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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O engajamento e a permissão para odiar

O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da
partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista

Na semana que passou, casos de racismo e misoginia ocuparam lugar de destaque no noticiário esportivo, com os lamentáveis acontecimentos nos jogos Benfica x Real Madrid e Red Bull Bragantino x São Paulo. Como ocorre com tudo o que é relevante, os temas dominaram as discussões também nas redes sociais. 

Antes de retomar o tema, cabe uma contextualização: que a forma de comunicar mudou, todos aqui sabem. A inclusão digital, as redes sociais e o acesso à internet de alta velocidade possibilitaram que a opinião e a informação, chamados por aí de "produção de conteúdo", possam ser feitas por qualquer pessoa munida de um aparelho celular com acesso à rede mundial de computadores.

Mais gente gera conteúdo, mais gente engaja, mais gente lucra. O jogo é este e está tudo certo. O problema é ser desonesto em troca de engajamento.

Alguns perfis, ao menos entre os que tentam se passar como sérios, têm uma linha editorial progressista. Dos que eu conheço, a maioria se enquadra aqui. Muitos se posicionaram, o que fez com que uma horda de trolls barulhentos saísse do esgoto para vomitar ódio e preconceito. Coisa de gente covarde, que não mostra a cara e se esconde atrás da tela do celular. Pessoalmente, duvido que tenham coragem para bancar esse monte de merda que o ambiente online os deixa a vontade para ser.  

No entanto, o mesmo perfil que defende as vítimas permite toda sorte de imundícies nos comentários. Deixa todos lá, um por um. Pelo engajamento, dá palco, microfone e amplificador a quem deveria ser combatido. 

Ao menos, que sejam honestos e deixem claro que, por ganharem com isso, não apagam os insultos, tampouco bloqueiam e/ou denunciam seus seguidores que rezam para pneu e, nem é preciso explicar por quê, não deveriam ter esse espaço. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo

Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".

Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na suposta vítima.

Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse - não é com pescoço alheio que se exige justiça -, responsabilizou o brasileiro, apontando-lhe o dedo pela forma como comemorou seu gol, como se o próprio Mou não tivesse feito o mesmo reiteradamente em partidas escaldantes.  

Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior a trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão pela parte vermelha da Segunda Circular.

Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Valdo, Mantorras e tantos outros. 

O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo? 

É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.

Nada justifica o racismo.

Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é o ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas, cujos maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.

Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

PORTUGAL - Renovar ou garantir, mas e o futuro?

DUPLA INFERNAL Félix e Cristiano estiveram em grande (Profimedia)

A versão portuguesa pré-competições voltou a dar as caras em Lisboa, para os dois primeiros jogos da Liga da Nações. E nem parecia aquele time sonolento e previsível que conseguiu ficar três jogos sem ir às redes, com as poderosas Geórgia e Eslovênia a anteceder a França, quando finalmente os de Martinez deram luta e justificaram a fama. 

Se por um lado haverá quem diga que já viu este filme antes, com as 10 vitórias em outros tantos jogos na fase de classificação ao Euro, por outro, o nível dos adversários é melhor que as peras doces à catrefada que o sorteio indicara. 

Ao que tudo indica, tendo tido três oponentes relativamente acessíveis - Croácia, Escócia e Polônia -, o maior desafio ao selecionador será arrumar formas de testar soluções além das que já conhecia. Das novidades em relação aos 26 que estiveram na competição vencida há quase dois meses pela Espanha, Rui Silva, Pedro Gonçalves e Francisco Trincão retornaram ao lote de convocados, mas Tiago Santos (defesa direito do Lille), Renato Veiga (que joga a central e defesa esquerdo no Chelsea) e Geovany Quenda (extremo/avançado do Sporting) foram chamados pela primeira vez para a seleção principal.

Destes, apenas Pote teve direito a minutos - um, para ser exato - no jogo com a Croácia. A ideia, portanto, seria dar tempo de jogo aos novos internacionais, mas a dureza dos jogos impediu, segundo o mister, que experiências fossem realizadas, já que é importante garantir o apuramento aos quartos da competição para garantir, sem depender do posicionamento no ranking de seleções, uma vaga como cabeça de chave de um dos 12 grupos das eliminatórias da Copa do Mundo.

Este ponto faz levantar algumas questões? Com um lote alargado a 35 jogadores, por que Roberto Martinez confia nos mesmos? Trincão e Pote, que já mereceram um lugar na comitiva que foi ao Euro, não têm tido nível para as primeiras jornadas da Liga das Nações? Nem falo de Quenda, cuja expectativa era que pudesse derrubar a marca de mais jovem de sempre a defender as Quinas, honraria que pertence desde 1983, portanto há 40 anos, a Paulo Futre, mas seria bom ter um leque mais amplo.
 
Em campo, porém, alguns dos erros vistos na Alemanha não se repetiram, como a demora a reagir em condições adversas que fizeram com que resultados, como a vitória sobre a Chéquia, fosse arrancada a ferros. Nestes dois jogos que marcam o início do novo ciclo, Portugal fez um primeiro tempo de excelência com os croatas, que deverão ser, ao cabo, com quem discutirá a primeira colocação da chave. As dificuldades vistas nesta partida estão mais relacionadas às qualidades dos axadrezados que a alguma quebra de rendimento da turma lusitana.

O segundo jogo teve drama, reviravolta no fim e bons indicadores, embora fragilidades defensivas ainda sejam marca de Portugal, que terá que aprender a andar sem Pepe e procura seu substituto - por ora, Gonçalo Inácio parece estar à frente de António Silva, que tem demonstrado alguma insegurança "trazida", afinal, do mesmo estádio da Luz, e que será missão de Bruno Lage resolver neste retorno ao Benfica.

Sem Vitinha, em grande na estreia, dispensado por lesão, coube a João Palhinha ser o amálgama entre os setores, tendo recuado Bernardo Silva para auxiliá-lo na função. Na frente, Cristiano Ronaldo ficou no banco e Diogo Jota foi o jogador mais adiantado, ladeado por Rafael Leão e Pedro Neto, com Nelson Semedo a dar largura, ocupando a vaga que foi do mais acutilante Diogo Dalot. Como o gol escocês saiu muito cedo, o jogo acabou condicionado e os britânicos atuaram em bloco mais baixo ainda. Martinez recorreu no intervalo a um passador melhor - Ruben Neves - para render o mais garantidor de posse Palhinha e a produção ofensiva resultou no golo de empate, em chute longo do aniversariante Bruno Fernandes.

Steve Clark respondeu adiantando a marcação e, com maior imposição física, a Escócia cresceu na partida e teve uma mão cheia de jogadas perigosas e maior domínio territorial, o que só acabou quando João Neves, o pequeno gladiador do meio-de-campo português, foi lançado para o lugar de Bernardo Silva, muitos furos abaixo do habitual, e João Félix rendeu Rafael Leão para ter mais jogo pelo meio e mais espaço para Nuno Mendes fazer o que faz de melhor, que é atacar e aterrorizar defesas contrárias. A partir daí, o que se seguiu foi uma blitz que só não deu em gol antes porque o goleiro Gunn e os postes resolveram contrariar.

Já perto do fim, Cristiano iniciou a contagem regressiva para o milésimo golo. Ele, que tinha feito gosto ao pé no seu tento 900 frente aos croatas, repetiu a dose a dois minutos do fim ao completar, como no jogo anterior, um passe teleguiado de Nuno Mendes para definir, como de costume, a vitória portuguesa nesta, na prática, eliminatória para definir os oito que avançarão na disputa pelo título. Sem dramas ao ficar como suplente, Cristiano parece ter entendido, depois da malograda prestação no Euro, sua importância mesmo fora do onze inicial.

