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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O engajamento e a permissão para odiar

O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da
partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista

Na semana que passou, casos de racismo e misoginia ocuparam lugar de destaque no noticiário esportivo, com os lamentáveis acontecimentos nos jogos Benfica x Real Madrid e Red Bull Bragantino x São Paulo. Como ocorre com tudo o que é relevante, os temas dominaram as discussões também nas redes sociais. 

Antes de retomar o tema, cabe uma contextualização: que a forma de comunicar mudou, todos aqui sabem. A inclusão digital, as redes sociais e o acesso à internet de alta velocidade possibilitaram que a opinião e a informação, chamados por aí de "produção de conteúdo", possam ser feitas por qualquer pessoa munida de um aparelho celular com acesso à rede mundial de computadores.

Mais gente gera conteúdo, mais gente engaja, mais gente lucra. O jogo é este e está tudo certo. O problema é ser desonesto em troca de engajamento.

Alguns perfis, ao menos entre os que tentam se passar como sérios, têm uma linha editorial progressista. Dos que eu conheço, a maioria se enquadra aqui. Muitos se posicionaram, o que fez com que uma horda de trolls barulhentos saísse do esgoto para vomitar ódio e preconceito. Coisa de gente covarde, que não mostra a cara e se esconde atrás da tela do celular. Pessoalmente, duvido que tenham coragem para bancar esse monte de merda que o ambiente online os deixa a vontade para ser.  

No entanto, o mesmo perfil que defende as vítimas permite toda sorte de imundícies nos comentários. Deixa todos lá, um por um. Pelo engajamento, dá palco, microfone e amplificador a quem deveria ser combatido. 

Ao menos, que sejam honestos e deixem claro que, por ganharem com isso, não apagam os insultos, tampouco bloqueiam e/ou denunciam seus seguidores que rezam para pneu e, nem é preciso explicar por quê, não deveriam ter esse espaço. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pílulas amadoras - 31

 *Por Humberto Pereira da Silva

Triste Tite! 

Parece feliz agora que de fato encontrou o que procurava já no Flamengo: ou seja, uma decadência melancólica.

Ainda é muito cedo. Mas o Cruzeiro parece seguir a cartilha do Inter em 24. Fez um excelente brasileiro na reta final e chegou próximo do título. Para 25 havia grande expectativa do Inter. No final do brasileiro não caiu por milagre. Estava na 18ª posição na última rodada. Aí contou com ajuda dos cearenses. 

O Cruzeiro depois de temporadas na série B subiu e ano passado surpreendeu ao ficar entre os três primeiros até a última rodada. Para esse ano, com Tite, Gerson e cia e muita expectativa. O começo é simplesmente desastroso. O São Paulo vai cair? Nesse momento o Cruzeiro me lembra o Inter, enquanto o São Paulo é preciso esperar, óbvio, mas eu colocaria um freio na "torcida" de alguns, hoje, pela queda tricolor.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 17

 *Por Humberto Pereira da Silva

Imagem: Getty Images/iStockphoto

Dudu é um bom jogador. Ou seja, é mediano, como tantos na história do futebol brasileiro. É de conhecimento geral o que ele simboliza no Palmeiras desde sua chegada ao Verdão, em 2015. É um dos expoentes de uma das equipes mais vitoriosas do Brasil nos dez anos recentes. 

Mas, mediano, será esquecido em alguns anos, como tantos foram. Hoje, tenho certeza, poucos se lembram de Ailton Lira (do Santos), Pita (do São Paulo), Tupãzinho (do Corinthians), Edu Manga (do Palmeiras). Tendo a crer que, como esses aqui citados, que foram ídolos nos quatro grandes de São Paulo, Dudu, mediano como eles, será pouco lembrado.

Ao contrário deles, contudo, Dudu incluiu um dado em sua biografia. Ele se envolveu num mal explicado episódio de transferência do Palmeiras para o Cruzeiro. Se seus feitos no Palmeiras são insuficientes para fazer dele um ídolo eterno, caso seja lembrado no futuro, carregará uma marca: a trapalhada absurdamente constrangedora nessa negociação.

É muita ingenuidade supor um jogador de futebol profissional jogar por amor à camisa. É praticamente um contrassenso pensar isso em um mercado periférico economicamente, como o Brasil. Um jogador de futebol profissional projeta a carreira com o horizonte em contratos irrecusáveis. São profissionais, o que significa negociar pensando no quanto podem ganhar. O clube, e eventualmente a seleção, são vitrines para receber propostas com altos valores contratuais.

Dudu, a esse respeito, não se diferencia da cultura de negociação contratual de um jogador de futebol. Mas ele se atrapalhou muito nesse episódio de transferência mal sucedida e exibiu o que se deve esconder: a ganância. Mesmo antes, quando chegou ao Palmeiras, o jogador foi alvo de uma disputa que envolveu o Trio de Ferro (além de Palmeiras, Corinthians e São Paulo), chegando a estar apalavrado justamente com o Timão, maior rival histórico dos palestrinos.

(Montagem: ge.globo)


O caso é que, bem entendido, apesar de simbolizar um momento glorioso do Palmeira nos dez anos recentes, não é a primeira vez que Dudu se enrola em negociação. Esse atual episódio com o Cruzeiro tem antecedente. Sua ida ao futebol do Catar, em 2020, com "proposta irrecusável". Não deu certo por lá e voltou para o Palmeiras.

