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domingo, 19 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 10 - A última pílula

 *Por Humberto Pereira da Silva

1. Essa Copa me espantou a interação por meio de redes sociais. Interação que aos meus olhos assusta quando vislumbro os anos à frente. Principalmente, tenho em vista as possibilidades advindas com a Inteligência Artificial. 

A manipulação, sim, de imagens e, num nível com risco de escapar ao controle, fomentar clima de desconfiança generalizada. A coisa pareceu ainda tímida e amadora. Amanhã pode ser profissional e articulada a interesses subterrâneos.

2. O uso do VAR atingiu um ponto em que sua finalidade é praticamente contrária ao seu propósito.

A finalidade última da VAR, qual é? Evitar erro ou, pelo menos, os erros claros. Ora, o olho humano, a reação a uma situação e tomada de decisão sem mediação nas circunstâncias de uma partida de futebol são impossíveis com erro zero para o ser humano melhor preparado. Mesmo assim, o que seria um erro claro, se a própria clareza ou obviedade parte do subjetivismo de que uma falta pode ter sido evidente para um e, para o outro, não?

Centenas, milhares de imagens, "veem" o que um árbitro não vê em tempo e velocidade real para poder decidir sem qualquer margem a erro. O caso é que, justamente, num lance de azar milhares de imagens multiplicam em escala exponencial a possibilidade de erro na decisão final. 

Há sempre, com boa vontade e não sendo IA, um ângulo na captação de uma imagem que poderia mudar uma decisão. Se por azar essa imagem, o ângulo em que a imagem seria obtida, escapar, jamais for vista ou percebida. E não há nada, ao menos por ora, que iniba o efeito da paralaxe.

Não é o caso de dizer que, com a multiplicidade de imagens, jamais se pode ter certeza de acerto numa decisão. E se um ângulo não visto mostrar o que ninguém viu? E quem decide quais imagens serão disponibilizadas? Lembrem-se do escândalo que foi o "erro" que proporcionou à Noruega vencer o Brasil em 1998. "Um roubo!", disseram. No dia seguinte, uma TV sueca mostrou um puxão de Junior Baiano na área e o erro tornar-se-ia um acerto horas depois. Até lá, Inês já era morta. 

3. Tendo em mente o assunto multiplicação, a multiplicação de opiniões divergentes de "especialistas" em arbitragem merece destaque a parte. Se especialistas divergem, cada qual tem por óbvio uma opinião. Se cada um tem opinião, entre opiniões e opiniões nada difere, além de frágil pomposidade tecnicista, a opinião de um "especialista" da de um tosco torcedor. Novamente, o erro claro e evidente não passa de utopia.

No bizarro show business propiciado pelo megaevento Copa do Mundo, "especialistas" em arbitragem despontam bem no espetáculo como meros fantoches numa encenação que flerta com o teatro do absurdo.

4. Tudo que se viu, vi, na Copa do Mundo, e tudo gerou algo como a situação jogo sim e outro também no Campeonato Brasileiro, o grotesco show de horrores: sempre a reclamação por ou pênalti marcado ou não marcado; sempre uma entrada com "força excessiva" ou não para uma expulsão... sempre... um tempo enorme de discussão estapafúrdia para delírio de anunciantes e especuladores que dominam as Big Techs, ávidas pela audiência, ou melhor, engajamento, que uma discussão gera. Nem precisa ser uma boa discussão, basta se barulhenta.

5. Tudo isso e ainda algo que em certo momento ficou até brega, meio assim o excesso de elogios fora de hora é de mau gosto. 

Mas o caso é sobre o excesso - com o perdão da redundância - excessivo,  desmedido de dados, números, estatísticas, tabelas... muitas vezes de gosto tão duvidoso que chega a ser constrangedor, um insulto à inteligência. Fulano supera Pelé, Beltrano fez mais goles com a parte interna do pé que..., Sicrano bateu o recorde de assistências com o lado direito do peito...

Dados, números, estatísticas são provas cabais de feitos: negá-los é burrice; exaltá-los acriticamente é estupidez.

Pelé não é Pelé porque ganhou três Copas do Mundo. Pelé é Pelé mesmo participando integralmente só e tão só da conquista da Copa de 1970.

Números incautos enganam: é estupidez retirar a majestade do Rei no dia seguinte em que um plebeu qualquer ganhar três Copas e jogar todos os jogos nas três conquistas. Mas o público gosta. E o historiador que se vire com o anacronismo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 8 - Entre o complexo de vira-latas e a soberba

 *Por Humberto Pereira da Silva


Imothy A. Clary/AFP

Há um assunto bastante sensível com derrota do Brasil em Copa do Mundo e igualmente inevitável: apontar o dedo para culpados. 

Na história do futebol brasileiro, ganhou dimensão trágica com a derrota para o Uruguai em 1950 a culpabilidade atribuída aos personagens Barbosa e Bigode, os vilões da vez.

A questão da culpa. Uso a palavra com o sentido de causa e efeito. Tendo erro, o erro implica num resultado final. Esconder essa simples relação lógica de causa e efeito e põem-se as coisas embaixo do tapete. O futebol, por tudo que envolve, não admite complacência. 

A questão da culpa, no entanto, diz respeito a uma complexidade que convém dada à monumental exposição a que as vitrines, os jogadores, estão submetidos. Nas vitórias, suas imagens se servem aos interesses mais escusos, como as promessas e planos até de carreiras políticas malogrados com o Maracanazo. Porque envolvem tantos interesses, nas derrotas se servem bem como cordeiros para o sacrifício, para evocar ritos sacrificiais bíblicos. Abraão convenientemente leva o cabrito.

De 1950 para cá, 76 anos, há uma História do futebol brasileiro. Não uma história com o sentido vago da palavra, mas sim uma História com momentos que sinalizam auge, época de ouro, ou qualquer termo similar, e decadência. Tudo que mobiliza a escrita da História. 

A palavra "decadência", terrível, e usada não raro de modo vago, ou evitada, é contudo com ela que se escreve a História. A derrota em 1950, e seus culpados convenientes, levou Nelson Rodrigues a expressar o "complexo de vira-latas" para se referir ao futebol brasileiro. 

"Psicanaliticamente", esse complexo foi superado com a era de ouro da geração Pelé, Garrincha e Didi. Houve, sim, a frustração com a geração Zico, Sócrates e Falcão. Mas as gerações Romário e Bebeto; Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho pusera, os pingos nos is. 

Ocorre que, do complexo de vira-latas o futebol brasileiro passou à soberba. E esse sentimento de soberba, que implica não se dar conta da decadência, é o grande nó que, como na Copa de 50, teve para mim o ponto de inflexão na derrota para a Alemanha em 2014 por 7x1.

"Psicanaliticamente", o 7x1 foi denegado. Ao contrário do complexo de vira-latas de Nelson Rodrigues pós-50, o inimaginável 7x1 numa semifinal de Copa do Mundo não afetou a soberba: somos os melhores, não perdemos por que seleções A ou B ou C podem nos vencer, como têm vencido, mas por que os culpados são tais e tais jogadores. 

Impossível dizer se à frente se perceberá que erros cometidos por jogadores desta geração, portanto com atribuição de culpa, serão entendidos como sinais de decadência, fragilidades visíveis e que têm se repetindo previsivelmente. 

A História é caprichosa e móbil. A Argentina, que tanto orgulho tinha de seu estilo próprio de jogar futebol a ponto de chamá-lo La Nuestra (até o choque de realidade que recebeu em forma de um 6 a 1 aplicado pela Tchecoslováquia em 1958), ficou três décadas sem nenhum título, mesmo com Messi e cia. E agora? Bem, se o Brasil em 58 superou o complexo de vira-latas, quem sabe nos próximos anos, com novas derrotas, não superaremos a soberba.

Ah, para concluir: a soberba na eliminação recente para a Noruega, o modo no mínimo risível com que depois do pênalti convertido em gole Neymar provocou o goleiro norueguês. Quem é você, Nyland, que ninguém sabe quem é? Eu sou Neymar, camisa 10 da seleção brasileira.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Copa do Mundo em Pílulas - 7 - Redes sociais, manipulações e a imbecilização

 *por Humberto Pereira da Silva

Anos atrás, o célebre intelectual italiano Umberto Eco afirmou que "as redes sociais deram visibilidade a legiões de imbecis".

Para ele, o que circula nas redes sociais coloca no mesmo patamar especialistas num assunto e oportunistas que mal sabem articular lé com cré. Por causa disso, a comunicação no espaço cibernético gera um excesso de ruído que dificulta separar verdade e falsidade.

