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segunda-feira, 8 de julho de 2024

BRASIL - Por que o Brasil piorou 10 anos depois do 7 a 1

DA DOR AO RISO: tratar a tragédia como chacota só piorou
o futebol brasileiro (Imagem: Jamie McDonald/Getty Images)

O maior vexame da história do esporte completa 10 anos hoje, 8 de julho. A efeméride, data redonda, ganhou mais força com a precoce eliminação da seleção brasileira na Copa América disputada nos Estados Unidos, a nova casa do futebol sulamericano – e brasileiro, ao menos quando se trata da seleção, mas vamos a isto mais adiante.

Gentes muito melhores que eu, como o comentarista Carlos Eduardo Mansur, do Grupo Globo, não gostam dos adjetivos que qualificam o episódio como vergonha e vexame. Eu considero que servem à perfeição para falar da hecatombe que acometeu a camisa mais pesada do esporte mais popular do mundo, ainda mais jogando em casa. Logo, o termo cabe.

Se o 7 a 1 serviu para algo, foi para redimir a geração que foi empurrada para a derrota pelo oba-oba de políticos, que não tinham intenções das mais puras – nunca as têm –, e da imprensa no jogo que decidiu a Copa do Mundo de 1950. Passados 10 anos do atropelamento alemão, que nem cumpria uma campanha tão brilhante assim naquele mundial, o futebol brasileiro regrediu. Nem mesmo os incrementos financeiros resultantes do aumento da média de público podem ser considerados como avanços sem o senão dos efeitos da gentrificação, do afastamento do povo pobre e preto das arquibancadas.

A seleção brasileira está mais afastada do torcedor do que há 10 anos, quando as piadas pelo Mineiraço já surgiam no intervalo, no colo do 5 a 0 que ainda aumentaria para o sete-a-um que virou verbete informal para as agruras do cotidiano. A capacidade de rir da própria desgraça é tão brasileira quanto quem nasce, vive e morre no país. Por um lado, ajuda a aliviar as mazelas da vida de quem sofre e não tem muitas perspectivas. Por outro, porém, ao aceitá-las em vez de combatê-las, ajudamos a perpetuar este sistema que insiste em normalizar o inaceitável, seja qual for o setor.

Pouco de concreto foi feito para corrigir a rota do futebol nacional. No ano seguinte, a CBF promoveu uma reunião com ex-técnicos da Seleção para buscar respostas. Para participar do encontro, que reuniu o então treinador Dunga, além de Parreira, Zagallo, Carlos Alberto Silva, Paulo Roberto Falcão, Sebastião Lazaroni, Candinho e Ernesto Paulo, bastava ter sido treinador da seleção em pelo menos um jogo e estar vivo na ocasião. Mano Menezes, Felipão, Vanderlei Luxemburgo e Leão foram convidados, mas não participaram de um evento que resultou num sem número de chavões, discursos vazios e constatações óbvias.

No mesmo ano, a entidade criou seu curso de treinadores, com o nome pomposo de CBF Academy. No entanto, os efeitos práticos são indetectáveis. Dez anos depois, o Campeonato Brasileiro foi iniciado com metade dos clubes tendo treinadores estrangeiros, boa parte deles vindos de Portugal e da Argentina. O curso de treinadores da Argentina, o AFTA Campus Virtual, teve treinadores portugueses como instrutores, tanto que é válido na Europa, diferentemente do nosso, e essa limitação impede um intercâmbio que favoreceria o desenvolvimento do futebol nacional. Não se trata de copiar os métodos, e sim de entender os conceitos e utilizar o que pode ajudar, dentro das bases do futebol nacional, a desenvolvê-lo. 

Ao cabo, passamos por uma profunda crise de identidade, sem uma cultura tática estabelecida e tentando emular os sistemas da moda na Europa, mas não entendemos ou respeitamos os processos necessários para que os tais sistemas sejam compreendidos. Hoje, a busca é pela posse de bola, pela transição rápida, pelo jogo que transforma os meias em meros passadores de bola e o futebol posicional. Técnicos seguem promovendo sistemas táticos que tentam evitar a derrota para protegerem seus empregos. Programas de debate barulhentos, cujo objetivo maior é criar engajamento por meio de opiniões enfáticas, polêmicas e rasas, buscam respostas fáceis para segurar a audiência de torcedores que preferem acompanhar canais segmentados ou influenciadores sem o menor compromisso com a informação. Atende-se assim àqueles que não querem contraditório, mas querem endosso.