A ver se será assim nos jogos a doer mais à frente, como também fica no ar a utilização de mais jogadores que os habituais. Não que isso garanta alguma coisa, porque nada garante, mas afasta a frustração de ver bons jogos somente contra grandes seleções, invariavelmente nas partidas que marcam as eliminações. 

    

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Pílulas amadoras - 21

 * Por Humberto Pereira da Silva

Cr7 e a inalcançável régua real (Fabrice Coffrini/Getty)

Cristiano Ronaldo chegou, contra a Croácia, aos 900 goles. É o primeiro jogador de futebol a alcançar, oficialmente, essa marca. Claro, "todos" sabem que Pelé fez mais de 1200 goles. E não muitos, que o austríaco Josef Bican teria feito em torno de 1800 goles entre os anos 20 e 50 do século passado. 

Aí, me faz questão de lembrar o editor deste blog, há o "problema" de ignorar goles marcados em partidas amistosas, mas contra grandes equipas do futebol mundial: nestas excursões para fazer um pé de meia que pudesse, além de preencher o calendário, pagar as contas - e manter o próprio Rei -, perdem-se tentos marcados contra Internazionale (8), Barcelona (4), Benfica (4), Juventus (2) e Real Madrid (1), esquadrões repletos de craques e donos de troféus internacionais. Pela América do Sul, 22 goles divididos entre River Plate (7), Boca Juniors (5), Racing (4), Independiente (2), Millonarios-COL (2) e Nacional-URU (2) viram fumaça. 

Isso se não contarmos os grandes brasileiros: Atlético Mineiro (5), Cruzeiro (4), Bahia (2), Botafogo (2), Palmeiras (2), Corinthians (1), Flamengo (1), Grêmio (1) e Portuguesa (1). Eibares, Numancias, Al Qualquer Coisa e quetais, para ficar em termos do editor, não oferecem um átimo das dificuldades impostas pelos times citados neste parágrafo.

Ontem, Cristiano saiu do banco para desenroscar um jogo que exigiu a persistência lusitana até praticamente o último minuto para superar o ferrolho escocês. O gole da vitória do Tugas foi marcado aos 43 minutos do segundo tempo por ele, que já havia atirado duas vezes ao ferro, iniciando a contagem regressiva para o tal milésimo, que deve, se acontecer, sair quando a Terra de Cristiano estiver na 43ª volta em torno do Sol, justamente a idade em que Josef Bican deu seus últimos pontapés. 

A título de comparação, o milésimo do Rei foi marcado aos 29 anos. Dito isso, o que resta? Números são... não mais que... números. Por isso, fico com Fernando Pessoa, para ter a dimensão do feito de CR7: "O mito é o nada que é tudo", primeiro verso do poema "Ulisses".

Números são números, pois não. Mas neles, além da frieza, não se deve ignorar o simbolismo. O mito do milésimo gole de Pelé simboliza um dos feitos do Rei. O que, justamente, oferece ponto de partida para qualquer feito posterior. 

Ao milésimo gole agregam-se três Copas do mundo, 58 goles numa edição do Campeonato Paulista (aos 17 anos), parar uma guerra..., que fazem de Pelé o maior mito da história do futebol. 

O feito de Cristiano Ronaldo, assim, ganha enorme poder simbólico porque tem como ponto de partida para que se ponha a régua à marca Pelé. Agora, entre a frieza dos números e o simbolismo, o futebol também é feito de circunstâncias e circunstâncias de momento. 

Na conta dos quase 1300 goles do Rei, mais de 500 ajustados em jogos que causam constrangimento saber precisariam ser contados. Na frieza dos números, o mito Pelé, para ser Pelé, não precisa do registro de goles na Seleção do Exército (10 em 14 jogos), tampouco de goles contra equipas "amadoras" nas inúmeras excursões do Santos nos anos 60 para exibir a Majestade. 

Certo. Nas circunstâncias e circunstâncias do futebol, o feito dos 900 goles de Cristiano Ronaldo se deve a um oportuno final de carreira no futebol árabe. Sua última passagem pelo Manchester United mostra que ele não atingiria essa marca no futebol europeu. Igualmente, Pelé não teria chegado a essa marca sem as convenientes contas para se ensaiar contra o Vasco da Gama o dia do mítico milésimo gole. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

BENFICA - Procura-se um líder. Tratar no Estádio da Luz



Rui Costa é, inegavelmente, um dos grandes nomes da história do futebol português. Iniciado no Benfica, onde deu seus primeiros e últimos pontapés, foi um dos nomes mais sonantes da chamada "Geração de Ouro", que conquistou o bicampeonato mundial de juniores nos anos de 1989 e 1991, este com aquele que seria apelidado de "O Maestro" em campo e a converter o último pontapé de pênalti na decisão contra o Brasil, na casa que conhecia bem, embora tenha feito a prova como atleta emprestado ao Fafe. Depois, brilhou pela equipa principal, resistiu ao assédio de Sousa Cintra quando o Sporting quis se aproveitar de uma fase de dificuldades financeiras do rival da Segunda Circular para levar alguns dos principais nomes benfiquistas - ao cabo, somente Paulo Sousa e Pacheco foram aliciados, tendo João Vieira Pinto voltado atrás - e, a contragosto, rumou ao fim da época para a Itália, onde defendeu Fiorentina e Milan antes de voltar para se retirar em casa. Ficou famoso o choro do meia quando marcou ao seu clube do coração em uma partida de pré-temporada pela Viola. À mistura, uma caminhada muito respeitável a vestir a camisola das Quinas em três Europeus e uma Copa do Mundo.

Um ídolo indiscutível, pois. 


Rui Manuel César Costa tem sido, inegavelmente, um dos dirigente de pulso mais molenga da história do futebol português. Tendo se tornado presidente "sem querer" em julho de 2021, quando foi alçado ao cargo após a renúncia ao cargo de um Luiz Filipe Vieira afundado em denúncias de corrupção numa altura em que era presidente da SAD e vice do Sport Lisboa e Benfica, Rui Manuel César Costa foi eleito três meses depois, e com 80% dos cerca de 40 mil votos. Era o casamento perfeito: o líder de dentro do relvado levando para o gabinete uma lufada de ar fresco em lugar das práticas que cheiravam a mofo - e a coisa pior.

"Mar calmo não faz bom marinheiro", diz o adágio. Tampouco faz bom presidente. O ídolo de dentro do relvado tem colecionado decisões ruins, como o prolongamento de contrato do técnico Roger Schmidt sem estar nas melhores condições para tomar uma decisão desta importância. Afinal, fazê-lo quando estava deslumbrado pelo futebol apresentado nos primeiros nove meses da primeira época, como o próprio assumiu quando anunciou o desligamento tardio do treinador, não é algo que se espere de um presidente de uma instituição como o Benfica.

Demitir o treinador, a quem confiou a montagem do elenco e a preparação que antecedeu uma das épocas mais importantes da história do clube, com a nova Champions e o Mundial de Clubes no horizonte, pode até indicar que tentou-se corrigir a tempo estes erros - ou tem outro nome manter um profissional que se mostrou incapaz de alterar a forma de jogar, ou mesmo perceber quando as coisas iam mal, preferindo duvidar da percepção da bancada a assumir que era preciso mais? -, mas tomar a atitude a dois dias do fechamento do mercado não é o que se espera de quem já anda nisso há tanto tempo.