Nesta Copa do Mundo, notadamente nas redes sociais, é impressionante ver como imagens mais casuais e aleatórias geram uma profusão maluca de insinuações. Os psicólogos sociais estadunidenses David Dunnig e Justin Kruger desenvolveram, nos anos 1990, uma tese segundo a qual algumas pessoas tendem a supervalorizar suas capacidades cognitivas, mesmo conhecendo pouco sobre determinado assunto, a ponto de tentar ombrear, por meio de mera opinião baseada em quase nada, seu conhecimento ao de especialistas na área.

Em concordância com teorias conspiratórias, a mais frequente é a insinuação de manipulação. Haveria, por exemplo, um complô entre a Fifa, órgãos da grande imprensa, patrocinadores e árbitros para favorecer Leonel Messi. 

Pulando de Umberto Eco para Juarez Soares, lembro que este ficou marcado pela frase que virou motivo de chacota: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".

O problema de quem insinua manipulação no futebol é tentar enganar, ou se enganar,  que uma coisa é uma coisa e outra coisa é a mesma coisa, como se houvesse uma relação nexo causal indiscutível: eu creio, eu quero; logo é verdade.  

Uma coisa é manipular; outra, o resultado da manipulação. O nexo é possível, mas só a prática realiza de fato a manipulação. Quer dizer,  simples e óbvio, qualquer manipulação pode dar errado na prática. 

Como diria Juarez Soares, nada de misturar as coisas. Então para mim a prática, o resultado, contraria o nexo necessário entre manipular e o resultado da manipulação. 

Mas, o que na prática, de fato, põe em xeque qualquer "teoria de manipulação" de resultado numa Copa do Mundo?

Basta um exemplo suficientemente prático. Pra mostrar na prática que o resultado de uma partida não resulta de manipulação, mesmo que de fato ocorra manipulação. 

A bola do holandês Rob Rensenbrick, aos 45 minutos do segundo tempo, na final da Copa de 78 entre Argentina e Holanda, acertou a trave argentina quando o placar estava 1x1.

Rensenbrick não teria sido avisado que não podia marcar o gol, pois a Copa havia sido manipulada para a Argentina ser campeã? Ou ele estava suficientemente avisado e por ser imensamente hábil quis matar do coração algum desavisado torcedor argentino ou holandês?

A bola de Rensenbrick na trave, capricho do destino, e a suspeita de manipulação do jogo Argentina e Peru, que tirou o Brasil da final, é tão só especulação. 

Veja, veja, é praticamente certo para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso que no mínimo o 6x0 da Argentina sobre o Peru é estranho. Ao ver rever aquele jogo é impossível dizer que o Peru não facilitou.

Então, vamos admitir que houve manipulação no jogo Argentina e Peru. Necessariamente temos que admitir que algo estranho também ocorreu com a bola na trave de Rensenbrick. 

É bom lembrar aqui que o craque Teófilo Cubillas acertou o poste quando o jogo ainda apresentava um nulo no placar. Logo, ele estaria na mesma condição de Rensenbrick.

Para admitir a manipulação de resultado, há de se admitir que Rensenbrick não podia não fazer parte do complô. Se de fato houve manipulação entre Argentina e Peru com a finalidade de dar à Argentina o primeiro título mundial, o insensato Rob Rensenbrick deve ter matado do coração algum General. 

Só pra dar ar de fantasia: imaginemos ele ter errado e feito o gol.

Sim, sim, há situações bastante estranhas numa Copa do Mundo. Tanto quanto, sim, sim, não separar uma coisa de outra coisa e só resta aplaudir a imbecilidade.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 17 de junho de 2024

BRASIL - O desinteresse pela seleção brasileira: reflexões sobre Cultura, Política e Economia do futebol

(Foto: Divulgação/Conmebol;UEFA)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

A Eurocopa começou e, com ela, emergiu a radicalização do discurso nas redes sociais contra os "colonizadinhos" que se interessam mais pelo futebol europeu do que pelo futebol-penta-campeão-do-mundo-aqui-é-brasil-com-muito-orgulho-com-muito-amor, uma releitura moderna da “síndrome de vira-lata”. É dever afirmar que “radicalização” e “redes sociais” são praticamente irmãos siameses, mas as disputas simultâneas de Eurocopa e Copa América devem potencializar essa polarização.

Sugiro que tentemos aprofundar o debate e fugir de respostas fáceis: por que a seleção não desperta o mesmo interesse de há 20 e poucos anos? Por que muita gente prefere um rival, como a Argentina? Por que reclamam quando jogadores de seus clubes são convocados?

Eu, que tenho ascendência portuguesa e me identifico como torcedor da seleção de Portugal, não sou exemplo de nada, tampouco sirvo para explicar qualquer tendência neste sentido. Além da minha origem, existe o aspecto cultural, e pesa a safadeza feita em 2013 com a Portuguesa, clube do qual sou torcedor e era assessor de imprensa à ocasião. Isso fez com que eu enterrasse de vez qualquer simpatia por qualquer coisa que tenha a chancela da CBF (exceto o futebol feminino, que não tem a devida atenção de todos os setores que atuam no futebol).

A mesma CBF, desde que repassou o direito de negociar os jogos da seleção para empresas de marketing esportivo, que passaram a levar a maioria dos amistosos para o exterior, afastou o torcedor (entre 2000 e 2019, foram disputados 135 amistosos, dos quais, 112 no exterior). Ainda assim, quando joga em território nacional, o preço é proibitivo. Para se ter uma ideia, em outubro do ano passado, quem gastou menos para ver o Brasil levar um gol de bicicleta da Venezuela na Arena Pantanal pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 terá desembolsado R$200,00 caso tenha tido direito à meia-entrada. O preço cheio variou entre R$400,00 e R$600,00 – pouco menos da metade do salário-mínimo vigente em 2023 (R$1.320,00). Aqui mesmo, publiquei uma comparação dos custos para um torcedor ver o jogo de sua seleção no Brasil e em Portugal.

O recente incremento financeiro no futebol brasileiro fez com que alguns atletas selecionáveis possam permanecer no Brasil, mas isso não significa que os clubes tenham fôlego para segurar seus principais talentos. Por outro lado, trouxe o inchaço do calendário, que recebe cada vez mais jogos e impede que haja, por exemplo, uma pré-temporada minimamente decente. Diferentemente do que acontece na Europa, o futebol daqui não vai parar durante a competição de seleções. "Ah, quando há jogo da Seleção, os clubes não jogam”. Sim, jogam, mas no dia seguinte. Então, desfalques irão ocorrer do mesmo jeito. E a culpa de uma eventual derrota será da seleção, já que ninguém tem a dignidade de assumir os próprios erros. Convenhamos: é fácil tacar pedra na Geni.

Outro ponto que traz chateação é o chamado "vírus-FIFA" (lesões ocorridas em jogos das seleções), essa ideia rasa que tenta convencer que os jogos entre selecionados, e não esse monte de competições de clubes, são os excedentes. Reitero: é confortável para dirigentes e treinadores transferirem a responsabilidade. Além do mais, está assim, ó, de torcedores que adoram achar que seu time está sempre contra-tudo-e-contra-todos, numa cruzada antissistema que só existe na cabeça vazia dessa malta.

Repito, não tenho a intenção de responder todas as questões ou passar o que penso como verdade inquestionável. Outros pontos que me escapam podem e devem ser considerados para ajudar a explicar esse afastamento.

A obrigação doentia de vencer a qualquer custo e que se lasquem os métodos que podem aproximar projetos de conquistas também não ajuda. Assim, muitos treinadores daqui adotam posturas defensivas porque precisam satisfazer a sanha do torcedor barulhento, alimentada por um sem-número de debates mais barulhentos ainda, para manter seus empregos. Boa parte da mídia também tem culpa no nível do futebol praticado e dos programas apresentados, que às vezes resvalam na indigência. Sequer temos uma escola tática, um estilo próprio, e isso tem influência direta do que é praticado lá fora.

Neste sentido, o período sem títulos nas Copas do Mundo diminui o interesse do torcedor que aprendeu que só quem vence é digno de respeito e os outros são um bando de fracassados. Não basta ganhar outras competições, como as continentais ou a Olimpíada, tem que ser o dono do mundo. Desde a primeira conquista brasileira, em 1958, o maior jejum de títulos correspondia a cinco edições, entre 1974 e 1990, igualado em 2022.   

