jogo monótono, sem grandes emoções, já esperava pela disputa em pênaltis. Via o jogo então até desatento, quando numa jogada praticamente perdida na linha de fundo, o gol do Estudiantes.

Pronto. Corinthians eliminado? Mas senti que a reação do Corinthians ao gol antecipava grandes emoções. Vi já muita coisa assim em quase sessenta anos, ainda mais em se tratando de Corinthians.

E realmente aconteceu. Um pênalti para o Corinthians aos 51 minutos que, convertido, inverteria a enorme frustração gerada com o gol dos forasteiros. 

O cobrador do pênalti, Memphis Depay, tinha no pé direito o poder dessa decisão. E perdeu.

Poucas vezes, na minha lembrança, vi anticlímax tão acachapante. E, inevitável, a imediata condenação a Depay feita por praticamente todos, incrédulos, com o que estavam vendo.

A reação, mesmo de jornalistas experientes, até certo ponto é previsível. Impossível acreditar que ele perdeu.

Aí o lado B. Para o torcedor, apaixonado, plenamente justificável. Com o que ganha, com as "mordomias" que desfruta, com o que exige e tem à disposição, Depay na hora em que precisaria justificar seus "privilégios" não poderia perder um pênalti nas circunstâncias em que perdeu.

Entendo que há aí um lado humano que revela menos do jogador do que como se pode ser cruel a quem condena, o jornalista experiente e não um simples e apaixonado torcedor, um erro com justificativa extra-campo. Mesmo que Memphis Depay seja um pulha, uma figura abominável, crucificar o rapaz é de uma crueldade tal que quem o faz, tendo o mínimo de caráter, pararia para pensar um pouco se a terrível situação era para tratá-lo como escória. 

Memphis não é o um grande batedor de pênaltis. No Corinthians, seu aproveitamento é de 40%, tendo perdido três e convertido os outros. Rivellino, para ficar com as mesmas cores, detestava bater pênaltis, tanto que o próprio Reizinho do Parque diz que bateu só um - e perdeu. Mas é mais fácil e até óbvio que o cordeiro imolado seria o que mais custa aos cofres já combalidos do clube.

Nos intermináveis e injustificáveis quatro minutos entre o toque no antebraço do zagueiro e a confirmação da penalidade máxima, o neerlandês ficou com a bola, chamou a responsabilidade, mesmo sendo desconfortável. Isso, por si só, deveria ser o suficiente para que o maldito termo "pipocada" não tivesse lugar.

Contexto: na Copa de 1974, os brasileiros Jairzinho e Paulo Cezar Caju foram acusados de, já encaminhados com o Olympique de Marselha, tirarem o pé de divididas, como se fossem pipocas pulando, para evitar eventuais contusões.  

Perder pênalti é situação absurdamente previsível sob forte pressão. Grandes jogadores perderam pênaltis que não poderiam perder. Vi Zico, Platini e Sócrates perderem pênalti numa mesma partida numa Copa do Mundo, na Copa de 86. Vi Maradona perder pênalti na Copa de 90. Vi Baggio, então melhor jogador do Mundo, dar título ao Brasil ao perder pênalti em 94. Vi Messi, Cristiano Ronaldo perdendo pênaltis em momentos decisivos.

Depay não é melhor que eles. E como eles, perdeu. E com a perda, esse o lado que talvez fique difícil admitir, com a enorme frustração pela eliminação, algo que escapa num momento assim. Com a vantagem de um difícil empate na Argentina, para a realidade atual do Corinthians um feito, aqui em Itaquera o time teve todo o tempo da partida para se classificar. 

Mas o Corinthians não teve capacidade para isso. Quis a sorte que um absurdamente imprevisível pênalti aos 51 minutos do segundo tempo trouxesse como tempero um final que ficará na lembrança como numa partida de futebol tudo pode acontecer. E até mais que tudo. A dolorosa eliminação do Corinthians foi verdadeiramente marcante.

domingo, 19 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 10 - A última pílula

 *Por Humberto Pereira da Silva

1. Essa Copa me espantou a interação por meio de redes sociais. Interação que aos meus olhos assusta quando vislumbro os anos à frente. Principalmente, tenho em vista as possibilidades advindas com a Inteligência Artificial. 

A manipulação, sim, de imagens e, num nível com risco de escapar ao controle, fomentar clima de desconfiança generalizada. A coisa pareceu ainda tímida e amadora. Amanhã pode ser profissional e articulada a interesses subterrâneos.

2. O uso do VAR atingiu um ponto em que sua finalidade é praticamente contrária ao seu propósito.

A finalidade última da VAR, qual é? Evitar erro ou, pelo menos, os erros claros. Ora, o olho humano, a reação a uma situação e tomada de decisão sem mediação nas circunstâncias de uma partida de futebol são impossíveis com erro zero para o ser humano melhor preparado. Mesmo assim, o que seria um erro claro, se a própria clareza ou obviedade parte do subjetivismo de que uma falta pode ter sido evidente para um e, para o outro, não?

Centenas, milhares de imagens, "veem" o que um árbitro não vê em tempo e velocidade real para poder decidir sem qualquer margem a erro. O caso é que, justamente, num lance de azar milhares de imagens multiplicam em escala exponencial a possibilidade de erro na decisão final. 

Há sempre, com boa vontade e não sendo IA, um ângulo na captação de uma imagem que poderia mudar uma decisão. Se por azar essa imagem, o ângulo em que a imagem seria obtida, escapar, jamais for vista ou percebida. E não há nada, ao menos por ora, que iniba o efeito da paralaxe.

