Mostrar mensagens com a etiqueta Arbitragem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arbitragem. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 10 - A última pílula

 *Por Humberto Pereira da Silva

1. Essa Copa me espantou a interação por meio de redes sociais. Interação que aos meus olhos assusta quando vislumbro os anos à frente. Principalmente, tenho em vista as possibilidades advindas com a Inteligência Artificial. 

A manipulação, sim, de imagens e, num nível com risco de escapar ao controle, fomentar clima de desconfiança generalizada. A coisa pareceu ainda tímida e amadora. Amanhã pode ser profissional e articulada a interesses subterrâneos.

2. O uso do VAR atingiu um ponto em que sua finalidade é praticamente contrária ao seu propósito.

A finalidade última da VAR, qual é? Evitar erro ou, pelo menos, os erros claros. Ora, o olho humano, a reação a uma situação e tomada de decisão sem mediação nas circunstâncias de uma partida de futebol são impossíveis com erro zero para o ser humano melhor preparado. Mesmo assim, o que seria um erro claro, se a própria clareza ou obviedade parte do subjetivismo de que uma falta pode ter sido evidente para um e, para o outro, não?

Centenas, milhares de imagens, "veem" o que um árbitro não vê em tempo e velocidade real para poder decidir sem qualquer margem a erro. O caso é que, justamente, num lance de azar milhares de imagens multiplicam em escala exponencial a possibilidade de erro na decisão final. 

Há sempre, com boa vontade e não sendo IA, um ângulo na captação de uma imagem que poderia mudar uma decisão. Se por azar essa imagem, o ângulo em que a imagem seria obtida, escapar, jamais for vista ou percebida. E não há nada, ao menos por ora, que iniba o efeito da paralaxe.

Não é o caso de dizer que, com a multiplicidade de imagens, jamais se pode ter certeza de acerto numa decisão. E se um ângulo não visto mostrar o que ninguém viu? E quem decide quais imagens serão disponibilizadas? Lembrem-se do escândalo que foi o "erro" que proporcionou à Noruega vencer o Brasil em 1998. "Um roubo!", disseram. No dia seguinte, uma TV sueca mostrou um puxão de Junior Baiano na área e o erro tornar-se-ia um acerto horas depois. Até lá, Inês já era morta. 

3. Tendo em mente o assunto multiplicação, a multiplicação de opiniões divergentes de "especialistas" em arbitragem merece destaque a parte. Se especialistas divergem, cada qual tem por óbvio uma opinião. Se cada um tem opinião, entre opiniões e opiniões nada difere, além de frágil pomposidade tecnicista, a opinião de um "especialista" da de um tosco torcedor. Novamente, o erro claro e evidente não passa de utopia.

No bizarro show business propiciado pelo megaevento Copa do Mundo, "especialistas" em arbitragem despontam bem no espetáculo como meros fantoches numa encenação que flerta com o teatro do absurdo.

4. Tudo que se viu, vi, na Copa do Mundo, e tudo gerou algo como a situação jogo sim e outro também no Campeonato Brasileiro, o grotesco show de horrores: sempre a reclamação por ou pênalti marcado ou não marcado; sempre uma entrada com "força excessiva" ou não para uma expulsão... sempre... um tempo enorme de discussão estapafúrdia para delírio de anunciantes e especuladores que dominam as Big Techs, ávidas pela audiência, ou melhor, engajamento, que uma discussão gera. Nem precisa ser uma boa discussão, basta se barulhenta.

5. Tudo isso e ainda algo que em certo momento ficou até brega, meio assim o excesso de elogios fora de hora é de mau gosto. 

Mas o caso é sobre o excesso - com o perdão da redundância - excessivo,  desmedido de dados, números, estatísticas, tabelas... muitas vezes de gosto tão duvidoso que chega a ser constrangedor, um insulto à inteligência. Fulano supera Pelé, Beltrano fez mais goles com a parte interna do pé que..., Sicrano bateu o recorde de assistências com o lado direito do peito...

Dados, números, estatísticas são provas cabais de feitos: negá-los é burrice; exaltá-los acriticamente é estupidez.

Pelé não é Pelé porque ganhou três Copas do Mundo. Pelé é Pelé mesmo participando integralmente só e tão só da conquista da Copa de 1970.

Números incautos enganam: é estupidez retirar a majestade do Rei no dia seguinte em que um plebeu qualquer ganhar três Copas e jogar todos os jogos nas três conquistas. Mas o público gosta. E o historiador que se vire com o anacronismo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pílulas amadoras - 34

*Por Humberto Pereira da Silva

Datado de 2019 e ainda vigente, o Protocolo do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) preconiza em sua página 3 a "mínima interferência - máximo benefício". Para quem quiser, está aqui, a dois cliques de distância. O fluxograma abaixo é bem explicativo:

Fluxograma 1 - Manual de Árbitros Assistentes de Vídeo – VAR (CBF)

Notem que a orientação é a de que o VAR só irá agir em caso de erro claro e evidente. Funcionaria caso o futebol não fosse um esporte em que a subjetividade está presente em inúmeras situações. 

Por si só, isto já traz inúmeras distorções, proporcionando um magnífico contorcionismo argumentativo da parte de quem defenderá ou não a interferência. Afinal, como definir que determinada jogada trata-se de um "erro claro"?

Em seu Dando Tratos À Bola, Hilário Franco Junior nos lembra que o futebol é um jogo. Segundo a etimologia, jogo vem do termo do latim jocus, que também é divertimento ou brincadeira - ou "zombaria, desdém, algo jocoso, não sério". 

O VAR, ironias do destino, serviria pra evitar decisões injustas no futebol, quando ao olho humano é impossível, por exemplo, a certeza de que um jogador estaria ou não em impedimento, situação na qual não existe subjetividade. Neste caso, porém, não raro a paralaxe pode interferir, mas estatisticamente é inexpressivo.

A ferramenta, no entanto, revela o quanto pra qualquer iniciativa de se evitar favorecimento ou prejuízo a uma equipa e os condicionantes para uma decisão se multiplicam. Numa alusão indevida ao filósofo Guilherme D'Occam, os demônios se multiplicam. 