A popularização das ligas estrangeiras também causa consequências no nível do nosso jogo, como se fosse simples emular o que é feito na Europa. Para isso, precisaríamos entender os conceitos, assimilar e dar tempo para que os trabalhos possam amadurecer. É como querer construir uma casa a partir do teto. Em vez disso, meia-dúzia de jogos bastam para definir se fulano ou cicrano servem – normalmente não servem. E essa histeria é alimentada pelos repetitivos programas de debates e suas "sensacionais e originais" enquetes para ouvir a "voz do torcedor". Como só vencer serve, criamos uma geração de consumidores, não de torcedores, que gritam "não pago meu sócio-torcedor pra isso!”

A facilidade para acompanhar campeonatos muito melhores também não ajuda, quando comparados com o que é praticado aqui. Então, a molecada que cresceu ouvindo que só a vitória interessa, vai gritar "meu City, meu PSG, halla Madrid!" Ou outro fortão da vez, pois isso também muda. Ou alguém vê mais camisas do Milan, febre da primeira década desse século, quando tinha brasileiros inquestionáveis na seleção, como Kaká, Cafu e Dida, do que de um desses endinheirados da vez?

Aí, criamos outro tipo de torcedor: o que torce pelo seu jogador preferido e leva uma leva de gente para onde for. Messi e Cristiano Ronaldo – e Neymar também bateu aí – são os expoentes dessa modalidade. Notem quantas camisas do Inter de Miami e do Al Nassr estão sendo expostas por aí, sobretudo nas crianças. E isso acaba refletindo também no futebol de seleções. Ao cabo, os candidatos a ídolos brasileiros não esquentam lugar, nem criam laços com clubes daqui, e muita gente não se sente representada, nem é brasileira-com-muito-orgulho-com-muito-amor.

Há outro ponto importante na comparação entre Copa América e Eurocopa: como o produto é trabalhado - e não adianta encampar o ódio-eterno-ao-futebol-moderno. É lidar, como diz-se em Portugal. A partir daí, entender como valorizar a competição como produto. Na sua coluna no Guia da Copa América e da Eurocopa da Placar - mesmo tratamento para ambas, mesmo espaço, bola dentro! -, o jornalista Vitor Sérgio Rodrigues fala, e bem, do desgaste causado pela exposição exagerada da Copa América, a ponto de ser banalizada. A Euro, uma mini-Copa do Mundo, é feita para ser exatamente isso. A competição da lamentável Conmebol - não que a UEFA seja muito melhor, mas sabe trabalhar - caminha para ser mais respeitada. Estabilizar o intervalo entre as edições é um dos passos pais importantes. 

Portanto, cada um que acompanhe o que quiser, sem essa de rotular sem contextualizar porque é mais fácil. Esta Copa América, que a Conmebol entregou para os Estados Unidos colocarem em gramados cujas dimensões são diferentes do que veremos na próxima Copa do Mundo (enquanto a Eurocopa é organizada como a própria Copa do Mundo), tem como maior atrativo ser provavelmente a última competição de Messi pela Argentina.

E todos somos responsáveis por isso.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Pílulas amadoras - 13

*Por Humberto Pereira da Silva

O Senhor Champions League (Getty Images)

Enquete é enquete e o ponto de partida de qualquer uma é gerar discordância.  O que não se deve esquecer em qualquer enquete: é soma de votos. Mas vamos lá: soma de votos da revista britânica FourFourTwo elegeu Cristiano Ronaldo como melhor jogador europeu de todos os tempos. Só para variar, eu discordo.

CR7 ficou na frente de Cruyff, Beckenbauer e Zidane. Esse seria, nessa sequência, meu Top 3. Destaco, de qualquer forma, duas coisas inevitáveis nesse tipo de enquete: a memória e o bombardeio de imagens de hoje. Puskas é 11º e Eusébio, 12º.  Eu não os vi jogar e as imagens deles são raríssimas. [N.E.: a revista Placar, referência brasileira no futebol, organizou a lista dos craques do Século XX a partir de votos de jornalistas das principais publicações esportivas do mundo e tanto Puskás quanto Eusébio - sétimo e nono, respectivamente, estavam no Top 10 mundial].

Em qualquer tipo de escolha faltam critérios e sobram subjetividade, impressão; não é possível ter critérios objetivos pra dizer que CR7 é superior a Eusébio, ou Puskás. Não sendo possível qualquer comparação, há algo nessa "escolha" que merece atenção. As opiniões sobre CR7 vão de A a Z. Há quem o veja apenas como um jogador comum e que se beneficia de enorme publicidade. Mas, vemos com a enquete FourFourTwo não ser pequeno o número dos que o veem como o melhor da Europa na história. 

Quando se pensa nos melhores da história, os sul-americanos de fato são mais lembrados que os europeus. Com ou sem memória ou volume de imagens circulando nos meios midiáticos. A arte de um Pelé, Garrincha, Maradona ou Messi é bem distinta da de Cruyff, Beckenbauer, Zidane ou CR7. Então fiquemos na Europa.  Se eu não colocaria CR7 no meu Top 3, igualmente não vejo absurdo nele ser para muitos o melhor jogador europeu da história. Ou, não vejo que na Europa houve jogadores que chegaram à dimensão de Pelé e Maradona. 

Qualquer lista europeia para mim será sempre fluida, maleável. Não vi George Best, mas, 14º, pela mitologia em torno dele, que tipo de jogador ele seria? Best talvez ilustre como memória afetiva e volume de imagens são determinantes nessas enquetes. E não devemos nos esquecer de que ele fez sua carreira vestindo a camisa do Manchester United, britânico como a FourFourTwo.

Considero, ainda, numa enquete assim. Ela comporta um sentido simbólico que só o futuro pode responder. A se percutir exaustivamente que CR7 é o melhor jogador europeu de todos os tempos, CR7 será mesmo o melhor jogador europeu de todos os tempos. Discordâncias sempre existirão. Pelé não escapa a quem ponha exageros em seus feitos. Mas a discussão é para quem acha exagero Pelé ter sido o melhor da história se ele foi ou não o melhor. 

Nesse sentido, é o que me parece uma escolha como a da FourFourTwo pode causar. A discussão se CR7 passará à história ou não como o melhor europeu.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

THE BEST: a constrangedora vitória de Messi

A FIFA realizou sua gala anual e o principal prêmio da noite, o de melhor jogador de futebol masculino do mundo, ficou com Lionel Messi. A melhor definição desta escolha foi do jornalista colombiano Juan Sebastián Pérez: é completamente constrangedora. Neste futebol que não aceita "derrotas", a ausência do jogador na premiação é um indicativo de que nem ele acreditava que venceria.

Se você, leitor, disser que a FIFA não tem culpa pelos votos, pois não é ela quem controla isso, saiba que existe uma grande chance de você estar errado. É certo afirmar que ela não obriga ninguém a votar, mas é a entidade que define o formato da eleição e este abre margem para distorções, como foi a atribuição de melhor para quem, honestamente, sequer deveria estar entre os 10, ou até entre os 50 melhores da temporada.

Um comitê de notáveis escolhe os nomes dos postulantes, que estarão submetidos aos votos de quatro categorias distintas: jornalistas (um de cada federação filiada), técnicos das seleções filiadas, seus capitães e o público em geral, com peso igual. Aí, como a escolha é livre e subjetiva, vale tudo, inclusive não se atentar ao período que deveria ser levado em consideração. Está aqui, explicadinho pelo goal.com.

Com o título mundial fresquinho e o nome dele lá, alguém acha mesmo que o torcedor vai se importar com o período? É obvio que não. Seria simples de resolver: os próprios ex-jogadores deveria levar em consideração o que ele (não) fez no período previamente determinado e fazer seu trabalho direito. 

No formato que tem, não é raro o troféu que a popularidade pese mais que o desempenho, bem como camaradagem, idolatria e patriotada. Isso talvez explique a escolha por quem, em 2023, teve um término de chorar no PSG, no qual não foi nem sombra do que pode ser, ainda mais tendo como base de comparação o desempenho na última Copa do Mundo.

Há quem defenda a tese de que o desempenho individual deve ser mais importante; para outros, não faz sentido o vencedor não ter conquistado títulos relevantes, como a Copa do Mundo, a Eurocopa ou a Liga dos Campeões. Ter feito que fez na Copa do Mundo do Catar garantiu, com justiça, a Bola de Ouro para o argentino, embora não tenha feito mais nada de notável durante os outros meses do ano, e nem precisava. Agora, porém, nenhum critério decente explica a escolha.