Não é o caso de dizer que, com a multiplicidade de imagens, jamais se pode ter certeza de acerto numa decisão. E se um ângulo não visto mostrar o que ninguém viu? E quem decide quais imagens serão disponibilizadas? Lembrem-se do escândalo que foi o "erro" que proporcionou à Noruega vencer o Brasil em 1998. "Um roubo!", disseram. No dia seguinte, uma TV sueca mostrou um puxão de Junior Baiano na área e o erro tornar-se-ia um acerto horas depois. Até lá, Inês já era morta. 

3. Tendo em mente o assunto multiplicação, a multiplicação de opiniões divergentes de "especialistas" em arbitragem merece destaque a parte. Se especialistas divergem, cada qual tem por óbvio uma opinião. Se cada um tem opinião, entre opiniões e opiniões nada difere, além de frágil pomposidade tecnicista, a opinião de um "especialista" da de um tosco torcedor. Novamente, o erro claro e evidente não passa de utopia.

No bizarro show business propiciado pelo megaevento Copa do Mundo, "especialistas" em arbitragem despontam bem no espetáculo como meros fantoches numa encenação que flerta com o teatro do absurdo.

4. Tudo que se viu, vi, na Copa do Mundo, e tudo gerou algo como a situação jogo sim e outro também no Campeonato Brasileiro, o grotesco show de horrores: sempre a reclamação por ou pênalti marcado ou não marcado; sempre uma entrada com "força excessiva" ou não para uma expulsão... sempre... um tempo enorme de discussão estapafúrdia para delírio de anunciantes e especuladores que dominam as Big Techs, ávidas pela audiência, ou melhor, engajamento, que uma discussão gera. Nem precisa ser uma boa discussão, basta se barulhenta.

5. Tudo isso e ainda algo que em certo momento ficou até brega, meio assim o excesso de elogios fora de hora é de mau gosto. 

Mas o caso é sobre o excesso - com o perdão da redundância - excessivo,  desmedido de dados, números, estatísticas, tabelas... muitas vezes de gosto tão duvidoso que chega a ser constrangedor, um insulto à inteligência. Fulano supera Pelé, Beltrano fez mais goles com a parte interna do pé que..., Sicrano bateu o recorde de assistências com o lado direito do peito...

Dados, números, estatísticas são provas cabais de feitos: negá-los é burrice; exaltá-los acriticamente é estupidez.

Pelé não é Pelé porque ganhou três Copas do Mundo. Pelé é Pelé mesmo participando integralmente só e tão só da conquista da Copa de 1970.

Números incautos enganam: é estupidez retirar a majestade do Rei no dia seguinte em que um plebeu qualquer ganhar três Copas e jogar todos os jogos nas três conquistas. Mas o público gosta. E o historiador que se vire com o anacronismo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 9 - Semifinais sem surpresas

*por Humberto Pereira da Silva


França, Espanha, Inglaterra e Argentina são as semifinalistas da Copa. Nenhuma surpresa. Nada diferente do esperado. 

Não houve assim, com as quatro confirmando expectativas, grandes zebras, decepções. Não houve, como nas duas Copas anteriores, sopa para o azar e Croácia ou Marrocos se intrometendo.

Sem grandes zebras, decepções, nenhuma surpresa, portanto, terem chegado onde chegaram Alemanha e Brasil. Se decepcionaram, no lugar de quem estariam? E, mais, se decepcionaram, as quatro seleções semifinalistas não seriam... justamente esperadas, ora pois. Para desgosto do meu aluno Marcos Teixeira, editor deste espaço, Portugal cumpriu sua sina de ser... Portugal.

Sobre as que chegaram, aliás, vale observar o que cada uma representa, ou tem representado, no futebol nos anos recentes. 

Comecemos com a Inglaterra e o pé frio inglês. Em Copa do Mundo, os ingleses travam, mas de 2018 pra eles têm batido na trave. Na Copa de 2018, ficaram em 4º lugar, e, na sequência, dois vices da Euro, em 2020 e 2024, fruto de um projeto iniciado em 2014, o "England DNA", que o The Athletic, braço esportivo do The New York Times, explica neste artigo. And "the football, finally, might be coming home".

A Espanha, por sua vez, despontou como grande força de fato entre seleções apenas nesse século. O futebol espanhol, contudo, oscila, não corresponde quando se espera muito, e surpreende quando menos se espera: campeã da Euro  2024, a geração atual gerou grande expectativa, mas chega à semifinal sob desconfiança. 

Bem, as outras duas semifinalistas, França e Argentina, dominam o cenário de 2014 pra cá. Uma ou outra,  ou as duas, estiveram em todas finais de Copa do Mundo.

Sem surpresas nesta fase - e aqui não estou falando de Cabo Verde ou RD Congo, de bonito trajeto - ou decepções, Alemanha e Brasil, obviamente, não decepcionaram. Ou, decepcionaram tanto quanto a Itália, ausência de peso pela terceira edição seguida.

A esse respeito, sobre essas poderosas seleções, com a chegada do primeiro centenário da Copa do Mundo, elas viram, estão vendo nos recentes 20, 20 e tantos anos, a ascensão da França e da Espanha, que durante muito tempo foram apenas surpreendentes. A surpreendente fúria espanhola em 50. A surpreendente França de Just Fontaine em 58.

Com ascensão de Espanha e França, sem surpresas, decepções, apenas a afirmação e constatação do esperado: a decadência das poderosas Alemanha e Brasil.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 8 - Entre o complexo de vira-latas e a soberba

 *Por Humberto Pereira da Silva


Imothy A. Clary/AFP

Há um assunto bastante sensível com derrota do Brasil em Copa do Mundo e igualmente inevitável: apontar o dedo para culpados. 