Respostas fáceis. Muitas delas voltaram com força com a eliminação para o Uruguai. E tome falar de seres abstratos, como o amor à camisa, a falta que o Neymar faz, a falta de protagonistas, a seleção de 2006. Obviamente, o comportamento dos jogadores, ralhando com a torcida a cada gol contra a poderosa esquadra paraguaia, o bate-boca público de Vini Jr a um jornalista que fez críticas técnicas ao seu desempenho no mesmo jogo, ou a desastrosa entrevista de Andreas Pereira, sugerindo que jogar na Premier League seja o suficiente até para causar inveja aos jogadores do Uruguai, histórico rival e orgulhoso de sua própria e gigante história, é contraproducente, não ajuda e ainda atrapalha. Isso vindo de um jogador que no Flamengo era reserva de um uruguaio, que nem é titular na Celeste.

Este ambiente forjado à base do "nós contra eles" pode ter dado certo com Felipão em 2002, mas foi uma completa tragédia com Dunga. O capitão Danilo foi ao pé da torcida cobrar apoio após um medonho 0 a 0 com a Costa Rica; Endrick deu a entender que alguns ali faziam um favor ao defender a seleção quando poderiam estar de férias. Endrick precisava dar a entrevista após a eliminação? Passou pela cabeça de Andreas que suas declarações seriam combustível para um adversário que, além de estar em um melhor momento, não precisa de um estímulo extra? Neste sentido, há jogadores uruguaios que o torcedor brasileiro gostaria de ver usando a camisa amarela. É sinal de que falta, além de autocrítica, gestão.

Ainda assim, é só mais um aspecto nessa profunda crise, e não dá para dissociar do 7 a 1. A primeira resposta fácil foi o retorno de Dunga, que já havia sido escolhido para o ciclo seguinte a 2006 porque representava entrega, disciplina e identificação com a camisa da seleção. Não funcionou porque o problema certamente não era esse. Veio Tite e o Brasil saiu do nada para o muito bom, vencendo todos os jogos de uma eliminatória tida como “a mais difícil de todos os tempos”. Foi um suspiro de modernidade e eficiência, mas que fez ressurgir o ufanismo tão nosso de cada dia que causa estragos desde 1950.

Pela melhora imediata apresentada logo à chegada de Tite e sua comissão técnica, seu trabalho passou a ser incensado por quem deveria manter uma distância segura para evitar a contaminação, mas a cobertura da seleção brasileira, mais do que qualquer outra no mundo – e não por acaso –, é acompanhada pelo exagero para o bem ou para o mal, e não havia a contestação necessária para não vender a ilusão de favoritismo absoluto.

Deve-se admitir que Tite, no comando da seleção, fez com que houvesse um trabalho diário, com método, processos e profissionalismo, mas não o suficiente para que o Brasil fosse além das quartas-de-final da Copas de 2018 e 2022. Pecado dos maiores, também não foi o bastante para delimitar ao gramado a influência do melhor jogador da geração, a ponto de aceitar bovinamente o acesso dos “parças” e que seu pai, eminência parda da seleção brasileira e que sequer deveria estar próximo, corroesse o organograma hierárquico necessário a qualquer organização.  

Outro ponto, já abordado aqui, é o afastamento do torcedor. E são diversos os vértices a ligar as arestas dessa figura cheia de faces: Pegando o recorte específico abordado aqui, desde o 7 a 1, o Brasil jogou 49 amistosos. Destes, somente cinco foram jogados no país. Em termos de comparação, o Brasil jogou 11 vezes nos Estados Unidos e seis na Inglaterra. Nem quando havia a possibilidade de buscar uma reaproximação, e a melhor oportunidade se ofereceu antes da Copa de 2018. O único amistoso realizado naquele ano antes do Mundial ocorreu em março. E não foi no Brasil, foi na Rússia. Jogos oficiais são proibitivos pelo preço. O ingresso mais barato do último jogo de eliminatórias disputado em terras brasileiras custou R$ 200,00 (a meia entrada). O preço cheio variou entre R$ 400 e R$ 600. 

O calendário também não ajuda, com a imposição das 38 rodadas do Campeonato Brasileiro e a necessidade de proteger os campeonatos estaduais, que garantem a subsistência de inúmeros clubes, postos de trabalho e setores da economia local. Queiram ou não os defensores do planejamento hipotético dos maiores clubes, o futebol não se restringe aos 13 que criaram a Copa União, em 1987, nem os outros estão fadados a serem seus entrepostos. A resposta? Não sei, mas defenestrar os clubes menos ricos ou menores jamais será o caminho.