Uma deturpação desta natureza já havia sido feita em 2000, quando a FIFA, na falta de algo melhor para pensar, resolveu abrir para a geral votar no melhor jogador do Século XX. A votação livre indicou Maradona, com mais de 50% dos votos. Paralelamente, a entidade promoveu a mesma eleição, mas para os leitores se sua revista e neste caso deu Pelé. Então, salomonicamente, deu o prêmio aos dois. Segundo o então presidente, Sepp Blatter, "Maradona ganhou a eleição da juventude. Pelé, a eleição da família do futebol". 

Escolhas como esta, sem base técnica que as sustentem, dão margem a este tipo de esculhambação. Ainda assim, em se tratando de um esporte coletivo, prêmios individuais valem o que valem, mas deveriam valer menos.

Este prêmio não faz dele maior. Pelo contrário, diminui o valor dos outros recebidos anteriormente, pois os vulgariza, os banaliza. Como disse brilhantemente o professor de ética em jornalismo Humberto Pereira da Silva, colunista deste blog, é uma Vitória de Pirro, comandante romano que disse depois de ganhar uma batalha com grandes perdas: "Mais uma vitória dessa e estou perdido". 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

COPA DO MUNDO - Aos vencedores, as batatas

Foto: twitter/AFA

"A história é escrita pelos vencedores", já nos ensinou George Orwell. Por isso, e só por isso, Lionel Scaloni não terá que explicar porque uma final, completamente dominada e a 13 minutos do fim, tornou-se um drama que tango nenhum seria capaz de contar. Como o futebol ainda é um jogo, os mais entusiasmados, a turma do Messi-já-superou-Pelé, que, naturalmente, não faz ideia de quem é Nelson Rodrigues, Drummond ou Galeano (mas manja tudo sobre o esquema tático do Bournemouth), deve seus devaneios à falta de traquejo de um atacante reserva na cara do gol ou ao imenso Emiliano Martinez, comemoração fálica à parte.

Como a história é contada por quem vence, ninguém se lembrará que foi justamente o tal do bode que perdeu uma bola besta, em zona proibida, para um atacante, tal e qual um turista desavisado que anda por aí com a carteira pendurada no bolso de trás, culminando no gol de empate dos franceses.

Pelo mesmo motivo, Clodoaldo nunca precisou explicar o que deu nele quando resolveu dar de calcanhar, mesmo apertado por Boninsegna, quando o placar da final de 1970 ainda apontava um importante, mas magro, 1 a 0 para o Brasil. Cerezo, também um craque, como o camisa 5 do Tri, não teve a mesma sorte 12 anos depois. Felipão nunca teve que ouvir sobre a falta que Romário teria feito - ou fez - em 2002, e, se ouviu, certamente deu de ombros, ao passo que Lazaroni até hoje deve explicações além do "grupo fechado com a conquista da Copa América de 89" por não ter levado o Neto em 1990.

Aos vitoriosos, os louros, ou as batatas de Quincas Borba; aos que foram vencidos, as perguntas.

Nada disso, porém, poderá diminuir o feito de Scaloni, de Messi ou do Dibu Martinez. A Argentina é a justa vencedora de uma Copa tecnicamente muito legal, mas que ninguém se esqueça de tudo que antecedeu a escolha do país-sede, do softpower, do sportwashing, do cala-a-boca às entidades internacionais que deveriam fiscalizar e denunciar a ausência de condições de trabalho e violações dos direitos humanos. Não, isso nunca coube aos atletas. Não foram eles que foram convencido$ a escolher o Catar. Não serão eles os que deverão responder.

Bom, voltando, a Argentina, que levantou a Copa do Mundo também porque teve o seu grande craque na versão mais briguenta, sanguínea, humana e maradoniana possível - mas não somente pro isso -, merece todas as glórias e seus personagens têm a importância que têm. Nada a menos, nada a mais.

sábado, 2 de abril de 2022

COPA DO MUNDO - Ela vem aí!

Capitães campeões, Cafu e Matthäus participaram
 do sorteio (Shaun Botterill/Getty Images)

Sim, podemos dizer que a Copa do Mundo de 2022 já começou. Passadas as infindáveis Eliminatórias, quando o sorteio dos grupos é realizado e temos projeções e mais projeções de adversários que podem cruzar o nosso caminho - ou serem evitados a todo custo -, é que a maior competição futebolística do mundo torna-se algo palpável.

Antes de esmiuçar a sorte ou do azar que determinou os duelos e possibilidades até a final do dia 18 de dezembro, é preciso falar que a "escolha" do Catar como país-sede, com farta documentação contendo fortes indícios de corrupção, foi um troço inaceitável, além, é claro, das absurdas vistas grossas feitas pela própria FIFA para as condições - ou falta delas - de trabalho dos operários (ler o trecho da seleção catariana, no Grupo A). Como não recordar da fala emblemática do então secretário-geral Jérôme Valcke, quando ele ficou chiando sobre as dificuldades encontradas naquele Brasil pré-Copa para abrir a porteira e passar a boiada? Para ele, quanto menos democracia houvesse, mais fácil seria para organizar a competição (ou enfiar goela abaixo ou rabo adentro os gastos, para não dizer outra coisa, que este tipo de evento exige). 

Outra prova inconteste do padrão moral extremamente questionável da entidade foi suspender a Rússia pelo ataque militar à Ucrânia, mas fazer de conta que nunca viu coisas como a ditadura da Argentina, onde foi realizado, a toque de caixa, o Mundial de 1978 ou a Guerra do Golfo, liderada pelos Estados Unidos em 1990 e a posterior invasão ianque ao Iraque atrás de armas químicas que sequer existiam, em 2003. "Ah, mas era outro momento e outros dirigentes", o leitor poderá argumentar. Saiba que a Arábia Saudita tem atacado o Iêmen e ó, a FIFA nem se manifestou. Para ser justo, há três anos, a entidade máxima-mas-que-faz-o-mínimo deu um pito no país porque uma emissora local andou pirateando o sinal da Copa de 2018. Isso sim importa.

O ideal seria o local ter sido mudado. Como não foi e vai haver Copa de qualquer forma, vamos a isto. E, com a distribuição dos países, já dá para ter uma ideia do que virá. A grande novidade é que será disputada pela primeira vez entre novembro e dezembro para fugir do calor desumano do verão do Oriente Médio, ou seja, bem no meio do calendário europeu, onde milita a maioria dos jogadores que serão convocados. Por isso, como a entidade ainda não conseguiu alterar o Calendário Gregoriano para, sei lá, 13 meses, os clubes deverão liberar seus atletas para que se apresentem apenas a uma semana do início da prova. É uma vantagem para quem estrear mais tarde, como Brasil e Portugal.

Mas falando no sorteio, que afinal é o motivo deste raio de texto, ele reservou jogos bem interessantes para além dos recordes que volta e meia podem ser quebrados, como o número de jogos (caso Messi jogue todas as partidas e a Argentina chegue ao menos às semifinais) ou os gols marcados, posição liderada por Klose e que tem a ameaça, bastante remota, do compatriota Müller (10) e do quinteto Cristiano Ronaldo, Luis Suárez (7), Kane, Messi e Neymar (6), cujos postulantes precisariam fazer um mundial irretocável para isso.

Por falar em Messi, CR7 e Neymar, esta pode ser a última edição com o trio em campo. O desempenho ruim dos três em seus clubes - também pela zona que são United e PSG - pode fazer com que esta seja a única chance de salvar a temporada. Cristiano, com 37 anos, terá 41 na Copa de 2026. Messi, com 34, já estará ao pé da reforma e Neymar (30), embora não leve muito a sério, já ponderou que esta pode ser a sua terceira e última participação. 

Nos confrontos, reencontros históricos e com pitadas de geopolítica para ninguém colocar defeito, além dos sempre esperados duelos no mata-mata. A se lamentar, obviamente, a ausência da tetracampeã Itália e o cruzamento idiota que colocou Salah e Mané a brigar pela mesma vaga, e que só não fez o mesmo com Portugal e Itália porque a Azzurra conseguiu perder para a Macedônia do Norte.

Bom, feito este introito gigantesco, eis abaixo uma projeção grupo a grupo, seleção a seleção. Se alguém quiser dormir no meu barulho, é só me avisar que eu mando o pix para pegar minha parte do bolão.

Senhoras e senhores, divirtam-se! Alea jacta est! 