Na história do futebol brasileiro, ganhou dimensão trágica com a derrota para o Uruguai em 1950 a culpabilidade atribuída aos personagens Barbosa e Bigode, os vilões da vez.

A questão da culpa. Uso a palavra com o sentido de causa e efeito. Tendo erro, o erro implica num resultado final. Esconder essa simples relação lógica de causa e efeito e põem-se as coisas embaixo do tapete. O futebol, por tudo que envolve, não admite complacência. 

A questão da culpa, no entanto, diz respeito a uma complexidade que convém dada à monumental exposição a que as vitrines, os jogadores, estão submetidos. Nas vitórias, suas imagens se servem aos interesses mais escusos, como as promessas e planos até de carreiras políticas malogrados com o Maracanazo. Porque envolvem tantos interesses, nas derrotas se servem bem como cordeiros para o sacrifício, para evocar ritos sacrificiais bíblicos. Abraão convenientemente leva o cabrito.

De 1950 para cá, 76 anos, há uma História do futebol brasileiro. Não uma história com o sentido vago da palavra, mas sim uma História com momentos que sinalizam auge, época de ouro, ou qualquer termo similar, e decadência. Tudo que mobiliza a escrita da História. 

A palavra "decadência", terrível, e usada não raro de modo vago, ou evitada, é contudo com ela que se escreve a História. A derrota em 1950, e seus culpados convenientes, levou Nelson Rodrigues a expressar o "complexo de vira-latas" para se referir ao futebol brasileiro. 

"Psicanaliticamente", esse complexo foi superado com a era de ouro da geração Pelé, Garrincha e Didi. Houve, sim, a frustração com a geração Zico, Sócrates e Falcão. Mas as gerações Romário e Bebeto; Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho pusera, os pingos nos is. 

Ocorre que, do complexo de vira-latas o futebol brasileiro passou à soberba. E esse sentimento de soberba, que implica não se dar conta da decadência, é o grande nó que, como na Copa de 50, teve para mim o ponto de inflexão na derrota para a Alemanha em 2014 por 7x1.

"Psicanaliticamente", o 7x1 foi denegado. Ao contrário do complexo de vira-latas de Nelson Rodrigues pós-50, o inimaginável 7x1 numa semifinal de Copa do Mundo não afetou a soberba: somos os melhores, não perdemos por que seleções A ou B ou C podem nos vencer, como têm vencido, mas por que os culpados são tais e tais jogadores. 

Impossível dizer se à frente se perceberá que erros cometidos por jogadores desta geração, portanto com atribuição de culpa, serão entendidos como sinais de decadência, fragilidades visíveis e que têm se repetindo previsivelmente. 

A História é caprichosa e móbil. A Argentina, que tanto orgulho tinha de seu estilo próprio de jogar futebol a ponto de chamá-lo La Nuestra (até o choque de realidade que recebeu em forma de um 6 a 1 aplicado pela Tchecoslováquia em 1958), ficou três décadas sem nenhum título, mesmo com Messi e cia. E agora? Bem, se o Brasil em 58 superou o complexo de vira-latas, quem sabe nos próximos anos, com novas derrotas, não superaremos a soberba.

Ah, para concluir: a soberba na eliminação recente para a Noruega, o modo no mínimo risível com que depois do pênalti convertido em gole Neymar provocou o goleiro norueguês. Quem é você, Nyland, que ninguém sabe quem é? Eu sou Neymar, camisa 10 da seleção brasileira.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Copa do Mundo em Pílulas - 7 - Redes sociais, manipulações e a imbecilização

 *por Humberto Pereira da Silva

Anos atrás, o célebre intelectual italiano Umberto Eco afirmou que "as redes sociais deram visibilidade a legiões de imbecis".

Para ele, o que circula nas redes sociais coloca no mesmo patamar especialistas num assunto e oportunistas que mal sabem articular lé com cré. Por causa disso, a comunicação no espaço cibernético gera um excesso de ruído que dificulta separar verdade e falsidade.

Nesta Copa do Mundo, notadamente nas redes sociais, é impressionante ver como imagens mais casuais e aleatórias geram uma profusão maluca de insinuações. Os psicólogos sociais estadunidenses David Dunnig e Justin Kruger desenvolveram, nos anos 1990, uma tese segundo a qual algumas pessoas tendem a supervalorizar suas capacidades cognitivas, mesmo conhecendo pouco sobre determinado assunto, a ponto de tentar ombrear, por meio de mera opinião baseada em quase nada, seu conhecimento ao de especialistas na área.

Em concordância com teorias conspiratórias, a mais frequente é a insinuação de manipulação. Haveria, por exemplo, um complô entre a Fifa, órgãos da grande imprensa, patrocinadores e árbitros para favorecer Leonel Messi. 

Pulando de Umberto Eco para Juarez Soares, lembro que este ficou marcado pela frase que virou motivo de chacota: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".

O problema de quem insinua manipulação no futebol é tentar enganar, ou se enganar,  que uma coisa é uma coisa e outra coisa é a mesma coisa, como se houvesse uma relação nexo causal indiscutível: eu creio, eu quero; logo é verdade.  

Uma coisa é manipular; outra, o resultado da manipulação. O nexo é possível, mas só a prática realiza de fato a manipulação. Quer dizer,  simples e óbvio, qualquer manipulação pode dar errado na prática. 