Novamente seduzido por "proposta irrecusável", Dudu se enrosca outra vez, agora com um agravante. Ele, por livre e espontânea vontade, procurou o Cruzeiro. É o que ficou patente nas declarações dos presidentes dos clubes. 

Não é o caso, óbvio, de julgar decisão profissional de ninguém. Mas é o caso considerar os efeitos de uma má decisão. E nessa atabalhoada decisão, a ganância. Se for esquecido no futuro, sua ganância será igualmente esquecida. O contrário, não sendo esquecido, é esse mal explicado episódio será lembrado. 

A constrangedora atrapalhada de Dudu, infelizmente para ele, o exibiu nu quando todos fingem não ver a nudez. Refiro-me ao conto "A roupa nova do rei", de Hans Christian Andersen. Na cadeia alimentar regulada pelo mercado internacional de transferências, a camisa que um jogador de futebol profissional no Brasil veste é só fantasia, pois contratos com "proposta irrecusáveis" exibem os interesses que todos sabem e fingem não ver.

A ganância é defeito de caráter. Malícia para driblá-la é virtude. Vivemos num mundo de aparências.  Dudu, e o antecedente só reafirma, infelizmente não teve habilidade para driblar a própria ganância.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sábado, 1 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 14

 *por Humberto Pereira da Silva

CERTO? O "jeitinho brasileiro", injustamente atribuído a
Gérson graças ao comercial do cigarro Vila Rica



Na partida entre Santos e América-MG, pela Série B do Campeonato Brasileiro, disputada há alguns dias, houve um lance que gerou muita discussão: o primeiro gol do Coelho, marcado pelo atacante Renato Marques. Na jogada, o goleiro santista, João Paulo sofreu uma lesão em disputa de bola com Marques, caiu aparentemente com muitas dores e o americano rolou a bola para o gol vazio.

Num primeiro momento, acusação de falta de fair-play da parte do jogador do América. En no calor da hora, jogadores, ex-jogadores, comentaristas  etc se manifestaram. As manifestações, como de costume, foram bem variadas, passionais, ao se levantar argumentos de ocasião. 

O lance em si, bem raro, mostra a surpresa tanto para o jogador quanto para os que se manifestaram. Condenar Renato Marques por falta de fair-play logo pareceu exagerado. 

Tomada isoladamente, a jogada em si dispensa o sentido usual e vago do fair-play.  Fair-play é uma tomada de decisão individual numa situação em que um jogador tem diante de si a possibilidade de pensar se para ele é ou não ético dar sequência a uma jogada. 

Ocorre que o futebol envolve várias situações de catimbas, simulações, blefes. A decisão de fair-play não é automática. Há uma variedade de condicionantes dentro do gramado para, em décimos de segundo, levar a uma decisão.
 
No caso específico de Renato Marques, pelo que vi, o gesto de chutar a bola foi automatico. Mas ele também imediatamente percebeu a situação. Ao não comemorar o gol, deu para ver que ele sentiu que poderia ter tido outra decisão.
 
Ora, se o lance para mim dispensa o sentido usual da palavra fair-play, isso implica que ele pode ser pensado em termos de protocolo. Sendo raro, esse gol de Renato Marques poderia ser tomado como exemplo para situação parecida. Caberia estabelecer um protocolo no qual o árbitro decidiria anular ou não o gol. Há no futebol atual precedentes. A confirmação de um gol numa situação de eventual impedimento é decidida após as linhas traçadas pelo VAR.

Uma vez constatada a contusão no lance, caso do João Paulo, é constrangedor para o América e para o Renato Marques ter o gol confirmado. Então, justamente porque entendo poderia ser decisão do árbitro, porque faz parte do futebol a catimba, a simulação, o blefe.

Infelizmente não foi o que ocorreu com o João Paulo. Por isso, acho o caso poderia ser discutido em termos de protocolo e não no vago e usual emprego do fair-play. O árbitro teria a decisão final de validação ou não de um gol em situação como a do gol que abriu o placar, que foi fechado em 2 a 1 para o América.

O contraponto**

Esse lance, como é a moda atual de falar, tem algumas camadas. A comemoração tímida, ou falta dela, demonstra que o avançado percebeu que havia algo de errado, como bem observado acima. Até aí, penso eu, cabe somente ao jogador a decisão de fazer algo grandioso ou "fazer pelas couves", como diria meu pai. Eu gosto de pensar no futebol além do resultado. Lances como o visto no Independência, campo americano, transcendem o jogo, mas aí sou eu, distante do seu contexto, como decidir coube a quem tinha a bola à disposição.  

O que me incomodou foi o que aconteceu depois: vi muita gente dizendo que poderia ser cena. O goleiro foi substituído e teve constatada uma das piores lesões do esporte, pelo caráter traiçoeiro e pelo tempo de recuperação:  o rompimento do tendão de Aquiles. O discurso envergonhado do capitão do América não me convence porque, sendo líder do grupo, poderia propor que o gol fosse retribuído, como já aconteceu em diversas partidas, até sob as ordens do próprio treinador. Marcelo Bielsa, atual técnico da seleçao uruguaia, deixou de conquistar um acesso à Premier League porque ordenou que seu time, o Leeds, retribuísse um gol que marcou e, sob sua ótica, foi antiético. 

Num ponto, discordamos: o árbitro poder anular o gol. E discordo porque sempre haveria uma forma de burlar. Imagine um lance no fim do jogo: hipótese clara de gol, o goleiro ou algum jogador qualquer simula uma lesão. Quem poderá verificar? Há lesões que são identificadas algumas horas depois.