Isso sem contar a incrível insatisfação de jogadores que preferem deixar o clube a lutar por um lugar. Manter Di María, tapando David Neres; deixar sair João Mário, mesmo este não fazendo lá muito esforço para contrariar as vaias de quem, justa ou injustamente, tem direito ao recurso do apupo, são outros sinais de que falta quem tenha força e moral para impedir episódios assim. A propósito, não fazia sentido algum esticar a segunda passagem do craque argentino, por mais identificado que ele seja com o clube e com os adeptos. Esta é uma das decisões que foram tomadas com o coração.

Foi difícil para mim escrever este texto, com críticas contundentes ao meu maior ídolo no futebol. Mas é preciso separar Rui Costa, o Maestro, do Rui Manuel César Costa, o dirigente. Espero que ele possa fazer o mesmo da agora em diante.

domingo, 9 de junho de 2024

PORTUGAL - o rei está nu – e é preciso se vestir logo

ALERTA LIGADO Primeiro teste a valer desnuda deficiências defensivas e mostra que ainda há muito a se fazer se a ideia não for voltar da Alemanha ao cabo de três ou
quatro jogos 
(Foto: Rodrigo Antunes/ Lusa) 

“Um jogo muito positivo para a nossa preparação”. Eis a definição de Roberto Martinez na coletiva de pós-jogo do Portugal 1 a 2 Croácia. O mister está a ver o copo meio cheio. Eu vejo o copo rachado. Principalmente se o este for usado como foi e contra quem foi.

A Croácia, desde que o mundo é mundo, tem um time talhado a ter a bola no pé e fazer o tempo correr mais devagar quando a tem para si. Modric, Kovacevic, Brozovic. Todos com talento para fazer o jogo andar em ritmo lento, e quem quiser que corra. Já Portugal se apresentou, creio eu, com um time mais próximo do que Martinez espreita para a estreia, com Palhinha à frente dos centrais, Vitinha e Bruno Fernandes a serem quem deve fazer a bola chegar à frente, onde o tridente ofensivo era composto por Bernardo Silva, Gonçalo Ramos e João Félix.

Como os Made in Seixal buscam o jogo interior, a ideia era abrir espaço para as descidas de Diogo Dalot e Nuno Mendes. O problema é que estes nunca conseguiram pisar estes lados do campo e a disputa ficou toda no meio, onde justamente a Croácia faz o que quer, como quer e quando quer, e contra quem quer que seja. Basta que existam condições para seus mais graúdos talentos possam desfilar.

A passarela atendeu pelo nome “relvado do Jamor”.

Tudo bem que o pênalti, que de tão estúpido não deveria ter sido marcado, justamente porque Vitinha não o cometeu, condicionou o jogo, mas o fato é que a primeira parte da turma lusitana foi algo que roçou a indigência dos piores momentos vistos daquele período infeliz entre o pós-Copa de 1986 e a afirmação da geração bicampeä mundial júnior, quando, com muita boa vontade, Portugal era daquelas seleções que hoje estariam entre os grupos C e D da Liga das Nações.

Não fosse por Diogo Costa, e aqui está um dos motivos que fazem o mister tirar algumas notas positivas, e o primeiro tempo terminaria com a vaca lusitana já deitada. A segunda parte pedia mudanças para além do planejado para dar minutos à toda a gente – exceto o Rui Patrício, que deve ser um bom contador de anedotas no balneário.

Depois do recreio, o time das Quinas voltou com alterações: os dois laterais, que nem pareciam ter entrado, sairam, rendidos por Semedo e Cancelo; o desastroso, indolente e desatento João Félix também ficou no balneário, fazendo companhia a Gonçalo Ramos, que destes pode ser o único a se considerar uma vítima das circunstâncias ou do sistema que aglutina jogadores com características de posseiros da bola, mas nenhum com rasgos para fazer as funções diferentes que cada quinhão do relvado exige. Diogo Jota e Rafael Leão foram lançados e nos pés deles residiu boa parte da melhora do jogo de Portugal, não pelo sistema apresentado, mas pelas características dos executantes.

Três foram os minutos necessários para que os lusos igualassem as coisas. Semedo fez o que Dalot não conseguiu e mostrou-se uma opção fiável para Martinez, o que talvez não seja necessariamente uma boa noticia. Mas foi ele quem se apresentou para receber passe açucaradinho de Bernardo Silva e deixou Diogo Jota livre para somente encostar a bota na bola, a poucos passos da linha do gol.

E isso deveria fazer com que o sentido do jogo mudasse. Mas essa igualdade durou menos que a do primeiro tempo. Meia dúzia de minutos depois, o recém entrado Pašalić soltou o sapato da entrada da área, na recarga de um cruzamento que João Cancelo achou por bem meter a cabeça numa bola em que o pé, qualquer um, estava mais à mão. Diogo Costa quase acrescentou mais uma defesa daquelas que o Vitor Baía não faria (a maioria delas, pois), mas a bola foi com estrondo à barra e Budimir recolocou os enxadrezados à frente.

O melhor período de Portugal veio a seguir. Insinuante, incisivo, pressionador, empurrando os adversários contra as cordas. Em pouco menos de 10 minutos, criou-se mais que na primeira parte – e naquele período entre a segunda metade de 1986 e 1992. Mas foi sol de pouca dura e a partida voltou a ser simpática aos croatas, que estiveram mais próximos do terceiro do que de sofrerem o empate, que ainda esteve por vir nos remates de Pedro Neto e Rúben Dias.

Para terça-feira, no Aveiro, há a Irlanda do Norte no derradeiro teste antes da Euro. Roberto Martinez, se não houver alguma questão física a apoquentar alguém, deverá levar a campo o onze que imagina para a estreia, contra a Chéquia, no próximo dia 18.

A primeira derrota de Portugal para a Croácia, seja como for, deixa alertas que chegam a tempo: i) de nada serve ter uma riqueza tática se não for escolhida a estratégia mais adequada (como tentar tirar a bola do meio-campo quando um gajo chamado Modric está com uma camisola diferente daquelas que seus comandados vestem); ii) se o Pepe não puder jogar, e oxalá jogue, Gonçalo Inácio não é o central mais adequado para fazer companhia a Rúben Dias porque não está habituado a jogar somente com um central ao seu lado, e os espaços que deixa entre si e o lateral esquerdo, seja ele quem for, mostram isso, além da dificuldade de fazer a recomposição defensiva nestas condições, ainda mais quando a bola for perdida em zonas mais altas do campo; e iii) agradeçam aos croatas por fazerem as vezes do miúdo do conto do Hans Christian Andersen e gritarem que o rei (que venceu 10 em 10 nas eliminatórias, contra ninguém, e sofreu apenas dois golos – e já lá vão oito em quatro jogos após a fase de apuramento, dois em cada) anda com o rabo de fora.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: ser o melhor da equipa indica que as coisas correram bem, mas só para ele;
Diogo Dalot: só não achou que estava no United por causa da cor da camisola (Nelson Semedo: ganha cada vez mais confiança pela seleção nacional, mas essa não é uma boa notícia);
Rúben Dias: ó, Gato, tens 10 dias para mostrar ao Gonçalo Inácio como é que se joga sem ser a três centrais;
Gonçalo Inácio: é sério que o Ruben Amorim nunca te ensinou a jogar numa linha de quatro?
Nuno Mendes: saudade do Clermont, né, meu filho? (João Cancelo: já gostei mais de ti, Joãozinho. Se calhar, mostre ao mister como jogavas antes de ter a brilhante ideia de ser refilão com o Guardiola);
João Palhinha: ó, João, digas ao mister, SFF, que não é porque tu tens oito nomes que deves bastar para marcar toda a gente que estiver a vestir uma camisola diferente da tua. Duvidam que são oito? O gajo se chama João Maria Lobo Alves Palhares Costa Palhinha Gonçalves. Estou a mentir ou o quê?;
Vitinha: não é porque o João Palhinha tem oito nomes que deve bastar para marcar toda a gente que estiver a vestir uma camisola diferente da vossa. Mas jogaste bem a segunda parte (Matheus Nunes: chegaste a tempo de fazer mais que o João Félix. Só ter calçado as botas corretamente já bastava);
Bruno Fernandes: podias imaginar que estás no United e arriscar um pontapé de fora de vez em quando. Pela primeira parte miserável, dava até pra achar que o careca no banco era o Ten Hag (deu lugar a Pedro Neto, que promete fazer barulho na Euro. Só não pode ser quando todos estiverem a dormir. Não, a dormir mesmo, não como na primeira parte);
Bernardo Silva: quando o mister mandar que fiques aberto do lado direito, faças o favor de dizer que o português dele é incompreensível. Não é, sabemos, mas também não dá para entender que raio tu fazes por lá;
Gonçalo Ramos: vamos fazer um acordo? Voltas ao Benfica, pegas ritmo de jogo e aí serás o substituto do Cristiano quando ele se retirar, depois da Copa de 2030 (Diogo Jota: a sério e com ritmo, é o avançado mais completo do plantel. Quem sabe na próxima Euro?);
João Felix: definitivamente, não era jogo para o João Félix. A propósito, faz tempo que os jogos não são para ele (Rafael Leão: era bom aproveitares esses dias em Portugal e ter com o Quaresma para perguntar como ele acertava os passes dentro da área. Tenho certeza que ele lho dirá);
Roberto Martinez: ó, Fernando Santos, és tu?