Como diria Juarez Soares, nada de misturar as coisas. Então para mim a prática, o resultado, contraria o nexo necessário entre manipular e o resultado da manipulação. 

Mas, o que na prática, de fato, põe em xeque qualquer "teoria de manipulação" de resultado numa Copa do Mundo?

Basta um exemplo suficientemente prático. Pra mostrar na prática que o resultado de uma partida não resulta de manipulação, mesmo que de fato ocorra manipulação. 

A bola do holandês Rob Rensenbrick, aos 45 minutos do segundo tempo, na final da Copa de 78 entre Argentina e Holanda, acertou a trave argentina quando o placar estava 1x1.

Rensenbrick não teria sido avisado que não podia marcar o gol, pois a Copa havia sido manipulada para a Argentina ser campeã? Ou ele estava suficientemente avisado e por ser imensamente hábil quis matar do coração algum desavisado torcedor argentino ou holandês?

A bola de Rensenbrick na trave, capricho do destino, e a suspeita de manipulação do jogo Argentina e Peru, que tirou o Brasil da final, é tão só especulação. 

Veja, veja, é praticamente certo para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso que no mínimo o 6x0 da Argentina sobre o Peru é estranho. Ao ver rever aquele jogo é impossível dizer que o Peru não facilitou.

Então, vamos admitir que houve manipulação no jogo Argentina e Peru. Necessariamente temos que admitir que algo estranho também ocorreu com a bola na trave de Rensenbrick. 

É bom lembrar aqui que o craque Teófilo Cubillas acertou o poste quando o jogo ainda apresentava um nulo no placar. Logo, ele estaria na mesma condição de Rensenbrick.

Para admitir a manipulação de resultado, há de se admitir que Rensenbrick não podia não fazer parte do complô. Se de fato houve manipulação entre Argentina e Peru com a finalidade de dar à Argentina o primeiro título mundial, o insensato Rob Rensenbrick deve ter matado do coração algum General. 

Só pra dar ar de fantasia: imaginemos ele ter errado e feito o gol.

Sim, sim, há situações bastante estranhas numa Copa do Mundo. Tanto quanto, sim, sim, não separar uma coisa de outra coisa e só resta aplaudir a imbecilidade.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 6 - Escolher ou não escolher, eis a questão

*por Humberto Pereira da Silva


A Copa do Mundo é realmente um momento de fortes paixões. Para o jornalismo, se eu pousasse de ombudsman, recomendaria sempre lembrar que não há nada como um dia após o outro. 

As atuações de Matheus Cunha contra Haiti e Escócia; os 15 minutos de um Neymar trôpego em seus (poucos) reflexos, e Endrick desapareceu. Uma má atuação de Matheus Cunha no jogo seguinte e tudo muda.

O que, de qualquer forma, em meio a tantas manifestações apressadas não se devia perder de vista é: a Alemanha impôs um portentoso 7 a 1 em Curaçao, na maior goleada desta Copa até o momento.

Curaçao, com heroísmo, arrancou empate de 0x0 com o Equador, que nas Eliminatórias sul-americanas ficou à frente do Brasil - mesmo nossos não-vizinhos de continente tendo sido punidos com a perda de três pontos.

Classificada, a Alemanha pegou  um desesperado Equador que, com "surpreendente" vitória sobre a poderosa tetracampeã - e sinônimo de eficiência -, se classificou para a novíssima fase de 16 avos-de-final.

A ainda precoce história desta Copa e a História deviam ensinar que falas apressadas são pulverizadas no dia seguinte. E daí que adversários, estágios e contextos são diferentes? Pouco importa.

Dezenas de mesas-redondas, redes sociais e em conversas banais na esquina e o assunto: antes da definição do adversário, seria melhor para o Brasil ter esta ou aquela seleção no caminho do Hexa?

Escolher adversários, tentar escapar de outros, é uma das falácias recorrentes da imprensa e da torcida. No caso,  a falácia da projeção apressada. 

Para o Brasil, na fase 16 avos-de-final, é melhor pegar os Países Baixos ou o Japão? Na sequência da Copa, é melhor nas quartas-de-final ter pela frente uma França ou uma Alemanha? A galinha sequer foi vista e já discute-se como preparar o ovo.

O que a História devia ensinar? Em 2006, a celebrada geração campeã do mundo quatro anos antes cumpria um ciclo de inquestionável dominação global, três Bolas de Ouro no elenco e quatro vitórias em outros tantos jogos até então na Copa, e teve pela frente uma França que, aos trancos e barracos, chegava à terceira fase. 

A História todos sabemos.

O que deveria ser óbvio, mas é enigmaticamente esquecido por causa das paixões? Temer enfrentar uma suposta seleção forte no meio do caminho é admitir temer essa mesma seleção numa hipotética final.

A coisa não para no temor. Eis a ironia do destino: eliminar uma seleção forte no meio do caminho e chegar à final com outra seleção forte e sabe-se bem a força da seleção. Agora, eis a ironia, sem ter tido um teste forte antes como supor a força da seleção justamente no jogo final?

O caminho para o título mundial é cheio de momentos inesperados, surpreendentes. Na Copa de 2022, a Argentina esteve por um fio em todos os jogos, a todo momento, até o último pênalti, literalmente. 

A história, todos sabemos.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 5 - a rabugice, a expectativa e a vitória

*por Humberto Pereira da Silva


Juca Kfouri, sobre o jogo contra o Haiti, fez um comentário que gostei, e que foi indireta para alguns ao lado dele na bancada UOL, que silenciaram e não vestiram a carapuça: é ranzinzice reclamar da vitória. 