Um leve resvalão dentro da área e a absoluta impossibilidade de saber o quanto foi suficiente para uma queda. Tem-se então um efeito em cadeia: quem cai se contorce como se tivesse uma fratura exposta, pressão no árbitro e um jogo de transferências para uma decisão final que acaba na cabine do VAR. Quando não, então eis o alimento pra movimentar toda sorte de discussão em que, ao fim e ao cabo, se beneficia até quem patrocina um canal de YouTube...

Bill Shankly (1913-1981), lendário treinador do Liverpool, disse que "o problema dos árbitros é que eles conhecem as regras, mas não conhecem o jogo", ideia compartilhada pelo ex-árbitro Sandro Meira Ricci. 

Enfim, o futebol em campo e fora dele o VAR garante que o show continua.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 18

*Por Humberto Pereira da Silva



Uma cousa que eu realmente hoje não discuto no futebol: marcação ou não de pênalti e uso do VAR para uma decisão dessa natureza. 

Quando não havia o árbitro de vídeo e bem menos câmaras eram usadas, a dúvida gerava toda discussão e o folclore do futebol. Reza a lenda que a bola não entrou no gol da Inglaterra em 66. Hoje a tecnologia diria se foi ou não gol. E não foi.

Hoje, com a VAR, certas coisas eu realmente não entendo. O juiz suíço não "viu" pênalti em CR7 e também não viu a favor da Geórgia. O VAR suíço entrou em ação numa situação e em outra, não.

Sem maldade, e sem conhecida ignorância de jogador de futebol, já ouvi jogador não entender os "critérios" na marcação de pênalti: bola na mão, mão na bola... e tudo fica assim: no bar o garçom pergunta que cerveja eu quero, eu paro, penso pergunto o que tem e digo o que quero... mas poderia querer... e na verdade em momento algum fui para o bar pra tomar Antártica, Brahma.

Com o VAR assim é a marcação de um pênalti. O do Gentile, que rasgou a camisa do Zico em 82, faz parte do folclore, da lenda. Como o do Nilton Santos em 62. Se o VAR ontem num lance solicitou revisão e n'outro não, e se eu não entendo atuação da máfia, do crime organizado, ou da contravenção, acho insulto à minha inteligência discutir razões de marcação numa situação e não n'outra. 

Bem entendido, como ocorreria antes sem o VAR, não duas situações o juíz não teve CORAGEM pra assumir decisão e indicar a marca do cal. 

Como não tenho qualquer elemento pra suspeitar de atuação do crime organizado na Euro, que haja maquinação contra Portugal (!) e não li regulamentos e regras no papel e assim acredito em bruxas, não sei se por LEI quando o VAR pede revisão, o apitador não pode não ir ver o lance como não pode iniciar um jogo sem apitar o início, como apita o fim, com apita uma falta.

Se o juiz pode não rever um lance solicitado pelo VAR, ele não tem dúvida alguma do que viu e interpretou e tem absoluta convicção da decisão, sou levado a especular sobre excentricidades humanas. Não maldade, mas excentricidade, esquisitice. Eu, de repente, não gosto de quem usa rabo de cavalo ou quem pinta o cabelo, usa brinco... sei lá... Daniel Passarela passou a não gostar de cabeludo depois que parou de jogar.

Sendo assim, também tenho "direito" a esquisitice, desconfiança. A suspeitar, meio que teoria conspiratória, que decisões de juízes envolvem caprichos, coisas como NÃO GOSTO DE UM JOGADOR CHAMADO CRISTIANO RONALDO. E olha que, quando Portugal massacrou a Suiça ns oitavos-de-final da última Copa do Mundo, Cristiano entrou em campo com a goleada já construída.

Viagem minha? Acho que certos árbitros podem não gostar de certos jogadores e levar suas antipatias para dentro do relvado. Como Passarela não gostava de cabeludos... o que gira em torno de CR7 pode muito bem para mim afetar decisões num jogo de futebol.

Sinceramente, é o que para mim pareceu. Alguma coisa estranha, além do pênalti, na relação CR7 e juíz suíço. Eu vi o jogo. O lance do pênalti não foi isolado. Houve outros, digamos, atritos de marcação e ao seu estilo depois de receber o cartão, como também já fez em outra ocasião, CR7 "abandonou" o jogo.

A gesticulação dele, a saída de campo ao fim do primeiro tempo e depois sendo substituído, foram bem filmadas pelas centenas de câmeras hoje. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pílulas amadoras -12

*por Humberto Pereira da Silva

 (Foto: Mateo Villalba / Getty Images)

Real Madrid e Bayern de Munique fizeram uma segunda partida da Champions no Santiago Bernabeu cercada de enorme expectativa. No jargão boleiro, duas das mais pesadas camisas do mundo definindo uma das vagas à final, tendo empatado na Alemanha por 2 a 2 o primeiro jogo. Duelo eletrizante, o Real, como só o Real faz, perdia em casa por 1 a 0, mas virou a partir dos 43 minutos do segundo tempo. Mas, no último lance de um embate em altíssima temperatura, teria havido o gol de empate do Bayern e a consequente prorrogação.

Teria, mas não! O bandeirinha ergueu a bandeira. E antes da conclusão da jogada, o árbitro apitou. A marcação: impedimento do jogador do Bayern. Em casos assim, seguindo o protocolo, o VAR não é, nem pode, ser solicitado. As imagens de TV, de qualquer forma, sem as tais linhas traçadas, deixam todas as dúvidas possíveis. O correto seria deixar a jogada seguir e o VAR depois diria se por "milímetros" houve ou não impedimento.

Alguns até serenos diriam: a arbitragem mais uma vez a favor do Real; outros mais coléricos esbravejariam: o Real sempre ganha roubando. É, mas na mesma partida o VAR anulou um gol do madridista Joselu: o lance seguiu até o fim e foi corrigido com o auxílio da tecnologia. Ora pois.

Mais. Com toda tensão do final, perdendo como perderam, ouvi de Hummels e Müller o lamento pelo "erro de arbitragem". Os dois, ao mesmo tempo, exaltaram o triunfo do Real. Descontentes, claro, que uma partida tão intensa tenha sido decidida num "erro".