Eu trabalhei com futebol de base e há um consenso em torno do papel do treinador: este e um educador. Não por acaso é chamado, até de maneira injustamente jocosa, de professor. Bielsa ensinou que a honra vale mais que a conquista a qualquer preço do objetivo da temporada, que ficou para o ano seguinte, e ele, para a história. Rogério Ceni, na primeira de suas passagens no comando do São Paulo, ralhou com Rodrigo Caio logo após um Majestoso por este ter confessado, logo após o lance, que fez uma carga no atacante Jô e isso causou o choque com o goleiro que resultaria no cartão amarelo, o terceiro da série, que tiraria o corintiano do jogo seguinte, não fosse a atitude louvável do defensor. É de cada um, pois. Prefiro Bielsa a Rogério.

Voltando, o autor

Também pensei no exemplo da retribuição. Nesse caso também há precedentes, mas, justamente porque sempre haverá formas de se burlar, o árbitro, neutro, poderia decidir, como decidiu sobre mudar um cartão de amarelo pra vermelho, como aconteceu com o atacante Bruno Henrique, no jogo do Flamengo.

A situação do gol do Renato Marques é bem rara e é muito complicado usar a palavra fair-play para a situação. Você falou inicialmente nas camadas e no final do que escreveu, realmente é um "nó" que transcende o futebol. A saída não é nada fácil, como uma fórmula pronta. Pois imagine que poderia ser cena. Só depois ficamos sabendo que não foi. No instante, o Renato Marques não tinha como saber se era ou não cena.

O que nos incomoda é a conversa rasteira sobre levar vantagem ou sobre a hipocrisia do fair-play. Li que o Renato Gaúcho falou algo sobre o mundo ser dos espertos. A Lei de Gérson é abominável. 


* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
** Marcos Teixeira é jornalista e editor deste blog, além de colunista do Netlusa, do Ludopédio e setorista do futebol português no PodPlaca.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 9

por Humberto Pereira da Silva*

 QUEM SEGURA? Sem apoio de lado algum, o rolar da cabeça
de Thiago Carpini é uma questão de tempo (Foto: Getty)

A eventual queda de Thiago Carpini exibe o quanto há de esdrúxulo nas decisões de um grande time no futebol brasileiro. Não é cabível imaginar que pessoas com o mínimo de inteligência e que ocupam a direção de São Paulo não tivessem diagnóstico das dificuldades do treinador para conduzir a equipa no Brasileirão. Mas,  passada a primeira rodada, e um primeiro fiasco contra o Fortaleza, e Carpini incrivelmente não é técnico pra um time como o São Paulo. 

Nessa "não é técnico para time do tamanho do São Paulo, o esdrúxulo. Ao demitir o técnico que podia ser demitido na véspera do Brasileirão, e assim com o técnico novo PLANEJAR a temporada, a diretoria do São Paulo acena com técnico novo passada apenas a primeira rodada. Nesse aceno, HOJE, o tamanho do São Paulo. O tamanho do técnico que foi contratado. Ou seja, Hoje, sem qualquer planejamento, um time que começa o Brasileirão com todas as incertezas possíveis. Como qualquer outro time que pulou da Série B e que, após duas ou três rodadas, troca o técnico para desviar a atenção da torcida e imprensa para a inevitável volta à Segunda Divisão.

PS. Alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que há um ano a mesma diretoria demitiu Rogério Ceni logo depois da primeira rodada do Brasileirão. Vinha de uma eliminação precoce no Paulista, para o Água Santa, e o nível de atuações não subiu mesmo com os treinos entre a queda no Paulista e o debute no nacional. Nem a vitória na Sul-americana, contra o Puerto Cabello da Venezuela, manteve o treinador. 

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quarta-feira, 13 de março de 2024

PORTUGUESA - a estupidez e a hipocrisia

Foto: x/Lusa_Oficial


*Texto originalmente publicado no NetLusa

Desde 2014 o Campeonato Paulista é disputado com a atual fórmula de disputa, variando somente o número de participantes – consequentemente de jogos por equipe – e de rebaixados. Em 2014 e 2015, eram 20 clubes divididos em quatro grupos e caiam quatro para a Série A2, ao passo que outros tantos faziam a travessia contrária. Em 2016, para chegar ao número de 16 clubes e enxugar a competição, seis foram degolados e somente dois subiram. Desde então, são quatro grupos com quatro times. Em comum, a estupidez de não haver confrontos diretos, pois não há jogos dentro da própria chave, mas os chamados clássicos entre os quatro filhos preferidos estão mantidos.

A fórmula possibilita que clubes com grandes campanhas sejam eliminados já na primeira fase e outros, com quantidades risíveis de pontos ganhos, se apurem. Tudo depende do grupo em que estiverem. E é assim desde que a distribuição por grupos foi definida. Nas 11 edições dessa forma, em nenhuma os oito melhores no geral se classificaram. Entre 2015 e 2020, Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo avançaram juntos ao menos até as quartas de final. Já são, portanto, quatro anos seguidos sem que os quatro alcançam simultaneamente os jogos a eliminar.

No ano passado, o Ituano se classificou com 12 pontos e despachou o Corinthians na fase seguinte, e esta havia sido a menor pontuação de um classificado até a Portuguesa conquistar a vaga com incríveis dez pontos, ao passo que o São Bernardo, que fez 21, ficou de fora. Foi – e está sendo – um escândalo!