Juca me fez lembrar as celebradas seleções de 58, 70 e 82. Essas seleções históricas enfrentaram País de Gales, Romênia e Nova Zelândia. 

O País de Gales, um nada no futebol, e o jogo mais difícil em 58. O jogo contra a Romênia em 70 praticamente é esquecido na campanha pro Tri. E a Nova Zelândia em 82, para uma comparação mais próxima, não era muito melhor que hoje o Haiti.

Não basta vencer, há de fazê-lo com sobra, com propriedade. Em 50, é bom lembrar, o silêncio que tomou conta do Maracanã a partir do gol de empate do Uruguai, cujo resultado ainda servia para que o Brasil fosse campeão do mundo pela primeira vez, deveu-se à expectativa de submeter os vizinhos cisplatinos às goleadas anteriores, contra Espanha (6 a 1) e Suécia (7 a 1). E deu no que deu. 

Sobre o jogo contra o Haiti,  ainda, o segundo tempo foi alvo da ranzinzice. Nele, o futebol e seus caprichos, Endrick entrou aos 14 minutos do segundo tempo. Com os acréscimos, jogou exatos 36 minutos. 

E, impressionante, praticamente a única vez que tocou na bola e fez gol, que por milímetros foi anulado. Mas então por milímetros e a ranzinzice ficaria entre extremos. 

O gol de Endrick sendo validado, quem falaria mal da atuação contra o Haiti? O lado B, contudo. Como dizer que com Endrick em campo o Brasil não teve o desempenho do primeiro tempo?

Acho que até sem essa intenção Juca lembra o quanto uma partida de futebol não se resolve na mera circunstância em que goles são marcados. Ou até anulados por milímetros.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 4 - O 'Caso' Endrick e a aposta

 *por Humberto Pereira da Silva


Em época de Copa do Mundo, tantos e mais tantos escalam a seleção. E esses tantos e mais tantos têm por evidente que a escalação do técnico é absurda. Basta ser diferente, como recorrente é. 

Quem escala a seleção tem por absolutamente certo que vê o que o técnico não vê por incompetência, ou interesses escusos - neste caso, Lacan certamente usaria este tipo de comportamento no desenvolvimento da sua Teoria do Espelho. 

Uma coisa que acho legal no futebol, e que jamais devia ser esquecida: com perdão pela redundância, futebol é um jogo. Novamente, peço perdão pela redundância: a condição para que um jogo seja jogado é que quem joga faz uma aposta. 

Tá chato? Preciso pedir perdão mais uma vez pela redundância: quem aposta, ao apostar, deseja ganhar com a aposta feita, e só se ganha numa aposta quando se pode perder.

Portanto, escalar a seleção é uma aposta. Escalar Endrick é apostar.

É importante não esquecer um dado nessa aposta: um torcedor ou um "expert" da crônica esportiva não tem o poder na decisão final da escalação. Esta cabe exclusivamente ao técnico, que é quem fica com o ônus das suas escolhas. Pior: dando certo, é pago - e bem pago - para isso; caso contrário, passa de bestial a besta, como diria Otto Glória, em questão de segundos.  

Não consigo escapar das redundâncias.

Mais um dado que vale extrair: é impossível imaginar o Brasil numa Copa do Mundo sem uma única polêmica, real ou criada, que apimenta discussões, alimenta todo tipo de interesses, desperta paixões.

Endrick é um desses casos desta Copa. Apostar que sua escalação é inquestionável para um melhor desempenho da seleção é o que tantos e mais tantos torcedores e "experts" em futebol apostam.

Com tanta gente apostando, faço também minha aposta: escalado, se realmente o desempenho de Endrick for determinante para uma caminhada vitoriosa da seleção, nada menos que o título mundial, ele despertará a memória de que sob pressão a escalação de Pelé em 1958 foi uma aposta de Vicente Feola.

Essa é a minha aposta. Contudo, sou um jogador compulsivo e faço outra: escalado, se o resultado em campo com a presença de Endrick não for o esperado, tantos e mais tantos torcedores e "experts" em futebol SE ESQUECERÃO que apostaram nele.

Como tantos e mais tantos, estimulado a falar sobre um entre outros casos que geram discussões em época de Copa do Mundo, não sou diferente e também aposto.

Sendo como tantos e mais tantos, contudo, há um detalhe que jamais escondo quando aposto: não escondo que escondo uma carta embaixo da manga da camisa.

Regra de ouro a ser seguida por quem entra num jogo: nunca apostar todas as fichas e, com isso, ter certeza absoluta de que ganhará. As circunstâncias de um jogo, de qualquer jogo, podem exigir uma carta escondida sob a manga da camisa.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 16 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 3 - O dilema CR7 e a seleção de Portugal

*Por Humberto Pereira da Silva

(Foto: Alexandre de Sousa / ZUMA Press Wire / Imago)

A geração atual de Portugal, campeã da Liga das Nações da UEFA no ano passado, cintila como a mais brilhante da história do futebol português. Parte significativa desse escrete se impôs nos principais times das ligas mais disputadas da Europa, de modo que, mesmo não entrando na Copa com favoritismo incontestável, é inegável que o desempenho de Portugal gera grande expectativa. Mais: sabendo ser arriscado fazer uma afirmação assim, não tenho na memória outra seleção portuguesa que tenha entrado numa Copa do Mundo entre as quatro destacadas favoritas ao título mundial.   

Ao longo dos últimos 20 anos, de fato, o futebol português saiu da periferia mais longínqua da Europa para o centro das atenções. Por isso, considerado esse período de duas décadas, quando não se tinha propriamente expectativa de que Portugal fosse tão longe, para esta Copa, caso não vá, será realmente frustrante. 