A questão para mim é que os bávaros, sem dizer, sabem que tinham a partida nas mãos. Sabem que falharam nos momentos finais. Não transferiram a culpa pela derrota ao "erro de arbitragem". Essa mentalidade é a maneira de lidar com as infindas contingências em uma partida de futebol. Erros, falhas, são lamentados. Mas tão somente lamentados. 

No Brasil, contudo, não há a mais remotíssima possibilidade de um pênalti, marcado ou não, não gerar toda sorte de discussões, acusações, ofensas, agressões.  É como se a marcação, ou não, fosse decidida a bala. Com a imprensa esportiva pondo óleo quente na fervura, praticamente não há partida de futebol no Brasil sem confusão quanto a uma ou outra marcação. 

A coisa não só vai mudar como tende a piorar. Imprensa, torcedores, dirigentes, técnicos e, com menos intensidade, jogadores, atiçam o fogo que queima a lenha. Não vai mudar o resultado, mas gera um clima que faz valer o jargão boleiro: ganhar no grito. Um "investimento para decisões futuras", segundo o editor deste blog, meu aluno Marcos Teixeira.

Paulo Nobre, ex-presidente do Palmeiras, usou a expressão "mão grande" para se referir a favorecimento ao Flamengo. No fim, o Palmeiras acabou campeão brasileiro de 2016. Ano passado, o auxiliar de Abel Ferreira, João Martins, novamente mencionou complô para que o Palmeiras não conquistasse o bi brasileiro. Ao fim...

Ironias da vida e da lembrança. Em partida do segundo turno no ano passado, entre Flamengo e Palmeiras, que terminou empatada, o Flamengo reclamou de pênalti não marcado em Everton Ribeiro. Nesse "jogo de seis pontos" a marcação poderia, poderia, inverter o título. 

Ocorre que esse mesmo Flamengo que hoje nas primeiras rodadas do Brasileiro reclama de arbitragem faz o que o Palmeiras fez: insinuar favorecimento aqui e ali. Esse mesmo Flamengo que foi campeão brasileiro em 2020 "favorecido" pela arbitragem.

Onde quero chegar? O frequente e insensato clima de acusação às arbitragens começam a macular os títulos. O título do Palmeiras no ano passado depois da insinuação de complô para que não ganhasse mostra o quê? Que erros ao meu favor são do jogo e contra mim são premeditados? John Textor, dono do Botafogo, apelou para a inteligência artificial para insinuar que o Palmeiras foi beneficiado, mas não falou nada sobre a campanha de rebaixado que seu time cumpriu no segundo turno.

Para mim, que é preciso ter princípios morais. Dirigentes e técnicos ao se manifestarem como se manifestam são despidos de qualquer "sentimento moral". Não vejo problema algum em afirmar que não se diferenciam da malta. Dão enorme contribuição para que o futebol brasileiro, além da CBF e outras mumunhas, mais logo se iguale ao mundo da contravenção, do crime, do gangsterismo.

Ah, recentemente na volta para casa, jogadores do Fortaleza foram atacados em emboscada. Não houve mortos. É isso.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 26 de abril de 2024

PORTUGUESA - O Dia do Cárcere

ÓDIO GENUÍNO Javier Castrilli tirou a Portuguesa da final
 do Paulistão de 1998 (Alex Ribeiro/Folhapress)

Nutro por Javier Castrilli um ódio tão genuíno que quase torna-se respeitoso, íntimo. Não sei sua idade, tampouco seu nome completo ou sua profissão. Não sei se é ou foi um bom filho, se tem irmãos, se é um bom avô, sequer se tem netos. Será que seus netos, caso existam, o chamam de Abuelito Javi? Não sei. Deve ser um bom avô.

Não conheço suas preferências políticas, se apoiou as torturas em meio à escandalosa Copa de 1978. Não faço ideia sobre o que ele pensa sobre a Asociación Madres de la Plaza de Mayo. Vibrou com a Guerra das Malvinas? Apostaria que sim, mas não sei.

Só o que sei é que pelo menos uma vez por ano me vem à mente aquele 26 de abril de 1998. É um looping eterno, no qual me recordo que ele tirou da gente a última chance de disputar uma final de um campeonato de elite ao marcar um pênalti obsceno no último minuto do segundo jogo da semifinal entre Portuguesa e Corinthians. Ganharíamos? Ninguém sabe. O que ninguém discute é que aquele time, com Evair, Alexandre, César, Leandro e tanta gente boa, era ótimo. E daria jogo na decisão.

Se o dia 25 de abril é o Dia da Liberdade (em Portugal), o dia 26 de abril de 1998 é o meu Dia do Cárcere. Desde aquele dia, estou preso no ódio a Javier Castrilli, que deve ser um bom avô.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

EUROCOPA 2020 VAR para a pqp


Assim como aconteceu no jogo entre Portugal e França, quando um pênalti inexistente foi marcado e não houve interferência do árbitro assistente de vídeo, o (pouco) popular VAR, outra penalidade máxima fajuta foi marcada na Euro. Esta, que beneficiou a Inglaterra na prorrogação da semifinal contra a Dinamarca, possivelmente só facilitou a provável classificação inglesa à final, já que os dinamarqueses apenas se defendiam e o tento inglês parecia questão de tempo. No entanto, por mais flagrante que fosse a superioridade do beneficiado, o jogo não estava definido. E acabou por sê-lo a partir de um erro claro e grave da arbitragem.


Mais uma vez, o árbitro de vídeo da vez, o neerlandês Pol van Boekel, não alertou o soprador de apito da vez, o holandês Danny Makkelie, sobre a bobagem que fez, transformando em pênalti o mergulho de Sterling, o que não é novidade alguma, diga-se. Ora, se um erro flagrante - e era - não pode ser analisado por se tratar de um lance interpretativo - aqui, ó, que era -, para que caralha serve a tecnologia? A propósito, o mesmo Makkelie era o árbitro no Sérvia-Portugal em que o gol da vitória portuguesa, marcado por Cristiano Ronaldo, não valeu porque o auxiliar não viu que a bola entrou meio metro.