Grupo A
Catar (51º)
Países Baixos (10º)
Senegal (20º)
Equador (46º)

O Catar é o atual campeão asiático e tem todos os seus jogadores atuando no futebol local, e só está aí, repito, porque a FIFA é uma instituição com, digamos, padrões morais bastante elásticos. Além do propinoduto que inundou os bolsos de dirigentes suscetíveis a "agrados" (leiam os livros do saudoso jornalista escocês Andrew Jennings), a Copa custou a vida de ao menos 6,5 mil trabalhadores, isso sem contar as diversas violações aos Direitos Humanos, essa "bobagem" que a entidade máxima do futebol só leva em consideração no discurso. Apesar de ter adquirido experiência com a bem sucedida campanha na Copa das Nações da Ásia, do papel até digno na Copa América de 2019 e dos amistosos contra os times do Grupo A das Eliminatórias da Europa, deve levar três cacetes. Quem não torce por isso nem gente é.

A sorte sorriu para os Países Baixos - de volta à Copa após ter falhado a ida à Rússia - quando saltaram do pote 2 para o grupo do Catar, cabeça-de-chave que comprou a vaga na Copa ao comprar o direito de sediar a própria Copa. Novamente treinados pelo lendário Louis Van Gaal, que comandou a campanha do 3º lugar na Copa de 2014, os neerlandeses recuperaram a confiança e têm um time competitivo, embora ainda distante das principais forças da competição.

Atual campeão da CAN, o Senegal tem tudo para ser a sensação do torneio e - por que não? - repetir ou até superar a campanha de 2002, quando parou nas quartas-de-final e faltou um tiquinho só para pegar o Brasil na semifinal. Aliou Cissé, que esteve em campo naquela copa, tem um time bem interessante à disposição, com nomes entre os melhores do mundo em suas posições, como o goleiro Mendy, o zagueiro Koulibaly e o atacante Mané. 

O Equador, que teve uma classificação relativamente tranquila pensando na pontuação, apesar dos percalços no caminho, conta com o zagueiro Piero Hincapié, do Bayer Leverkusen, listado pelo CIES Football Observatory como um dos 10 melhores jogadores Sub-21 a atuar na Europa. Outro nome interessante é Pervis Estupiñán, de excelente temporada no Villarreal. Ademais, o técnico argentino Gustavo Alfaro não dispõe de nenhuma grande estrela ou algumas aspirações além de sonhar com o milagre da classificação. Por estrear contra o Catar, deve manter acesa esta chama até a última rodada, quando dará adeus à Copa com três pontos, justamente os da estreia.

Palpite do editor: este grupo deve ser decidido já na primeira rodada, no jogo entre Senegal e Holanda. Quem ficar em primeiro deve ter a vida mansa nas oitavas. Já o segundo tem 95,894% de chances de pegar a Inglaterra. Aposto em Senegal na ponta e a Holanda que se vire para passar dos ingleses.

21/11 (segunda-feira)
Catar x Equador - 13h
Senegal x Holanda - 7h
25/11 (sexta-feira)
Catar x Senegal - 10h
Holanda x Equador - 13h
29/11 (terça-feira)
Holanda x Catar - 12h
Equador x Senegal - 12h

Grupo B
Inglaterra (5º)
Estados Unidos (15º)
Irã (21º)
País de Gales (18º), Escócia (39º) ou Ucrânia (27º)

Aqui tem História e Geopolítica até os ossos! A Inglaterra, que está na companhia de seus "filhos", os Estados Unidos, na chave, tem um timaço e ele é para agora, depois de maturado pelas semifinais da Copa da Rússia e o inédito vice na Eurocopa. É desnecessário falar que quase todos os possíveis convocados jogam no Inglesão - a exceção é o meia Bellingham, do Dortmund - e é, de longe, a equipe mais forte da chave e uma das mais cotadas para ganhar a Copa. Resumindo, finalmente há a tal geração-mais-forte-desde-1966 e dá toda a pinta de estar prontinha para fazer os súditos da rainha deixarem de ser piada. De quebra, com seis jogos até a estreia no Mundial, é muito provável que Harry Kane chegue à Copa como o maior artilheiro do English Team (tem 49 e divide o segundo posto com o Sir Bobby Charlton, atrás somente de Rooney, que tem 53).

Os Estados Unidos, que venceram a última Copa Ouro, voltam ao Mundial depois de falharem a Rússia, estão com um time bastante renovado e têm nomes bem interessantes, como Pulisic, Mc Keanny e Timothy Weah, filho do lendário George Weah, mas caíram num grupo em que o noviciado deve cobrar o preço, ainda mais quando a principal força tem contas para acertar desde 1950, de um jogo que virou até filme, sem contar o sempre potencialmente quente duelo com o Irã, reeditando o histórico confronto da Copa de 1998, quando os iranianos venceram por 2 a 1. 

O Irã chega à sua terceira Copa seguida com uma dupla de ataque das mais interessantes, formada pelo competentíssimo e cavador de pênaltis Taremi, do Porto, e por Azmoun, que fez carreira no futebol russo, com grande destaque no Zenit e que agora veste a camisa do Bayer Leverkusen. Outro nome sonante é o goleiro Beiranvant, que defendeu um pênalti cobrado por Cristiano Ronaldo no empate por 1 a 1, que quase eliminou os portugueses na primeira fase da Copa da Rússia. E essa fama de estraga-prazeres não é recente. Em 1978, na sua primeira participação em mundiais, empatou com a Escócia, do craque Kenny Dalglish, e este resultado foi crucial para ditar a eliminação britânica no saldo de gols para a Holanda, que seria (bi) vice no vergonhoso Mundial da Argentina. 

Curiosamente, a segunda força do grupo deve vir do confronto da repescagem europeia que não foi definido por causa da Guerra da Ucrânia. A própria Ucrânia tem pela frente a Escócia, que terá a chance de dar o troco no Irã por causa de 1978, mas, para isso, além de vencer os ucranianos fora de casa, ainda têm que despachar o País de Gales, favorito para esta vaga e também para se candidatar a levar uma tunda do segundo do Grupo A nas oitavas. Ah, sem contar que, caso a Escócia chegue ao Mundial, será a primeira vez que o clássico mais antigo do mundo entre seleções (Inglaterra x Escócia) será disputado em uma copa, e justamente na véspera do aniversário de 150 anos do primeiro duelo entre "os pais do futebol moderno".

Palpite do editor: moleza para a Inglaterra avançar em primeiro, com 100% de aproveitamento. O segundo deve ser quem vem da repescagem, com alguma chance para os Estados Unidos aprontarem caso a inexperiência não atrapalhe.

21/11 (segunda-feira)
Inglaterra x Irã -10h
Estados Unidos x Repescagem europeia - 16h
25/11 (sexta-feira)
Inglaterra x Estados Unidos - 16h
Repescagem europeia x Irã - 7h
29/11 (terça-feira)
Repescagem europeia x Inglaterra - 16h
Irã x Estados Unidos - 16h

Grupo C
Argentina (4º)
México (8º)
Polônia (26º)
Arábia Saudita (49º)

O Grupo C poderia ser o T, de teta, para a Argentina, que chega à Copa finalmente com os excelentes nomes que têm agrupados como um time, o que não acontecia desde que o treinador era o saudoso Alejandro Sabella, na Copa de 2014. Será a primeira edição sem a presença material de Diego Maradona, mas alguém tem dúvida de que um eventual título será um milagre atribuído a São Diego? Time para isso, tem de sobra. "La Scaloneta" terminou as Eliminatórias com boas notícias, como a dupla De Paul e Paredes dando o equilíbrio que há tempos não era visto a vestir albiceleste, além de Di Maria envelhecendo como um bom vinho cultivado na França. Além do mais, esta pode ser a quinta e última Copa de Lionel Messi, que voltou a encontrar pela seleção a alegria que nunca teve no PSG.  

O México, que só chegou à fase de quartas-de-final quando sediou a Copa, em 70 e 86 (em 70 as quartas já eram a segunda fase), vem de sete eliminações seguidas nas oitavas, mas tem apresentado um futebol que o credencia a quebrar essa escrita e cair já na fase de grupos, o que nunca aconteceu desde que La Tri voltou da suspensão de dois anos que a tirou do Mundial de 90 graças ao escândalo dos "Chachirules". O único ponto que pode pesar a favor dos mexicanos é que boa parte dos convocados atua na Liga MX e costuma estar à disposição mais cedo que as demais seleções para iniciar a preparação, e isso pode fazer uma diferença danada em favor dos comandados do argentino Tata Martino numa competição que começa sete dias depois da data estipulada para os jogadores se apresentarem. Como curiosidade, se Guardado e Ochoa forem convocados, chegarão, a exemplo de Messi, a cinco Mundiais e igualarão a marca que tem mais dois mexicanos na lista: Carbajal e Rafa Marques, além do alemão Matthäus e do italiano Buffon (Cristiano Ronaldo também deve integrar este lote). 

Teoricamente, a briga pelo segundo lugar do grupo conta também com a Polônia, uma espécie de Amigos do Lewandowski FC. No entanto, alguns são amigos muito estimados, como o goleiro Szczęsny, o zagueiro Bednarek, o meia Krychowiak e o atacante Zielinski, que, se não são craques do primeiro escalão - e não são -, podem auxiliar o supercentroavente do Bayern a passar de fase e ver o que acontece contra, tudo leva a crer, França ou Dinamarca.

Bem, resta aqui a Arábia Saudita, quarta força da chave porque só existem quatro seleções em cada uma. Para não dizer que não há um deserto de ideias, o melhor jogador saudita, Salem Aldawsari, marcou o gol da vitória contra o Egito de Salah na Copa de 2018 e foi o grande nome da campanha das eliminatórias asiáticas. Com um pouco de sorte, somará um ponto, se muito.

Palpite do editor: a Argentina terá vida mansa ao menos na primeira fase. Depois disso, vem o segundo da chave D, que tem França e Dinamarca. A segunda vaga será disputada entre polacos e mexicanos e deve ficar na Europa. Para os sauditas, a vantagem é que o Catar é bem pertinho.

22/11 (terça-feira)
Argentina x Arábia Saudita - 7h
México x Polônia - 13h
26/11 (sábado)
Argentina x México - 16h
Polônia x Arábia Saudita - 10h
30/11 (quarta-feira)
Polônia x Argentina - 16h
Arábia Saudita x México - 16h

Grupo D
França (3º)
Dinamarca (11º)
Tunísia (35º)
Peru (22°), Austrália (42º) ou Emirados Árabes Unidos (68º)

A França é a melhor seleção do mundo no papel? É. Tem pelo menos dois jogadores de alto nível por posição? Em algumas, até três. É uma das favoritas para conquistar o torneio? Não seria loucura imaginar um novo bicampeão em edições seguidas, algo que só a Itália de Mussolini (1934 e 38) e o Brasil (1958-62) conseguiram. É a favorita do Grupo? É, mas terá que ralar para confirmar o status. Apesar de tudo o que tem, e tem muito, a França costuma oscilar bastante na fase de grupos e, nesta edição, tem uma companhia traiçoeira na chave e isso pode fazer com que Mbappé, Benzema e cia reeditem as oitavas de final da última Copa, quando passaram por cima do arremedo de time que atendia pelo nome de Argentina.

Antes da Euro, ninguém dava a mínima para a Dinamarca. Ok, era um time bom, de futebol vistoso, mas que, exceto por 1992, nunca deu em nada. Aí veio o drama do craque do time, o meia Eriksen na estreia da Euro e a recuperação dentro da competição até cair na semifinal para a dupla apito-Inglaterra. Nas Eliminatórias, caiu em um grupo bem baba e passou o carro em todo mundo. Isso sem seu maior expoente, que já voltou e, em dois amistosos, deu mostras que tem tudo para retomar o ritmo anterior e, ladeado a jogadores como Schmeichel, Christensen, Vestergaard, Maehle, e Höjbjerg, incomodar a poderosa França na disputa pela cimeira da chave.  

O grande feito recente da Seleção da Tunísia foi, na CAN, eliminar a Nigéria apesar dos 10 desfalques causados por um teste "duvidoso" de Covid-19, pelas oitavas-de-final. Aí, depois de despachar o favoritismo das Super Águias, o bico das Águias dos Carpatos não foi bom o suficiente para vencer Burkina Faso, caindo nas quartas. Seus principais jogadores, o zagueiro Bronn e o volante Skhiri (Metz-FRA e Colônia-ALE, respectivamente), dão alguma experiência de grandes ligas ao time, mas deve ser insuficiente para mais do que fazer figuração.

E este deve ser o mesmo destino de quem sobrar na repescagem que terá sido deputada pelo Peru, quinto colocado da América do Sul, e o vencedor do duelo entre Austrália e Emirados Árabes Unidos, terceiros colocados de seus grupos nas Eliminatórias Asiáticas.

Palpites do editor: apesar de oscilar, a França, se pudesse, montaria outro time entre os não convocados e, ainda assim, poderia se disputar a Copa sem fazer feio. Deve terminar em primeiro e deixar a Dinamarca no caminho da Argentina.

22/11 (terça-feira)
França x Repescagem Ásia/América do Sul - 16h
Dinamarca x Tunísia - 10h
26/11 (sábado)
França x Dinamarca - 13h
Tunísia x Repescagem Ásia/América do Sul - 7h
30/11 (quarta-feira)
Tunísia x França - 12h
Repescagem Ásia/América do Sul x Dinamarca - 12h

Grupo E
Espanha (7º)
Alemanha (12º)
Japão (23º)
Costa Rica (31º) ou Nova Zelândia (101)º

Desde a Era do domínio da Espanha, entre 2008 e 2012, esperamos que a próxima geração do futebol do país faça o que a turma de Xavi e Iniesta fez. Mas é impossível jogar o que Xavi e Iniesta jogaram se ninguém for Xavi ou Iniesta. E também porque a base daquela seleção, dividida entre Real Madrid e Barcelona, não é a mesma. Em todo caso, com Luiz Henrique, La Roja (ai, não pode mais chamar de Fúria) tem possivelmente a seleção com o jogo coletivo mais maduro, o que, de antemão, deixa os ibéricos com meio caminho andado. Porém, a consistência tática e o domínio de jogo não se traduzem em gols como antanho porque não se trata de um ataque demolidor, no qual Morata, Oyarzabal e Gerard Moreno não convenceriam as próprias mães de que são apostas seguras. 

Após sucessivos papelões, que podem ser entendidos como praga de brasileiro por causa do 7 a 1, a Alemanha disputará sua primeira competição sob o comando de Hansi Flick, que foi auxiliar de Joachin Löw. Sob nova direção, o Mannschaft tem jogado um futebol leve e envolvente que nem na hecatombe do Mineirão foi visto. Uma das primeiras medidas foi reintegrar o atacante Thomas Müller ao grupo. O camisa 13, a propósito, é o maior artilheiro em Copas do Mundo em atividade e, se fizer seis, igualará o também alemão Klose no topo desta lista. No mais, é um timaço com Neuer, o antivax Kimmich - que é um imbecil, mas é um imbecil que joga boa demais -, os atacantes de beirada de campo Gnabri e Sané. Ok, nem tudo é perfeito e há Timo Werner testar a paciência e a resiliência do povo germânico.

Bom, sobra o Japão, que tem suas esperanças depositadas no quinteto Endo, Minamoto, Kubo, Kamada e Morita, e quem vier da repescagem entre a Nova Zelândia - do centroavante Chris Wood, do Newcastle, que atua na Inglaterra desde os 17 anos, do capitão Winston Reid, que também tem muita experiência na PL, e de Liberato Cacace, jovem lateral em bom plano no Empoli - e a envelhecida Costa Rica, que capturou essa vaga pelo rabo. Los Ticos ainda contam com os intermináveis Navas (que é melhor que o Donnarumma), Celso Borges e Bryan Ruiz. Convenhamos, quem tem o Bryan Ruiz não deve estar muita coisa de interessante para fazer acontecer. 

Palpite do editor: na cultura japonesa, o número quatro deve ser evitado por causa da carga negativa que sua pronúncia tem (shi), que é semelhante à palavra morte. Imagino que, depois do sorteio, essa fama deverá ser do dia 1º de Abril. Aqui, o vencedor de Alemanha vs. Espanha (minha aposta aqui) deverá ter uma vida longa e próspera na Copa (ao menos até chegar às quartas de final).