Bem, vale então assinalar que o avanço do futebol português rumo ao centro das atenções, para além de todas as mudanças estruturais decorridas no futebol do país, foi protagonizado por um personagem central. Seu nome? Cristiano Ronaldo. Desnecessário dizer que se trata de um dos maiores atacantes da história do futebol. Desnecessário dizer que ele mobiliza atenções desmedidas desde que despontou para o mundo na Copa de 2006.   

Antes dele, Portugal havia se qualificado às fases finais dos principais campeonatos de seleções em 1966, 1986 e 2002 (Copa do Mundo), e em 1984, 1996 e 2000 (Eurocopa); depois, não falhou nenhum apuramento, marcando presença consecutivamente desde 2002.

Entretanto, ele é o nó. Paradoxalmente, o principal jogador português, um dos maiores da história, é o maior problema de Portugal. E, sobre o uso da palavra “problema”, faço questão de não pôr aspas, nem usá-la como recurso retórico. Cristiano Ronaldo é para mim um problema seríssimo. Faço uso dessa palavra, portanto, em sentido literal.   

Em 2022, obviamente quatro anos mais jovem, e ainda um atacante cujo poderio não se podia subestimar, Cristiano Ronaldo em campo e fora dele foi um personagem desestabilizador. Portugal naufragou naquela Copa em grande parte devido à presença dele, que sob enormes controvérsias, aliás, acabou aquela competição na reserva. Principalmente, assim entendo, sua postura exageradamente individualista gerou tensões que tiveram como desfecho a decepcionante participação portuguesa no Catar.   

Vejamos, então: 2022 foi esquecido? Denega-se seu comportamento naquela Copa? Convém lembrar o episódio no qual levou consigo para dentro do estágio na seleção portuguesa a sua crise com o Manchester United, a ponto de, em novembro daquele ano, ter veiculada uma entrevista - sem outro adjetivo melhor - desastrosa, na qual desanca seu clube e seu treinador na ocasião, o neerlandês Ten Hag, o que culminou na sua saída de um distintivo no qual já era uma lenda. 

Não se extraiu nenhuma lição? Agora, 2026, com a lembrança de 2022, considero ser impossível subestimar Cristiano Ronaldo como problema. Quatro anos mais velho, por óbvio, sem o mesmo condicionamento físico e técnico, para além dos 40 anos e atuando em uma liga periférica, como o vaidoso português se comportará?

Literalmente, se ele apagou o que aconteceu em 2022, não há como esconder que ele é um grande PROBLEMA para que essa brilhante geração portuguesa, mesmo não sendo campeã, repita campanhas como a de 66 e, ironia do destino, de 2006, quando justamente CR7 despontou para o mundo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 2 - a era das seleções globalizadas

 *por Humberto Pereira da Silva

El Ounahi - último à direita, dos que aparecem à frente, é o
único nascido em solo marroquino (Foto: Getty Images)

A globalização do futebol a partir da década de 1990 gerou um fenômeno: transformou grandes clubes em poderosas superpotências no mercado. Desde então, submetidos aos mais diversos interesses comerciais, elencos de grandes equipes são multinacionais, e assim sendo concentram os melhores jogadores do planeta. 

Mais ainda, a "cooptação" de um jogador ainda em formação retira qualquer possibilidade de identificação entre ele e seu país de origem. Talentos promissores  só se tornam conhecidos quando explodem nas ligas mais poderosas da Europa. Na seleção brasileira atual, Igor Thiago, titular na estreia do Brasil, praticamente inexistia para quem não acompanha a Premier League. Da mesma forma, Roberto Firmino era figura praticamente anônima entre os jogadores que vestiram a "Amarelinha" em 2022. 

A internacionalização das grandes equipes, claro, é um fato consumado há pelo menos três décadas, com o advento da Lei Bosman1. Nenhuma novidade, portanto, vermos jogadores que se projetaram no exterior sem qualquer passagem notável no país.

A novidade é sobre o sentido de nacionalidade numa competição que não envolve clubes e sim NAÇÕES. Essa Copa, assim me parece, sedimenta uma mudança que já vem ocorrendo,  mas que não é alvo de discussão: a pulverização do sentido de seleção nacional. 

De modo bem casual, colhi diversos jogadores que optaram por defender o país A tendo nascido no país B. Escolhas individuais, obviamente, cabem a uma decisão de consciência. O jogador joga onde quiser se sua vontade não confrontar as regras. Não cabe, com isso, fazer julgamento. 

No entanto, eis para mim um  caso emblemático, na partida entre Suécia e Tunísia,  o sueco Yasin Ayari, cujos pai é tunisiano - tendo a mãe marroquina, poderia optar por defender a seleção que empatou com o Brasil na estreia -, não comemorou os goles que marcou. Acho que, para além da midiatização da situação, o sentido de confronto entre nações numa Copa do Mundo, em razão dos mais amplos interesses comerciais que ela envolve, se dilui frente ao que vi.

Vejam o caso de Marrocos, citado acima. Dos 11 titulares na estreia, somente um nasceu no país, o meia Ounahi. Ainda assim, quando substituído, deu lugar a El Mourabet, nascido na França. Dos 26 convocados, 19 nasceram fora do país dos Leões do Atlas, resultado do monitoramento implantado há 15 anos pelo Rei Mohammad VI2. Neste caso, porém, todos têm ascendência marroquina. Fenômeno parecido ocorreu na Copa de 1934, quando a FIGC (a côngenere italiana da CBF) cooptou os chamados oriundi para a disputa da Copa que organizou, disputou e venceu lançando mão de artifícios pouco desportivos, por assim dizer3.