Antonio Mateu Lahoz, o espanhol que caiu na conversa de Mbappé no França-Portugal e que foi o único a apitar três jogos na primeira fase, era cotado para seguir apitando nas fases seguintes da Eurocopa e até na final, caso a Espanha não chegasse. O erro, que contou com a colaboração do árbitro de vídeo Alejandro Hernández, causou o afastamento da equipe de arbitragem envolvida. Agora, se muito, haverá um comunicado da UEFA reconhecendo o erro. "Bela merda!", como diria meu pai.


É para lances assim que a ferramenta foi criada, mas o tal protocolo é desastroso porque os critérios não são claros e, do jeito que é feito, acaba tornando-se uma forma de legitimar erros escabrosos, mas haverá quem defenda o ocorrido "porque o protocolo foi respeitado".

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O futebol faz mal ao Brasil

*por Fabio Venturini

Sempre defendi que essa ideia de que o futebol é desimportante, por isso um mundo separado, é conversa para boi dormir. O futebol é dialético com todos os demais momentos e lugares de nossas vidas. Ele é reflexo do que pensamos assim como molda o nosso pensamento, seja na condição de jogador, torcedor, peladeiro, árbitro, juiz do STJD etc.

Esta semana particularmente chamou-me  a atenção três momentos. Relendo Paulo Freire me aparece um trecho memorável de Pedagogia do Oprimido:

“Não haveria oprimidos se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão. Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que oprimem como outro.”

Freire descreve longamente uma dinâmica em que o opressor responsabiliza o oprimido pelas violências e injustiças a que são submetidos. Nos intervalos da leitura, tive a (in) felicidade de ver um jogo daqueles eletrizantes do campeonato inglês, Manchester City x Chelsea.

No desenrolar da partida, o zagueiro Zabaleta, do City, fez uma falta dura em Diego Costa. Não satisfeito, foi para cima do atacante do Chelsea e iniciou uma ríspida discussão, com troca de afagos que não chegaram a ser agressão. O árbitro expulsou Zabaleta, apenas, pela falta e por ter gerado a confusão.
Qual é a dúvida de que no Brasil ambos seriam expulsos?

Os homens de preto daqui sempre tomam a decisão que os comprometem menos. O maior sintoma é quando Sandro Meira Rici vai à Copa do Mundo e apita como se estivesse na Bundesliga, não nas “arenas” do Brasil.

Toda vez que um comentarista de arbitragem quer justificar os erros absurdos, daqueles que acomodam opinião pública, times em questão e “orientações” da comissão de arbitragem, falam em “imprudência”.
Se um jogador colocou a mão no rosto do adversário que se atirou no chão e foi expulso, sua atitude foi imprudente. Se deu um carrinho, o atacante se atira no chão e o juiz marca equivocadamente o pênalti, a responsabilidade é do zagueiro e sua imprudência, sua inconsequência.

Assim se difundem padrões de opressão pelas telinhas todas quartas à noite e nas tardes de domingo.
O que faz então pessoas como Sandro Meira Rici terem uma postura em torneios internacionais e outra nos campeonatos locais?

Na Inglaterra, na Alemanha e, em menor medida, na Copa do Mundo, o objetivo do árbitro é cumprir a regra. No Brasil, é “controlar o jogo”, como expõem sem o menor constrangimento os comentaristas de arbitragem: Arnaldo Cézar Coelho, Leonardo Gaciba, José Roberto Wright, Paulo César de Oliveira e até Sálvio Espínola, que está na ESPN, uma emissora cujos comentaristas tanto exaltam o futebol europeu, mas, quando se tratam de torneios brasileiros, acomodam-se na ideia de “imprudência” do injustiçado.

Essa mentalidade faz com que uma falta seja digna de expulsão aos 38 minutos do segundo tempo, quando o time da casa já tem um a mais e está ganhando o jogo, mas lances idênticos não sejam punidos com cartão amarelo no primeiro tempo ou sequer se marque falta. O mesmo critério que faz uma bola tocada na mão vire pênalti contra o visitante, mas uma mão intencional na bola no meio de campo pelo atacante adversário não lhe renda o segundo amarelo.

Imagine o seguinte lance: um atacante que desde o começo do jogo está procurando contato com os zagueiros e se atirando dentro da área corre na direção do gol adversário com a bola dominada. Um zagueiro corre e o alcança, mas para dar tempo de impedir o gol estica a perna e se joga à frente da trajetória da bola. O atacante, atrapalhado, erra o chute e na sequência dobra os joelhos. Na sequência ambos se embolam. O atacante, tocado na perna esquerda, dá três rolamentos gritando como se fosse amputado a sangue frio com a mão no joelho direito.

O lance é dentro da grande área. É falta?

A regra do jogo manda avaliar se a bola estava em disputa, mas as orientações de arbitragem no Brasil mandam jogar a partida.

As chances de o juiz ser ludibriado e marcar um pênalti são grandes em qualquer lugar do mundo, mesmo na Inglaterra e na Alemanha, onde joga a maioria dos jogadores dos quatro semifinalistas da última Copa do Mundo. Nesses locais há também uma boa possibilidade de o árbitro, estando próximo da jogada, aproximadamente seis ou sete metros e com visão frontal do lance, perceber a acrobacia do atacante e não botar a bola na marca penal.

No Brasil essas duas possibilidades estão condicionadas aos mesmos critérios que fazem um time ter 60% mais pênaltis em seu estádio do que qualquer outro adversário, os mesmos que fazem uma agremiação perder pontos e ser rebaixada pelos mesmos motivos que outras são absolvidas.

Em poucas horas o jogador expulso e o time rebaixado se tornam “imprudentes”, responsáveis pela violência a que foram submetidos. O jogador vítima do racismo se torna culpado por ter feito uma denúncia e as vaias, tão ou mais racistas do que gritos de “macaco”, se tornam sua obra. Críticos de pastores homofóbicos chegam ao delírio chamando o torcedor adversário de viado. Inconformados com a corrupção “de tudo que está aí” buscam releituras das regras para justificar uma vitória conduzida desde o primeiro minuto pela arbitragem.