Um dos impactos é a impossibilidade de parar os campeonatos para que seleção possa atuar. E nem adianta falar que no dia dos jogos da seleção não há jogos, já que eles acontecem no dia seguinte. Como acomodar isso? Haverá quem possa dar as respostas. Por aqui, fazemos as perguntas e fomentamos o debate. O jornalista Júlio Gomes sugeriu, em sua coluna do UOL, inverter estaduais e o Brasileiro para coexistirem de maneira mais inteligente e poder haver uma parada de verdade para que os jogos da seleção não desfalquem os clubes e causem a revolta de torcedores e jornalistas mais figadais, digamos assim. Eu considero a ideia do Júlio muito boa, portanto, viável. A minha seria mandar às favas os pontos corridos. Não acontecerá.

Mas voltemos à eliminação na Copa América. Ela é o resultado de todas as barbeiragens cometidas pela CBF, sobretudo pelo seu presidente, Ednaldo Rodrigues. Não a eliminação em si, mas a forma, que até foi previsível. A queda nas quartas de final, no Catar, foi encarada como fracasso e, em vez de esperar pelo rescaldo e analisar o que foi feito de bom e de mau, que é o mínino que se espera quando existe algum direcionamento, tudo o que foi trabalhado até ali foi jogado fora. O Brasil ficou sem supervisor e diretor de seleções e todas as decisões foram tomadas monocraticamente por Rodrigues, que não é lá um sujeito a quem se possa atribuir todas as qualidades de um grande gestor. Se fosse, não compraria a ideia, praticamente platônica, de que Carlo Ancelotti ocuparia o cargo de treinador da seleção. Mais que isso, caso Carlo realmente tivesse assinado o contrato, a transição jamais poderia ser feita por um treinador com características tão diferentes.

Até Ednaldo sabe disso, tanto que vendeu a ideia de que Fernando Diniz e Carlo Ancelotti tinham conceitos parecidos. O problema é que claramente não têm. De toda forma, qualquer que fosse o resultado desse “espera aí que eu vou depois”, o treinador pegaria um trabalho a partir do zero, que é o que aconteceu com Dorival Júnior. A Copa América, portanto, não poderia ser o ponto de análise do projeto, e sim o de partida, e o resultado é o que menos deveria importar.

No entanto, como não existem verdades absolutas ou garantias de vitórias no futebol, não é possível notar que o período entre a apresentação dos convocados e a despedida do torneio trouxe evolução alguma. O que pudemos perceber foi o contrário: a incapacidade de sair jogando – o jornalista Leonardo Bertozzi trouxe, no Linha de Passe seguinte ao jogo com o Uruguai, um dado insuspeito: os jogadores que mais tocaram na bola no primeiro tempo foram o zagueiro Marquinhos e o goleiro Alisson, além de que apenas um passe foi concretizado no último terço do campo defensivo uruguaio – e a falta de rotinas que pudessem potencializar o talento dos principais jogadores, que, sim, existem e atuam destacadamente em alguns dos principais clubes do mundo.

Este texto não tem a intenção de dar as respostas e interditar o debate. Pelo contrário, é preciso analisar e tentar entender o que levou o futebol brasileiro para além do fundo do poço, que, imaginava-se, era perder de 7 a 1 em casa numa semifinal de Copa do Mundo.

sábado, 6 de julho de 2024

BRASIL - Tragédia anunciada... Ou não!

Por Waldir Manoel do Nascimento*

LINHAS TORTAS Suspensão de Vini Jr abre caminho para a titularidade
de Endrick (
Pedro Loureiro/Eurasia Sport Images/Getty Images)

Longe de mim cair na vala comum de dizer que o futebol é uma caixinha de surpresas. Mas que é, é. E tudo pode acontecer quando Brasil e Uruguai entrarem em campo na noite deste sábado, às 22h, pelas quartas de final da Copa América dos Estados Unidos. Mas existe um favorito para o confronto e ele veste azul. mais precisamente azul celeste.

Levando em conta os últimos resultados e o rendimento da equipe uruguaia comandada por Marcelo Bielsa, comparada ao time brasileiro de Dorival Júnior, creio que não há quem conteste que o favoritismo celeste seja real. Uma equipe de ótima qualidade técnica, bem montada e intensa. Como time, é bem superior que o seu adversário desta noite.

O Brasil, do ainda invicto Dorival, também tem a sua boa dose de qualidade técnica, mas ainda não é um time. Ainda tem bem pouca organização defensiva, há muito espaço entre os volantes e a defesa, e ao mesmo tempo não se sabe qual é a ideia quando tem a bola. Não ficou clara a intenção de Dorival com Rodrygo pelo meio junto com mais dois pontas.