Ainda assim, cabe dizer, Marrocos é, a par da República Democrática do Congo, a segunda em número de "estrangeiros". Curaçao conta com 25 atletas nascidos nos Países Baixos entre os 26 listados para o torneio4. 

Como ocorreu com os grandes clubes décadas atrás, assim vejo, a disputa de uma Copa do Mundo entre seleções, as NAÇÕES, é só uma marca publicitária, um ingrediente necessário ao marketing. O sentido de  seleção nacional como concebido no passado para minha compreensão não passa de um notável contrassenso. Chega a ser fake, se o conceito de seleção nacional for devidamente aplicado.

Referências:
1. SANTOS, Maria Tereza. O que é a Lei Bosman e como ela ajuda a explicar o abismo entre o futebol europeu e o resto do mundo. Peleja, 03 jul. 2025. Disponível em 
https://peleja.com.br/politica/lei-bosman-o-que-e-futebol-europeu/ . Acesso em 15 jun. 2026.

2. Marrocos se tornou 1ª seleção em Copas do Mundo com 11 jogadores em campo nascidos fora do país. Ge.globo.com, 14 jun.2026. Disponível em https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/14/marrocos-se-tornou-1a-selecao-em-copas-do-mundo-com-11-jogadores-em-campo-nascidos-fora-do-pais.ghtml. Acesso em 15 jun. 2026.

3. ROSA, Thiago. Itália e a Copa de 34: uma vitória com toques de fascismo. Ludopédio, 24 mai. 2019. Disponível em https://ludopedio.org.br/arquibancada/italia-e-a-copa-de-34-uma-vitoria-com-toques-de-fascismo/?srsltid=AfmBOorr2nB3fd5FiM-zhCqjJ7Fbyn3tjWNo12l9XizTMu78hRCRql8a. Acesso em 15 jun. 2026.

4. Marrocos é a primeira seleção de Copa do Mundo a ter 11 ‘estrangeiros’ em campo. Placar, 14 jun. 2026. Disponível em https://placar.com.br/copa-do-mundo/marrocos-e-a-primeira-selecao-de-copa-do-mundo-a-ter-11-estrangeiros-em-campo/. Acesso em 15 jun. 2026.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pílulas amadoras - 34

*Por Humberto Pereira da Silva

Datado de 2019 e ainda vigente, o Protocolo do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) preconiza em sua página 3 a "mínima interferência - máximo benefício". Para quem quiser, está aqui, a dois cliques de distância. O fluxograma abaixo é bem explicativo:

Fluxograma 1 - Manual de Árbitros Assistentes de Vídeo – VAR (CBF)

Notem que a orientação é a de que o VAR só irá agir em caso de erro claro e evidente. Funcionaria caso o futebol não fosse um esporte em que a subjetividade está presente em inúmeras situações. 

Por si só, isto já traz inúmeras distorções, proporcionando um magnífico contorcionismo argumentativo da parte de quem defenderá ou não a interferência. Afinal, como definir que determinada jogada trata-se de um "erro claro"?

Em seu Dando Tratos À Bola, Hilário Franco Junior nos lembra que o futebol é um jogo. Segundo a etimologia, jogo vem do termo do latim jocus, que também é divertimento ou brincadeira - ou "zombaria, desdém, algo jocoso, não sério". 

O VAR, ironias do destino, serviria pra evitar decisões injustas no futebol, quando ao olho humano é impossível, por exemplo, a certeza de que um jogador estaria ou não em impedimento, situação na qual não existe subjetividade. Neste caso, porém, não raro a paralaxe pode interferir, mas estatisticamente é inexpressivo.

A ferramenta, no entanto, revela o quanto pra qualquer iniciativa de se evitar favorecimento ou prejuízo a uma equipa e os condicionantes para uma decisão se multiplicam. Numa alusão indevida ao filósofo Guilherme D'Occam, os demônios se multiplicam. 

Um leve resvalão dentro da área e a absoluta impossibilidade de saber o quanto foi suficiente para uma queda. Tem-se então um efeito em cadeia: quem cai se contorce como se tivesse uma fratura exposta, pressão no árbitro e um jogo de transferências para uma decisão final que acaba na cabine do VAR. Quando não, então eis o alimento pra movimentar toda sorte de discussão em que, ao fim e ao cabo, se beneficia até quem patrocina um canal de YouTube...

Bill Shankly (1913-1981), lendário treinador do Liverpool, disse que "o problema dos árbitros é que eles conhecem as regras, mas não conhecem o jogo", ideia compartilhada pelo ex-árbitro Sandro Meira Ricci. 

Enfim, o futebol em campo e fora dele o VAR garante que o show continua.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


sábado, 7 de junho de 2025

Pílulas amadoras - 26


*Por Humberto Pereira da Silva


Foto: EPA

Ancelotti estreou pela seleção e, óbvio, suscitou previsíveis comentários. 

O grande desafio inicial dele - penso eu - será como lidar com a pressão e os extremos da torcida e da imprensa, como tudo o que envolve a "Canarinha". 

Tendo a enorme experiência trazida do Real Madrid, em que a pressão também é potencializada, para mim, cria uma expectativa mais positiva. Pois isso envolve no limite a tomada de decisão em momento crucial. Técnicos mais afoitos, em cenários assim, acabam sucumbindo.