E assim, nos dias em que não há futebol, a criança de um ano de idade bombardeada com lacrimogêneo é a culpada por não respirar oxigênio, pois estava onde não deveria. O pobre é culpado por não ter nascido em condições de ficar rico. O camelô que leva um tiro na boca é tão responsável pela sua morte quanto o homicida que puxou o gatilho.

Esporte é para dar sanidade a corpo e mente. Na TV tem feito justamente o contrário.

*Fabio Venturini é jornalista

domingo, 8 de setembro de 2013

A briga entre o mar e o rochedo

Disputar um campeonato difícil (e ruim) como o Brasileiro na condição de patinho feio é complicado. Como o esporte é tratado como mero negócio (ou um negócio de meretrício), quem não for economicamente atraente é expurgado.

O critério técnico, que deveria ser o único a nortear a disputa, é relegado a um segundo plano. A própria TV, com a sua divisão de cotas desigual, cria um apartheid entre os clubes. Isonomia? Não, isso é palavrão. Aliás, palavrão pode até ser dito, igualdade, não. Justiça, então? Esqueça!

O futebol é um patrimônio cultural e imaterial do país. É tão do povo quanto são a água e o ar. Sendo assim, não tem (ou não deveria ter) dono, exceto o próprio país. Então, como ocorre com as empresas que exploram os recursos naturais, deveria haver uma compensação por parte da detentora dos direitos de transmissão, que deveria abrigar em sua grade todos os times. Os 20.

Tudo joga contra: a confecção da tabela, que marca muitos jogos em casa para às 21 horas, o que afugenta o torcedor do estádio; a composição desse engodo imposto pelo estatuto do torcedor, que é o sorteio da arbitragem. Vendido como forma de tornar transparente a escolha de quem vai apitar a partida, não passa de um sofisma, de uma meia-verdade. É só colocar no sorteio juízes "caseiros" ou aqueles, digamos assim, mais suscetíveis a pressão, menos tenazes, quando for interessante que o time da casa vença.

Quando for o contrário, chama-se os gaveteiros e carreiristas, que eles fazem o serviço. Transparência garantida. Eficácia, ainda mais. Desta forma, os interesses econômicos ficam acima da disputa desportiva. O triste é que tem torcedor (e não são poucos) que acha isso certo. A diferença entre a indignação e o esfregar das mãos está em saber para qual lado o apito será soprado. Reflexo de uma sociedade cada vez mais corrupta e hipócrita, qualquer que seja o nível, qualquer  que seja a classe.

Assim fica fácil ser grande. Aliás, grande, não! Forte. E é uma força relativa. Eu, por exemplo, sempre preferi andar a pé a usar um carro roubado. Mas nem todos pensam assim, sobretudo quando são agraciados pelos resultados pré-fabricados.


É como a briga entre o mar e o rochedo, na qual quem leva a pior é o marisco. E o marisco, no caso, é o futebol.

A escolha de Sofia

Valdomiro é contigo por companheiros após ser
agredido por policiais (Lucas Uebel/Preview.com)


Desde que resolvi ser jornalista, minha postura mudou. Deixei de fazer determinados tipos de comentário nas redes sociais apenas porque acho que somos responsáveis pelo que falamos, e que em algum momento o que eu disser volta pra mim, como uma pedra que é atirada pra cima. Ela desce mais pesada.
  
No início deste ano, tornei-me assessor de imprensa da Portuguesa e restringi ainda mais os temas abordados por mim, abertamente. Não poderia criticar o meu empregador, pois não sou burro (apesar de muita gente achar o contrário), tampouco elogiar, pois do lado de cá do balcão eu deixo de ter isenção para tal.

Entretanto algumas coisas exigem mudanças de comportamento. Mesmo não sendo saudável ou sensato de ser feito. Por mais que o lado profissional exija uma distância, uma frieza, futebol é movido pela paixão e é impossível manter-se frio o tempo todo, principalmente depois dos acontecimentos do jogo contra o Grêmio.

Trabalhar para a partida, de antemão muito difícil, conseguir dar a volta a uma situação completamente desfavorável e ver tudo desmoronar por causa da atuação nefasta da arbitragem causa mais que dor. Causa repulsa, indignação. 

É difícil manter o equilíbrio e o bom humor. Perder é do jogo, assim como vencer também é e se faz necessário que o preparo seja feito para as duas situações. O árbitro é passível de erros, posto que é humano, e esta é outra circunstância inerente ao jogo: o erro. Só que existem erros inaceitáveis, assim como os de Curitiba. Sequências deles, então, chegam a cheirar mal.

Os jogos da Portuguesa, em casa, têm sido marcados para horários desfavoráveis, o que afugenta ainda mais a presença do torcedor. A cota de TV, então, chega a ser ínfima, quase uma piada, se comparada com o que times "de massa" recebem. Acabamos ficando sem a receita da TV e sem o que poderia ser arrecadado nas bilheterias, caso nossos horários fossem decentes. Potencializam a desigualdade e, então, sem recursos, torna-se preciso buscar soluções, mesmo que desagradáveis. Aí "vende-se" o mando, o que não agrada ninguém.

Mas engana-se quem pensa que fazemos isso por gosto. O dinheiro que entrará equivale a mais de dez bilheterias "comuns", por assim dizer. Acontece que, ao tapar um santo, acabamos descobrindo outro, quiçá tão milagreiro quanto. Perdemos o fator campo, que é importantíssimo. Mas e aí? Como faz? É a escolha que Sofia precisa fazer. E sempre haverá descontentes. O trabalho que vem sendo feito acaba por ser julgado a partir da frialdade dos números. 

Só que os números ficam viciados, comprometidos. Campeonatos são decididos assim. Rebaixamentos também. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sobre blá-blá-blás e chororôs

*por Fabio Venturini


Quando o jogo de futebol é visto no estádio, a impressão de tudo o que ocorre em campo é bruscamente distinta da que se tem quando assistido em casa, mediada por uma transmissão televisiva. No campo se sente a temperatura do jogo, percebe-se o comportamento de quem não aparece na tela e até as nuances da relação entre a arbitragem e os demais personagens.

A pior sensação para alguém que sai do estádio é se deparar com esta mediação pós-jogo absolutamente voltada a criar realidades paralelas ou desviar a atenção. Quando a arbitragem obviamente decidiu os resultados de uma partida ou de um campeonato, os esforços para isentá-la ou desviar a atenção são grotescos.

O conceito pronto é: quem perde sempre reclama e isto é chororô.

Nenhum comentário posterior altera resultado de partida. Porém a cobertura, em qualquer área, molda comportamento e alimenta ignorância.

Se alguém se sente prejudicado no futebol é tolhido do direito à contestação (lusitanos e botafoguenses entendem bem disso), tornando-se o bobo da vida real pela virtualidade criada. Tal estrago é feito especialmente pelo jornalismo esportivo brasileiro, ou pelo menos o que se chama com esse nome por aqui no que é na realidade marketing de entretenimento voltado ao desporto.

Quando arbitrar é jogar                                                          
Juiz de futebol erra como todo ser humano, mas ganha bem para não errar. Um árbitro de campeonato de primeira divisão nos centros mais ricos do Brasil junta vencimentos mensais oriundos do apito maiores do que os salários e direitos de imagem de 90% dos jogadores de todo o País do Futebol. É dever se preparar física e tecnicamente. E eles se preparam.

Nos maiores e melhores campeonatos europeus, o inglês e o alemão, os juízes não são profissionalizados e também erram. O tema é tratado como variável do jogo pela imprensa (de sensacionalismo os britânicos conhecem). Atletas e comissão técnica não reclamam.

Então o que gera o “chororô” dos perdedores daqui?

A diferença está na natureza do erro e no processo em que ele ocorre. O juiz de futebol deste lado do Equador é orientado a jogar o jogo, sem se limitar à aplicação de regras. Tal prática se escancara nas falas dos ex-árbitros e hoje comentaristas, errantes contumazes de outrora, que afirmam sem o menor constrangimento que o juiz tem que controlar a partida adotando critérios variáveis para marcação de faltas e aplicação de cartões.

Aberto está, portanto, o portal da manipulação. Como juiz de futebol, uma espécie de poder executivo, polícia ostensiva e judiciário, concentrados em uma única pessoa, o cidadão pode usar critérios diferentes em lances semelhantes.

Pode ser leniente com o retardo do jogo no primeiro tempo e aplicar cartão somente para não pendurados aos 40 do segundo. Pode marcar faltas inexistentes e parar a partida quando uma equipe pressiona a outra. Escolhe-se o momento de usar ou não lei da vantagem. Pode deixar de punir uma agressão com cartão vermelho porque está no começo do espetáculo ou expulsar algum atleta mais visado em lance bobo para não perder o controle. Pode tudo o que o próprio critério mandar para dar emoção à partida ou qualquer outra coisa que o valha. É o 23º jogador.

Em nenhum campeonato nacional transparente ou nas competições internacionais mais badaladas voltam-se cobranças de pênaltis porque o goleiro adiantou (nem mesmo na Copa do Mundo ou na UEFA Champions League). O motivo é simples: a regra diz que o arqueiro deve estar com os dois pés sobre a linha do gol na hora da cobrança, mas nenhum guardametas do planeta os mantém lá onde deveriam estar. Se forem adiantadas de 30 centímetros ou dois metros, ambas são infrações à regra. Sendo impossível cumprir, a isenção é universal.

No Brasil adotou-se a regra da tolerância a critério do árbitro. Novamente ele, o homem do apito, faz mais uma jogada e decide quem merece uma segunda chance. Numa partida pode ser um passão, na outra um passinho, em outra somente se forem seis passos após nove cobranças com goleiros adiantando pelo menos um metro... O comentarista valida, o espectador distraído ou propositadamente tendencioso concorda.

Conveniência
Não existe padrão ou cumprimento claro da regra na arbitragem brasileira, até porque, ao contrário do que se diz na TV, a regra não é tão clara assim se estiver condicionada à cabeça de uma pessoa. Tudo está na conta da interpretação do árbitro, mesmo em lances não interpretativos. Pode isso Arnaldo? No Brasil pode. Destroem-se todas as formas de identificação se os erros são gerados por má fé ou incompetência. Nenhuma delas é combatida. Reclamação é chororô. A resposta é um irônico blá blá blá.

Seria ótimo se ficasse tudo no mero âmbito futebolístico, mas o mesmo critério alimentado pela ignorância e conveniência de quem tem o alcance da opinião pública vai ser usado para debater pena de morte, maioridade penal, verbas para educação e isenção de IPI.

Nas ligas desportivas em que o desempenho dos atletas define o resultado, erros não são tolerados, motivo pelo qual há um trabalho imenso para evitá-los. Talvez o melhor exemplo seja a National Football League, aquele campeonato dos Estados Unidos em que se joga um esporte também chamado futebol, mas com as mãos e uma bola oval.

Na NFL os árbitros são profissionalizados, com obrigação de conhecer e estudar o espesso livro de regras absolutamente claras e objetivas. Têm ajuda de vídeo para analisar lances dos quais não têm certeza da marcação e jamais tomam uma decisão sozinhos. A falibilidade humana é atenuada dentro do jogo para não influenciar resultados de partidas ou de campeonatos.

Este nível de profissionalização eleva salários. Tanto que no início da temporada de 2012 da NFL houve uma greve dos juízes por melhores rendimentos diante do aumento das entradas da liga, girando na casa dos bilhões de dólares. A paralisação fez com que a direção da NFL escalasse amadores para arbitrar as partidas.

Os muitos erros cometidos pelos substitutos despreparados permitiram que jogadores encenassem lances e algumas partidas terminassem melhor do que o merecido desportivamente e dentro das regras para times da casa ou de mais badalação. A credibilidade da liga foi abalada. A incompetência cheia de boas intenções deu lugar novamente à coibição do erro processual e os milionários salários pedidos pelos juízes profissionais foram pagos para não lesar a imagem da liga e a veracidade de seus resultados.

No futebol da bola redonda a credibilidade é o que menos preocupa, tudo fica como está. Erros se justificam natural e cinicamente com a incompetência, mesmo quando há má fé. Os meios de comunicação de rede nacional usam concessão pública para institucionalizar o jeitinho ou a desonestidade. O marketing de entretenimento esportivo travestido pela linguagem jornalística valida e o expectador com preguiça mental aplaude.