A fórmula é boa? Não, não é. E é assim porque existe uma limitação de datas e é preciso garantir os confrontos entre os quatro, mas daí a ser justa essa barulheira toda? Ora, bastava ler o regulamento para saber que poderia acontecer. Aliás, bastava ler os regulamentos há 11 anos.

É mais escandaloso que os quatro filhos mais bonitos aos olhos da FPF recebam 40 milhões de reais para participarem, cinco vezes mais que cada um dos outros 12, com exceção do Bragantino, que recebe uns caraminguás a mais. Ok, é preciso que os clubes prestigiem a competição, mas essa diferença é obscena, para dizer o mínimo.

Não há injustiça alguma na classificação com este número de pontos que, na temporada passada, quase foi insuficiente para evitar a queda. Como os dois rebaixados estavam no grupo da Portuguesa, ela perdeu uma boa chance de somar mais seis pontos. Tira-se os seis que o São Bernardo somou contra Ituano e Santo André e os repasse para Lusa, em um exercício tão simples quanto safado no qual o representante do ABC e a Lusa trocam de chave, e a pontuação rubro-verde será maior. 

É estúpido? Sim, mas mais parvoíce que isso é maldizer o regulamento somente agora, mesmo tendo dez anos para notar isso.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Pílulas amadoras - 8 - O Palmeiras tem Mundial

*por Humberto Pereira da Silva

A Copa Rio. Foto: Divulgação

O Palmeiras tem mundial! A FIFA reconheceu em 2014 e documento recente ratifica: Palmeiras campeão da Copa Rio 51.

Futebol envolve paixões, gozações e jardim d'infância. Corinthianos, são-paulinos, santistas gritam: Palmeiras não tem mundial!

O jardim d'infância escamoteia, pois coisa de criança, o patético, o constrangimento, a HUMILHAÇÃO: o reconhecimento oficial da FIFA de que o Palmeiras tem mundial. 

A FIFA reconheceu, sim, a Copa Rio 51 como primeira competição internacional entre clubes. Mas, atropelos do que é tão só reconhecimento formal, burocrático, pois: não equiparou a Copa Rio 51 aos mundiais da FIFA a partir de 2000; mais, pois reconhecimento formal, o Fluminense, vencedor da Copa Rio 52, a última Copa Rio, pois, não tem mundial. 

Há um dado simbólico que as paixões, manobras de dirigentes e mesmo a imprensa fazem de conta não ver: um clube do tamanho do Palmeiras se HUMILHAR para ter reconhecido um título que nos áureos anos das academias Ademir da Guia simplesmente não tomava conhecimento e exibia seu gênio. 

Nos anos 60/70, o PALMEIRAS de Ademir da Guia e o Santos de Pelé desdenhavam a Libertadores. Uma competição na qual teriam de enfrentar a brutalidade de argentinos e uruguaios - e a complacência das arbitragens. 

Desdenhavam, portanto, um mundial que ao fim e ao cabo não movia os interesses econômicos de hoje. Santos preferia exibir Pelé em excursões pelo mundo a enfrentar argentinos e uruguaios em batalhas campais. 

O mundo gira, a bola gira, os interesses giram, interesses subterrâneos de dirigentes giram.

Simbolicamente, para mim, o que o Palmeiras perde com esse título postiço? A VERGONHA. Não se constrange ao se HUMILHAR para dizer TENHO MUNDIAL. 

Uma camisa com o peso da do Palmeiras não precisa se rebaixar a alguns gramas numa balança viciada. Mas se assim palmeirenses, torcedores, desejam com um quê de masoquismo, então: há 73 anos o Palmeiras não tem mundial; de lá pra cá o São Paulo tem três, Santos e Corinthians,  dois; nessa perspectiva, o Olimpia do Paraguai tem um (1979); logo, o Olimpia é do tamanho do Palmeiras. 

Humilhantes tentativas recentes de PALMEIRAS, Grêmio, Flamengo, Fluminense nos tais mundiais não preveem sorte diferente de outras aventuras nos anos vindouros... a bola gira, no giro, hoje, ser campeão mundial para sul-americanos como Olímpia e PALMEIRAS é obra divina, que faz Davi vencer Golias.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

SELEÇÃO BRASILEIRA - Escolha óbvia e confortável

Foto: Thiago Ribeiro/AGIF

Mesmo antes do anúncio oficial por parte da Confederação Brasileira de Futebol, é possível afirmar que Dorival Júnior será o novo técnico da Seleção Brasileira masculina de futebol, em substituição a Fernando Diniz, demitido na semana passada. O São Paulo, que era dirigido pelo treinador, divulgou uma nota oficial dando conta de que o liberou para assumir o comando da Seleção, e a sua oficialização no cargo até a Copa de 2026 é uma questão de horas. 

Trata-se de um processo todo atropelado graças à absoluta falta de tato do [ainda] presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues. Primeiro, a ideia era Diniz ficar até a chegada do italiano Carlo Ancelotti, que, sabe-se, resolveu renovar com o Real Madrid. Ainda de acordo com o projeto inicial, Diniz ficaria na Comissão Técnica de Ancelotti para assumir depois da Copa do Mundo, e aí já existiria um problema que pouca gente se atentou: como um presidente que não tem mandato para lá de 2026 poderia definir o substituto para além de sua gestão?

Com a óbvia negativa do italiano, Diniz caiu porque os resultados eram muito ruins e, principalmente, porque nunca houve convicção alguma na sua escolha. No caso de Dorival, se não existe um consenso sobre quem deve ser o técnico da Seleção [raramente há], não há rejeição em torno de seu nome, que será um espécie de apito de cachorro para distrair a opinião pública nos próximos dias.

