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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 33

*Por Humberto Pereira da Silva

Foto: Icon Sports

Diz-se que o Flamengo perdeu o título da Recopa ao ser superado no Maracanã pelo argentino Lanús nesta semana. Conceitualmente, para que algo seja perdido, é necessário que esteja na posse de alguém. Não é um caso quando existe uma disputa.

Conceitos à parte, se o desfecho, como a coisa parece indicar, for a queda do treinador Filipe Luís, modéstia à parte, e como um bom filósofo, eu posso fazer um afirmação categórica: o Flamengo é menor que o Palmeiras - para comparar com o seu rival do momento. Ou não age como grande que pressupõe que seja. 

O dinheiro que gira em torno do Rubro-Negro é uma espécie de canto da sereia: ilude, mobiliza toda sorte de expectativa tanto quanto o tempo todo é fonte de engano. Administrar altos investimentos requer habilidade pra lidar com nível altíssimo de pressão, e isso implica lidar e contornar crises que pelos investimentos em jogo são sempre estratosféricas. 

Com investimento bem menor, mas expectativas também altas, notamos nesses últimos sete anos a soma de títulos do Palmeiras, mesmo há dois anos sem conquistas, e vemos como está forte e com Abel, cuja permanência sequer é discutida, apesar do ano em que o ataque as taças falhou. Mesmo as derrotas para o (esse sim rival) Corinthians não colocou em cheque a manutenção do trabalho da comissão técnica capitaneada pelo penafidelense. Isso dá o sentido da tal superioridade do "projeto" do Verdão sobre o do Fla - se é que há algum. 

A reação, para mim previsível, à derrota para o Lanús parece dar ponto final a algo que deveria ser habilmente contornado. Derrotas são ingredientes inextrincáveis no futebol. Lidar com elas é fator de engrandecimento e superação. Mas, no caso, agora, Filipe Luís está completamente à deriva. 

O que é notável aos meus olhos? Seria uma situação para que, com a superação, ele mostrar a maturidade de um grande técnico, cuja maturidade só virá com as vitórias (que já tem) e com as derrotas (que também já as tem). Essa situação no entanto parece ter sido implodida. Sem ser vidente, evidentemente, o prazo de validade dele é uma eventual derrota no Fla-Flu na final do Campeonato Carioca. 

Para a altura do sarrafo estabelecida por imprensa, clube e, por conseguinte, a torcida, o Campeonato Carioca e a Recopa são torneio de importância secundária. Mesmo assim, o clima criado, tenho quase certeza, é irreversível. Ao contrário do Palmeiras, que nunca devemos esquecer, foi seu adversário vencido na final da Libertadores (este sim de importância indiscutível), o Flamengo consegue pensar que apaga incêndio com querosene. 

Sobre Filipe Luís ser um bom técnico para além das bobagens de torcedor que escala assim e assado, e de comentaristas que são incapazes de ver que discussões sobre esquemas A ou B são dados de superfície, esse seria o momento ideal para ver qual seria a solução encontrada pelo treinador. Essa possibilidade de possível saída me parece foi solapada.  

Para ficar no clichê, o jovem treinador perdeu o comando, não tem mais domínio algum da situação. E bem entendido não porque é bom ou mau técnico, mas por que o Flamengo, ao contrário do Palmeiras, é algo como a mancha vermelha no planeta Júpiter: um turbilhão que se mantém ativo há séculos com ventos que na Terra transformariam em pó, em questão de segundos, o Monte Everest.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Pílulas amadoras - 29

*Por Humberto Pereira da Silva


Li com atenção a declaração do técnico Felipe Luís, do Flamengo, sobre arbitragem no jogo com o Palmeiras: "Se tem alguém que não pode reclamar de arbitragem é o Palmeiras".

Li depois, com algum estupor, no UOL que Felipe Luís "ironiza reclamação do Palmeiras". Eu recomendaria fortemente aos editores de imprensa uma atualização do MANUAL DE REDAÇÃO. Se possível, desenhar quando se usa a figura de linguagem "ironia" - neste caso, seria interessante explicar ao jornalista o significado do substantivo utilizado.

Eis a questão: a palavra "ironia" é usada como cacoete, muleta, e perde completamente o sentido. No caso, Felipe Luís fez uso de outra figura de linguagem, a alusão. Ele alude à arbitragem favorável ao Palmeiras em outras partidas. 

Ironia é outra coisa. Imaginemos que ele diga algo assim: "A arbitragem NUNCA erra em jogo do Palmeiras". 

Sinceramente - com sarcasmo e não ironia -, suspeito se poderia entender em sentido literal uma afirmação assim. Mas, sim, talvez essa época seja de uma "lassidão" tal que procurar o significado de lassidão seja um esforço sisífico (aqui uma metáfora, bem entendido).

PS.: Ora muito bem, se não sabem o significado de ironia, não se espera que conheçam o mito de Sísifo. A quem se interessar, porém, é só clicar aqui.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Pílulas amadoras - 28

 *Por Humberto Pereira da Silva


O pênalti perdido pelo Yuri Albert contra o Flamengo foi bizarro? Foi irresponsabilidade? Ele, provavelmente tenso, chutou o chão. A bola mal ganhou altura e ainda, caprichosamente, como se por vingança, literalmente caiu no colo do rubro-negro Rossi. 

Irresponsabilidade, se alguém quiser dar peso às palavras que usa, é muito pesado. Claro, posso me esquivar: foi um desabafo, tipo soltar um palavrão com a "inexplicável" decisão de uma cavadinha na frente de um goleiro herói, pegador de pênalti, que classificou seu time dia desses ao pegar duas cobranças. O pênalti perdido, nas circunstâncias, é realmente pra soltar um "irresponsável" para não falar alguma baixaria. 

Pênalti, no entanto, é um dos mitos no futebol. Erro e acerto, céu e inferno. Herói e vilão. A glória ou a danação. Pênalti perdido com cavadinha é, acho eu, um dos lances mais patéticos do futebol. Expõe o batedor ao ridículo.

Se for gol, contudo, jamais ouvi a acusação de irresponsabilidade, e sim a virtude do sangue frio em um momento tão tenso. Atribui-se ao folclórico treinador e grande frasista Neném Prancha que "o pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente". Os caprichos com o sentido das palavras: irresponsabilidade e frieza se permutam entre o bem e o mal.

Yuri foi irresponsável. Nas circunstâncias do jogo, diz o comentarista com toda paixão, não é hora de gracinha, bate forte. É, já vi dezenas e dezenas de bolas isoladas quando se bate forte, sem gracinha. De boas intenções, o inferno está cheio, inclusive de batedores de pênaltis. 

É, diz o mesmo comentarista, pênalti não é força! Mas, e se o goleiro acertar o canto? É fácil. Pênalti pessimamente cobrado, Yuri teria avisado o canto, ou, como diriam os locutores de antanho, telegrafado a batida.

A decisão do batedor na hora da cobrança envolve uma infinidade de variáveis. E ele sabe perfeitamente que qualquer que seja a escolha estará entre o céu e o inferno. Mas, a acusação de irresponsabilidade de Yuri é pesada porque irresponsável, convenhamos, é uma maneira para mim de irresponsavelmente ofender. Ora, quem decide dar uma cavadinha no pênalti é irresponsável. É isso?

Mas então, mesmo tendo chutado o chão, tivesse a bola, por menor que fosse, outra trajetória e entrasse e... Yuri não seria irresponsável. Talvez sequer se notasse a batida patética e eu então diria que o comentarista em seu silêncio seria irresponsável ao não acusar Yuri de irresponsável, apesar do gol. 

Lembrança: na final da Copa de 2006, 0 a 0 no placar, entre Azzurri e Bleus, e pênalti para a França. Zidane frente a frente com Buffon. Zidane dá a cavadinha. A bola, caprichosamente, bate na trave e entra. Irresponsável, a decisão de Zidane. Só um irresponsável para dar uma cavadinha ao cobrar um pênalti numa decisão de Copa do Mundo.

Entre a cavadinha e a cabeçada em Materazzi, Zidane não será lembrado pela ousadia na frente de Buffon, um dos maiores do seu e todos os tempos. 

Ao cabo, irresponsável ou ousado, quem decidirá o adjetivo, obviamente, é a bola.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Pílulas amadoras -24

*Por Humberto Pereira da Silva

Nelson Almeida / AFP

Sobre Brasil versus Uruguai, o empate com a Celeste praticamente garantiu a vaga brasileira para a Copa de 2026. Os resultados dessa Data FIFA, aliás, praticamente definiram os representantes de forma direta da América do Sul: Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, Brasil e Paraguai. 

Comemorar a quase classificação? Sim, óbvio, mesmo com o aumento de vagas, apurando diretamente seis dos 10 postulantes, e logo iremos a isso. Por diversos motivos, há um equilíbrio nessas Eliminatórias. Ao término da rodada dupla - à qual nos habituamos a chamar de Data FIFA -, a Argentina lidera. E tudo indica, manterá a cimeira na próxima. 

Mas, vejamos, por momentos, ela sentiu a sombra da Colômbia. Ao término, fazendo as contas, perdeu do Paraguai e em Buenos Aires não goleou o frágil Peru, de quem ganhou, aos olhos mais atentos, com esperada dificuldade. A Colômbia, por sua vez, fecha a Data FIFA, em que poderia liderar, na quarta posição. 

Então, o Brasil decepcionou nesses dois jogos? Ora, a decepção está obrigatoriamente ligada à expectativa e o Brasil jogou o que é a realidade atual do futebol brasileiro frente ao equilíbrio entre as seleções do continente. 

É impressionante ver a quantidade de jogadores das seleções da América do Sul que atuam no Brasil, cujos times dominam as competições continentais. Salta aos olhos a quantidade de jogadores da América do Sul que atuam nas principais ligas da Europa. 

TODOS os comentários que li sobre Brasil e Uruguai parecem ignorar essa realidade. Assim, simultaneamente, alguém lembra que Valverde é estrela no Real Madrid, e não menciona as ausências de Arrascaeta e De la Cruz, estrelas aqui no Flamengo. Isso sem contar as retiradas recentes de Cavani e Suárez, titulares dos cisplatinos nas últimas três Copas do Mundo. 

No afã de torcedor, jogar contra o Uruguai, e ganhar, seria como 40, 50 anos atrás ter pela frente Venezuela ou Bolívia. E comentários de torcedor sem essa constatação funcionam como um bom tempero para que, sob pressão de emular escretes do passado, a seleção "novamente" decepcione.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Pílulas amadoras - 21

 * Por Humberto Pereira da Silva

Cr7 e a inalcançável régua real (Fabrice Coffrini/Getty)

Cristiano Ronaldo chegou, contra a Croácia, aos 900 goles. É o primeiro jogador de futebol a alcançar, oficialmente, essa marca. Claro, "todos" sabem que Pelé fez mais de 1200 goles. E não muitos, que o austríaco Josef Bican teria feito em torno de 1800 goles entre os anos 20 e 50 do século passado. 

Aí, me faz questão de lembrar o editor deste blog, há o "problema" de ignorar goles marcados em partidas amistosas, mas contra grandes equipas do futebol mundial: nestas excursões para fazer um pé de meia que pudesse, além de preencher o calendário, pagar as contas - e manter o próprio Rei -, perdem-se tentos marcados contra Internazionale (8), Barcelona (4), Benfica (4), Juventus (2) e Real Madrid (1), esquadrões repletos de craques e donos de troféus internacionais. Pela América do Sul, 22 goles divididos entre River Plate (7), Boca Juniors (5), Racing (4), Independiente (2), Millonarios-COL (2) e Nacional-URU (2) viram fumaça. 

Isso se não contarmos os grandes brasileiros: Atlético Mineiro (5), Cruzeiro (4), Bahia (2), Botafogo (2), Palmeiras (2), Corinthians (1), Flamengo (1), Grêmio (1) e Portuguesa (1). Eibares, Numancias, Al Qualquer Coisa e quetais, para ficar em termos do editor, não oferecem um átimo das dificuldades impostas pelos times citados neste parágrafo.

Ontem, Cristiano saiu do banco para desenroscar um jogo que exigiu a persistência lusitana até praticamente o último minuto para superar o ferrolho escocês. O gole da vitória do Tugas foi marcado aos 43 minutos do segundo tempo por ele, que já havia atirado duas vezes ao ferro, iniciando a contagem regressiva para o tal milésimo, que deve, se acontecer, sair quando a Terra de Cristiano estiver na 43ª volta em torno do Sol, justamente a idade em que Josef Bican deu seus últimos pontapés. 

A título de comparação, o milésimo do Rei foi marcado aos 29 anos. Dito isso, o que resta? Números são... não mais que... números. Por isso, fico com Fernando Pessoa, para ter a dimensão do feito de CR7: "O mito é o nada que é tudo", primeiro verso do poema "Ulisses".

Números são números, pois não. Mas neles, além da frieza, não se deve ignorar o simbolismo. O mito do milésimo gole de Pelé simboliza um dos feitos do Rei. O que, justamente, oferece ponto de partida para qualquer feito posterior. 

Ao milésimo gole agregam-se três Copas do mundo, 58 goles numa edição do Campeonato Paulista (aos 17 anos), parar uma guerra..., que fazem de Pelé o maior mito da história do futebol. 

O feito de Cristiano Ronaldo, assim, ganha enorme poder simbólico porque tem como ponto de partida para que se ponha a régua à marca Pelé. Agora, entre a frieza dos números e o simbolismo, o futebol também é feito de circunstâncias e circunstâncias de momento. 

Na conta dos quase 1300 goles do Rei, mais de 500 ajustados em jogos que causam constrangimento saber precisariam ser contados. Na frieza dos números, o mito Pelé, para ser Pelé, não precisa do registro de goles na Seleção do Exército (10 em 14 jogos), tampouco de goles contra equipas "amadoras" nas inúmeras excursões do Santos nos anos 60 para exibir a Majestade. 

Certo. Nas circunstâncias e circunstâncias do futebol, o feito dos 900 goles de Cristiano Ronaldo se deve a um oportuno final de carreira no futebol árabe. Sua última passagem pelo Manchester United mostra que ele não atingiria essa marca no futebol europeu. Igualmente, Pelé não teria chegado a essa marca sem as convenientes contas para se ensaiar contra o Vasco da Gama o dia do mítico milésimo gole. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Pílulas amadoras - 20

Por Humberto Pereira da Silva


A imprensa, com um bocadinho de atenção, podia ter percebido na fala desbocada do Abel sobre as mulheres algo além do clichê machismo. Há uma zona de atrito bem visual entre ele e QUALQUER COISA externa ao Palmeiras. Abel é inteligente, muito bem ligado, falou sabendo que causaria repercussão para esconder alguma coisa que não está bem. Basta o ABC da filosofia da linguagem: perguntado se gosta de bolo, ele ficou irritado e respondeu que o inverno na Patagônia é rigoroso...

Palmeiras teve sorte. Agora caminho livre pro TRI noBbrasileiro. 

Fla enroscadíssimo em três disputas e ainda tendo que lidar com o fogo amigo da imprensa flamenguista que, para mim, calculadamente e com os olhos voltados ao próprio umbigo, boicota uma diretoria, contaminando o ambiente.

Fogão???? Sinceramente, com a eliminação do Palmeiras na Libertadores, abriu-se o caminho para o Tri Verdão no Brasileiro. Fogão na Libertadores??? Nunca cri. Bem, mas o Flu levou ano passado... O mundo do futebol é bem estranho... Tenho para mim, na Libertadores, como concorrente o peso da camisa do São Paulo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Pílulas amadoras - 19

*Por Humberto Pereira da Silva

VITÓRIA DE PIRRO? Pedro comemora classificação após
duelo com o Palmeiras (Gilvan de Souza/Flamengo)

Para quem acompanha o futebol brasileiro, o planejamento das grandes equipes deixa a impressão de que onde se movimenta tanto dinheiro, decisões são tomadas no calor da hora. A parte submersa do iceberg é invisível. Refiro-me aqui a Palmeiras e Flamengo, que têm polarizado disputas e atenções na linha de frente das competições que participam. 

Para eles, qual a importância da Copa do Brasil? E, com a importância que tiver, as do Brasileiro e Libertadores?

A torcida, e a imprensa reverberando a torcida, congelam o momento. Não há antes nem depois. O que importa é ganhar. Mas, planeja-se para saber onde se quer chegar, óbvio. 

E inimaginável na realidade do futebol brasileiro disputar Copa do Brasil, Brasileiro e Libertadores com a mesma intensidade, pra ficar no clichê. Como a Copa do Brasil é disputada em mata-mata, se em um planejamento ela não é alvo, cair fora o quanto antes é "ganhar". Na porção inviável de decisões que parecem aleatórias, não tendo sido calculada, a derrota do Palmeiras para o Flamengo foi vitoriosa.

Stricto sensu, ao vencer a Copa do Brasil, a equipe o que o fizer garantirá uma vaga na Libertadores da temporada seguida. Não é razoável imaginar que tanto Palmeiras quanto Flamengo estarão entre os qualificados pelo certame nacional após 38 rodadas.

O Flamengo, vencedor, agora está enroscado em três competições, com torcida e imprensa nos calcanhares. O Palmeiras, perdedor, teria num planejamento o Tri Brasileiro por alvo? A Libertadores é pedra no meio do caminho, com torcedores e imprensa no encalço. 

Enquanto isso, o Botafogo, também eliminado na Copa do Brasil, tem pela frente só o Brasileiro. Sim, o Fogão vai se deixar seduzir pela conquista da Libertadores, com torcida e imprensa a cobrar uma resposta à altura depois da queda de rendimento mal ainda mal digerida de 2023?

Na Libertadores, quis o destino, Palmeiras e Botafogo vão se encontrar.  Capricho do destino e, sem que se veja planejamento, eis a sorte do Flamengo no Brasileiro... supondo que o Flamengo tenha a sorte, claro, de cair no próximo mata-mata da Copa do Brasil.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quarta-feira, 12 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 15

Por Humberto Pereira da Silva*

O CUME DA DESGRAÇA Vasco foi o time mais citado por torcedores
que apontaram os favoritos ao rebaixamento em pesquisa
 Quaest/CNN/Itatiaia (Foto: Leandro Amorim)


O Brasileirão, entre chuvas, trovoadas e enchentes, aproxima-se de seu primeiro quarto e duas coisas se podem extrair do que se viu: 

Primeira: Internacional, Bahia, Botafogo, Flamengo e Athlético visitaram a liderança em sete rodadas incompletas. Só mesmo o PVC pra ter dados assim na ponta da língua. Não tenho lembrança de outra temporada com tantas equipas liderando e oscilando de uma rodada pra outra da primeira à quinta ou sexta posição.  

Segunda: alardea-se os "perigos" que correm Fluminense, Vasco e Corinthians na zona de rebaixamento. Novamente teria de consultar PVC. Não tenho lembrança de primeiro quarto de Brasileiro com favoritos para o rebaixamento: Cuiabá, Vitória, Atlético-GO e Criciúma. 

Além desses favoritos, o Juventude corre por fora. Fluminense, Vasco ou Corinthians precisam de boa dose de sorte - não será por falta de merecimento - para que um deles caia.

Claro, água e mais água passa embaixo da ponte. A Copa América vem aí.

N.E: no amontoado de jogos que convencionou-se chamar de Calendário do Futebol Brasileiro, a competição nacional não para para a disputa da Copa América. Poderia usar o velho bordão "durma-se com um barulho desses", mas a malta nem sabe o que seria cochilar em silêncio, quanto mais dormir. Já é costume, pois.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 3 de junho de 2024

BRASIL - Vinícius Jr, Neymar e a tragédia grega, com a Bola de Ouro ao barulho

INTIMIDADE Vini Jr. beija a taça mais cobiçada do
futebol de clubes (Reuters/Carl Recine)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

Vinicius Jr. é a bola da vez. Favorito a devolver ao Brasil a Bola de Ouro, o jogador tem brilhado jogo sim, jogo também, pelo Real Madrid, com quem conquistou sua segunda Liga dos Campeões em três anos, e foi novamente decisivo, outra vez protagonista.

Mas não bastou exaltá-lo. Como se o futebol fosse o teatro grego de tragédia e a presença de um protagonista, representando o bem, automaticamente criasse a figura de um antagonista, a quem o mal lhe é atribuído, busca-se diminuir Neymar para enaltecer Vinicius Jr. É a mesma tolice que converte fãs de Messi e Cristiano Ronaldo em detratores do outro. Apesar do péssimo gerenciamento de carreira, Neymar é - ou foi, sei lá o que vai dar dele - um jogador brilhante. 

Fora de campo, Neymar é um cidadão dos mais questionáveis, para não usar outro adjetivo menos abonador, mas, em se tratando de futebol - e o tema aqui é este -, é um extraclasse, é completo. Podem escolher o fundamento do jogo, Neymar, no mínimo, é muito bom. O que pesa contra o maior talento brasileiro, para não falar mundial, em anos é o seu comportamento, e aqui nem entra em questão suas posições pessoais. 

É necessário conter a emoção, mesmo que seja somente para proteger o craque madridista das cobranças exageradas para que seja o número um. Presenciamos um craque em construção, longe do seu ápice físico, técnico e psicológico, e ainda sujeito a cometar algumas bobagens. Hoje, quando este texto é escrito - e afastado do calor da conquista continental -, Vini Jr. é o principal jogador da temporada, da mesma forma que Bellingham já foi apontado como o melhor do ano.

Imaginemos, porém, que a Inglaterra finalmente vença uma competição, a primeira desde 1966. Se Bellingham comer a bola, quem garante que o favorito não passe a ser ele? Ou Kane, que naufragou coletivamente no Bayern, mas individualmente fez provavelmente sua melhor temporada. Comparando as conquistas, a Champions do Real Madrid é só mais uma Champions do Real Madrid. Uma eventual Euro da Inglaterra são outros quinhentos.  

O prêmio pode ir para qualquer um deles, ou até mesmo para Kroos, um dos melhores da história, sem favor algum. Se mantiver o nível estupendo de atuações visto na temporada e, naturalmente, vencer a competição que jogará pela Die Mannschaft, em casa, estará à altura da distinção. Destes, Vini Jr, Bellingham e Kroos arrebentaram na temporada, pelo mesmo Real Madrid. Não me parece nenhum absurdo que os três estejam cotados.

Ainda assim, não será essa obrigação besta que parece ser determinante para decidirmos o tamanho de um jogador que nos dirá se Vinicius é maior ou melhor do que Neymar. Potencial, ele tem; mentalidade, idem; talento, demorará anos para aparecer alguém que se aproxime do ex-santista, isso se algum dia acontecer. Mas isso não basta. Além do mais, um fato poderá ser determinante para o futuro do brasileiro: a chegada de Mbappé ao Real Madrid.

Só para ilustrar, quando ainda não era um criminoso, Robinho era um talentosíssimo atacante, também do Real Madrid, com os olhos postos ao prêmio de melhor do mundo, e numa época pré Messi e Cristiano. Bastou a suspeita de que seria moeda de troca para a chegada do português para rifar a carreira. Bastou uma decisão errada, somente uma. Depois foi o que foi, mas isso não tem nada a ver com o campo.  

Como Vini reagirá à chegada do mimado francês? Ou melhor, como Mbappé chegará ao Real Madrid? Será mais um no vestiário, que não terá mais a liderança natural de Toni Kroos? Aceitará jogar centralizado para que Vini siga atuando onde comprovadamente rende mais? No PSG, essa questão causou ruído. Na seleção francesa, Mbappé já é o capitão.

Voltando à Bola de Ouro, o camisa 7 do Real Madrid sofre a resistência de parte considerável do mundo do futebol porque enfrenta o racismo que sofre até mesmo quando não está em campo, em vez de aceitar bovinamente as ofensas que recebe por causa da sua cor retinta. Não aceita ser atração, tampouco ser desumanizado por um sistema que sequer considera o racismo crime no país onde mora. 

Em todo caso, ainda lhe falta escrever uma história na seleção, onde Neymar, bem ou mal, é o maior artilheiro em jogos oficiais, mesmo tendo feito água nas grandes competições. Talvez a presença do próprio Neymar no grupo ofusque seu crescimento, ou faz com que os treinadores, desde Tite, não lhe deem o protagonismo que parece pronto para receber. Ou mesmo o sistema de jogo de Fernando Diniz tenha atenuado seu talento. Seja como for, Vini nunca foi o cara a ser procurado em campo quando a coisa apertou quando veste a cada vez mais esquisita camisa da seleção.

Pelas características de Dorival Jr, e por Neymar, temporária ou definitivamente, não estar à disposição, esta responsabilidade deve ser-lhe atribuída já na Copa América, na qual terá a chance de pavimentar ainda mais o caminho para chegar ao prêmio de melhor da temporada. Até lá, pelo menos, sugiro ir devagar com o andor porque o santo - e a admiração do torcedor - é de barro.   

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 11

por Humberto Pereira da Silva*

LO DE SIEMPRE? Flamengo perdeu com o Bolívar e
Tite foi criticado (Marcelo Cortes/Flamengo)

Nos anos recentes, a Libertadores tornou-se uma espécie de Copa do Brasil com os melhores do Campeonato Brasileiro. Mas trata-se de uma Copa do Brasil com peculiaridades, como fazer jogos-treino com equipas latino-americanas. 

Esses treinos oficiais, certo, às vezes em situações bem peculiares. Jogar em altitudes próximas dos 4 mil metros, por exemplo. É de fato uma competição bem peculiar. A cobertura que a imprensa dá às equipes sul-americanas não é diferente da que daria a uma equipa do planeta Marte. E, por isso, a cara de espanto quando um desses supostos sparrings se dá bem. No ano passado, se bem me lembro, algum incauto jornalista sugeriu que perder para o Aucas na estreia seria uma vergonha para o todo-poderoso rubro-negro. E perdeu. 

Ontem, o Palmeiras jogou no Equador contra o Independiente Del Valle. O Flamengo foi ter com o Bolívar, na Bolívia. Como estão Del Valle e Bolívar em seus respectivos nacionais? Aliás, como são disputados os campeonatos no Equador e na Bolívia? De onde é o Aucas, a propósito? Bem, bem, hoje, se eu fizer um esforcinho de memória, decorarei até a escalação do Al-Hilal e do Al-Nassr.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

BRASIL - de papelão em papelão é que se faz essa gestão

ESCADA ABAIXO Trabalho de Ramon é reflexo da desorganização
e do amadorismo da CBF (Foto: Joilson Marconne/CBF)

A eliminação do Brasil no pré-Olímpico, 20 anos depois de perder o bonde para os jogos de Atenas, o último em que a seleção brasileira de  futebol masculino não foi representada, é um vexame. Mesmo com a importância relativa do futebol nos Jogos Olímpicos, o Brasil gosta de jogar e é o atual bicampeão. Logo, tinha a responsabilidade de buscar uma das duas vagas. 

E como foi o projeto? Sequer havia um. Ramon Menezes, técnico de trabalhos questionáveis em Vasco, Joinville e Vitória, colecionou mais derrotas (17) do que vitórias (12), mas mesmo assim foi escolhido pelo ex-jogador Branco, o coordenador da base, e goza da simpatia do todo-poderoso e nada entendido Ednaldo Rodrigues, presidente por acidente da CBF. Na seleção principal, foi o tampão do tampão, e só existiu Fernando Diniz porque Ramon apresentou um trabalho ruim de resultados (derrotas para Marrocos, Senegal e vitória contra a Guiné, no jogo do uniforme preto) e, sobretudo, desempenho. De volta à base, foi eliminado na fase de quartas de final do Mundial por Israel. E a cereja do bolo foi a malograda campanha em busca por Paris.

Mais ou menos como foi em 92, com um time que tinha Cafu, Roberto Carlos, Marcio Santos, Marcelinho Carioca, Elivélton e Dener, mas tinha Ernesto Paulo no comando. O mesmo Ernesto Paulo, no ano anterior, foi tampão da seleção principal no pós-Copa 1990, na primeira derrota para País de Gales. Antes, tinha sido técnico do supertime do Flamengo que venceu a Copinha de 90. Da Lusa de 91, só levou Dener.  

O time, se é que pode ser chamado assim, piorou a cada jogo, como se cada treinamento potencializasse os defeitos. Mas Ramon, com o cartel às vistas de quem quisesse, inclusive para a cúpula da CBF, fez o que se esperava dele. Recorro a Esopo: não se deve culpar o escorpião por picar o sapo. Afinal, o escorpião fez o que sabia e podia, limitado à condição de escorpião que é.

A culpa é dele? Não só. A CBF é uma zona, e a campanha da seleção principal nas eliminatórias é um atestado dessa bagunça. O pré-olímpico é tiro curto e o resultado está aí.

"Mas não se produz jogadores como antes". Mais ou menos. Mesmo sem todos os melhores jogadores da faixa de idade, o Brasil tinha John Kennedy, Pirani, Alexsander, Gabriel PEC e Andrey. Mas tinha Ramon. E só tinha Ramon porque Ednaldo Rodrigues faz o que quer, como quer e quando quer, mesmo não tendo legitimidade e competência para ocupar o cargo que ocupa.

Quanto à Argentina, está à procura de um rival no continente.


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 5

*por Humberto Pereira da Silva

Foto: Gabriel Machado/AGIF/Folhapress

Como é óbvio, gosto muito de futebol e acho muito legal mesmo escrever, conversar sobre o assinto. mas os acontecimentos desse final de semana me desanimaram um bocado. Coritiba x Cruzeiro no final aquela briga entre torcidas; depois, Grêmio x Corinthians e o Alessandro, ex-jogador e atual ocupante de cargo de diretor do Corinthians, tenta invadir a sala do VAR [nem era onde estava o árbitro auxiliar, mas o equipamento...]

É desanimador. Ao longo do campeonato outras cenas se somam. De qualquer forma, terminada a rodada e só o Palmeiras (62) se saiu bem. Entre os que estão envolvidos diretamente com o título, foi o único que ganhou. O Atlético Mineiro (57), um pouco abaixo, ganhou e tem chance, mas acho difícil, pois tem só quatro jogos a realizar. O Flamengo (57) se complicou com o empate no Fla-Flu, mas com cinco jogos, virtualmente está a dois pontos do Palmeiras. A diferença de um jogo, uma rodada, e muita coisa muda. E ainda há a Data FIFA à mistura.

Sobre o Palmeiras? Se eu fosse palmeirense, ficaria bem apreensivo. Acho que essa é a temporada mais inconstante da era Abel. Não dá para confiar e deve perder pontos nessa reta final, mas os concorrentes também. Como diz a malta da terra de onde veio parte da família do Marcos Teixeira, editor deste blog e meu ex-aluno na faculdade, ao fim e ao cabo o campeão será... como o Flamengo em 2020, por demérito dos concorrentes. Ou então porque calhou de estar na liderança ao fim da última rodada.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Pílulas amadoras - 2

por Humberto Pereira da Silva*


ALERTA LIGADO Derrota em casa para o Cuiabá impede
Fogão de alargar liderança (X- Cuiabá EC)

O Botafogo pôs 13 pontos na frente do segundo colocado, no fim do primeiro turno do Brasileirão. E, vejamos, a diferença então do segundo para o primeiro da zona de rebaixamento era de 12 pontos. 

Chegando no último quarto do campeonato, Fogão está 6 pontos à frente do segundo, o Palmeiras (tendo um jogo a mais a ser disputado). Por sua vez, a turma de Abel Ferreira está 21 pontos na frente do Goiás, primeiro na zona de rebaixamento. 

Há algumas lições que se pode extrair, e que são solenemente desdenhadas. Não há termo de comparação entre o Brasileirão e as principais ligas europeias. O Atlético Mineiro é 6º colocado, ao longo do campeonato chegou a namorar a zona do rebaixamento e na reta final só alguém completamente insano para cravar que teria menos chance de ser campeão que, digamos, Grêmio e Flamengo. Isso é inconcebível nas grandes ligas da Europa. 

Outra lição. No Brasileirão, é tão inconcebível especular que o Atlético não é candidato ao título no último quarto do campeonato quanto inconcebível o Fogão terminar o primeiro turno 13 pontos na frente. Ora, duas temporadas atrás o Fogão estava na Série B. Na temporada passada fez campanha pra se manter na Série A. Esse ano no inexpressivo Carioca não existiu. E de repente, não mais que de repente, é tratado ao fim do primeiro turno do Brasileirão como se fosse o Bayern na Bundesliga, ou o Manchester City, na Premier League.

O futebol jogado no Brasil é sujeito a chuvas e trovoadas. Isso o torna paradoxalmente tão imprevisível quanto previsível. No caso, uma previsibilidade que é até óbvio ululante, para recordar Nelson Rodrigues, brilhante cronista de futebol. Se o Fogão fizesse um segundo turno como o primeiro seria tão estranho quanto supor que o Fluminense, que já esteve entre os primeiros e agora só pensa na Libertadores, esteja na briga pelo título. Ora, na fria projeção dos números, o Flu está apenas 4 pontos atrás do Atlético Mineiro.

Ps: alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que "o ponto de quebra do Botafogo foi a troca do treinador (Claudio Caçapa, interino, ex-ídolo do próprio clube e tampando o buraco deixado pela saída do Luís Castro, seduzido pelo dinheiro árabe e pela possibilidade de treinar Cristiano Ronaldo) por outro outro português, Bruno Lage, somente pela grife. Deu no que deu e Caçapa foi para o futebol belga para trabalhar no Molenbeek, que é do John Textor, dono do clube. Ele saiu depois de quatro vitória seguidas e o título bem encaminhado". Se for campeão, o será tendo tido quatro treinadores durante a campanha, mais um dos inúmeros paradoxos que tornam o Brasileirão previsivelmente imprevisível.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 4 de abril de 2023

PALMEIRAS - O menino que perdeu o brinquedo

Marcelo Zambrana/AGIF - Estadão Conteúdo

*Texto originalmente publicado no Ludopédio 

“Às vezes me pergunto: por que colocaram tanta mídia em mim? Eu não pedi isso. Tem situações que passam dos limites. ‘Ah, ele é o novo Pelé’. Cara, ninguém vai ser o Pelé, ele é o rei do futebol. Mas, agora, não tem o que fazer, não dá para pedir que as pessoas não falem da minha vida. Sempre disse que gostaria de ter todos os brasileiros perto de mim, mas entendo cada vez mais que isso não é possível e sempre existirão pessoas para me atacar".

Esta é uma das falas do palmeirense Endrick à revista GQ de abril, que tem o menino na capa, segundo a qual ele é o jogador mais valioso do futebol brasileiro, embora o site especializado na avaliação de valores de mercado Transfermarkt o coloque em segundo, ao lado de Pedro, do Flamengo (avaliados em €20 milhões), atrás do também rubro-negro Gabigol (€22 M).


Essa pressão sobre ele, o precoce idolatrado antes mesmo de ter se formado ídolo, desumaniza e é desumana, é desleal. Ele é um talento, e talentos se impõem, mas está em formação. O ainda menino, que paga pelo preço de ser diferente dos outros e que já foi negociado com o Real Madrid, tinha que ser incorporado aos poucos no time de cima. Um treino, depois uma convocação, uma vez no banco. Sentir o clima, jogar também pelo Sub-20 para seguir o trabalho de potencializar o enorme talento que tem.

Lapidar, desenvolver o potencial, errar, aprender. Mesmo já negociado, e este foi o preço que o talento precoce e a exposição resultante e desmedida cobraram, não poderia ser jogado aos leões como foi. "Vai lá e resolve, menino-gênio!", numa mistura feita com a cobrança feita por quem canta-e-vibra-pelo-alviverde-inteiro e com quem menospreza e faz troça, torcendo pelo fracasso porque gente ruim é assim mesmo. Não é assim que se faz.

Ao saber brincar de jogar à bola melhor que os outros, Endrick perdeu o brinquedo e passou a ter a obrigação de, jogo sim, jogo também, resolver o que adultos formados não resolvem.

Segundo De Rose Jr (1997), praticantes de esportes de competição estão expostos a vários tipos de pressão, internas ou externas. As pressões que vêm de fora estão relacionadas a como seus treinadores, torcedores e companheiros analisam seu desempenho. Internamente, são sobre seus objetivos pessoais, expectativas e de como vivenciam vitórias e derrotas.

Muita gente se esquece, mas ele é gente, não é produto ou máquina, ou uma fruta colhida verde do pé, mas que tem que dar suco do mesmo jeito ou então é para deitar fora. Milton Nascimento e Fernando Brant já nos ensinaram em Bola de Meia, Bola de Gude que, quando o homem fraqueja, é o menino que o irá socorrer. Mas na máquina de moer gente chamada de futebol profissional, o menino não tem vez, a cobrança por resultado não permite lapidar, aprimorar, maturar, desenvolver a tomada de decisão, que é o talento posto em prática da melhor forma. E não se trata de romantismo, é amadurecimento. É etapa.

Explicou Carravetta (2001) que, em jovens atletas, o desenvolvimento de suas capacidades se dá em quatro pilares: físico, tático, técnico e psicológico, que estão ligados às condições inatas ao indivíduo e é aperfeiçoado nas atividades que ele realiza no meio social e cultural, o que exige do atleta que suas funções sejam altamente desenvolvidas, bem como suas habilidades e estado psíquico para que se mantenha no processo de preparação para a competição desportiva. Neste sentido, diz Becker Jr (2007) que quando o início competitivo é precoce e os pilares não estão desenvolvidos adequadamente para a faixa etária da competição, pode haver um desgaste chamado Síndrome da Saturação Desportiva, que é explicada neste artigo publicado pela Universidade do Futebol.

É no período da adolescência, porém, e é aqui em que o Endrick se encontra com seus 16 anos (fará 17 somente no dia 21 de julho), que ocorrem alterações em nível físico, mental e social, em um processo de aquisição e desenvolvimento de competências que o capacitarão para assumir deveres e papéis sociais de um adulto (SAMULSKI, 2002).

Samulski e Chagas (1992) falaram que adolescentes, pela pouca experiência competitiva que têm, tendem a apresentar dificuldades para controlarem suas emoções e suas reações. Da mesma forma, podem ter mais problemas com os efeitos negativos causados pelo estresse que faz parte do processo esportivo e de competição.

A tomada de decisão não é algo que nasce pronta ou vem com o talento. É trabalhada. É memória que se cultiva com erros e acertos. E repetição. E treino. E tempo. No jogo físico, direto, no futebol profissional que condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável, como disse Eduardo Galeano no estupendo Futebol Ao Sol E À Sombra, Endrick perde porque, por mais talentoso que seja, ainda é um menino em desenvolvimento.