Como incansavelmente dizia o Sócrates, ora em sua excelente coluna na Carta Capital, ora no Cartão Verde, da TV Cultura, a direção do futebol não muda as regras e não organiza decentemente a arbitragem para poder escolher resultados e vencedores. Se o Doutor, provavelmente o maior jogador da história do Corinthians e que conhece o futebol por dentro, dizia categoricamente o que dizia, quem sou eu para lançar blá-blá-blás sobre chororôs quando um jogo e um campeonato são decididos pelo apitador?

*Fabio Venturini é jornalista

domingo, 14 de outubro de 2012

Rebaixem a Portuguesa!

A Portuguesa recebeu o Corinthians no clássico paulista da rodada, no Canindé. O time, que vinha desfalcado pelos volantes Boquita e Léo Silva, cortou um dobrado para segurar o ímpeto do Alvinegro, seguramente mais time, mais inteiro e com Romarinho e Douglas afim de jogo.

O gol da Lusa saiu num lance fortuito: bola na área, em falta batida por Marcelo Cordeiro. Ninguém cortou e a pelota foi direto para o golo do Cássio, assim como foi o golo do Corinthians no primeiro turno, pelo mesmo Douglas que, cinco minutos depois, marcou um golaço, no ângulo direito do guardarredes Dida. Aí a partida ficou à feição corintiana, que pressionou a Lusa e perdeu um monte de golos.

No segundo tempo a Lusa voltou melhor. Colocou uma pressão e logo no começo chegou ao segundo golo, após chute do bom Zé Antonio, que Cássio soltou (mais uma falha do apenas regular guardarredes corintiano) na cabeça de Bruno Mineiro, que teria marcado seu 15º tento. Lance rápido, difícil, que o bandeirinha invalidou. Outra vez. Foi o terceiro golo do avançado sonegado na competição. O segundo seguido. O terceiro legal. 

No momento do chute, Bruno Mineiro está na mesma linha: gol legal
A Lusa começou o campeonato como poule de 10 entre os times favoritos para cair. No entanto, o trabalho do técnico Geninho é notável e, mesmo numa condição ainda incômoda na tabela, é a Portuguesa que joga o futebol mais vistoso do campeonato. Mas isso parece incomodar.

Em um exercício rápido de memória, dá pra lembrar, assim, de largada, pelo menos seis jogos em que a arbitragem arrebentou com a Lusa. Nenhum lance duvidoso teve o apito pendendo pros lados do Canindé. Nenhum!

Já ficou chato esse negócio de anularem golos da Lusa. Contra o Cruzeiro, o jogo estava 1 a 0 a favor dos mineiros quando Bruno Mineiro marcou. Tudo bem, o Marcelo Cordeiro estava milimetricamente impedido, mas estava. No entanto, contra o Corinthians estava na mesma linha. Foram dois lances difíceis, e nos dois a arbitragem decidiu pelo lado de sempre: contra a Portuguesa.

Marcelo Cordeiro está à frente do penúltimo homem: impedido

Se é assim, CBF, faça o seguinte: invente um jogador irregular, tire uns 200 pontos, suspenda e rebaixe a Portuguesa e acabe de vez com essa palhaçada.

sábado, 1 de setembro de 2012

Estômago


Quando fui fazer a ficha técnica do Clássico da Colônia deste sábado, meu estômago embrulhou. Vi que a arbitragem ficaria por conta de Heber Roberto Lopes, o nefasto árbitro que apita pela Federação Catarinense de Futebol, mas tem os mais relevantes serviços prestados à FERJ. 

Ele, que diz se espelhar no mítico italiano Perluigi Collina, mas é um herdeiro legítimo de gente como Armando Marques, Dalmo Bozzano, Marcio Resende de Freitas e Javier Castrilli, foi o árbitro dos jogos da Lusa contra Vasco e Botafogo, dois times do Rio. Dois jogos em que a Portuguesa jogou bem. Dois jogos em que não venceu. Dois jogos em que ele, Heber, interferiu diretamente no resultado ao sonegar duas grandes penalidades para a Lusa.  


Não é novidade. Em 2008, o mesmo Heber apitou Flamengo e Portuguesa. Dou um pastel de Santa Clara para quem adivinhar para qual das duas equipas ele não apitou um pênalti. Dou um pastel de Belém para quem me disser qual das duas caiu no fim do campeonato. Dou uma passagem de primeira classe para a Ilha da Madeira a quem encontrar uma razão, uma só, que possa explicar como ele ainda apita jogos da Portuguesa.

Nesta primeira noite de setembro, em São Januário, ele fez o que chamo de "apitar com luvas" para não deixar digitais na cena do crime. A expulsão do defesa Valdomiro, ainda na primeira parte, foi inconcebível. A grande penalidade no avançado Bruno Mineiro aconteceu já a cinco minutos do final do jogo, quando pouca coisa ainda poderia acontecer, mas poderia. O fato é que ele, outra vez, não marcou. Outra vez, prejudicou o mesmo time. E este time, outra vez, foi a Portuguesa.

Heber Roberto Lopes é um mal para o futebol. Mas é um mal menor. O mal maior é quem o coloca no sorteio, que por si só já é uma excrescência. Uma excrescência para a qual deve-se ter mais que paciência ou indignação. Deve-se ter estômago.  

domingo, 12 de agosto de 2012

O de sempre

A Portuguesa conheceu, contra o Botafogo, o quarto empate nos últimos seis jogos. São seis partidas de invencibilidade, o que deveria ser uma marca a ser comemorada, principalmente porque o time a Lusa debutou na competição com o selo de candidata ao rebaixamento estampado na testa em dez em cada dez listas, inclusive na minha.

Deveria, não fosse por um detalhe. Nestes empates, em todos eles, o time do Canindé foi prejudicado, e muito, pela arbitragem. Pênaltis não dados nos jogos contra Corinthians, Flamengo e Botafogo, fora o gol mal anulado contra o Bahia.  