23/11 (quarta-feira)
Espanha x Costa Rica ou Nova Zelândia - 13h
Alemanha x Japão - 10h
27/11 (domingo)
Espanha x Alemanha - 16h
Japão x Costa Rica ou Nova Zelândia - 7h
01/12 (quinta-feira)
Japão x Espanha - 16h
Costa Rica ou Nova Zelândia x Alemanha - 16h

Grupo F
Bélgica (2º)
Croácia (16º)
Marrocos (23º)
Canadá (38º)

Evidentemente, a Bélgica é a grande força deste grupo e esta pode ser o último Mundial em grande nível de boa parte do que vem sido chamado, primeiro como constatação, para depois tornar-se galhofa, de "A Ótima Geração Belga".  Na próxima Copa, jogadores como Courtois, Hazard, De Bruyne e Lukaku estarão com mais de 30 anos. Ainda assim, os belgas chegam à terceira Copa do Mundo seguida com o carimbo de favorito na testa, referendado por quem eliminou Brasil e Portugal nas últimas grandes competições, tendo caído para os campeões em ambas. Mesmo assim, caiu na chave mais "imprognosticável" desta Copa.

A vice-campeã Croácia não tem tido sucesso depois do surpreendente vice-campeonato em 2018. Nesta Copa, não terá nomes como Rakitic, que fechou sua conta na seleção, e Mandzukic, que já parou com esse negócio de jogar bola, mas tem Pasalic, Perisic, Kovacic, Vlasic e, principalmente, Modric, que tem jogado muito mais do que 2018, quando ganhou a Bola de Ouro. 

A Seleção de Marrocos, que ficou em último lugar em seu grupo em 2018, mas jogando melhor nos três jogos, vem de uma campanha honesta na Copa Africana de Nações, quando caiu nas quartas-de-final para o Egito, na prorrogação. No entanto, o treinador, o bósnio Vahid Halilhodzic, afastou Harit, Mazraouri e até o craque da equipe, o atacante do Chelsea Ziyech, que são "só" alguns dos principais jogadores, o que enfraqueceria qualquer equipe. Tem o excelente Hakimi, do PSG, mas não parece suficiente para avançar em um grupo tão equilibrado. 

Canadá é a atração do torneio na sua segunda disputa de Copa do Mundo, mas a primeira com jogadores de nível decente. Muito decente, aliás, como Stephen Eustáquio, que chegou ao Porto após grandes partidas pelo Paços de Ferreira; Jonathan David, jogador do Lille; Buchanan, do Bruggee; e, obviamente, aquele que é possivelmente o melhor lateral esquerdo da atualidade, o estupendo Alphonso Davies, do Bayern. A inexperiência pode cobrar o preço, mas é um time suficientemente bom para muito mais do que (não) fez em 86, quando deixou o Mundial sem nenhum golzinho marcado sequer, quando jogou o torneio até com jogadores do "soccer indoor", uma espécie de showball.

Palpite do editor: o grupo F tem o maior potencial para causar surpresas, mas, pela inexperiência canadense e pela falta de um ambiente interno decente em Marrocos, Bélgica e Croácia devem passar. 

23/11 (quarta-feira)
Bélgica x Canadá - 16h
Marrocos x Croácia - 7h
27/11 (domingo)
Bélgica x Marrocos 10h
Croácia x Canadá - 13h
01/12 (quinta-feira)
Croácia x Bélgica - 12h
Canadá x Marrocos - 12h

Grupo G
Brasil (1º)
Suíça (14º)
Sérvia (25º)
Camarões (37º)

Após roçar a perfeição nas Eliminatórias, o Brasil voltou a liderar o ranking de seleções da FIFA, o que não significa absolutamente nada além de servir para o torcedor brasileiro reclamar quando não é o primeiro e desdenhar quando é. O trajeto do único presente em todas as fases finais do Mundial e único cinco vezes campeão teve dois momentos: o primeiro foi de aborrecer, pragmático e sem brilho, mas com vitórias a dar com pau até garantir matematicamente a vaga; o segundo, com testes e chances para mais jogadores e deixando de lado até então intocáveis, deu ao técnico Tite material suficiente para pensar em algo mais do que empacar no primeiro europeu bem organizado que lhe calhar no mata-mata, como tem sido desde 2006. E o melhor de tudo: há vida, e muita, sem Neymar. Há Coutinho, Paquetá, Raphinha, Vini Jr, Thiago Silva, Marquinhos... bom, há muito como há muito tempo não se via.

O grupo dos reencontros tem duas seleções que estiveram no caminho já na primeira fase de 2018. E são chatas até dizer chega: Suíça e Sérvia. Coincidentemente, as duas mandaram para o limbo da repescagem a Itália, que ficou por lá, e Portugal, que se safou da vergonha de não chegar à Copa. Só isso já faz que sejam adversários que merecem respeito. Os alpinos, por exemplo, já haviam mandado a favoritíssima França para casa na Eurocopa. O duelo entre eles, marcado para a última rodada, tem potencial de gerar faísca por dois motivos: a provável disputa por uma das vagas e que deve ser a segunda, e, principalmente, pela questão geopolítica que já incendiou o último encontro entre as seleções, vencido pelos suíços por 2 a 1, com direito ao gol da virada ser marcado no último minuto e com o autor, Shaqiri, repetir o gesto que já havia sido feito por Xhaka, que empatou: as mãos simbolizando a águia de duas cabeças, presente na bandeira da Grande Albânia, área desmembrada entre os países da ex-Iugoslávia após as Guerras Balcânicas. Os dois, inclusive, seguem na seleção e têm a boa companhia de gente como os zagueiros Akanji e Elvedi, o ótimo meia Freuler e os atacante Embolo, Zuber e Seferovic, que fez dois dos três gols que ajudaram a despachar a França na Euro. A Sérvia também tem um poder de fogo respeitável, com a máquina de fazer gols da Championship Mitrovic (marcou o tento que jogou Portugal no tacho do capiroto em Lisboa), os ótimos Milinković-Savić, Tadic e Vlahovic, além de outros bons valores espalhados pelo campo.

E tem Camarões, que volta à Copa após falhar a presença em 2018. Os Leões Indomáveis estão novamente no grupo do Brasil, como em 2014, e o destino tem tudo para ser o mesmo: voltar para casa após três jogos. Como sempre, não é um exemplo de organização, tendo trocado de treinador após cair na semifinal da CAN, que era disputada em casa (e nem foi por 7 a 1), para o Egito. Saiu o português Toni Conceição e chegou o lendário Rigobert Song para realizar o milagre da classificação. Com Toni, já havia surpreendido ao terminar na liderança o grupo que tinha Costa do Marfim, mas o drama mesmo estava na repescagem: perdeu em casa por 1 a 0 para a Argélia de Mahrez, que tem muito mais time, para vencer fora e se classificar pelo já obsoleto critério do gol qualificado, ganhando por 2 a 1 após sofrer o gol de empate, que o eliminaria, aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação. O milagreiro, Ekambi, que joga no Lyon, também é um dos destaques do time. Também merecem atenção Choupo-Moting, do Bayern, o excelente Anguissa, do Napoli, e o instável, mas bom - ou o contrário, dependendo da boa vontade de quem lê - Onana, do Ajax.

Palpite do editor: grupo sob medida para o Brasil passar com alguma dificuldade, elevando o nível de competitividade para chegar em bom nível para o inevitável mata-mata. O pau deve torar pela segunda vaga, com uma leve tendência para a Sérvia avançar, apesar - ou talvez por isso - da minha torcida contrária. Camarões, que deve ter esgotado seu estoque de milagres, fica por aqui.

24/11 (quinta-feira)
Brasil x Sérvia - 16h 
Suíça x Camarões - 7h
28/11 (segunda-feira)
Brasil x Suíça - 13h
Camarões x Sérvia - 7h
02/12 (sexta-feira)
Camarões x Brasil - 16h 
Sérvia x Suíça - 16h

Grupo H
Portugal (8º)
Uruguai (13º)
Coréia do Sul (29º)
Gana (60º)

Da repescagem diretamente para o pote 1 do sorteio, Portugal deu caldo verde para azar, mas calhou-lhe um grupo que, se não promete facilidades, tem o mesmo condão de obrigar-lhe a estar em alto nível desde o início para não registrar uma nova campanha decepcionante pelo material que tem, ainda mais tendo a concorrência do Uruguai, que despachou a turma da caneta na orelha ainda nas oitavas-de-final na Rússia. Com Cristiano às portas da sua quinta Copa, tem uma defesa cujo eixo central ainda depende do interminável Pepe, mas formaria dois ou até três times muito competentes do meio para a frente. Talento não falta e quase todos atuam nas grandes ligas. O que falta é Fernando Santos encontrar uma forma para privilegiar um dos elencos mais fortes do mundo. Com a faca no pescoço e contra as inferiores Turquia e Macedônia do Norte, conseguiu. Em todo caso, não é bom duvidar de quem tem, além do CR7, Rúben Dias, Bernardo Silva, Diogo Jota, João Cancelo, João Félix, João Moutinho e Bruno Fernandes, só para ficar em alguns. Quem quiser desdenhar também pode, afinal, só quando chegou às semifinais é que Portugal venceu mais do que um jogo por Copa que disputou. Convenhamos, é um retrospecto fraquinho para quem tem o cartaz que tem.