segunda-feira, 4 de março de 2024

BENFICA - carapaus, tubarões e a óbvia vergonha

Nem precisa de legenda. Imagem: x/fcporto 

Tubarão em águas nacionais, dentro do ecossistema do futebol, o Benfica é um carapau a nadar em águas repletas de predadores quando vai para longe da costa portuguesa. Ponto. É preciso entender isso para perceber que raio aconteceu a uma equipa que na temporada passada tanto fez e que, agora, mal se sustenta na briga pelo título nacional.

Se o Benfica, como o Porto e o Sporting, pesca os destaques dos outros clubes portugueses, quando está às vistas das grandes ligas, perde os seus. E só há um jeito de suavizar essas perdas: planejar, antever, perceber quem vai e ter à mão quem vem, de preferência já ambientado dentro do elenco.

O livro Soccernomics mostra como o Lyon se preparava para montar seu elenco. Mandava no futebol francês, antes do PSG ser adquirido pelo fundo de investimento do Catar, mas ainda assim não tinha como fazer frente a alemães, espanhóis, italianos ou ingleses, que sempre levavam seus destaques. Então identificava quem poderia sair e já tinha sob os olhos quem chegaria. E assim foi campeão sete vezes seguidas.

Grimaldo, Enzo Fernández e Gonçalo Ramos saíram. Era óbvio que sairiam. E como foi o processo para amainar isso?

Sequer houve. Para o lugar de Grimaldo, vieram Bernat (apoquentado por uma lesão crônica desde o PSG), Álvaro Carreras e Jurásek. E nenhum deles tem características semelhantes ao espanhol que hoje brilha sob as ordens de Xabi Alonso no Leverkusen, tanto que Morato e o faz-tudo Aursnes têm jogado por ali, onde poderia estar Ristic, melhor que os outros três, mas que foi dispensado para que Jurásek fosse contratado por €14 milhões. Após perder Ramos para o PSG, cerca de €40 milhões  foram gastos com os avançados Marcos Leonardo e Arthur Cabral, mas quem joga é Tengstedt, o mais tosco deles, mas que é capaz de pressionar a saída de bola mais que os outros. E ainda havia Musa. E, para ser Enzo, chegou Kökçü, melhor jogador do campeonato dos Países Baixos na temporada passada e aposta pessoal do treinador, que queria porque queria, mesmo com fartas opções no plantel para o setor. O problema é que ele não é Enzo. 

A chegada de Di María, um dos maiores jogadores da história, fatalmente faria o time perder um pouco do poder de pressionar após a perda da bola, que era uma das armas mais fortes no primeiro ano da gestão Schmidt, forçando o treinador a encontrar soluções para amenizar o impacto e aproveitar todos os benefícios ofensivos que Fideo poderia dar à equipa. Mas isso está longe de acontecer, pois o craque argentino, aos 36 anos, tem que correr atrás de lateral e ponta e quem mais cair por ali porque não há laterais e porque a entrada de Kökçü desequilibrou o time. Não por culpa dele, mas porque Roger Schmidt é teimoso e arrogante. E não há laterais porque Gilberto, reserva imediato de Bah, foi liberado para assinar com o Bahia antes que seu substituto fosse encontrado. A aposta em João Victor para o setor mostrou-se um equívoco fácil de prever pelas suas prestações a serviço dos franceses do Nantes.

O plantel foi mal montado, mas Schmidt, que em 2022-23 mal rodava o onze, razão que forçou Lucas Veríssimo a buscar minutos fora, agora raramente repete não só nomes, mas o sistema.

Florentino, o maior ladrão de bolas da última Champions, que dava sustentação defensiva e liberava o prodígio João Neves para ser o homem mais influente, mal sai do banco. Com ele a trinco, a linha com os três médios funcionava, qualquer que fosse a composição do trio. Quando Arthur Cabral começou a entender o jogo de pressão de Schmidt, voltou para o banco, tendo cinco ou dez minutos para jogar, dependendo do placar. Para caber Kökçü, recuou João Mario para a posição de 6 (ou segundo volante) porque não quer abrir mão da calma e do critério do jogador para o achar o melhor caminho. O problema é fazer isso na cabeça de área.

E fica tudo às costas de João Neves. Perde-se tudo assim: estraga o jogo de João Mario, obriga Di María a correr como um louco, anula Rafa Silva, que quando recebe a bola as defesas já estão postas e o espaço entre zagueiros e volantes, seu habitual parque de diversões, deixa de existir porque a bola é recuperada longe do gol adversário. Neves, coitado, é obrigado a viver como Sísifo e empurrar morro acima a pedra que fatalmente voltará ao pé da montanha, e perde seu melhor, que é a pressão no campo de defesa adversário, onde rouba a bola e avança com ela ou encontra, com passes medidos, gajos com camisolas iguais àquela que veste em espaços em meio a defesas desorganizadas. 

Vieram dois clássicos: Sporting, pela Taça; e Porto, pela Liga, com a possibilidade de abrir 12 pontos de vantagem aos azuis. Ora com avançado, ora sem, o Benfica apostou em formações com o meio-campo leve demais para enfrentar duplas como Hjulmand e Morita ou Alan Varela e Nico González, de bom trato à bola e fortes no combate. O futebol, desde sempre, é a luta por espaços, e não é somente com atletas pouco afeitos à imposição física que o Benfica terá a bola para servir seus tipos mais habilidosos. Fosse mais eficaz, a goleada teria sido aplicada pelos leões, que jogaram como quiseram e só não marcaram mais porque foram perdulários. Os sinais, porém, não foram notados e o Porto, sabedor das mazelas das gentes encarnadas, jogou para juntar sua melhor característica - a agressividade - às maiores deficiências benfiquistas.

Aí Schmidt tem a desfaçatez de falar que o time se preparou da melhor forma. Desculpas, não as deve porque perder é do jogo e é preciso entender isso para tirar a carga negativa que toda derrota traz e perder, ora, não só faz parte como é um dia três resultados possíveis, mesmo que a malta que consuma o jogo - atentem-se ao verbo consumir, não por acaso escrito aqui - só admita vencer. Obviamente, ninguém entra em campo para perder. Clara também é a dependência de uma série de fatores para que goleadas como esta aconteçam entre equipas niveladas. 