O empate em si, e as circunstâncias do jogo - não é possível pensar num padrão para quem conheceu grande parte dos jogadores na véspera... e, não se pode esquecer, o Equador está muito bem - ofereceram um bom sinal. Ancelotti pode bem depois contabilizar as dificuldades com pressão que, para mim, o colocam na posição de uma tomada de posição. 

Imaginemos o enorme problema que ele teria com uma falsa vitória espetacular. Uma assombrosa atuação de Richarlison - lembremos sua atuação contra a Sérvia na Copa 2022 - e a enorme dificuldade que ele teria.

A euforia, para mim, seria o calcanhar de Aquiles - o exemplo de Tite está aí para quem quiser. O que de pior poderia acontecer não aconteceu: uma vitória enganadora. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Pílulas amadoras -24

*Por Humberto Pereira da Silva

Nelson Almeida / AFP

Sobre Brasil versus Uruguai, o empate com a Celeste praticamente garantiu a vaga brasileira para a Copa de 2026. Os resultados dessa Data FIFA, aliás, praticamente definiram os representantes de forma direta da América do Sul: Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, Brasil e Paraguai. 

Comemorar a quase classificação? Sim, óbvio, mesmo com o aumento de vagas, apurando diretamente seis dos 10 postulantes, e logo iremos a isso. Por diversos motivos, há um equilíbrio nessas Eliminatórias. Ao término da rodada dupla - à qual nos habituamos a chamar de Data FIFA -, a Argentina lidera. E tudo indica, manterá a cimeira na próxima. 

Mas, vejamos, por momentos, ela sentiu a sombra da Colômbia. Ao término, fazendo as contas, perdeu do Paraguai e em Buenos Aires não goleou o frágil Peru, de quem ganhou, aos olhos mais atentos, com esperada dificuldade. A Colômbia, por sua vez, fecha a Data FIFA, em que poderia liderar, na quarta posição. 

Então, o Brasil decepcionou nesses dois jogos? Ora, a decepção está obrigatoriamente ligada à expectativa e o Brasil jogou o que é a realidade atual do futebol brasileiro frente ao equilíbrio entre as seleções do continente. 

É impressionante ver a quantidade de jogadores das seleções da América do Sul que atuam no Brasil, cujos times dominam as competições continentais. Salta aos olhos a quantidade de jogadores da América do Sul que atuam nas principais ligas da Europa. 

TODOS os comentários que li sobre Brasil e Uruguai parecem ignorar essa realidade. Assim, simultaneamente, alguém lembra que Valverde é estrela no Real Madrid, e não menciona as ausências de Arrascaeta e De la Cruz, estrelas aqui no Flamengo. Isso sem contar as retiradas recentes de Cavani e Suárez, titulares dos cisplatinos nas últimas três Copas do Mundo. 

No afã de torcedor, jogar contra o Uruguai, e ganhar, seria como 40, 50 anos atrás ter pela frente Venezuela ou Bolívia. E comentários de torcedor sem essa constatação funcionam como um bom tempero para que, sob pressão de emular escretes do passado, a seleção "novamente" decepcione.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 10

por Humberto Pereira da Silva*

DESGASTE DO MURO De herói a bode expiatório, Cássio vive
tempos turbulentos no Corinthians (Reprodução)

Há quem diga que Cássio é o melhor goleiro da história do Corinthians. Eu vi, na seleção, Ado, vi Carlos, vi Leão, vi Waldir Peres, vi Dida. Não vi Gylmar. Aqui todos, inclusive Cássio, passaram pela equipe nacional em copas do mundo. Acho que Cássio está entre os melhores dos melhores. 

O Corinthians vive HOJE um dos momentos mais horrorosos dos últimos anos, que igualmente são pouco gloriosos. E Cássio, herói e campeão do mundo pelo Timão, desperta HOJE ira da torcida, é tomado como vilão.

Cássio, após derrota na Sul-americana para o desfalcado Argentinos Juniors, desabafou: "Se sou culpado, melhor sair". Dessa declaração, destaco:

1. Cássio está de saco cheio, a ponto de explodir. Conveniências contratuais e outros motivos e ele dificilmente vai explodir;

2. Cássio tem memória. Sabe que há quem diga que é o melhor goleiro que já jogou no Corinthians. Sabe que o Corinthians foi campeão do mundo com ele pegando até vento.

Se Cássio sucumbir, sairá definitivamente pela porta dos fundos, como vilão. E dificilmente ficaria numa prateleira entre os melhores. Esse cenário seria bom para o Corinthians. Teria um bom bode expiatório. 

Se Cássio não explodir. Bem... Cássio usa o condicional para não perder grana, para não ser enquadrado em abandono de emprego. 

Resumo: com a declaração, Cássio não é mais jogador do Corinthians. Cumpriria contrato. 

Na situação do Corinthians HOJE, ter Cássio é o pior cenário, num cenário já medonho. Quando tudo está ruim, sempre se pode pensar no pior. E HOJE parece haver uma aposta no Corinthians: ver onde está o fundo do poço. 

Adendo 1: no Rio, Vasco e Botafogo têm flertado com o fundo do poço. Em Minas, mais recentemente, o Cruzeiro. Em São Paulo, dos "grandes", mesmo o Santos na segunda divisão, o Corinthians para mim é o mais forte candidato a ex-grande. 

Adendo 2: e Cássio? Para mim um dos grandes goleiros na história. Defeito? Ser fiel ao Corinthians. Sua fidelidade e como presente um final de carreira melancoóico. Palmas para a Fiel. 

HOJE, para mim, o glorioso Corinthians se apequena diante do literalmente grande Cássio.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo