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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Pílulas amadoras - 29

*Por Humberto Pereira da Silva


Li com atenção a declaração do técnico Felipe Luís, do Flamengo, sobre arbitragem no jogo com o Palmeiras: "Se tem alguém que não pode reclamar de arbitragem é o Palmeiras".

Li depois, com algum estupor, no UOL que Felipe Luís "ironiza reclamação do Palmeiras". Eu recomendaria fortemente aos editores de imprensa uma atualização do MANUAL DE REDAÇÃO. Se possível, desenhar quando se usa a figura de linguagem "ironia" - neste caso, seria interessante explicar ao jornalista o significado do substantivo utilizado.

Eis a questão: a palavra "ironia" é usada como cacoete, muleta, e perde completamente o sentido. No caso, Felipe Luís fez uso de outra figura de linguagem, a alusão. Ele alude à arbitragem favorável ao Palmeiras em outras partidas. 

Ironia é outra coisa. Imaginemos que ele diga algo assim: "A arbitragem NUNCA erra em jogo do Palmeiras". 

Sinceramente - com sarcasmo e não ironia -, suspeito se poderia entender em sentido literal uma afirmação assim. Mas, sim, talvez essa época seja de uma "lassidão" tal que procurar o significado de lassidão seja um esforço sisífico (aqui uma metáfora, bem entendido).

PS.: Ora muito bem, se não sabem o significado de ironia, não se espera que conheçam o mito de Sísifo. A quem se interessar, porém, é só clicar aqui.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Pílulas amadoras - 28

 *Por Humberto Pereira da Silva


O pênalti perdido pelo Yuri Albert contra o Flamengo foi bizarro? Foi irresponsabilidade? Ele, provavelmente tenso, chutou o chão. A bola mal ganhou altura e ainda, caprichosamente, como se por vingança, literalmente caiu no colo do rubro-negro Rossi. 

Irresponsabilidade, se alguém quiser dar peso às palavras que usa, é muito pesado. Claro, posso me esquivar: foi um desabafo, tipo soltar um palavrão com a "inexplicável" decisão de uma cavadinha na frente de um goleiro herói, pegador de pênalti, que classificou seu time dia desses ao pegar duas cobranças. O pênalti perdido, nas circunstâncias, é realmente pra soltar um "irresponsável" para não falar alguma baixaria. 

Pênalti, no entanto, é um dos mitos no futebol. Erro e acerto, céu e inferno. Herói e vilão. A glória ou a danação. Pênalti perdido com cavadinha é, acho eu, um dos lances mais patéticos do futebol. Expõe o batedor ao ridículo.

Se for gol, contudo, jamais ouvi a acusação de irresponsabilidade, e sim a virtude do sangue frio em um momento tão tenso. Atribui-se ao folclórico treinador e grande frasista Neném Prancha que "o pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente". Os caprichos com o sentido das palavras: irresponsabilidade e frieza se permutam entre o bem e o mal.

Yuri foi irresponsável. Nas circunstâncias do jogo, diz o comentarista com toda paixão, não é hora de gracinha, bate forte. É, já vi dezenas e dezenas de bolas isoladas quando se bate forte, sem gracinha. De boas intenções, o inferno está cheio, inclusive de batedores de pênaltis. 

É, diz o mesmo comentarista, pênalti não é força! Mas, e se o goleiro acertar o canto? É fácil. Pênalti pessimamente cobrado, Yuri teria avisado o canto, ou, como diriam os locutores de antanho, telegrafado a batida.

A decisão do batedor na hora da cobrança envolve uma infinidade de variáveis. E ele sabe perfeitamente que qualquer que seja a escolha estará entre o céu e o inferno. Mas, a acusação de irresponsabilidade de Yuri é pesada porque irresponsável, convenhamos, é uma maneira para mim de irresponsavelmente ofender. Ora, quem decide dar uma cavadinha no pênalti é irresponsável. É isso?

Mas então, mesmo tendo chutado o chão, tivesse a bola, por menor que fosse, outra trajetória e entrasse e... Yuri não seria irresponsável. Talvez sequer se notasse a batida patética e eu então diria que o comentarista em seu silêncio seria irresponsável ao não acusar Yuri de irresponsável, apesar do gol. 

Lembrança: na final da Copa de 2006, 0 a 0 no placar, entre Azzurri e Bleus, e pênalti para a França. Zidane frente a frente com Buffon. Zidane dá a cavadinha. A bola, caprichosamente, bate na trave e entra. Irresponsável, a decisão de Zidane. Só um irresponsável para dar uma cavadinha ao cobrar um pênalti numa decisão de Copa do Mundo.

Entre a cavadinha e a cabeçada em Materazzi, Zidane não será lembrado pela ousadia na frente de Buffon, um dos maiores do seu e todos os tempos. 

Ao cabo, irresponsável ou ousado, quem decidirá o adjetivo, obviamente, é a bola.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Pílulas amadoras - 20

Por Humberto Pereira da Silva


A imprensa, com um bocadinho de atenção, podia ter percebido na fala desbocada do Abel sobre as mulheres algo além do clichê machismo. Há uma zona de atrito bem visual entre ele e QUALQUER COISA externa ao Palmeiras. Abel é inteligente, muito bem ligado, falou sabendo que causaria repercussão para esconder alguma coisa que não está bem. Basta o ABC da filosofia da linguagem: perguntado se gosta de bolo, ele ficou irritado e respondeu que o inverno na Patagônia é rigoroso...

Palmeiras teve sorte. Agora caminho livre pro TRI noBbrasileiro. 

Fla enroscadíssimo em três disputas e ainda tendo que lidar com o fogo amigo da imprensa flamenguista que, para mim, calculadamente e com os olhos voltados ao próprio umbigo, boicota uma diretoria, contaminando o ambiente.

Fogão???? Sinceramente, com a eliminação do Palmeiras na Libertadores, abriu-se o caminho para o Tri Verdão no Brasileiro. Fogão na Libertadores??? Nunca cri. Bem, mas o Flu levou ano passado... O mundo do futebol é bem estranho... Tenho para mim, na Libertadores, como concorrente o peso da camisa do São Paulo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 15

Por Humberto Pereira da Silva*

O CUME DA DESGRAÇA Vasco foi o time mais citado por torcedores
que apontaram os favoritos ao rebaixamento em pesquisa
 Quaest/CNN/Itatiaia (Foto: Leandro Amorim)


O Brasileirão, entre chuvas, trovoadas e enchentes, aproxima-se de seu primeiro quarto e duas coisas se podem extrair do que se viu: 

Primeira: Internacional, Bahia, Botafogo, Flamengo e Athlético visitaram a liderança em sete rodadas incompletas. Só mesmo o PVC pra ter dados assim na ponta da língua. Não tenho lembrança de outra temporada com tantas equipas liderando e oscilando de uma rodada pra outra da primeira à quinta ou sexta posição.  

Segunda: alardea-se os "perigos" que correm Fluminense, Vasco e Corinthians na zona de rebaixamento. Novamente teria de consultar PVC. Não tenho lembrança de primeiro quarto de Brasileiro com favoritos para o rebaixamento: Cuiabá, Vitória, Atlético-GO e Criciúma. 

Além desses favoritos, o Juventude corre por fora. Fluminense, Vasco ou Corinthians precisam de boa dose de sorte - não será por falta de merecimento - para que um deles caia.

Claro, água e mais água passa embaixo da ponte. A Copa América vem aí.

N.E: no amontoado de jogos que convencionou-se chamar de Calendário do Futebol Brasileiro, a competição nacional não para para a disputa da Copa América. Poderia usar o velho bordão "durma-se com um barulho desses", mas a malta nem sabe o que seria cochilar em silêncio, quanto mais dormir. Já é costume, pois.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pílulas amadoras -12

*por Humberto Pereira da Silva

 (Foto: Mateo Villalba / Getty Images)

Real Madrid e Bayern de Munique fizeram uma segunda partida da Champions no Santiago Bernabeu cercada de enorme expectativa. No jargão boleiro, duas das mais pesadas camisas do mundo definindo uma das vagas à final, tendo empatado na Alemanha por 2 a 2 o primeiro jogo. Duelo eletrizante, o Real, como só o Real faz, perdia em casa por 1 a 0, mas virou a partir dos 43 minutos do segundo tempo. Mas, no último lance de um embate em altíssima temperatura, teria havido o gol de empate do Bayern e a consequente prorrogação.

Teria, mas não! O bandeirinha ergueu a bandeira. E antes da conclusão da jogada, o árbitro apitou. A marcação: impedimento do jogador do Bayern. Em casos assim, seguindo o protocolo, o VAR não é, nem pode, ser solicitado. As imagens de TV, de qualquer forma, sem as tais linhas traçadas, deixam todas as dúvidas possíveis. O correto seria deixar a jogada seguir e o VAR depois diria se por "milímetros" houve ou não impedimento.

Alguns até serenos diriam: a arbitragem mais uma vez a favor do Real; outros mais coléricos esbravejariam: o Real sempre ganha roubando. É, mas na mesma partida o VAR anulou um gol do madridista Joselu: o lance seguiu até o fim e foi corrigido com o auxílio da tecnologia. Ora pois.

Mais. Com toda tensão do final, perdendo como perderam, ouvi de Hummels e Müller o lamento pelo "erro de arbitragem". Os dois, ao mesmo tempo, exaltaram o triunfo do Real. Descontentes, claro, que uma partida tão intensa tenha sido decidida num "erro".

A questão para mim é que os bávaros, sem dizer, sabem que tinham a partida nas mãos. Sabem que falharam nos momentos finais. Não transferiram a culpa pela derrota ao "erro de arbitragem". Essa mentalidade é a maneira de lidar com as infindas contingências em uma partida de futebol. Erros, falhas, são lamentados. Mas tão somente lamentados. 

No Brasil, contudo, não há a mais remotíssima possibilidade de um pênalti, marcado ou não, não gerar toda sorte de discussões, acusações, ofensas, agressões.  É como se a marcação, ou não, fosse decidida a bala. Com a imprensa esportiva pondo óleo quente na fervura, praticamente não há partida de futebol no Brasil sem confusão quanto a uma ou outra marcação. 

A coisa não só vai mudar como tende a piorar. Imprensa, torcedores, dirigentes, técnicos e, com menos intensidade, jogadores, atiçam o fogo que queima a lenha. Não vai mudar o resultado, mas gera um clima que faz valer o jargão boleiro: ganhar no grito. Um "investimento para decisões futuras", segundo o editor deste blog, meu aluno Marcos Teixeira.

Paulo Nobre, ex-presidente do Palmeiras, usou a expressão "mão grande" para se referir a favorecimento ao Flamengo. No fim, o Palmeiras acabou campeão brasileiro de 2016. Ano passado, o auxiliar de Abel Ferreira, João Martins, novamente mencionou complô para que o Palmeiras não conquistasse o bi brasileiro. Ao fim...

Ironias da vida e da lembrança. Em partida do segundo turno no ano passado, entre Flamengo e Palmeiras, que terminou empatada, o Flamengo reclamou de pênalti não marcado em Everton Ribeiro. Nesse "jogo de seis pontos" a marcação poderia, poderia, inverter o título. 

Ocorre que esse mesmo Flamengo que hoje nas primeiras rodadas do Brasileiro reclama de arbitragem faz o que o Palmeiras fez: insinuar favorecimento aqui e ali. Esse mesmo Flamengo que foi campeão brasileiro em 2020 "favorecido" pela arbitragem.

Onde quero chegar? O frequente e insensato clima de acusação às arbitragens começam a macular os títulos. O título do Palmeiras no ano passado depois da insinuação de complô para que não ganhasse mostra o quê? Que erros ao meu favor são do jogo e contra mim são premeditados? John Textor, dono do Botafogo, apelou para a inteligência artificial para insinuar que o Palmeiras foi beneficiado, mas não falou nada sobre a campanha de rebaixado que seu time cumpriu no segundo turno.

Para mim, que é preciso ter princípios morais. Dirigentes e técnicos ao se manifestarem como se manifestam são despidos de qualquer "sentimento moral". Não vejo problema algum em afirmar que não se diferenciam da malta. Dão enorme contribuição para que o futebol brasileiro, além da CBF e outras mumunhas, mais logo se iguale ao mundo da contravenção, do crime, do gangsterismo.

Ah, recentemente na volta para casa, jogadores do Fortaleza foram atacados em emboscada. Não houve mortos. É isso.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 9

por Humberto Pereira da Silva*

 QUEM SEGURA? Sem apoio de lado algum, o rolar da cabeça
de Thiago Carpini é uma questão de tempo (Foto: Getty)

A eventual queda de Thiago Carpini exibe o quanto há de esdrúxulo nas decisões de um grande time no futebol brasileiro. Não é cabível imaginar que pessoas com o mínimo de inteligência e que ocupam a direção de São Paulo não tivessem diagnóstico das dificuldades do treinador para conduzir a equipa no Brasileirão. Mas,  passada a primeira rodada, e um primeiro fiasco contra o Fortaleza, e Carpini incrivelmente não é técnico pra um time como o São Paulo. 

Nessa "não é técnico para time do tamanho do São Paulo, o esdrúxulo. Ao demitir o técnico que podia ser demitido na véspera do Brasileirão, e assim com o técnico novo PLANEJAR a temporada, a diretoria do São Paulo acena com técnico novo passada apenas a primeira rodada. Nesse aceno, HOJE, o tamanho do São Paulo. O tamanho do técnico que foi contratado. Ou seja, Hoje, sem qualquer planejamento, um time que começa o Brasileirão com todas as incertezas possíveis. Como qualquer outro time que pulou da Série B e que, após duas ou três rodadas, troca o técnico para desviar a atenção da torcida e imprensa para a inevitável volta à Segunda Divisão.

PS. Alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que há um ano a mesma diretoria demitiu Rogério Ceni logo depois da primeira rodada do Brasileirão. Vinha de uma eliminação precoce no Paulista, para o Água Santa, e o nível de atuações não subiu mesmo com os treinos entre a queda no Paulista e o debute no nacional. Nem a vitória na Sul-americana, contra o Puerto Cabello da Venezuela, manteve o treinador. 

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


sábado, 2 de dezembro de 2023

Pílulas amadoras - 7

*por Humberto Pereira da Silva

A campanha do Botafogo nesse Brasileirão é um dos fatos mais insólitos que vi no futebol. Momentos em uma partida, um jogo ou mesmo uma sequência de jogos, podem apresentar situações inusitadas. A derrota do Brasil na Copa de 2014 para a Alemanha é um bom exemplo.

Mas o que acontece com o Botafogo se refere a uma temporada. Quer dizer, 36 dos 38 jogos previstos. O melhor desempenho na história dos pontos corridos no primeiro turno. No segundo, no entanto, supera apenas o América-MG e o Goiás.

Depois da virada que sofreu do Palmeiras, em especial, a sucessão de resultados é simplesmente inacreditável. O extremo do inacreditável foi o empate contra o rebaixado Coritiba.

Leio e ouço tentativas de explicação para o que acontece com o Botafogo. As explicações são as mais variadas e se multiplicam. Decisões erráticas da cúpula, leia-se Textor/SAF, inexperiência do TIME em momentos decisivos... Enfim, não faltam tentativas de explicação. 

Não tenho nem longuinquamente a pretensão de mais uma. Há uma interrogação, no entanto, que me parece um ponto cego. Como foi possível a campanha do Botafogo no primeiro turno? 

É como se no insólito houvesse abaixo uma camada mais insólita. O gol de empate do Coritiba 42 segundos depois do gol do Botafogo, já marcado para além dos acréscimos, é inacreditável, como ouvi gritar o narrador global. Mas esse evento absolutamente casual se repetiu inúmeras vezes a favor do Botafogo nas 19 rodadas do primeiro turno. 

No primeiro turno, contra o Palmeiras, houve um gol anulado pelo VAR e um pênalti perdido pelo Verdão. Numa jogada casual e até despretensiosa, gol de Tiquinho e vitória do Botafogo.

A campanha do Botafogo no primeiro turno, para mim ao menos, é o insólito do insólito. Algo que me faz pensar na fantasia Alice no país das maravilhas e sua lógica do absurdo. 

***

Palmeiras campeão? Pois é, nesse Brasileirão a palavra "favorito" perdeu o sentido. Num nível bem menor, e sem o foco do Botafogo, o Atlético mineiro é quase o espelho invertido do Fogão. Constante na irregularidade ao longo dos dois turnos, o Palmeiras pode surpreender nas duas rodadas que restam. Eu, no entanto, não me surpreenderia. 

Cravar Palmeiras campeão é tão absurdo quanto esquecer o quanto os resultados desse Brasileirão têm sido absurdos. Num campeonato tão surpreendentemente absurdo, o Fluminense sem qualquer pretensão não é um mero sparring para o Palmeiras cumprir tabela. E o boato em torno de possível saída do Abel para o Catar parece piada pronta a duas rodadas do fim...

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 6

*por Humberto Pereira da Silva

Reprodução - Youtube

Passada a data FIFA, e a seleção... volta o Brasileirão com contas e tabelas finalmente ajustadas. Jogos com atenção para a parte de cima e a de baixo na tábua de classificação. 

Na parte de baixo uma fixação, que mistura crença, superstição, matemática e certa preguiça mental: quem fizer 45 pontos não cai. Seguindo esse "número mágico", o Fortaleza na 12ª posição, com os tais 45 pontos, não mais correria risco de cair... 

Não consigo imaginar todos os cruzamentos nas rodadas finais. Mas nas próximas rodadas se o Bahia perder e, vendo a tabela, o Fortaleza só cai se levar solenes goleadas... E ainda há o Cruzeiro, que complementa a rodada medindo [o que sobrou das] forças com o desesperado Goiás.

"Matematicamente", sim, o Fortaleza pode ser alcançado pelo Bahia. O São Paulo com 46 pontos também...

Cruzando todos os resultados possíveis é o caso de dizer que o Fortaleza ainda corre risco porque não atingiu o "número mágico? Ora, tendo superado o dito cujo, o Tricolor paulista sendo superado por Bahia e/ou Cruzeiro "matematicamente" não corre risco numa combinação maluca de resultados?

É preciso pôr no papel TODAS as combinações possíveis de resultados nas rodadas ainda vindouras para saber se ele, São Paulo, ainda pode cair, pois "matematicamente"... ainda pode ser alcançado por quem está, como dizem em algures e alhures d'além mar, abaixo da linha d'água. 

Quero dizer com isso que quando se fala em "número mágico" é preciso efetivamente fazer contas. Num campeonato com resultados tão surpreendentes, vejamos como foi a rodada 35. A goleada do Bahia sobre o Corinthians, além de Vasco, Santos, Inter e Fortaleza pontuando, e São Paulo x Cuiabá deixou de ser mero cumprimento de tabela. 

A campanha do Botafogo no segundo turno [n.e: 15 de 48 pontos] deve servir de lição para que uma expressão como "número mágico" não seja entendida literalmente: um número... mágico. Por óbvio, onde há mágica, não há matemática.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 5

*por Humberto Pereira da Silva

Foto: Gabriel Machado/AGIF/Folhapress

Como é óbvio, gosto muito de futebol e acho muito legal mesmo escrever, conversar sobre o assinto. mas os acontecimentos desse final de semana me desanimaram um bocado. Coritiba x Cruzeiro no final aquela briga entre torcidas; depois, Grêmio x Corinthians e o Alessandro, ex-jogador e atual ocupante de cargo de diretor do Corinthians, tenta invadir a sala do VAR [nem era onde estava o árbitro auxiliar, mas o equipamento...]

É desanimador. Ao longo do campeonato outras cenas se somam. De qualquer forma, terminada a rodada e só o Palmeiras (62) se saiu bem. Entre os que estão envolvidos diretamente com o título, foi o único que ganhou. O Atlético Mineiro (57), um pouco abaixo, ganhou e tem chance, mas acho difícil, pois tem só quatro jogos a realizar. O Flamengo (57) se complicou com o empate no Fla-Flu, mas com cinco jogos, virtualmente está a dois pontos do Palmeiras. A diferença de um jogo, uma rodada, e muita coisa muda. E ainda há a Data FIFA à mistura.

Sobre o Palmeiras? Se eu fosse palmeirense, ficaria bem apreensivo. Acho que essa é a temporada mais inconstante da era Abel. Não dá para confiar e deve perder pontos nessa reta final, mas os concorrentes também. Como diz a malta da terra de onde veio parte da família do Marcos Teixeira, editor deste blog e meu ex-aluno na faculdade, ao fim e ao cabo o campeão será... como o Flamengo em 2020, por demérito dos concorrentes. Ou então porque calhou de estar na liderança ao fim da última rodada.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

sábado, 11 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 4

 * por Humberto Pereira da Silva

Foto: Reprodução/Botafogo TV

Com os resultados da rodada, dá para cravar: o Botafogo e um caso (case, para brincar com anglicismo). Caso, bem entendido, que valeria ser SEMPRE lembrado não tanto em razão da derrocada espantosa no segundo turno do Brasileirão, mas sim como foi possível a campanha do primeiro turno. 

Como foi possível a um time que até o início do Brasileirão não revelar qualquer indício de favoritismo num campeonato tão equilibrado ter desequilíbrio como desequilibrou? O que me vem é o notável absurdo de praticamente ninguém ter questionado haver algo fora da ordem na campanha do primeiro turno. 

O caso Botafogo faz pensar duas coisas no calor da hora. Num campeonato longo uma equipe não se monta de uma hora pra outra, do nada, para manter regularidade até o fim. Outra coisa: futebol brasileiro há variáveis e variáveis que não podem ser subestimadas. O interesse no Brasileirão é fortemente condicionado por exemplo pelo envolvimento das equipes da Libertadores, na Copa do Brasil... é só olhar a tabela e vermos o de estão o Flu e o São Paulo. 

Essa é tão só UMA variável. Mas que para mim dá um tanto de sentido para explicar o case Fogão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

BOTAFOGO - Sobre meninos mimados

 Reprodução/Premiere

Se o Botafogo conseguir a proeza de perder um campeonato no qual teve 13 pontos e de vantagem para o segundo colocado, John Textor e os líderes do elenco terão muitos o que explicar: Textor, o dono, porque não segurou o técnico Bruno Lage; os líderes, por terem derrubado o treinador e bancado Lúcio Flávio, que teve boa passagem dentro de campo pelo próprio Fogão, mas nem treinador é. 

O trabalho de Lage, se comparado ao do antecessor Luís Castro, era ruim, mas em momento algum o elenco comprou as ideias dele. No Benfica, que ele pegou a duas rodadas da final do turno e sete pontos atrás do líder, terminou campeão e com mais de 100 gols num campeonato com 34 rodadas, e ainda teve que enfrentar os quatro adversários mais bem colocados na tabela fora de casa. E venceu todos eles. Lage poderia não ser o melhor, mas está longe de ser despreparado.

AVASSALADOR Bruno Lage foi campeão português pelo Benfica
(Foto: Jorge Amaral/Global Imagens / Esporte News Mundo).




Textor não quis bancar um treinador interino, Cláudio Caçapa, apesar das quatro vitórias em outros tantos jogos, mas o levou para ser treinador de seu time na Bélgica, o Molenbeek. Buscou outro português, talvez pela grife, mas com experiência para tocar o barco. E este barrou o artilheiro Tiquinho Soares e o mundo caiu.

Tiquinho, craque de última hora no Campeonato Brasileiro, teve uma boa passagem pelo FC Porto, onde era bem quisto pela torcida, mas longe de ser o jogador indiscutível no qual se tornou aqui. Lage o colocou no banco e teve o tapete puxado publicamente pelos líderes do elenco.

E depois? O Botafogo melhorou? Instável, segue derrapando e com seríssimos problemas para lidar com a pressão causada pelo estupendo trabalho de Castro, que se foi, como tantos outros por aí afora para receber o dinheiro árabe e para treinar Cristiano Ronaldo. Foi prejudicado contra o Palmeiras? É discutível e pode ser que sim, mas não há erro de arbitragem que justifique um time que abriu 3x0 ainda no primeiro tempo (e ficou barato) e tinha um pênalti a favor aos 37 do segundo tempo e com 3x1 no placar.

Se o Botafogo conseguir perder o campeonato, será não só a maior pipocada da história do futebol brasileiro, como também será a prova de que elencos mimados podem estragar um grande trabalho. E, neste sentido, Textor e os líderes do elenco terão sido os maiores responsáveis.

Pílulas amadoras - 3

por Humberto Pereira da Silva*


SOBRENATURAL DE ALMEIDA O personagem de Nelson Rodrigues
esteve em campo no Nilton Santos (Foto: Thiago Ribeiro/AGIF)

O jogo também é ganho fora de campo

No final do primeiro turno, um colega crítico de cinema que admiro e botafoguense escreveu no Facebook: "Não quero comemorar antes da hora, mas que loucura é esse Botafogo".

Mantivemos uma conversa virtual e destaco aqui um trecho do que escrevi para ele: "Mas, para mim, a imprevisibilidade no futebol, tão previsível, é o que me faz esperar pelas próximas 10 ou 12 rodadas pra ver o que vai acontecer com o Botafogo".

E, na sequência da conversa, fiz essa observação: "Mas, mas... sobressaltos, inconstâncias, irregularidades estão no caminho nas próximas 12 ou 13 rodadas. Isso pra mim o previsível... e, bem,... apenas especulação: jogos de seis pontos e o Bota não pode nem longinquamente pensar em perder para o Palmeiras e Grêmio. Pois teria que contar com a irregularidade deles pra não ver essa diferença diminuir pra seis pontos... ora, ora, caro... seis pontos no futebol brasileiro e toda sorte de VAR entra em campo... rs".

Nada de vã vanglória no vaticínio. Todo vaticínio, por princípio, se expõe ao erro. Senão, não seria vaticínio.  Acertar não é senão probabilidade. Mas, confesso, a expulsão de Adryelson me espantou. 

Até a expulsão, levando em conta a torcida, e não a fria probabilidade, o Fogão era campeão, pois num jogo de seis pontos punha nove na frente do segundo colocado faltando somente 7 rodadas (fora a partida a ser jogada com o Fortaleza). A entrada do VAR em campo decidiu a sorte do jogo. 

E sobre o VAR e arbitragem, só pra completar, gostaria de saber a opinião de Abel Ferreira e seu auxiliar, que no meio do campeonato sustentou: "Sistema quer evitar o bi do Palmeiras no brasileiro". 

Futebol, em todo lugar, é um jogo jogado dentro e fora de campo. "Sistema" não é folclórica teoria da conspiração. Abel, seu auxiliar e o Palmeiras sabem isso. Quem quer que acompanhe o futebol com atenção, para além do coloquial "jogo roubado", sabe isso. 

Impossível afirmar que calculadamente o "Sistema" se intimidou frente ao Palmeiras e... no momento de uma decisão controversa o VAR... Mas, a ação do VAR em momento me faz lembrar a frase de Júlio César: "A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".

A vitória do Palmeiras, 0 a 3 contra e, depois, 1 a 3 tendo o adversário um pênalti par abater já perto do minuto 40 do segundo tempo, foi épica. Mas o Palmeiras também ganhou fora de campo.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Pílulas amadoras - 2

por Humberto Pereira da Silva*


ALERTA LIGADO Derrota em casa para o Cuiabá impede
Fogão de alargar liderança (X- Cuiabá EC)

O Botafogo pôs 13 pontos na frente do segundo colocado, no fim do primeiro turno do Brasileirão. E, vejamos, a diferença então do segundo para o primeiro da zona de rebaixamento era de 12 pontos. 

Chegando no último quarto do campeonato, Fogão está 6 pontos à frente do segundo, o Palmeiras (tendo um jogo a mais a ser disputado). Por sua vez, a turma de Abel Ferreira está 21 pontos na frente do Goiás, primeiro na zona de rebaixamento. 

Há algumas lições que se pode extrair, e que são solenemente desdenhadas. Não há termo de comparação entre o Brasileirão e as principais ligas europeias. O Atlético Mineiro é 6º colocado, ao longo do campeonato chegou a namorar a zona do rebaixamento e na reta final só alguém completamente insano para cravar que teria menos chance de ser campeão que, digamos, Grêmio e Flamengo. Isso é inconcebível nas grandes ligas da Europa. 

Outra lição. No Brasileirão, é tão inconcebível especular que o Atlético não é candidato ao título no último quarto do campeonato quanto inconcebível o Fogão terminar o primeiro turno 13 pontos na frente. Ora, duas temporadas atrás o Fogão estava na Série B. Na temporada passada fez campanha pra se manter na Série A. Esse ano no inexpressivo Carioca não existiu. E de repente, não mais que de repente, é tratado ao fim do primeiro turno do Brasileirão como se fosse o Bayern na Bundesliga, ou o Manchester City, na Premier League.

O futebol jogado no Brasil é sujeito a chuvas e trovoadas. Isso o torna paradoxalmente tão imprevisível quanto previsível. No caso, uma previsibilidade que é até óbvio ululante, para recordar Nelson Rodrigues, brilhante cronista de futebol. Se o Fogão fizesse um segundo turno como o primeiro seria tão estranho quanto supor que o Fluminense, que já esteve entre os primeiros e agora só pensa na Libertadores, esteja na briga pelo título. Ora, na fria projeção dos números, o Flu está apenas 4 pontos atrás do Atlético Mineiro.

Ps: alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que "o ponto de quebra do Botafogo foi a troca do treinador (Claudio Caçapa, interino, ex-ídolo do próprio clube e tampando o buraco deixado pela saída do Luís Castro, seduzido pelo dinheiro árabe e pela possibilidade de treinar Cristiano Ronaldo) por outro outro português, Bruno Lage, somente pela grife. Deu no que deu e Caçapa foi para o futebol belga para trabalhar no Molenbeek, que é do John Textor, dono do clube. Ele saiu depois de quatro vitória seguidas e o título bem encaminhado". Se for campeão, o será tendo tido quatro treinadores durante a campanha, mais um dos inúmeros paradoxos que tornam o Brasileirão previsivelmente imprevisível.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

Pílulas amadoras - 1

por Humberto Pereira da Silva*

SEM ESCALAS Rebaixado em 2007, Corinthians iniciou a recuperação que culminaria em 2012 com o título mundial (Foto: Daniel Augusto Jr.)


A vitória de Pirro

Briga terrível na zona do rebaixamento. Duas vagas em disputa cabeça a cabeça. América e Coritiba virtualmente fora da disputa. Já têm ingresso quase garantido para a Série B. Vasco, Goiás, Santos, Bahia e Corinthians são os candidatos mais a sério às duas vagas restantes. A partir daí, Cruzeiro e Inter, imagino poucas chances de sucesso nessa disputa. Com cinco e  seis pontos na frente do primeiro na zona do rebaixamento, respectivamente - e a Raposa com um jogo a mais a ser disputado -, são três rodadas restando oito. Não que Cruzeiro e Inter tenham tantos méritos, mas contam que os de baixo dificilmente terão três rodadas sem derrota. 

Uma questão do penso da imprensa que me deixa encafifado: qual o problema de disputar a Série B? Óbvio que ignoro o fator grana no obscuro mundo do dinheiro que transita no futebol. Se ignoro o fator grana, fica o da vergonha. Uma temporada fora da "elite". Mas por que o fator humilhação se sobreporia à organização de um time que da série B se candidataria ao título na temporada subsequente? Vide case Fogão, duas temporadas atrás na Segundona. Equipas como Vasco, Santos... na falsa "elite", ano que vem é como a famosa frase de Pirro, comandante romano depois de ganhar batalha com grandes perdas: "mais uma vitória dessa e estou perdido".

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 15 de março de 2023

PORTUGUESA - O espelho nas crises dos outros


Faltando uma rodada para o final da Série A3 do Campeonato Paulista, o Audax, que foi vice-campeão paulista em 2016, naquele que foi o cartão de visitas do Fernando Diniz como treinador, está na lanterna da competição. Depois daquele ano de graça, foi caindo, caindo, voltou da Série A3 para a A2, caiu novamente e agora está à beira de uma inédita e previsível quarta divisão do futebol paulista. Erros em cascata, todos sob as bênçãos do proprietário, Mario Teixeira, transformaram o clube de Osasco numa caricatura de si mesmo.

A Ferroviária, que estava na elite estadual desde 2016, teve uma série de “problemas” com o seu investidor e, após uma série de decisões administrativas das mais questionáveis e equivocadas, foi pra casa do chapéu – para sorte nossa – e caiu este ano. Vai jogar a Série D, mas se não subir terá que lutar para manter o calendário nacional vencendo a Copa Paulista. Só para justificar a presença neste texto, quando o "homem do dinheiro", Saul Klein, chegou a Araraquara, a torcida o recebeu com festa, imaginando que seria também um sugar daddy para o clube. A relação não chegou a durar três anos.

O São Caetano, campeão paulista em 2004, duas vezes vice-campeão brasileiro na virada do milênio e vice-campeão da Libertadores, acaba de cair para a Série A3. Sucateado, atolado em dívidas e polêmicas, não é nem sombra do Azulão que assombrou o país há pouco mais de 20 anos e está de volta à terceira divisão depois de mais de 25 anos. Klein foi o responsável pelo aporte financeiro quando ainda estava ligado a uma grande rede varejista. E não foi pouco. E não bastou.

Três clubes "com dono". Três clubes em que o boom não aconteceu por acaso, pois não faltava dinheiro praqueles lados para investir no futebol. Três exemplos de que a qualidade do (s) gestor (es) importa mais que o modelo de gestão.

A Portuguesa passou o Paulistão pendurada na tabela e na falta de dinheiro que, aliada a outros fatores fartamente tratados aqui, resultou em um elenco de qualidade questionável, para dizer o mínimo. A estrutura é precária, o futebol feminino está interrompido, o que é uma desgraça, e a única categoria de base em atividade é a Sub-20, que deveria ser a sequência de um trabalho iniciado na Sub-15, cedendo jogadores talhados dentro de uma filosofia de trabalho que atenda às necessidades do time principal.

Havia a expectativa de que tanto Sub-15 quanto Sub-17 voltassem à ativa. Como a SAF ainda não saiu do papel – ou melhor, sequer foi aprovada –, a retomada foi adiada. E isso é preocupante. 

E é preocupante porque não conseguimos sequer investimento para ter condições de formar nossos atletas, em vez de ter que ir às compras. É, ou deveria ser, o mínimo. E aí a conversão no modelo de clube-empresa passa a ser a única forma de viabilizar a existência do clube? Mesmo a apresentação para a estrutura desejada no novo modelo e os possíveis investidores, que estava prevista para abril, foi adiada. 

Abri este texto com três exemplos recentes que mostram que não é o fato de ter investimento ou proprietários ou o caralho que seja que garante coisa alguma. Nos três casos, e estive vendo de perto os três, a oferta de dinheiro atraiu gente que não deveria estar lá simplesmente porque não entende nada do riscado – ou não deveria lá por outros motivos, mas é bom parar por aqui para não criar problemas na justiça. 

Só para ficar claro: não sou contrário à conversão para a SAF, mas não pode ser feita de qualquer forma.

Não sei o que pensar, honestamente. Só espero que quem venha abrir os cordões à bolsa, além de querer fazer dinheiro com o clube, que é o objetivo de qualquer investidor, entenda e respeite prazos, processos e tenha paciência, muita paciência. 

Ou então teremos uma Ability 2.0. Alguém aqui quer isso?


Texto originalmente publicado no NETLUSA

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - Quase fomos

* Texto originalmente publicado no NetLusa


Era um dia diferente. Era um domingo diferente. Era dia de decisão do Campeonato Brasileiro, algo especial por si só. O pessoal de hoje, com seus extremos desequilibrantes, wingers, box-to-boxes e hat-tricks, não faz ideia, mas campeonato com final era legal pra caramba, não essa bobagem de pontos corridos em que “todo-jogo-é-decisivo”. O escambau que é!

Só que aquele 15 de dezembro de 1996 não era igual aos outros 25 dias parecidos que aconteceram desde 1971 (repitam comigo: “O Campeonato Brasileiro começou em 1971"): nenhum deles teve a honra de ter a Portuguesa em campo. E com a vantagem de ter vencido por 2 a 0 o primeiro jogo, numa quarta-feira de muita chuva e atuação de gala de Gallo, Caio, Zé Roberto e Rodrigo.


Para chegar ali, foi preciso passar pelas águas tortuosas das 23 rodadas da primeira fase, que distribuía oito vagas para o mata-mata. Na última delas, a gente estava em 11º lugar e dependia de uma combinação enorme para passar: era preciso torcer contra três dos quatro concorrentes às duas vagas que restavam (Goiás, que jogaria com o classificado Grêmio em Porto Alegre; Internacional, que visitaria o rebaixado Bragantino; Sport, que visitaria o também classificado Palmeiras; e São Paulo, que pegaria o eliminado Paraná, fora de casa), além de vencer o Botafogo, campeão em título, mas que não brigava por nada. 


Como o Canindé havia sido interditado porque alguns gênios resolveram atirar objetos no gramado na partida com o Vitória, os últimos dois jogos como mandante da primeira fase foram disputados longe, bem longe, da nossa casa. Pior: o time vinha de duas derrotas seguidas, para o Internacional em São Januário, no primeiro dos jogos em que cumpriu a punição, e para o Coritiba, uma sova de 4 a 0.


Aí, o inesperado: um incontestável 4 a 1 no Fogão, com direito a cai-cai quando o goleiro Clemer se preparava para bater um pênalti, combinado com as derrotas do sétimo colocado Inter (gol do ex-luso Esquerdinha) e do oitavo Sport, e o empate do Tricolor, bastaram para a Lusa avançar. Por força do imbecil regulamento da época, os jogos a partir das quartas-de-finais não poderiam ser disputados no Canindé, que não tinha a capacidade mínima exigida para dali em diante. Toca para o Morumbi, então.


Desde o milagre da última rodada, tudo parecia possível. Bater o líder Cruzeiro? Opa, tranquilo. Toma um 3 a 0 aqui com show do saudoso Alex Alves. Veio o grande Atlético Mineiro, que ainda não era esse troço cheio de grana de construtora e nova vitória “em casa”, mas pela margem mínima. Havia ainda, no Mineirão, mais de 80 mil vozes enlouquecidas gritando “lutar, lutar, lutar!”. Lutamos, viramos e seguramos um 2 a 2 com a força das nossas almas. Quase não deu, mas deu. 


Faltava a final com o copeiro Grêmio.


Que dias foram aqueles! Como o Guarani e o Palmeiras rodaram já na segunda fase - e cabe um adendo aqui: os quatro melhores colocados foram eliminados por quem teria que decidir a sorte longe de casa e as semifinais foram disputadas por Atlético Mineiro, Goiás, Grêmio e Portuguesa. Voltando, como o Bugre e o Verdão dançaram, a Lusa foi a única representante paulista dali em diante e, exceto os gremistas e um ou outro ser de coração ruim, todo brasileiro que não era indiferente ao futebol vestiu nossas cores. E foram todos muito bem-vindos. Eu mesmo cansei de levar amigos que não tinham a sorte suprema na vida de serem torcedores da Portuguesa ao Canindé. E todos com camisa da Lusa, emprestadas por mim, claro. Por que diabos não receberia de bom grado este reforço de última hora? Acho que todo mundo tem direito de ser feliz na vida, mesmo que por somente 90 minutos.


Desde que Clemer fez uma defesa sobrenatural no chute do volante Moacir - que seria um dos nossos no ano seguinte - e segurou o 2 a 2 no Mineirão, o Canindé havia se tornado o epicentro do futebol brasileiro. Imprensa todos os dias, páginas, páginas e mais páginas dos jornais, Globo Esporte na hora do almoço. Galvão Bueno gritando “ééééé da Luuuusaaa!” (com licença, Flávio Gomes) no domingo. Era tudo nosso e tudo era Lusa. 


No primeiro jogo, disputado sob um dilúvio, Alex Alves seguiu endiabrado. Foi ele quem sofreu a falta na qual saiu o primeiro gol. Marco Antonio, lateral que substituiu Arce, foi expulso e, segundos depois, a perfeição esteve no gramado, na forma da cobrança de Gallo, da meia lua, no ângulo de Danrlei. Um golaço. Mesmo com um a mais, o nervosismo lusitano era flagrante e o Grêmio, forjado para jogos como aquele, perdeu um caminhão de gols. Ainda assim, o 2 a 0, reforçado pelo tento de Rodrigo, outro jogador em estado de graça e craque daquele campeonato, nos levou ao Olímpico podendo perder por até um gol. A vantagem era grande demais. Até então, somente em uma ocasião um time havia conseguido superar uma desvantagem dessas.


Era o Grêmio.


O início do jogo foi o pior possível. Uma posse de bola besta perdida no campo de defesa, um escanteio. A bola mal rebatida e o gol de pé esquerdo do destro Paulo Nunes. Três minutos de jogo. 55 mil pessoas fazendo o Olímpico tremer. “Era tudo o que o Grêmio queria!”, disse Galvão Bueno. Avizinhava-se, pois, o inferno. Mas não. A Lusa fez-se cascuda nos jogos com os mineiros, quando segurou o melhor time nas quartas e virou o placar nas semifinais, cedendo o empate já no fim, mas era o suficiente. Com os nervos no lugar, a Lusa colocou a bola no chão, equilibrou o jogo e criou chances para empatar com Rodrigo e Caio. 


Desperdício. Fatalidade.


Já no fim do jogo, um aparentemente inofensivo arremesso lateral cobrado à altura do meio-campo encontrou Carlos Miguel desmarcado. Aos 39 minutos do segundo tempo, a única tática para quem precisa marcar é a absoluta falta de alguma tática. Daí, a bola esticada para ver no que dava. Ninguém avisou que o lance era morto e César, impecável até ali, cabeceou mal e a bola caiu no pé esquerdo de Ailton, destro como Paulo Nunes. E o chute saiu indefensável, na veia, tão improvável quanto a combinação de resultados da 23ª rodada da primeira fase. 


Frustração. Tristeza. Estávamos tão perto. No dia seguinte, fui à escola vestindo a camisa da Lusa, pronto para partir pra porrada com quem risse da minha desgraça. Mas não riram e, em vez de ser alvo de toda troça, plenamente justificável, ouvi aplausos, o que me deixou irritado na mesma. 


Jamais tive coragem de rever aquela final e este relato pode ter alguma das confusões que a memória nos prega e, 25 anos depois, ainda me pergunto o que teria sido de nós se Caio tivesse marcado o gol depois da saída errada de Danrlei, se Rodrigo tivesse devolvido a bola para o Alex Alves quando eram os dois contra um zagueiro só. Ou se Rodrigo não chutasse em cima do Arce a última das chances claras da Portuguesa antes do Sobrenatural de Almeida vestir a camisa gremista. 


25 anos depois, agora me pergunto: o que será de nós?


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O relativismo de Renato Portaluppi é um retrato do Brasil

Renato, um brasileiro (Divulgação/Grêmio)

Renato Portaluppi elogiou a arbitragem do jogo entre Flamengo e Bahia, vencido ontem pelos cariocas por 3 a 0, em que seu time foi muito beneficiado pelo apito ao ter um pênalti imaginário marcado a seu favor, quando o placar ainda apontava um nulo e este lance acabou condicionando o restante do jogo. Pior, neste caso, é que o soprador de apito ainda foi alertado pelo VAR e, mesmo assim, brigou com a imagem e se abraçou ao erro. 

Fazendo uma busca rápida e com o recorte nesta edição do Campeonato Brasileiro, é possível encontrar reclamações dele nos jogos contra Cuiabá, Athlético, Chapecoense e Internacional. Vê-se que o mesmo Renato reclamou, não sem razão, quando se sentiu prejudicado em outros jogos - e de fato foi -, mas achou legal falar bem antes mesmo de ver o lance, como ele mesmo admitiu, e ainda se justificou citando o fato de que pênalti fora marcado em campo e revisado, o que, na sua visão estreitada pela possibilidade de ganho, ratificaria qualquer decisão, mesmo que equivocada. Renato é o retrato do Brasil.

Este comportamento mostra que ele não está preocupado com o nível da arbitragem, e sim que está preocupado em ganhar, mesmo que isso aconteça com a ajuda de quem tem o poder de mudar o resultado dentro das regras, que é a equipe de arbitragem. Renato, assim, perde completamente o direito de chiar quando for prejudicado.

O cenário é ainda mais agravado dentro do contexto do futebol brasileiro, no qual a cultura existente é a de induzir a arbitragem ao erro favorável. A reclamação pela reclamação nada mais é que um investimento visando ao ganho no lance seguinte. Reclama-se de tudo, simula-se a torto e a direito, joga-se a arbitragem, que já não é lá essas coisas, contra a torcida.

Profissionais como Renato Portaluppi não agregam em nada. A imprensa, e eu me incluo nisso, costuma passar o pano porque ele é um grande personagem e isso é inegável, mas não o coloca acima do bem e do mal. Renato, ao cabo, é só mais brasileiro que adora ser beneficiado e reclama mesmo quando não tem razão.

É o comportamento típico de quem não devolveria um troco eventualmente devolvido a mais, de quem torce por favores, por benesses,  mesmo que sejam à margem da lei e em todos os níveis, desde o cafezinho para o guarda à propina do fiscal.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Guto Ferreira merece respeito no país que frita treinadores



Guto Ferreira foi campeão da Copa do Nordeste. E venceu jogando à bola, que é um aspecto que nem deveria ser cobrado logo após o retorno do futebol. Reforço que é uma sandice voltar com as competições, ainda mais com os protocolos sendo feitos de qualquer jeito, e sendo descumpridos assim, de tudo que é jeito.

Mas a discussão nem é se poderia ou não ter futebol agora, e sim sobre o trabalho do treinador. Guto conquistou sua segunda Copa do Nordeste (a primeira foi em 2017, com o Bahia, que o seu Ceará derrotou na última terça-feira, 4), motivo que deveria ser suficiente para que ele seja visto com respeito.

Além de títulos, o trabalho dele e de toda a comissão técnica é de uma excelência que já deveria ser reconhecida por quem comenta e vive de futebol. Ser campeão pode ser o objetivo, mas não é o que determina se os conceitos - ou a filosofia de trabalho - são bons ou não. A manutenção de um projeto que caminha bem não é garantia de conquista, mas aumenta consideravelmente as chances de que títulos serão alcançados.
 
O próprio Guto Ferreira foi demitido em fevereiro do Sport após ser eliminado na Copa do Brasil. Fevereiro. Em 2019, ele foi campeão estadual e subiu o Leão à elite do futebol nacional com o vice-campeonato da Série-B. Aí, no primeiro revés do ano seguinte, com menos de dois meses de temporada já é possível decidir que não serve mais? E as mudanças no elenco, que certamente condicionam o trabalho? 
 
Falamos tanto do quanto o Brasil pode evoluir com os treinadores estrangeiros (eu também sou um dos que falam isso), mas precisamos reconhecer que também há grandes nomes por aqui. Quantos técnicos têm tempo para colher os frutos do trabalho? Quantos clubes dão apoio e condições para que ele não jogue apenas para garantir o emprego? Ora, como podemos ter nomes de vulto se batemos bumbo para que o técnico seja demitido porque o resultado não veio ou porque o time não tem jogado bem, mesmo com poucos dias de trabalho?
 
A excelência do trabalho depende de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo. Sem isso, o projeto, se é que há, vira passageiro da própria sorte e do clamor vindo das arquibancadas, sejam elas físicas ou virtuais. É claro que todo profissional deve ser analisado, mas há que ter uma visão mais ampla do que somente se a bola entrou ou não.
 
Em tempo: este texto elegeu o treinador do Ceará como personagem, mas há inúmeros casos semelhantes de técnicos demitidos a partir das reclamações dos torcedores (que estão o seu direito, é bom deixar claro) e do ruído causado pelas discussões na imprensa, não raro rasas e desprovidas de quem deveria ter cautela e comedimento.
 
E, por gentileza, nem falem do Caso Héverton, pois tenho a mais absoluta certeza de que a comissão técnica da Lusa à época não tem a menor responsabilidade sobre o ocorrido.