E perde porque ainda não tem os atalhos e seus movimentos automatizados. É robótico? É, mas é assim que o futebol atual molda. Livros como "A Bola Não Entra Por Acaso", "Guardiola Confidencial" e "Guardiola - A Evolução" explicam. É científico. Não é achismo. E não se refuta ciência com opinião.

O pior de tudo isso é que o Palmeiras não precisava queimar etapas, mas queimou. E corremos o risco de rifar a saúde mental de um menino porque ele é talentoso e porque o futebol - e tudo - transforma homens e meninos em mera mercadoria.

Referências:
GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Editora L&PM, Porto Alegre, 2014.

DE ROSE JR, D. Sintomas de “stress” no esporte infanto juvenil. Revista Treinamento Desportivo. Curitiba, v.2, n.3, p.12-20, 1997.

CARRAVETA, E. O jogador de futebol: técnicas, treinamento e rendimento. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2001.

BECKER JR, B. Treinamento psicológico para jovens desportistas.In: GAERTNER, G. Psicologia e ciências do esporte. p.143-164, Curitiba:Juruá, 2007.

FRANCO, Gisela Sartori. Psicologia no Esporte e na Atividade Física. Editora Manole, 2000.

SAMULSKI, D. M. Psicologia do Esporte. 2° ed. São Paulo: Editora Manole, 2002.

SAMULSKI, D. M; CHAGAS, M.H. Ánalise do stresse psíquico na competição em jogadores do futebol de campo das categorias infantil e juvenil (15-18 anos). Revista Brasileira de Ciência e movimento, 1992.

SORIAN, Ferran. A bola não entra por acaso: o que o futebol tem a ensinar à gestão. Lisboa: Gestão Plus, 2010.

PERARNAU, Martí. Guardiola confidencial. Campinas: Editora Grande Área, 2015.

PERARNAU, Martí. Pep Guardiola: a evolução. Campinas: Editora Grande Área, 2017.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - Sobre respeito, necessidade e pertencimento

Foto: Ronaldo Barreto/NETLUSA

Antes de qualquer coisa, é importante reconhecer que a gestão Castanheira tem um saldo positivo de proporções bíblicas e que, sem exagero algum, ajudou a devolver decência e dignidade à Portuguesa. Dito isto, ninguém está isento de críticas. Nem mesmo quem tanto já acertou – e isso nem precisava ser dito.

Muita tinta tem corrido desde que o clássico com o Corinthians foi levado para Brasília por 1 milhão de dinheiros para pagar as contas. Não há um consenso sobre o tema e muitas das reações dos torcedores foram negativas. Claro que existem os que concordaram, pois "não existe almoço grátis", "é preciso pagar as contas". Sim, sei de tudo isso, mas este jogo, especificamente, não poderia ser disputado longe do Canindé.

A nota oficial assinada pelo presidente Antonio Carlos Castanheira, então, atribuindo a decisão à falta da presença maciça dos que vestem verde e vermelho nos jogos ou a baixa adesão ao Sócio-Torcedor é pouco lisonjeira, sendo simpático, a quem tanto fez e faz pela Lusa.

Além do aspecto técnico, o financeiro é importante – e isso é tão óbvio quanto afirmar que quem fizer mais golos vencerá – mas não pode estar acima do sentimento do torcedor. Fosse uma temporada qualquer, seria somente um jogo em que a possibilidade da casa cheia de torcedores rivais seria um remédio amargo, mas necessário, como em tantas vezes.

Mas, caraças! Foram quase oito anos longe de qualquer vestígio de futebol de elite. E justamente quando há um clássico com o rival de quem dá mais prazer de vencer, levam o raio do jogo para Brasília? Negar esta experiência ao torcedor, aquele que mantém o clube respirando e que não lhe virou as costas no pior momento da centenária história lusa, é de uma infelicidade enorme, para dizer o mínimo.

Na temporada 2013, a Portuguesa vendeu dois mandos de campo no fatídico Brasileirão: contra o Corinthians e contra o Flamengo. Na época, tanto quanto hoje, era preciso vender o almoço para pagar a janta, mas eram tempos em que os clássicos em casa eram normais. Não são raros os torcedores da Portuguesa que nunca viram um jogo contra Corinthians, Palmeiras, São Paulo ou Santos no Canindé. Uma vitória, então, é preciso recuar até a 26ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2013 (um baile de 3 a 0 sobre o Santos). Pelo Paulistão, o viratempo tem que rodar mais, muito mais, e transportar o torcedor ao ano de 2001 (1 a 0 sobre o São Paulo).

DOIS MIL E UM! São impensáveis duas décadas. Se por um lado essa informação dá munição para quem acha que a questão técnica não pesa e o Corinthians seria o favorito no Canindé, em Brasília, no Pacaembu ou na Lua (e seria mesmo), por outro, um dos pilares que sustentam o ato de torcer por um time de futebol que não é lá muito habituado a glórias em campo é a sensação de pertencimento. Tire-nos isso e quase nada nos restará.

Voltando quatro parágrafos, a grana é necessária para que não só o funcionamento do clube seja viabilizado, mas sua própria existência. No entanto, como apontou aqui mesmo no NetLusa o Antonio Carlos Zorzi, se essa quantia – que é considerável, mas que não resolverá a vida de ninguém – é imprescindível, em algum momento, o planejamento financeiro para participar da elite foi falho. Quando o clube se converter em SAF, de nada adiantará um eventual aporte se quem determina onde e como será usado, errar.

Como também apontou o Zorzi com a habitual precisão de suas linhas, a Portuguesa só existe ainda porque tem uma torcida apaixonada e que nunca a largou, mesmo com todos os motivos do mundo para isso.

Não é assim que se trata quem te ama.

Texto originalmente publicado no NETLUSA