Ninguém se prepara para fazer 5 a 0 em um clássico, como respondeu o treinador Rogério Ceni, do Fortaleza, após uma pergunta imbecil feita durante uma entrevista. No entanto, dificuldades além das naturais para um jogo deste tamanho eram previsíveis quando insiste-se no que deu errado e o adversário é o Porto, que é forte nos duelos, tem atacantes móveis e é rápido a atacar pelas alas, sobretudo contra jogadores improvisados e mal protegidos pelos alas ou pelos centrais, que tinham que se preocupar com os gajos de azul.

No fundo, somente um dos lados se preparou para o jogo. Sérgio Conceição minou os pontos fortes, como o espaço para Rafa e a possibilidade de Di María fazer a diagonal para bater no gol ou servir algum tipo de vermelho.

Era de se esperar, afinal.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

BENFICA - a noite das vergonhas europeias



Prostrado. Humilhado. Vergado. Não faltam adjetivos para descrever a terrível prestação benfiquista nesta edição da Liga dos Campeões, mas poucas vezes se viu em campo uma equipa tão vulgar, indigente. Ainda mais considerando que este espantalho em forma de time de futebol - ou seria o contrário? - carrega no peito três estrelas, cada qual para uma dezena de títulos nacionais, e a reputação histórica de ser bicampeã europeia, além de outras finais disputadas antanho.

Lá se vai muito tempo, sei, desde que a maldição de Béla Guttmann caiu sobre a cabeça dos avaros dirigentes encarnados, mas nada faria supor que depois da magnífica demonstração de como jogar futebol vista na temporada passada, um rascunho formado por 11 jogadores estaria a vestir a mesma camisola.

A noite no Anoeta foi de estarrecer, de petrificar, de fazer corar de vergonha o mais pessimista dos portugueses. E olhe que falo de uma característica praticamente inata ao povo português, ainda mais quando há do outro lado 11 gajos a representar o futebol espanhol e uma bola no meio. 

A Bola, maior jornal da Terrinha dedicado ao chamado desporto rei, fez uma compilação do que os jornais da Espanha disseram. A ver:

As:
"O Benfica, um brilhante bicampeão europeu, ajoelhou-se diante de uma Real Sociedad avassaladora, o que lhe deu uma lição histórica. Um banho frente a um rival que nada disse (...) O volume do seu futebol foi tão grande que rompeu os tímpanos dos lisboetas. Do aquecimento até o último apagão, foi um turbilhão que marca a época"

"Defensivamente, a equipa vermelha nem sabia para onde se virar. O Benfica ficou mumificado, era um fóssil, a agonia levou-o para uma caverna do horror. Para isso contribuiu o seu treinador, que colocou Neves na lateral, algo para o qual não está preparado, e deu a Barrenetxea uma pista para brilhar. Um cervo a dormir a sesta era mais assustador do que essas águias comidas por traças. (…) Neves foi um espectador na primeira fila. O que fazia ali o pobre rapaz?"

Sport:
"Exibição, banho, 'masterclass' de futebol, inúmeras qualificativos que demoraríamos mais tempo a procurar do que o Real levou para vencer um campeão da Europa e de Portugal como o Benfica. Parecia um jogo de profissionais contra juniores numa meia hora mágica e histórica, daquelas raramente vistas no mundo do futebol."

De certo, o leitor há de perdoar a reprodução do que parte da imprensa espanhola viu e disse, mas peço que notem o respeito para com o distintivo humilhado: 'brilhante campeão europeu", que venceu Barcelona em 1961 e, já com Eusébio, o mítico Real Madrid em 1962. Dois distintivos já enormes. O Barça com Ramallets, Evaristo de Macedo, Luis Suárez e os magiares Czibor, Kocsis e Kubala; o Real Madrid, pentacampeão, com Puskás, Di Stéfano, Santamaria e Gento.

Aquele Benfica, de Germano, Cavém, Simões, Coluna, José Augusto, José Águas e Eusébio, que mantém a reputação encarnada imaculada, nada tem a ver com este apanhado vulgar de jogadores de vermelho que ao cabo de meia hora já perdiam por 0-3, fora os dois gols anulados e o pênalti desperdiçado. O placar foi condescendente demais para a pobreza e absoluta falta de argumentos levada pelos de Schmidt a San Sebastián.

Há muito trabalho pela frente e o primeiro passo é admitir o fracasso do projeto de equipa levado a campo para esta temporada, seja com três centrais e Florentino a ter que varrer tudo sozinho e João Neves como extremo e presa fácil e entregue a Barrenetxea, que fez com ele o que quis, como quis e quando quis; seja com a linha de três médios e um avançado solo que não pressionam e deixam tudo a estoirar nos de trás, ora Florentino, ora Kokçü. Gastou-se quase 60 milhões de euros em reforços até aqui desnecessários e não há um lateral direito de raiz para colmatar as ausências de Bah pelas agruras físicas, tampouco um do outro lado que minimamente mimetize o que fazia Grimaldo, perda já cantada com um ano de antecedência. Seu substituto é Jurásek, o defesa mais caro da história do clube, que perdeu a bola 28 vezes em pouco mais de 60 minutos em campo, segundo dados do Goal Point.

Roger Schmidt, brilhante na sua temporada de estreia, parece não querer ver o naufrágio à sua frente e agarra-se a frases fáceis como "não é que o planejamento foi errado, os lesionados fazem falta" ou "realmente, não merecemos a classificação", como se houvesse viv'alma a pensar o contrário. O capitão do barco se mantém fiel às suas ideias e só não está a tocar o violino enquanto a embarcação afunda porque o que tem, quando muito, é uma tocata com instrumentos desafinados.

Ao lado, mas nem por isso menos importante, registre-se a vergonha causada por imbecis que atiraram tochas nos adeptos locais, o que poderia ter causado uma tragédia como a que aconteceu em 1996, na final da Taça de Portugal, entre Sporting e... Benfica!  O fracasso do projeto desportivo quando se tem tudo à mão é de se lamentar, mas a falência cultural espelhada em indivíduos que viajam, não pelo seu clube, mas por uma realização pessoal tendo os pés fincados na violência, este sim é de se envergonhar.

Que vergonha, Benfica! 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

BOTAFOGO - Sobre meninos mimados

 Reprodução/Premiere

Se o Botafogo conseguir a proeza de perder um campeonato no qual teve 13 pontos e de vantagem para o segundo colocado, John Textor e os líderes do elenco terão muitos o que explicar: Textor, o dono, porque não segurou o técnico Bruno Lage; os líderes, por terem derrubado o treinador e bancado Lúcio Flávio, que teve boa passagem dentro de campo pelo próprio Fogão, mas nem treinador é. 

O trabalho de Lage, se comparado ao do antecessor Luís Castro, era ruim, mas em momento algum o elenco comprou as ideias dele. No Benfica, que ele pegou a duas rodadas da final do turno e sete pontos atrás do líder, terminou campeão e com mais de 100 gols num campeonato com 34 rodadas, e ainda teve que enfrentar os quatro adversários mais bem colocados na tabela fora de casa. E venceu todos eles. Lage poderia não ser o melhor, mas está longe de ser despreparado.

AVASSALADOR Bruno Lage foi campeão português pelo Benfica
(Foto: Jorge Amaral/Global Imagens / Esporte News Mundo).




