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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

As tuas glórias vêm só do passado?

Por Douglas Sato*

A temporada de 2015 já está quase no fim, graças a Deus para a torcida tricolor, e as previsões feitas para o São Paulo se confirmaram. Após fiascos no Estadual e na Libertadores, o caso Maidana, contrata CEO, demite CEO,  o soco de Ataíde Gil Guerreiro no “presidente” Aidar, Cinira, Juan Carlos Osorio, Doriva. Alguns falam em uma crise mais duradoura, que deve alcançar o próximo ano, outros falam que o time do Morumbi subirá um pouco de produção (tem como descer?), e uma meia dúzia afirma que apenas uma reestruturação total dará jeito na situação.

Em meio a este cenário, demissões, saídas de atletas e dirigentes, ir além de uma reorganização interna é comum. Afinal, ninguém quer ficar no vermelho e correr riscos no próximo ano. Porém, em tempos de crise, a primeira coisa a ser feita é não perder a cabeça, manter a calma e ter uma atitude positiva, e não conformista. Por enquanto, existem previsões e nenhuma certeza, e, por isso, esta é uma boa hora para identificar as oportunidades e tentar se reerguer.

Primeiro ato
Aproveitar o dinheiro extra: O fato é que a folha salarial do São Paulo aumentou exorbitantemente. Entretanto, com as saídas de Rogério Ceni, que se aposentará, de Luis Fabiano, que irá para a China, e Alexandre Pato, que voltará ao Corinthians, o clube poderá economizar cerca de R$ 1,65 milhão por mês, que é aproximadamente o que o trio, somado, recebe, o que não é pouco. E essa dinheirama poderá ser utilizado em contratações e outras despesas importantes do futebol do clube.

Segundo ato
A base: O São Paulo é um bom vendedor: Lucas para o PSG por R$ 86,5 milhões, Lucas Piazon para o Chelsea por 16,9 milhões, Oscar para o Internacional e Chelsea por 15 milhões, Casemiro para o Real Madrid por 13,4 milhões e Boschilia para o Monaco por 34,7 milhões. Porém, quando necessita da assistência da base, vide este último Brasileirão, o clube vendeu seus jogadores mais promissores e dependeu de jovens apostas, inexperientes, afobados e sem responsabilidade. Uma das soluções para 2016 é cuidar de Cotia, manter os bons atletas, trabalhá-los com calma e, na medida do possível, dar espaço na equipe profissional.

Terceiro ato
Jogadores que voltarão de empréstimo: Ao todo são seis laterais, dois zagueiros, um volante, dois meias e dois atacantes os jogadores que voltam para defender (ou não) as cores do São Paulo na próxima temporada. Entre eles estão Luis Ricardo e Carleto (Botafogo), Cortêz** (Albirex Niigata-JAP), João Felipe (Tricolor carioca), Luiz Eduardo (Juventude), Wellington (Internacional-RS), Maicon (Grêmio), Ademilson (Yokohama Marinos-JAP) e Ewandro (Atlético Paranaense). Já que o dinheiro é sempre pauta, o clube bem que poderia aproveitar grande parte desses nomes na equipe de 2016 (para evitar gastar montantes em taxas de transferência de atletas) ou até vender alguns nomes excedentes para fazer caixa e investir em um plantel qualificado.

Quarto ato
O Presidente do Clube: Juvenal Juvêncio é o dirigente que mais venceu na história do São Paulo se for levada em conta também a época em que comandava o departamento de futebol na gestão do saudoso Marcelo Portugal Gouvêa. O time época de Juvenal resistiu à ruptura do Clube dos 13, em 2011, e contribuiu para a queda de Ricardo Teixeira como presidente da CBF. 

No entanto, Juvenal mudou o estatuto social do clube e acabou passando por cima de tudo e de todos, centralizou o poder e, ainda assim (ou talvez por causa disso), perdeu a abertura da Copa do Mundo de 2014 para o co-irmão Corinthians. No novo estatuto, o tempo de mandato passou de dois para três anos. Além disso, adotou uma interpretação do estatuto que lhe permitiu a reeleição.  

Assim ele praticamente virou um posseiro no Morumbi e conseguiu cumprir, na mão-de-ferro, oito anos no comando. Mas, apesar de tudo isso, Juvenal Juvêncio, ou JJ, como é conhecido, era respeitado pelos jogadores, diretoria e a torcida. Já seu sucessor Carlos Miguel Aidar, com quem rompeu logo depois de ajudar a eleger, fez do clube um salão de festas, onde pessoas entram e saem a todo momento. As declarações do ex-presidente, incluindo brigas com equipes rivais, fizeram do São Paulo um exemplo de desorganização e fragilidade.