Suspeito que a ideia seja limpar terreno para a volta do Neymar ao time, mas isso é tema para outra hora. Seja lá qual for a ideia, não funcionou e, forçadamente, Dorival vai mudar.

Com dois cartões evitáveis acumulados, Vini Jr está suspenso e o técnico brasileiro já confirmou a escalação de Endrick. Assim, enfim, teremos centroavante, Rodrygo jogando onde ele gosta e Raphinha (ou Savinho?) na ponta direita.

O jogo tem todo cheiro de nova tragédia na história da Seleção Brasileira, embora ninguém vá se surpreender com uma eliminação nessa noite.

Porém, lembra da história da caixinha de surpresas? Ainda que Dorival tenha cortado o barato do menino Endrick ao interromper a sequência de bons minutos que vinha tendo, é em jogos assim que os grandes nomes do futebol brilham e mostram por que são diferentes.

Quem sabe não é a vez dele?

*Cosplay do maior trio de jogadores da história do futebol mundial.

domingo, 30 de junho de 2024

BRASIL - Vini Jr, do Real, decide pela Seleção

Por Waldir Manoel do Nascimento*

(Reprodução TV Globo/Globoplay)

Dorival Júnior fez mudanças, mas não a que a gente queria. Venceu o Paraguai por 4 a 1 na segunda rodada do Grupo D da Copa América sem recorrer a um centroavante no time. Insistiu com seu sistema e foi premiado com uma vitória tendo seu trio ofensivo de pontas como protagonista. Em especial, Vini Jr que foi na seleção o que costuma ser no Real Madrid, o que o credencia a ser o melhor do mundo na temporada.

Com Wendell na lateral esquerda na vaga de Guilherme Arana, que realmente jogou muito mal contra a Costa Rica, e Savinho na vaga de Raphinha na ponta direita, o Brasil enfrentou um Paraguai que não se acovardou, não ficou com os 11 na defesa esperando espaços para um contra-ataque.

Pelo contrário.

Embora a Seleção Brasileira tivesse ímpeto ofensivo desde o início da partida, ps paraguaios foram mais efetivos até a abertura do placar. Damián Bobadilla, volante do São Paulo, finalizou e contou com o desvio em Éder Militão para quase vencer Alisson que, por sua vez, conseguiu evitar o gol.

Até ali o goleiro Morinigo pouco ou quase nada trabalhara.

Mas o jogo mudou e o Brasil abriu 3 a 0 em menos de 15 minutos. Antes, Lucas Paquetá mandou (muito) para fora, aos 31 minutos, cobrança de pênalti após a bola bater na mão de um defensor paraguaio. Quatro minutos depois, porém, o mesmo Paquetá recebeu de Bruno Guimarães e com um toque deixou Vini Jr na frente do goleiro. Vini foi o Vini do Real, teve velocidade e tranquilidade para se livrar da marcação e, com o gol praticamente aberto, abrir o placar.

Se efetivamente não merecia aquele placar, o time de Dorival Júnior fez por merecer ampliá-lo ao não se acomodar. Sufocado, oito minutos depois o Paraguai viu Rodrygo se desvencilhar da zaga pela esquerda e, já dentro da área, bater forte para Savinho aproveitar o rebote do goleiro e a falha da defesa para ampliar. Com quatro minutos de acréscimos Vini Jr abafou a zaga adversária, que errou e proporcionou ao atacante do Real o terceiro gol brasileiro.

Mérito total da equipe brasileira que não se acomodou com o resultado favorável em momento algum para construir um placar tranquilo.

Logo no começo do segundo tempo o bom zagueiro Alderete diminuiu para os paraguaios, mas Lucas Paquetá teve uma segunda chance em outro pênalti em que a bola também bateu na mão de um defensor e decretou o 4 a 1, a primeira vitória do Brasil na Copa América 2024.

Chamou atenção a aparente apatia do relegado Endrick. Espero estar errado.

Para fechar a primeira fase, o Brasil enfrenta a líder Colômbia na terça-feira, 2 de julho, às 22h, pela liderança da chave. Nessa disputa, o empate favorece o bom time colombiano.

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

BRASIL - Bota 9, Dorival!

Por Waldir Manoel do Nascimento*


Foi-se o tempo em que a escalação da Seleção Brasileira povoava os pensamentos e as preocupações de 11 em cada 10 torcedores brasileiros. Num processo de deterioração da imagem junto ao torcedor que começou há décadas, poucos realmente se importam com o escrete canarinho e quem estará em campo por ele. Não existe mais o Zé da Galera, personagem do Jô Soares que atormentou o técnico Telê Santana às vésperas da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, pedindo a escalação de um ponta direita na equipe. "Bota ponta, Telê!", repetia o Zé da Galera.