Se há um lado bom nessa escolha, é a reaproximação com o legado deixado por Tite. O treinador da Seleção nas últimas duas Copas, se não conseguiu fazer o Brasil apresentar bom futebol, deixou uma estrutura de trabalho pronta, com rotina diária e radar global em busca de informações dos selecionáveis, e isso foi jogado fora com a salomônica escolha por Fernando Diniz, que dividia seu tempo entre a Canarinha e o seu time, o Tricolor do Rio de Janeiro. Não por culpa dele, mas do aventureiro que imaginou que esta seria uma excelente ideia.

Ao romper com a própria ruptura, cai por terra essa coisa sem sentido de ter, por um ano, um treinador completamente diferente do que viria. Mas convenhamos: coerência não é o que devemos esperar da CBF. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 6

*por Humberto Pereira da Silva

Reprodução - Youtube

Passada a data FIFA, e a seleção... volta o Brasileirão com contas e tabelas finalmente ajustadas. Jogos com atenção para a parte de cima e a de baixo na tábua de classificação. 

Na parte de baixo uma fixação, que mistura crença, superstição, matemática e certa preguiça mental: quem fizer 45 pontos não cai. Seguindo esse "número mágico", o Fortaleza na 12ª posição, com os tais 45 pontos, não mais correria risco de cair... 

Não consigo imaginar todos os cruzamentos nas rodadas finais. Mas nas próximas rodadas se o Bahia perder e, vendo a tabela, o Fortaleza só cai se levar solenes goleadas... E ainda há o Cruzeiro, que complementa a rodada medindo [o que sobrou das] forças com o desesperado Goiás.

"Matematicamente", sim, o Fortaleza pode ser alcançado pelo Bahia. O São Paulo com 46 pontos também...

Cruzando todos os resultados possíveis é o caso de dizer que o Fortaleza ainda corre risco porque não atingiu o "número mágico? Ora, tendo superado o dito cujo, o Tricolor paulista sendo superado por Bahia e/ou Cruzeiro "matematicamente" não corre risco numa combinação maluca de resultados?

É preciso pôr no papel TODAS as combinações possíveis de resultados nas rodadas ainda vindouras para saber se ele, São Paulo, ainda pode cair, pois "matematicamente"... ainda pode ser alcançado por quem está, como dizem em algures e alhures d'além mar, abaixo da linha d'água. 

Quero dizer com isso que quando se fala em "número mágico" é preciso efetivamente fazer contas. Num campeonato com resultados tão surpreendentes, vejamos como foi a rodada 35. A goleada do Bahia sobre o Corinthians, além de Vasco, Santos, Inter e Fortaleza pontuando, e São Paulo x Cuiabá deixou de ser mero cumprimento de tabela. 

A campanha do Botafogo no segundo turno [n.e: 15 de 48 pontos] deve servir de lição para que uma expressão como "número mágico" não seja entendida literalmente: um número... mágico. Por óbvio, onde há mágica, não há matemática.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

sábado, 11 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 4

 * por Humberto Pereira da Silva

Foto: Reprodução/Botafogo TV

Com os resultados da rodada, dá para cravar: o Botafogo e um caso (case, para brincar com anglicismo). Caso, bem entendido, que valeria ser SEMPRE lembrado não tanto em razão da derrocada espantosa no segundo turno do Brasileirão, mas sim como foi possível a campanha do primeiro turno. 

Como foi possível a um time que até o início do Brasileirão não revelar qualquer indício de favoritismo num campeonato tão equilibrado ter desequilíbrio como desequilibrou? O que me vem é o notável absurdo de praticamente ninguém ter questionado haver algo fora da ordem na campanha do primeiro turno. 

O caso Botafogo faz pensar duas coisas no calor da hora. Num campeonato longo uma equipe não se monta de uma hora pra outra, do nada, para manter regularidade até o fim. Outra coisa: futebol brasileiro há variáveis e variáveis que não podem ser subestimadas. O interesse no Brasileirão é fortemente condicionado por exemplo pelo envolvimento das equipes da Libertadores, na Copa do Brasil... é só olhar a tabela e vermos o de estão o Flu e o São Paulo. 

Essa é tão só UMA variável. Mas que para mim dá um tanto de sentido para explicar o case Fogão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - Sobre respeito, necessidade e pertencimento

Foto: Ronaldo Barreto/NETLUSA

Antes de qualquer coisa, é importante reconhecer que a gestão Castanheira tem um saldo positivo de proporções bíblicas e que, sem exagero algum, ajudou a devolver decência e dignidade à Portuguesa. Dito isto, ninguém está isento de críticas. Nem mesmo quem tanto já acertou – e isso nem precisava ser dito.

Muita tinta tem corrido desde que o clássico com o Corinthians foi levado para Brasília por 1 milhão de dinheiros para pagar as contas. Não há um consenso sobre o tema e muitas das reações dos torcedores foram negativas. Claro que existem os que concordaram, pois "não existe almoço grátis", "é preciso pagar as contas". Sim, sei de tudo isso, mas este jogo, especificamente, não poderia ser disputado longe do Canindé.

A nota oficial assinada pelo presidente Antonio Carlos Castanheira, então, atribuindo a decisão à falta da presença maciça dos que vestem verde e vermelho nos jogos ou a baixa adesão ao Sócio-Torcedor é pouco lisonjeira, sendo simpático, a quem tanto fez e faz pela Lusa.