Textor não quis bancar um treinador interino, Cláudio Caçapa, apesar das quatro vitórias em outros tantos jogos, mas o levou para ser treinador de seu time na Bélgica, o Molenbeek. Buscou outro português, talvez pela grife, mas com experiência para tocar o barco. E este barrou o artilheiro Tiquinho Soares e o mundo caiu.

Tiquinho, craque de última hora no Campeonato Brasileiro, teve uma boa passagem pelo FC Porto, onde era bem quisto pela torcida, mas longe de ser o jogador indiscutível no qual se tornou aqui. Lage o colocou no banco e teve o tapete puxado publicamente pelos líderes do elenco.

E depois? O Botafogo melhorou? Instável, segue derrapando e com seríssimos problemas para lidar com a pressão causada pelo estupendo trabalho de Castro, que se foi, como tantos outros por aí afora para receber o dinheiro árabe e para treinar Cristiano Ronaldo. Foi prejudicado contra o Palmeiras? É discutível e pode ser que sim, mas não há erro de arbitragem que justifique um time que abriu 3x0 ainda no primeiro tempo (e ficou barato) e tinha um pênalti a favor aos 37 do segundo tempo e com 3x1 no placar.

Se o Botafogo conseguir perder o campeonato, será não só a maior pipocada da história do futebol brasileiro, como também será a prova de que elencos mimados podem estragar um grande trabalho. E, neste sentido, Textor e os líderes do elenco terão sido os maiores responsáveis.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

PORTUGAL - Do quase nada ao quase tudo, Portugal à Portugal fez história no Algarve

NOITE DOS ABRAÇOS Esta foi a cena mais repetida na
histórica noite algarvia (Soccrates Image/Getty)
 

Um Portugal à Portugal é o que sempre esperamos, embora saibamos que há um quê de teimosia lusitana nesta espera quase sempre infrutífera, como a que nos faz ficar à espreita de que D. Sebastião volte de Marrocos para gritarmos, com o indicador na sua direção: EU SABIA QUE VOLTARIAS!

Como quase sempre nunca é nunca, ele veio! Não, o Rei não voltou do Norte da África. Quem apareceu foi uma atuação digna do poderio de quem leva as cinco quinas ao peito pode apresentar. Digna, não! Chamemo-la pelo nome: histórica, a maior goleada de sempre. E logo contra um adversário cuja mansidão não se adivinharia pela classificação. Os 10 pontos que colocam Luxemburgo a sonhar em estar pela primeira vez na fase final de uma competição sugeriram um jogo complicado, como o foi o encontro sofrido e sofrível com os eslovacos sexta-feira passada, com pontos e organização para discutir olhos nos olhos pela cimeira do grupo com a ainda engripada máquina portuguesa, que mostrou em Bratislava que muito talento não forma equipa. 

Era preciso mudar. E assim foi: o treinador espanhol Roberto Martinez, ainda à procura de entender como se canta o fado da bola do lado de cá da Península Ibérica, apresentou uma revolução no onze, com cinco alterações, quatro por opção e uma pela necessidade imposta pelo segundo cartão amarelo que o capitão Cristiano Ronaldo viu ao quase esfregar os pitons da bota na fuça do goleiro eslovaco Dúbravka quando as pernas não acompanharam-lhe o raciocínio e a bola escapou do irremediável destino, cantado já por 123 vezes, mas que tem teimado a falhar conforme o tempo avança.

É o fado de todos nós, afinal.

Deixando de lado o capitão que tanto nos deu, Gonçalo Ramos, que nasceu em Olhão, a 18 km do sítio da partida, já havia sido anunciado pelo selecionador tão logo acabou o jogo anterior. Diogo Dalot foi da direita para a esquerda, no lugar ocupado por João Cancelo, que foi ter no de Nélson Semedo, no banco de suplentes, saltando o jogador do Wolverhampton para o onze. Quem também começou a partida foi Gonçalo Inácio, deixando Antonio Silva sentado ao pé do treinador. No meio, Danilo rendeu Palhinha e Vitinha foi trocado por Diogo Jota, na mais radical das alterações. 

A saída do médio do PSG possibilitou que Bruno Fernandes e Bernardo Silva, dois dos seis sobreviventes iniciais (além de Dalot, Diogo Costa, Rúben Dias e Rafael Leão foram titulares nos dois jogos), tivessem liberdade para estar onde mais lhes apetecesse, desde que em combinações, formando então um diabólico 4-1-4-1, que variava para 3-4-3 de acordo com o lugar onde estivesse Danilo, ora trinco, ora terceiro central a sair jogando, resolvendo um dos problemas vistos na capital eslovaca: a falta de flexibilidade da equipa. Qualquer que fosse a definição numérica, que tanto engessa reflexões e discussões, haveria de ter mais tipos de verde e vermelho no mesmo sítio da bola do que os gajos de branco. Outro aborrecimento é o que se tem quando Cristiano joga: se por um lado tem-se o maior artilheiro do futebol de seleções da história, o que demanda mais atenções dos contrários, do outro perde-se muito da capacidade de pressionar a saída de bola e, tendo-a roubado nas proximidades da área, terá sempre, ou na maioria das vezes, os pés de Bernardo e Bruno a decidir-lhe os caminhos.

Em resposta, Luc Holtz, que ocupa o cargo de treinador de Luxemburgo há 13 anos e é um dos responsáveis por transformar o tradicional saco de pancadas em sério interessado em estar na Eurocopa que terá lugar na Alemanha - quem duvida, que olhe os últimos resultados e a posição na tabela -, apresentou uma dura linha de cinco a guarnecer os quatro defensores à frente do guarda-redes Moris e apenas o jovem Alessio Curcis no "ataque" (não contei, mas não me surpreenderei se ele tiver tocado na bola mais que dez vezes), imaginando povoar o setor onde Bernardo Silva e Bruno Fernandes trabalham. O problema para ele é que ninguém saberia dizer que lugar seria este, pois todo o relvado do belíssimo estádio do belíssimo Algarve serviu de passarela para os gajos que jogam cada um num rival de Manchester, mas davam a impreesão de que jogam juntos desde alguém os colocou pela primeira vez ao pé de uma bola.

Daí para a maior goleada de sempre da seleção Portuguesa foi mais natural que pintar os bigodes do tinto do vinho. Os dois primeiros ataques, mesmo que tivessem demorado um bocadinho, resultaram em golos: Bruno Fernandes bateu escanteio rasteiro para a área e a bola voltou pra ele, que ajeitou e colocou de três dedos na cabeça de Gonçalo Inácio, como num treino banal nos tempos em que o defensor era uma promessa da base do Sporting, para destravar o marcador. Depois, a asfixiante pressão fez com que Bruno Fernandes mordesse e buscasse Bernardo Silva; dele para os pés de Gonçalo Ramos e, deste, para as redes e o jogo já caminhava para uma vitória tranquila. O gajo de Olhão tem olhos grandes para o golo.

Mas usemos o adjetivo histórica: após dois desperdícios de Diogo Jota, o trator Rafael Leão aproveitou o espaço deixado por Diogo Dalot, que afunilava e abria uma autêntica pradaria para Leão - ou leopardo? -, que fez o que de melhor sabe fazer: engoliu duma só bocada dois pobres defensores, presas fáceis que estavam à frente e, muitos metros depois, e com eles lá para trás, encontrou Gonçalo Ramos na área; o giro, o drible, a noção de onde estão ele, os adversários, a bola e o gol para juntar estes dois e fazer o terceiro, tudo isso num espaço de tempo que seria insuficiente para comportar a frase mais justa para descrever a jogada: Que golão do caraças! No final do primeiro tempo, Bruno Fernandes resolveu que seu pupilo dos tempos em que a academia do Sporting ainda não tinha o nome do CR7 não ficaria atrás do outro Gonçalo, o que foi forjado para os golos no Seixal, e o defensor com coração de artilheiro também bisou.