A grande história desta chave, porém, é o reencontro entre Suárez, provavelmente em sua última Copa, e Gana. Para quem não sabe - o que seria imperdoável - ou não se lembra, os ganeses estiveram às portas de serem os primeiros africanos a chegarem às semifinais da Copa, em 2010. Para isso, bastava o craque do time, Asamoah Gyan, converter o pênalti que Suárez cometeu ao meter a mão na bola praticamente em cima da linha no último minuto da prorrogação. Ele acertou o travessão, o Uruguai venceu noa pênaltis com cavadinha do Loco Abreu e Luisito tornou-se herói nacional.

Heroísmo à parte, o Uruguai renasceu após estar praticamente desenganado nas Eliminatórias, quando trocou o lendário Maestro Óscar Tabárez, desde 2006 no cargo, por Diego Alonso e vencer os quatro últimos jogos. Há os intermináveis e perigosíssimos Cavani-e-Suárez, além do superbeque Godín, mais uma série de grandes nomes abaixo da casa dos 30 anos, como os zagueiros Araújo e Gimenez, o lateral Viña, os meio-campistas Torreira, Betancur, Ugarte e De Arrazcaeta, além da máquina de gols Dárwin Nuñez, que deve herdar a camisa 9 - ou a 14 - após o Mundial.

A Coréia do Sul, que não havia feito nada que prestasse em Copas até co-sediar a de 2002 e ser levada pela arbitragem até a semifinal, tem o espetacular Son, do Tottenham, como grande nome da história do futebol sul-coreano, e tem o apoio de Hwang, do Wolverhampton, para que não se diga que o camisa 7 joga sozinho. Ok, Kim, do Fernerbahçe, não é de se jogar fora, mas não parece ser o suficiente para que Paulo Bento possa levar o país ao menos a igualar 2010, quando caiu nas oitavas-de-final.   

O mesmo fado deve ser cantado pela seleção de Gana, que não esteve na Copa da Rússia e precisou eliminar a favorita Nigéria no gol qualificado para voltar aos mundiais. As Estrelas Negras, que de estrela mesmo só têm o Thomas Partey, do Arsenal, além dos bons Djiku, zagueiro do Strasburgo, do meia Kudus, que defende o Ajax, e de Afena-Gyan, "descoberta" de José Mourinho na Roma, não devem fazer muito mais do que sonhar com uma vitória contra os asiáticos do grupo e, porventura, atrapalhar os planos de portugueses e uruguaios. 

Palpite do editor: apesar da possibilidade de zebra aqui ser considerável, não dá para não imaginar Portugal e Uruguai chegando às oitavas. A saber, quem estará no caminho do Brasil. A aposta aqui é que haverá clássico sul-americano valendo vaga para as quarta-de-final.

24/11 (quarta-feira)
Portugal x Gana - 13h
Uruguai x Coréia do Sul - 10h
28/11 (segunda-feira)
Portugal x Uruguai - 16h
Coréia do Sul x Gana - 10h
02/12 (sexta-feira)
Coréia do Sul x Portugal - 12h
Gana x Uruguai - 12h

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Guia prático para detecção de fake news



Um dos fenômenos da comunicação mundial que certamente será objeto de muitas teses, estudos e dores de cabeça na comunidade acadêmica por anos a fio é a propagação das fake news. Elas espalham feito fogo em palha seca simplesmente porque existe um público ávido por ouvir o que quer  -  o que Aristóteles chamou de pathos em seus estudos sobre Retórica. Então, em muitas das vezes, basta a mensagem conter algo que determinado público almeja e voilà! Temos uma fake news prontinha para fazer seus estragos por aí.

Na manhã deste 03 de outubro, meu celular foi bombardeado por perguntas sobre um suposto pedido de falência da Portuguesa de Desportos graças à propagação de uma imagem bem chinfrim, que continha o distintivo luso, os principais títulos de futebol conquistados pelo clube e uma mensagem do tipo "Lusa decreta falência. Sentiremos sua falta". Obviamente, como pregava o jornalista Geneton Morais Neto(1956–2016), meu desconfiômetro jornalístico soou na hora. Quem decretou? Por quê? Onde? Por que não havia saído em veículo nenhum?

A resposta é fácil: é porque era mentira, oras! Fake news, como se convencionou falar de meses para cá. Felizmente, existem macetes para descobrir se a notícia é real ou tão falsa quanto a Grávida de Taubaté. E trago aqui um "Guia Prático Para a Detecção de Fake News".

Boa leitura (e use sem moderação)!

1) É bom demais para ser verdade? É tipo o Messi dizer que quer jogar no seu time ou algo que você gostaria muito que acontecesse?

Pegue o título e jogue no Google. Ou então digite algo como "Messi diz que quer jogar no Flamengo", se a notícia der o Rubro-Negro como desejo de consumo do jogador. se for verdade, todos os veículos repercutirão.

2) Verifique o texto. Tem erros de Português ou de pontuação? Tem como fonte alguém que pode ser qualquer um?

É natural a fonte ser protegida pelo jornalista, mas nem sempre o sigilo é real, ainda mais se tratar de alguém de forma genérica ou especialistas fictícios. Uma busca no Google pode resolver.

3) O texto responde as informações do lead (quem, o quê, quando, como, onde e por quê?

Quando não há data, o rumor pode ir e voltar diversas vezes como se fosse algo recente. A falta das outras informações básicas, como local ou ocasião, traz uma gigantesca chance e ser falsa a informação. Mesmo assim, algumas dessas informações podem ser falsas. Um evento que, na verdade nunca ocorreu, pode ser citado. Uma pesquisa rápida é eficaz para isso.

4) Vídeos e fotos rodam mais que notícia ruim no Whatsapp e nas outras redes de relacionamento. O vídeo é realmente da época em que é dito que ocorreu? A foto não foi manipulada? Tem foto do Flavio Bolsonaro com camisa ofendendo nordestinos rodando por ai até hoje e é falsa, como tem da Manuela d'Ávila atacando o Cristianismo. E que também, obviamente, é falsa.

Faça buscas em imagens. Certamente, a foto original será encontrada sem muito trabalho. O mesmo acontece no caso dos vídeos.

5) É um meme com uma frase desastrosa ou "lacradora"?

Se a frase foi dita mesmo, registros sérios e confiáveis podem ser encontrados. Não achou? Nem leve a sério. Clarice Lispector e Machado de Assis não falaram muitas das frases atribuídas a eles. Eu mesmo posso fazer um desses sobre qualquer pessoa e a qualquer momento.

6) Titulos bombásticos existem para atrair likes. Cuidado para ver se é real, se o conteúdo condiz com o teor da chamada. Muita gente lê só o título (e é por isso que esse tipo de mentira funciona).

7) Tem até link que leva à matéria! Olha só (mas olha só com muito cuidado)!

Tem mesmo? Compare a URL do link que recebeu com a URL do site usado para dar veracidade. Existem casos de cópias de diagramação das páginas inteiras, para confundir o incauto internauta. Tá diferente? Cai fora!

8) Veículos tradicionais não têm a notícia.

Não se enganem. Por mais que o Trump diga que a imprensa é inimiga do país (nem só ele, né?), fatos relevantes saem SIM nos grandes veículos, sejam eles de que viés forem. O que muda é o enfoque, mas o fato não é ignorado.

9) Como são os outros conteúdos do veículo?

É preciso estar atento ao tipo de conteúdo que o veículo publica. É um mentiroso contumaz? Desconfie. É satírico? Ria e compartilhe, caso queira, deixando claro que se trata de uma gozação, ou então não compartilhe para não ficar feio.

10) O mais fácil (e por isso deixei por último): pesquisar nos sites especializados em checagem de notícias, como o E-Farsas, o Boatos.org, o Fato ou Fake e o Aos Fatos. Ou o Lupa, meu favorito. 

No fim das contas, se a notícia despertar o mínimo de desconfiança, não publique, não compartilhe, não divulgue.