Além do aspecto técnico, o financeiro é importante – e isso é tão óbvio quanto afirmar que quem fizer mais golos vencerá – mas não pode estar acima do sentimento do torcedor. Fosse uma temporada qualquer, seria somente um jogo em que a possibilidade da casa cheia de torcedores rivais seria um remédio amargo, mas necessário, como em tantas vezes.

Mas, caraças! Foram quase oito anos longe de qualquer vestígio de futebol de elite. E justamente quando há um clássico com o rival de quem dá mais prazer de vencer, levam o raio do jogo para Brasília? Negar esta experiência ao torcedor, aquele que mantém o clube respirando e que não lhe virou as costas no pior momento da centenária história lusa, é de uma infelicidade enorme, para dizer o mínimo.

Na temporada 2013, a Portuguesa vendeu dois mandos de campo no fatídico Brasileirão: contra o Corinthians e contra o Flamengo. Na época, tanto quanto hoje, era preciso vender o almoço para pagar a janta, mas eram tempos em que os clássicos em casa eram normais. Não são raros os torcedores da Portuguesa que nunca viram um jogo contra Corinthians, Palmeiras, São Paulo ou Santos no Canindé. Uma vitória, então, é preciso recuar até a 26ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2013 (um baile de 3 a 0 sobre o Santos). Pelo Paulistão, o viratempo tem que rodar mais, muito mais, e transportar o torcedor ao ano de 2001 (1 a 0 sobre o São Paulo).

DOIS MIL E UM! São impensáveis duas décadas. Se por um lado essa informação dá munição para quem acha que a questão técnica não pesa e o Corinthians seria o favorito no Canindé, em Brasília, no Pacaembu ou na Lua (e seria mesmo), por outro, um dos pilares que sustentam o ato de torcer por um time de futebol que não é lá muito habituado a glórias em campo é a sensação de pertencimento. Tire-nos isso e quase nada nos restará.

Voltando quatro parágrafos, a grana é necessária para que não só o funcionamento do clube seja viabilizado, mas sua própria existência. No entanto, como apontou aqui mesmo no NetLusa o Antonio Carlos Zorzi, se essa quantia – que é considerável, mas que não resolverá a vida de ninguém – é imprescindível, em algum momento, o planejamento financeiro para participar da elite foi falho. Quando o clube se converter em SAF, de nada adiantará um eventual aporte se quem determina onde e como será usado, errar.

Como também apontou o Zorzi com a habitual precisão de suas linhas, a Portuguesa só existe ainda porque tem uma torcida apaixonada e que nunca a largou, mesmo com todos os motivos do mundo para isso.

Não é assim que se trata quem te ama.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Rogério Ceni, o estofo e o preço de uma fama que nem deveria ter

Muita expectativa para pouco resultado de quem mal começou a carreira (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Rogério Ceni sofre a pressão de ter um nome maior que a sua carreira como treinador efetivamente mostra. Isso, além do fato de ter assumido o clube com o maior orçamento do país em uma temporada atípica, faz com que seu trabalho seja decepcionante. Ceni chegou ao Flamengo depois da segunda passagem bem sucedida pelo Fortaleza, onde a pressão nem se compara com a encontrada nos outros dois grandes que treinou sem lá muito – ou nenhum – brilho: São Paulo e Cruzeiro. Não difere muito do percurso do Eduardo Baptista, só para citar um treinador que fez água num grande, mas que nunca contou com a mesma boa vontade de quem ganha a vida opinando sobre o trabalho alheio. 

Ceni tem um discurso novo, uma metodologia que transborda modernidade aos ouvidos de uma parte da imprensa que é bem receptiva a ele. Mas ninguém poderá dizer que ele foi coagido a aceitar os cargos que exerceu desde que debutou na função já comandando o São Paulo. Aí erram todos, se é que podemos classificar assim as escolhas de carreira do maior goleiro-artilheiro da história. Erro mesmo, no caso, quem comete é a mídia. Boa parte da imprensa especializada – nunca é bom generalizar – o analisou pelo que torce para que seja, não pelo realmente é: um técnico promissor. Sim, promissor, mas sem o estofo necessário para ser "o melhor treinador do país", como alguns apressados (e sedentos por novidades no mercado interno) disseram. 


Aí, pegue um elenco estrelado e mimado, que atingiu o topo em pouco tempo; um calendário amalucado pela pandemia, com jogo em cima de jogo e desfalques, ora por lesão, ora pela Covid-19; e a pesada herança deixada por Jorge Jesus. Qual é a chance de dar certo quando não há tempo para treinar? E sem essa de “ele teve uma semana cheia de treinamentos entre os dias x e y”, como se seis ou sete dias fossem suficientes para que os métodos e as ideias do treinador – que o pessoal gosta de chamar de filosofia de trabalho – sejam absorvidos. 


"Ah, mas o Abel Ferreira passou pelo mesmo e veja o Palmeiras na mão dele!". São situações diferentes, principalmente porque um tem o que o outro ainda não tem: estofo. Estofo e formação em Portugal, onde o nível do que é estudado e trabalhado está muito à frente daqui, gostemos ou não. 


E é isso o que falta a Rogério Ceni: estofo. Mas não se compra isso no mercado ou em semanas acompanhando os treinos de grandes caras, como o Ancelotti. É no dia-a-dia. É errando e acertando. É fazendo um monte de bobagens e aprendendo com elas. Da mesma forma que não basta ter sido o dono do vestiário por duas décadas. Muda-se a função, as responsabilidades são outras, as decisões a serem tomadas também, e a história escrita é apenas isso: história. 