Mesmo resolvido em 45 minutos, o jogo tem ao menos 90 - ou mais de 100, como tem sido depois da Copa. Passados 12 minutos desde a volta do recreio, os lusos resolveram atrair os oponentes, que, verdade seja dita, jamais abdicaram de jogar ou foram violentos, roçando a inocência e foram mais plateia do que propriamente adversários. A bola passeou pelos três centrais - "superioridade numérica em todos os setores do campo" é o mantra que deveria estar escrito na parede de toda a gente que lida com este negócio de bolas e pés - e veio ter cá em Nelson Semedo, que convidou Bruno Fernandes e Bernardo Silva para o picadinho. Bola aqui-e-logo-ali, foi o suficiente para desmantelar o que sobrou da defesa e o passe longo do craque do Manchester United foi ter no rival do Liverpool, Diogo Jota; este levou, ajeitou com a cabeça a soltou o sapato para a mão cheia de golos.

Se a intenção de Roberto Martinez ao convocar os agora barcelonistas João Cancelo e João Félix quando estes ainda eram estorvos de seus antigos treinadores era dar-lhes confiança, nada mais coerente que lançá-los contra adversários tão mansinhos, rendendo Nelson Semedo e Gonçalo Ramos, provando a quem duvida que o comandante de ataque pode sim sair antes do fim do jogo sem reclamar, o que é quase uma novidade para toda uma geração de torcedores em Portugal. O benfiquista de coração Bernardo Silva, que espalhou seu perfume em campo, deu lugar a outro cujo músculo cardíaco também é encarnado, embora dedique seu talento ao Braga, Ricardo Horta. Neste instante, com Portugal tendo três dos dez da linha frios, Luxemburgo teve sua única chance de gol com o luso-luxemburguês de raízes angolanas e destaque na Bundesliga, Leandro Barreiro, mas Diogo Costa largou as palavras cruzadas a tempo de evitar o golo com uma boa defesa.

O lance seguinte foi mais uma das mostras das valências de Portugal quando joga à Portugal: Rúben Dias esticou, ainda de seu campo, a bola para Diogo Jota e este dominou, ajeitou o corpo e serviu para Ricardo Horta, como se o esférico fosse uma bola de Berlim salpicadinha de açúcar. Se José Silvério tivesse narrado o jogo pela finada Jovem Pan, diria que "a bola chegou pedindo me chuta, me chuta, me chuta e ele chutou! Um golaço de Ricardo Horta, no ângulo de Moris, que nada pôde fazer. Moris (sobe o BG). Vai buscar! Portugal, impiedoso, tem seis; Luxemburgo não tem nada, Wanderley Nogueira!" [n.e. que saudade da narração do Pai do Gol!].

O sétimo gol de Portugal, já com "árabes" Otávio e Rúben Neves nos lugares de Rafael Leão e Danilo - a essa altura, o terceiro central a buscar a bola já era desnecessário, uma vez que Luxemburgo estava em contenção de danos -, foi o primeiro e único a não constar o nome do assistente, já que Diogo Jota buscou João Félix para a tabela, mas este passou da bola e ela, rebatida por um defensor (que talvez nem sabia direito onde estava, mas certamente não era onde queria estar), sobrou para o camisola 21 dizer "que história é esta, pá? Não são só os Gonçalos bisam!"

Uma prova incontestável de que o plano de Roberto Martinez roçou a perfeição é que, mesmo com os olhos postos na baliza contrária o tempo todo, o primeiro impedimento do jogo aconteceu somente no minuto 38 do segundo tempo. Atordoado, Luxemburgo tentou sair trocando passes, mas o apetite português era insaciável e Ricardo Horta roubou a bola, avançou contra a defesa já capitulada e achou Bruno Fernandes. Quem deu três passes para golos merece também o seu, não é mesmo? O placar já igualava as maiores goleadas de sempre de Portugal: 8-0 contra Liechtenstein, em 1994 e 1999, e Kuwait, em 2003. Se não era o suficiente para ombrear os 10-0 que Portugal, ainda incipiente, levou nos cornos da Inglaterra (1947) e da Áustria (1953), ao menos faltava um para, além de marcar a maior vitória de sempre da equipa das Quinas, igualar o histórico 9 a 0 da Espanha no jogo classificatório para a Copa da Itália que serviu como empurrão (estímulo seria um eufemismo dos mais desapropriados) para transformar de vez o chutar a bola com uma caneta na orelha. E este veio com a classe de que se espera de João Félix desde que ele despontou no Benfica de Bruno Lage: passe a receber de Rúben Neves em corrida paralela à linha de fundo, a um ou dois metros da entrada da área, um toque para dominar, dois para encontrar a brecha e o terceiro para soltar a paulada, em arco, cercado por seis, para fazer o 9 a 0. N'altura, Luc Holtz, que abandonou seu posto no oitavo tento, já havia voltado ao banco de suplentes a tempo de contemplar a arte de Félix.

No sexto jogo de Martinez, a sexta vitória e o principal: um futebol à Portugal. Na véspera, o treinador disse que "é importante para mim conhecer melhor os jogadores e aquilo que podemos fazer para melhorar a flexibilidade tática". O desafio é fazer o mesmo tendo Cristiano Ronaldo a titular, e ele deverá sê-lo em outubro, quando Portugal receber a Eslováquia no Dragão, casa do Porto, no jogo  em que, caso vença novamente, o passaporte lusitano será carimbado para a sua nona participação em Eurocopas, a oitava seguida. Eis a dúvida: um futebol novamente à Portugal, como o da belíssima noite algarvia, ou o aborrecimento de noventa e tantos minutos que vez ou outra se impõe para fazer toda a malta duvidar de si? Pensando bem, nada mais à Portugal que isso.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - SAF-se quem puder?

Divulgação

Com a aprovação da Lei das SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol), que permite transformar os clubes de futebol em empresas, sancionada recentemente pelo presidente da República, passou a ser o objetivo, ou melhor, o sonho de muitos torcedores de diversos clubes que o seu seja agraciado com a venda para algum multimilionário que estiver dando sopa por aqui e, ao ver que o distintivo está no mercado, atrás de investidores, perguntar a si mesmo “e por que não?” antes de despejar muitos milhões e transformar emblemas combalidos em potências do futebol mundial da noite para o dia.

Querem um "velho da lancha", um sugar daddy.

Essa espécie de loteria, desejo do torcedor, ficou ainda mais forte quando Ronaldo Fenômeno comprou o Cruzeiro e a venda do Botafogo para o investidor americano John Textor está a ponto de ser sacramentada. Textor, vale lembrar, detém 18% das ações do Crystal Palace-ING e andou balançando seu gordo cofre para a SAD do Benfica, que não quis saber de negócio.

Naturalmente, a torcida da Lusa não é diferente - ou ao menos a parte que costuma se manifestar em redes sociais. Quando a Red Bull tornou-se parceira do Bragantino, muito foi falado nas alamedas do Canindé que o negócio poderia ter sido feito com a Lusa. Aí está um ponto importante e pouco agradável de ser tocado: o Bragantino, à época, disputava a Série B do Brasileirão e a Série A1 do Paulista, estando numa posição muito mais interessante para a empresa austríaca, que já tinha seu time aqui, o Red Bull Brasil, que, como não conseguia avançar no cenário nacional ameaçava largar o projeto. Ou seja, a Portuguesa não tinha - e ainda não tem - condição de oferecer o que eles queriam. O que vinha depois, que era a mudança do distintivo, do nome e das cores, é outro ponto de discussão que não cabe aqui, no momento.