Agora nos resta saber qual será a posição que o atual presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, adotará em 2016, primeiro, em 25 anos, sem o capitão Rogério Ceni. Será bom o suficiente para reorganizar o outrora exemplar São Paulo? Terá respeito e respaldo? Ou será apenas mais um a conduzir o barco para outro iceberg?

* Douglas Sato tem 26 anos, é músico e jornalista (nesta ordem) 
e, nas horas vagas, é imitado pela dupla Cesar Menotti e Fabiano.


**NE Que ele, responsável pela derrota do Benfica na última Eusébio Cup com o Pantera Negra ainda vivo, encerre a carreira na obscuridade de uma quarta divisão de algum campeonato qualquer.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Juan Carlos Osorio e o recheio do bolo

"SINCERICÍDIO"? Osorio deixa claro, após vitória contra o Atlético Paranaense,
que poderia sair do Tricolor. Decisão, que seria anunciada pelo treinador na quinta-feira, 

foi confirmada dois dias antes pelo presidente Aidar (ESPN.com)
Durou menos de cinco meses. Como era de se esperar, Juan Carlos Osorio não é mais o técnico do São Paulo. Protagonista de um incrível "racha" na crônica esportiva brasileira, ele teve seu desligamento anunciado pelo presidente são paulino Carlos Miguel Aidar nesta terça-feira, um dia após o quiproquó que envolveu até a suspeita de que o presidente tricolor chegou às vias de fato (a popular porrada) com seu vice-presidente de futebol - e defensor do treinador colombiano - Ataíde Gil Guerreiro, em um hotel da Zona Sul paulista.

A efêmera passagem de Osorio pelo clube do Jardim Leonor suscitou paixões e ódios. E levantou a velha discussão acerca do trabalho de treinadores estrangeiros no país. O Brasil é um dos países, incluindo aqui os mais tradicionais da modalidade, que mais apresentam resistência ao trabalho de técnicos estrangeiros. Autossuficiente até o tutano, apresenta ressalvas à vinda de know-how do exterior, mesmo tendo visto passagens vitoriosas, mas remotas, do húngaro Bella Guttmann e do paraguaio Fleitas Solich.

Os últimos resultados dos times daqui e da Seleção Brasileira, mais a diferença do nível do futebol apresentado, se comparado com o que fazem as principais equipes do Velho Continente, fizeram a discussão voltar à ordem do dia. O Tricolor cismou que queria porque queria um treinador que não falasse português (ao menos sem sotaque), então foi atrás de nomes com as características mais variadas: Jorge Sampaoli, Marcelo Bielsa, Juan Carlos Osorio. Quer dizer, não há uma linha de trabalho estabelecida, uma característica em comum, a não ser o fato de terem nascido fora do Brasil. 

Veio Osorio, o de currículo menos jubilado, mas de ideias pouco comuns no (pretenso) país do futebol. O que, de partida, fez com que tivesse admiradores na medida em que colecionava críticos pelo seu estilo sincero demais. Bateu de frente com dirigentes do próprio clube, foi criticado abertamente por alguns de seus comandados, embora sempre conseguisse, como o apoio irrestrito do craque-capitão-bandeira Rogério Ceni, contornar a situação dentro do elenco.

Ele, Osorio, desde que foi sondado pela federação de futebol do México, nunca escondeu de ninguém o desejo de participar de uma Copa do Mundo, como deixou bem claro na entrevista coletiva que concedeu após a vitória do São Paulo sobre o Atlético Paranaense, no último sábado. Era uma questão estritamente pessoal, de motivação exclusivamente íntima, que o agora ex-treinador são paulino resolveu externar. Uma situação, portanto, rara, que encontrou, entre os jornalistas, quem considerasse louvável e quem julgasse desrespeitoso com a instituição, que é maior que qualquer treinador, mas que agiu - é bom que se diga - de modo pouco elogiável com o próprio tecnico.

Seja como for, Osorio é apenas um detalhe na discussão. O fato é que o Brasil do imediatismo promovido pelos diretores amadores que tem, e apoiado por considerável parcela da mídia, não está preparado para ter forasteiros no comando. Vivemos exaltando os quase 30 anos de Alex Ferguson à frente do Manchester United ao lembrar que nos primeiros anos ele não ganhou nada com os Red Devils, mas na primeira sequência ruim de qualquer treinador aqui, já falamos em demissão. De um modo geral, não passamos de um bando de hipócritas. 

Não adianta pensar nos Rinus Michels, Pepp Guardiolas, Jurgen Kloppes ou Osorios para deixar a cobertura do bolo mais bonita, se o recheio já perdeu a validade.