E a história dele, Rogério, como treinador ainda está no início. Que tratemos como tal. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

O louco futebol brasileiro e a dança das cadeiras




Vamos brincar de “Explique a um europeu que gosta de futebol o fim de setembro de 2019 no futebol brasileiro”? Quero ver quem consegue. Ok, pode até ter sucesso ao elencar as peripécias dos dirigentes e – pior ainda – jogadores, mas se ele vai achar normal são outros quinhentos. Ontem, Cuca (que "caiu a si mesmo") e Rogério Ceni deixaram seus cargos; hoje, Zé Ricardo e Oswaldo de Oliveira foram demitidos. Todas as trocas foram bizarras, sem exceção.


Cuca não conseguiu dar padrão ao estrelado time do Tricolor e entregou o cargo de forma até inesperada. Rogério foi fritado em óleo bem quente pelos medalhões do elenco do Cruzeiro, o que mostra que ele ainda não está pronto para ser treinador de ponta, o que é absolutamente normal para quem acabou de iniciar a carreira à beira do campo. Ter sido o craque sob as traves não é garantia de nada ao mudar de função. Ter sido um líder no gramado também não.

Ao que parece, sobrou para o Zé Ricardo, que teve o pescoço colocado na guilhotina quando o ex-goleiro foi demitido e a dúvida sobre o retorno de Ceni ao Fortaleza não é se vai, mas quando vai.

Por fim, a ópera bufa do Maracanã, que envolveu um quase ex-craque - e possivelmente a maior decepção do futebol brasileiro no século XXI - e um treinador que sempre chega com a certeza de que será demitido. Neste caso, todos erraram. Ganso, mimado desde o Santos, não é mais o menino que se recusou a sair na final do Paulista de 2010, desacatando o então técnico Dorival Júnior.  Oswaldo, por sua vez, mostrou o dedo do meio para o torcedor, que ficou ao lado do camisa 10. Um profissional com a experiência dele não poderia jamais entrar nessa pilha. Se a coisa já não estava boa pra ele, ficou insustentável. "Burro pra c*" pra lá, "Você é vagabundo" pra cá, a demissão era questão de horas.

Quem quiser descascar o abacaxi azul de Minas Gerais, terá à disposição - não sei exatamente se este é o termo mais adequado - um elenco que acabou de derrubar o treinador. Não que isso seja raro, mas poucas vezes se viu de forma tão explícita. O mesmo se aplica ao time das Laranjeiras. 

Assim caminha o futebol brasileiro. De surpresa em surpresa, a única certeza é que não há certeza nenhuma. E nenhuma surpresa também.

Atualização:

i) Rogério, que pediu demissão do Fortaleza para acertar com o Cruzeiro, voltou ao Fortaleza, que recebeu dos mineiros uma indenização de R$ 1 milhão pela quebra de contrato do treinador quando este foi para Minas, o que só deixa a situação mais estarrecedora ainda.
...
ii) Abel Braga foi anunciado como treinador do Cruzeiro.
...
iii) Fernando Diniz, que foi demitido do Tricolor carioca, foi contratado pelo Tricolor Paulista. Vagner Mancini, coordenador técnico do clube e que havia sido anunciado como substituto de Cuca, pediu demissão ao saber que havia a intenção de trazer Diniz. 

quinta-feira, 21 de março de 2019

Messi ou Ronaldo? Pelé!

(Fotos: Getty Images. Montagem: Placar)

Vira e mexe, aparecem polêmicas que tentam comparar jogadores diferentes, de épocas diferentes, e vaticinam que este é melhor que aquele e pronto. A mais nova é sobre o melhor jogador de todos os tempos – ou GOAT (Greatest Of All Times, de acordo com o estrangeirismo comum das redes sociais): Messi, Cristiano Ronaldo ou Pelé.

O estopim foi a fase de oitavas-de-final da Liga dos Campeões, quando Cristiano passou por cima do Atlético de Madri e fez os três gols que classificaram sua Juventus aos quartos da competição. Um luxo! A resposta de Messi foi uma atuação de gala (mais uma) no passeio sobre o Lyon, completada na soberba partida feita na goleada sobre o Bétis, pelo Campeonato Espanhol. 


Nada de novo, portanto, do que ambos já vêm fazendo há quase uma década e meia.

O duelo entre eles é o que há de mais bonito no futebol mundial e ninguém, atualmente, sequer está próximo do nível dos dois. O português é o maior artilheiro da Liga das Campeões da UEFA, torneio que conquistou em cinco oportunidades, o mesmo número de Bolas de Ouro que possui. Cinco também tem o argentino, que venceu a maior competição de clubes do mundo quatro vezes. Isso fora o que fazem semana após semana, o que não é pouco, ainda mais se considerarmos os seus feitos, com marcas superadas aos montes, hat-tricks empilhados e atuações monumentais nos principais palcos do mundo.