É isso o que a malta rubro-verde precisa perceber: o que temos a oferecer hoje, além da nossa tradição e da nossa história? Claro que isso é um cenário que pode mudar em dois ou três anos, mas até lá a Portuguesa ainda luta para voltar à Série D e à A1 do Paulista, e, é bom que se diga, não é algo lá que atraia os investidores mais graúdos para os nossos lados. E é importante também entender que um investidor não é um mecenas. Muito pelo contrário. Relações como a que tínhamos com o saudoso dono dos Armarinhos Fernando são bem diferentes de alguém - ou algum grupo - que queira usar a Portuguesa para ganhar dinheiro, que é, afinal, o resultado esperado em todo investimento.

A mudança para que a Lusa se transforme em uma SAF é o caminho natural - e até aconselhável -, mas que isso não faça o torcedor achar que todos os problemas serão solucionados. Não é raro haver uma espécie de fetiche com relação às chamadas gestões empresariais, como se elas significassem boa governança e garantia de sucesso. Empresas quebram todos os dias e por diversos motivos, e a Portuguesa, ou outro clube qualquer, não estão livres disso, mesmo sendo SAF ou não. Vejam casos como o do Desportivo das Aves, e d’Os Belenenses, em Portugal, ou no Chile, onde o Colo-Colo passa por aperto desde que foi comprado. São estes, bem como a Espanha, os países que serviram como modelos para os autores da Lei 14.193/2021. Para tanto, sugiro a leitura do livro “Clube-Empresa - Abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, de diversos autores, organizado pelo jornalista Irlan Simões.

Eventual mudança de modelo de gestão não significa, necessariamente, a solução para os nossos problemas, como mostra o exemplo do Colo-Colo, quase rebaixado no Chile (Getty Images)

Além do mais, a legislação, por obra e desgraça do presidente, não obriga o investidor a ter sua identidade revelada sob o pretexto de que isso poderia espantar eventuais interessados que preferem se manter no anonimato (diferentemente do que era previsto no PL e foi um dos itens vetados pelo presidente. O Senado Federal ainda derrubou alguns vetos, mas este foi mantido), justamente o ponto que garantiria transparência no negócio. Em outras palavras, abre as portas dos clubes para quem quer lavar dinheiro sujo e não quer, obviamente, mostrar a origem da grana.

E é aí que está o negócio - ou o ponto mais importante dele. Devemos ter muito cuidado com quem irá colocar o dinheiro, de onde ele vem, o modelo da gestão e, principalmente, as diferenças no plano de negócios nas ações de curto, médio e longo prazo. É isso ou será mais um capítulo a ser lamentado na nossa história. E, convenhamos, capítulos lamentáveis não nos têm faltado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Porto x Lisboa, capitão antifascista e uniformes da Casa Pia - há 100 anos, estreava a Seleção de Portugal


O primeiro jogo da história da Seleção Portuguesa, que perdeu para a Espanha por 3 a 1, foi uma esculhambação. Começou ainda na convocação. A imprensa, que já era chata pra diabo há um século, questionou a presença de Francisco Pereira, dos Belenenses, fazendo com que ele renunciasse à chamada. Com isso, outros jogadores da equipe lisboeta resolveram recusar a convocação, inclusive seu irmão, Artur José Pereira, considerado o melhor do país na época, o que fez com que Augusto Sabbo, que também era técnico do Sporting, entregasse o boné.

Resolveram então fazer uma junta, formada por seis integrantes da Associação de Futebol de Lisboa, para convocar os jogadores para o tal jogo com os espanhois, que estava de rosca desde 1912, quando nem havia ainda Federação Portuguesa de Futebol, e que não saiu na ocasião porque os vizinhos queriam que Portugal bancasse todas as despesas. O fato de a tal junta ter só o pessoal do Sul causou a insatisfação dos clubes da Associação de Futebol do Porto, principalmente os Dragões. Além do mais, somente Artur Augusto, que jogava no Porto, foi convocado para além dos jogadores de fora da associação lisboeta, o que era mais um motivo de queixa dos nortenhos, que proibiram os seus jogadores de servirem à debutante seleção. Inclusive, Artur Augusto ter nascido em Lisboa reforçaria a tese de que aquela não era uma seleção nacional, mas da Capital.

Ainda assim, Artur resolveu que jogaria. E jogou. E ajudou a escrever a história do futebol português, sofrendo o pênalti convertido pelo irmão, Alberto Augusto, que jogava no Benfica, portanto, o primeiro gol da história de "Equipa das Quinas". Destaca-se aqui o nome do goleiro espanhol: o mítico Zamora - que viria a ser o arqueiro da equipe na Copa do Mundo de 1934, quando defendeu um pênalti cobrado por Waldemar de Brito, o descobridor do Rei Pelé -, que hoje dá o nome ao prêmio de melhor goleiro da Liga Espanhola.

A base do time era formada por cinco jogadores do Casa Pia, que também forneceu os belíssimos uniformes negros utilizados na partida. O capitão era Cândido de Oliveira, homenageado com o nome da Supertaça e que ainda foi jornalista e um dos fundadores do jornal A Bola, além de técnico e selecionador nacional. Notabilizou-se também no combate ao fascismo, tornando-se agente secreto a serviço dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Capturado pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, uma espécie de DOPS da desgraçada ditadura salazarista), foi enviado a um campo de concentração em Cabo Verde, sendo libertado após o fim da guerra.

Outro nome está ligado ao combate ao salazarismo: o benfiquista Vitor Gonçalves era pai do General Vasco Gonçalves, um dos militares que participaram da Revolução dos Cravos e que foi primeiro-ministro de Portugal no II, III, IV e V Governos Provisórios, o chamado PREC (Período Revolucionário em Curso). Outro fundador d’A Bola também alinhou no 11 português: Ribeiro dos Reis, também casapiano como Cândido de Oliveira, que posteriormente foi o treinador de Portugal na primeira vitória da seleção, contra a Itália, quatro anos mais tarde, cujo gol foi marcado pelo leonino João Francisco, que também esteve em campo naquele 18 de dezembro de 1921. 

O jogo? Bem, o jogo foi 3 a 1 para a Espanha, que já tinha alguma experiência internacional, tendo inclusive conquistado a medalha de prata nos Jogos Olímpicos da Antuérpia, no ano anterior. Com 10 minutos, Meana e Alcantara já haviam feito 2 a 0 para os espanhóis e, só depois, Portugal conseguiu equilibrar as ações e evitar uma goleada. No início do segundo tempo, a Espanha voltou melhor, mas fez o terceiro só aos 21, novamente com Alcantara. Nove minutos depois, Portugal diminuiu com Alberto Augusto, fechando o placar. 

Portugal alinhou com Carlos Guimarães (CIF); Pinho (Casa Pia) e Jorge Vieira (Sporting); João Francisco (Sporting), Vitor Gonçalves (Benfica) e Cândido de Oliveira (cap, Casa Pia); José Gralha (Casa Pia), António Augusto Lopes (Casa Pia), Ribeiro dos Reis (Casa Pia), Artur Augusto (Benfica) e Alberto Augusto (Porto), tendo Carlos Villar, presidente do CIF, como treinador. A Espanha foi a campo Zamora (Barcelona); Meana (Gijón) e Fajardo (Atlético); Balbino (Fortuna), Pololo (Atlético), Arrate (cap. Real Sociedad); Sesúmaga (Sama), Arbide (Real Sociedad), Pagaza (Racing Santander), Olaso (Atletico) e Alcantara (Barcelona) - Técnicos: Manuel Castro e Julian Ruéte.