O lance no clássico contra o Timão foi o único duvidoso, dos citados. No entanto, a não ser que o árbitro tivesse certeza absoluta de que a camisola do avançado Héverton não tenha sido puxada - e foi -, a grande penalidade deveria sim ser marcada, uma vez que a recomendação da Internacional Board, órgão que regula as regras do futebol, é a de prevalecer o ataque em caso de dúvida. Não é regra, é recomendação, e essa subjetividade acaba criando um conceito informal, quase uma lei, de que, em caso de dúvida, a decisão seja contra a Portuguesa.

No jogo contra o Bahia, o golo anulado é emblemático. Bruno Mineiro, avançado que balançou a rede, estava em posição legal por questão de não mais que 15 centímetros, o que, teoricamente, concederia a remissão do pecado ao auxiliar que impugnou a jogada. Teoricamente, já que tanto o avançado quanto o defesa contrário estavam parados, e o bandeira ainda tinha a linha da pequena área como referência. Uma baba. Mas outra vez houve dúvida. Outra vez a defesa prevaleceu. Outra vez contra a Portuguesa.

Já os penais contra Flamengo e este último, contra o Botafogo, foram escandalosos, um escárnio. Este, então, beira a imoralidade, dada a posição do árbitro-que-se-julga-juiz Héber Roberto Lopes. Ele estava na diagonal da jogada, sem ninguém interpondo-se a ele e o lance, que foi mais claro que a sua reluzente careca. Aquele, diante dos rubro-negros, uma voadora por trás bem no meio do mesmo Héverton, tirou-lhe a chance do golo que poderia dar a vitória para a Lusa. Houve tudo o que os comentaristas consideram infração: uso desproporcional de força, imprudência, falta. E outra vez o jogo seguiu. E, mais uma vez - duas, no caso -, a prejudicada foi a Portuguesa.

Geninho tem feito milagre com o time limitado que tem na mão. A missão de permanecer na elite, que por si só já seria das mais árduas, fica potencialmente dificultada por conta da má vontade dos péssimos sopradores de apito. Não é choro de mal perdedor (ou empatador), mas foram oito pontos sonegados. Oito pontos que colocariam a Portuguesa na sexta posição, e que certamente farão falta no frigir dos ovos, seja qual for a colocação da Lusa no final do campeonato.   

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Batalha de Nuremberg



Corria o ano de 1945 quando Nuremberg, na Alemanha, sediou aquele que foi o julgamento mais emblemático de todos os tempos. No dia 20 de novembro daquele ano os principais líderes do III Reich começaram a ser julgados pelos crimes cometidos durante o regime nazista de Adolf Hitler. O tribunal decretou 12 condenações à morte, três prisões perpétuas, duas condenações de 20 anos de prisão, uma de 15 e outra de dez anos, além de três absolvições. O episódio ficou para a História como o "Tribunal de Nuremberg".


A mesma cidade alemã foi, quase 60 anos depois, o palco de um dos maiores e mais violentos jogos da história das Copas. Portugal e Holanda degladiaram-se – literalmente – pela fase de oitavas-de-final da Copa de 2006. A Selecção das Quinas ficou com a vaga, mas começou a perder o Mundial naquela partida.


O jogo marcou um duelo no mínimo interessante: Scolari x Van Basten. Quando eram jogadores, tratavam-se de atletas com características completamente opostas. Se Luíz Felipe Scolari era um zagueiro tosco e de parcos recursos técnicos, tendo passado sua carreira obscuramente por clubes de pouca expressão, Van Basten foi um dos melhores atacantes de todos os tempos, tendo brilhado pela própria seleção holandesa e pelo grande Milan da década de 80.

A primeira fase foi mais tranquila pro time de Felipão do que para os comandados de Marco Van Basten. Portugal terminou em primeiro lugar no Grupo D, com três vitórias, contra Angola, Irã e México. Já a Holanda, que esteve no chamado "Grupo da Morte", terminou na segunda colocação, com sete pontos, ao lado da Argentina, mas com saldo de golos pior e à frente de Costa do Marfim e Sérvia e Montenegro.

Um ingrediente novo esquentava o confronto: a recente rivalidade entre as seleções. Portugal fora algoz dos holandeses nas Eliminatórias da Copa de 2002, quando estes sequer foram à repescagem. Dois anos depois, na Eurocopa, Portugal voltou a despachar a Holanda, já nas meias-finais. E no dia 25 de junho, no Frankenstadion, estavam frente a frente, mais uma vez.

Para mediar o jogo a FIFA designou o árbitro russo Valentin Ivanov. Foi uma guerra. Logo aos sete minutos o cavalo holandês Boulahrouz entrou, criminosamente, de sola no Cristiano Ronaldo, causando sua saída da partida minutos depois. Ivanov deu apenas cartão amarelo ao holandês, quando a cartolina encarnada cabia perfeitamente.



Foi a deixa pro pau comer. Ao final do duelo, foram 20 cartões, sendo 16 amarelos (nove para Portugal e sete para a Holanda) e quatro vermelhos (dois pra cada lado). Nunca antes se mostrou tantos cartões num só jogo em Copas.


Em momento algum o árbitro teve o comando do jogo. O primeiro cartão recebido pelo meia Deco, por exemplo, ocorreu após um erro grotesco do russo: a Holanda estava no ataque quando o defesa português Ricardo Carvalho atirou-se à bola para barrar uma finalização de Kuyt. A bola ficou com os portugueses, que armaram um contra-ataque letal. Inexplicavelmente, quando o esférico já estava perto da área holandesa, o jogo foi parado para que o luso fosse atendido. 

No reinício, quando Portugal esperava que a Holanda devolvesse a bola, Heitinga partiu em velocidade contra a baliza defendida por Ricardo. Deco deu no meio dele e recebeu o cartão. Minutos depois, ao retardar o reinício da partida retendo a bola, foi expulso. No mais, pouco futebol e muita, mas muita, pancadaria. Nem o craque Figo passou incólume: durante uma das diversas confusões, o então melhor do mundo deu uma cabeçada no carniceiro Van Bommel, mas só recebeu o amarelo.




Ah, o placar do jogo foi Portugal 1 x 0 Holanda, gol de Maniche, aos 23 minutos do primeiro tempo. Depois despachou a Inglaterra, nos pênaltis, e só caiu na semi-final (e no apito) contra a França.




Imagens: ESPN