Aí vem a questão: já superaram o Rei? Bom, vamos a alguns fatos: Pelé, na maior competição do futebol, a Copa do Mundo, tem três títulos em quatro disputadas, o mesmo número de copas que tiveram Messi e Cristiano em campo. Messi, finalista em 2014, tem seis gols pelo torneio, todos na primeira fase; Cristiano, semifinalista em 2006, quando foi um jovem coadjuvante do time que tinha Figo e Rui Costa como principais expoentes, tem um a mais, e nenhum a partir das oitavas. Pelé, que fez 12, só na Copa de 58 anotou seis, três deles na semifinal com a França e dois na final, sobre a Suécia, que sediava aquela edição, a primeira vencida por um país de outro continente. Pelé, então coroado Rei, tinha 17 anos. É verdade que ele teve companheiros de seleção bem melhores ao longo da vida, mas ele era o melhor entre eles.

Há quem diga que Pelé enfrentou jogadores menos capazes do que a dupla de antagonistas do Século XXI, que “o Paulistinha nem se compara com com La Liga ou com a Champions”. Ora, entre os anos 1950 e 1960 – que concentram as três primeiras conquistas mundiais pela Seleção, fora o bicampeonato mundial de clubes do Santos, em 62/63 –, os melhores estavam aqui. Todos os campeões das Copas de 58 e 62 disputavam o Rio-S.Paulo, torneio em que Pelé deitava e rolava, como fazia em todos. Nem na Copa de 70 havia um forasteiro sequer (somente cinco dos 22 vestiam camisas de clubes de fora do chamado eixo Rio-São Paulo). Eis as listas:

1958:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Corinthians);
Laterais: De Sordi (São Paulo), Djalma Santos (Portuguesa), Nilton Santos (Botafogo) e Oreco (Corinthians);
Zagueiros: Bellini (Vasco), Mauro (São Paulo), Orlando (Vasco) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Dida (Flamengo), Didi (Botafogo), Dino Sani (São Paulo), Moacir (Flamengo) e Zito (Santos);
Atacantes: Garrincha (Botafogo), Joel (Flamengo), Mazzola (Palmeiras), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Vasco) e Zagallo (Botafogo).  


1962:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Santos);
Laterais: Altair (Fluminense), Djalma Santos (Palmeiras), Jair Marinho (Fluminense) e Nilton Santos (Botafogo);
Zagueiros: Bellini (São Paulo), Jurandir (São Paulo), Mauro (Santos) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Didi (Botafogo), Mengálvio (Santos), Zequinha (Palmeiras) e Zito (Santos);
Atacantes: Amarildo (Botafogo), Coutinho (Santos), Jair da Costa (Portuguesa), Garrincha (Botafogo), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Palmeiras) e Zagallo (Botafogo).


1970:
Goleiros: Ado (Corinthians), Felix (Fluminense) e Leão (Palmeiras);
Laterais: Carlos Alberto (Santos), Everaldo (Grêmio), Marco Antonio (Fluminense) e Zé Maria (Portuguesa);
Zagueiros: Baldocchi (Palmeiras), Brito (Flamengo), Fontana (Cruzeiro) e Joel Camargo (Santos);
Meio-campo: Clodoaldo (Santos), Gerson (São Paulo), Rivelino (Corinthians) e Piazza (Cruzeiro);
Atacantes: Edu (Santos), Dario (Atlético Mineiro), Jairzinho (Botafogo), Paulo Cesar Caju (Botafogo), Pelé (Santos), Roberto Miranda (Botafogo) e Tostão (Cruzeiro).


Ou seja, este argumento, que tenta colar que os campeonatos europeus eram mais fortes que o Paulista e o Carioca, não se sustenta.

Há os que dizem que o futebol era muito mais fácil, que os sistemas táticos não eram tão fechados e que o futebol não era tão físico e veloz como é hoje. Não deixa de ser verdade, mas a tal facilidade é discutível: o esporte, como tudo no mundo, evoluiu. Se há menos espaços, e não há folga em campo mesmo, as condições são bem melhores. Pelé pegou gramados ruins, equipamentos rústicos, bola pesada e uma época em que a medicina esportiva era incipiente, além do fato de o jogo ser mais violento, sem tantas câmeras pegando as pancadas que os jogadores trocavam. Messi e Cristiano, por sua vez, têm à disposição uma equipe de profissionais,  tratamentos e aparelhos que atenuam o desgaste físico e aceleram a recuperação entre as partidas, programas de computador que ajudam a analisar o desempenho, bolas que começam e terminam o jogo com o mesmo peso, gramados em perfeitas condições, uniformes que não retêm suor, não terminam o jogo empapados ou, como a pelota, com uma parcela da chuva que eventualmente tenha caído.

Alguns fatores favoreceram o Rei, é bom pontuar. O principal deles é que ele, assim como Messi, vestiu a mesma camisa durante toda a carreira (a passagem pelo Cosmos aconteceu após a despedida oficial pelo Santos), não precisando se adaptar a novas formas de jogo e à vida em outros sítios. Nos dias de hoje, e isso é um ponto a favor do argentino, é praticamente inimaginável que Pelé permanecesse no Santos.

Da mesma forma, não resta dúvida de que o Rei seria um jogador ainda mais completo, uma vez que o talento é nato. Pelé, que media 1,72m (achou que fosse mais alto, né?), provavelmente seria mais alto e mais forte, considerando o resultado da sua aplicação, combinada com a evolução humana e os avanços em todas as áreas, incluindo a esportiva.

Temporada após temporada, Messi e Cristiano se reinventam, tornam-se melhores porque Messi é e Cristiano faz de tudo para ser, e consegue. Um é arte pura. O outro, obstinação. E a pergunta inevitável é a seguinte: como seria um jogador com o talento de Messi e a determinação de Cristiano? 

A resposta é simples: este é Pelé.