Aquele time tinha um ponta do lado esquerdo, Éder, que tinha a companhia de Serginho Chulapa no ataque abastecido pelos meias Zico, Sócrates e Falcão, resguardados pelo volante Toninho Cerezo e os zagueiros Oscar e Luizinho, e apoiados por Leandro e Júnior nas laterais. Um time que encantou e fez o Brasil chorar quando perdeu para a Itália de Paolo Rossi. Mesmo assim, antes de iniciado o Mundial, Zé da Galera cobrava: "Bota ponta, Telê!"

Sem entrar no mérito da comparação entre as épocas - não é essa ideia neste texto -, os que se interessam pela Seleção Brasileira parecem unânimes em dizer: falta um centroavante ao time de Dorival Júnior que enfrenta o Paraguai nesta sexta-feira, 28 de junho, às 22h de Brasília, pela segunda rodada do Grupo D da Copa América.

O treinador brasileiro tem optado por escalar três pontas no ataque - estaria feliz o Zé da Galera? -- com Raphinha e Vini Jr. pelos lados e Rodrygo, o camisa 10, por dentro. Porém, pela ineficiência do trio até aqui, ainda não deu para entender se a intenção é que o jogador centralizado seja o falso 9 ou se a ideia é que os pontas façam este papel, entrando na área no espaço deixado por Rodrygo ao sair para armar o time.

Seja qual for a ideia, não parece estar funcionando, vide a dificuldade que teve o Brasil no amistoso frente aos Estados Unidos e na estreia da Copa América contra a Costa Rica. O time considerado reserva, com Evanílson de centroavante contra o México, funcionou melhor e construiu a vitória já no primeiro tempo do confronto.

Hoje, quem olha com carinho o time de Dorival sente a falta de um jogador de referência na área, mais especificamente de Endrick. Ainda que entenda que é preciso ter calma pela pouca idade do agora atacante do Real Madrid, seria mais simples para o treinador colocá-lo em campo e transferir a responsabilidade a ele. Em qualquer situação Dorival se sairá bem: se arrebentar, soube a hora de escalar e, se isso não acontecer, estava com a razão ao pedir paciência com o que é só um menino ainda.

Na dúvida, bota 9, Dorival!

Este texto, porém, quase teve outro título: bota meia, Dorival.

Ainda que a seleção paraguaia se apresente com dois volantes, um meia, dois pontas e um centroavante - teoricamente ofensivo -, o time de Daniel Garnero deve repetir o expediente costa-riquenho e se fechar na defesa desde o primeiro minuto, tentando surpreender os brasileiros no contra-ataque e, sendo assim, a presença de um meia na vaga de um dos volantes, pode ser interessante.

Mas, e por isso o tema do texto não é este, não se trata de uma mudança urgente a ser feita. Todos os volantes brasileiros sabem jogar, e se a mudança no ataque surtir efeito e fizer a seleção ser efetiva e vazar a meta paraguaia, ter um time equilibrado pode ser interessante para obter os importantíssimos três pontos válidos no confronto.

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

terça-feira, 25 de junho de 2024

BRASIL - Sem alegria, nem ousadia

ENGESSADO Brasil parou na marcação e na falta de
criatividade do sistema de jogo (Patrick T. Fallon/AFP)


No primeiro jogo oficial sob o comando de Dorival Júnior, um insosso 0 a 0 com a Costa Rica, o Brasil teve uma estreia muito abaixo do esperado na Copa América do Tio Sam, competição na qual tentará o décimo troféu.  

Como sempre, a seleção brasileira está exposta ao exagero, qualquer que seja a fase e o desempenho apresentado em campo. Como o Brasil partiu do nada deixado por Fernando Diniz para o aceitável com o Dorival - que recebeu a batata quente em forma de previsão de goleadas contra Inglaterra e Espanha -, a malta voltou a achar que o "futebol penta campeão" engrenar. E ainda há a passagem de bastão do Neymar, que não foi sombra do que poderia, para o Vinícius Júnior, favorito por ora à Bola de Ouro, mas que ainda não esteve à altura na seleção por uma série de fatores. 

Aí, é sempre bom lembrar que todos os adversários têm um trabalho em andamento. O Brasil, por absoluta incapacidade da CBF, ainda está engatinhando. Essa foi a quinta partida do Dorival, salvo engano. Não se faz um time em meia-dúzia de jogos.

E tem a estupidez da Conmebol, que aceita que a Copa América seja jogada em campos menores, $abe-$e lá por quai$ motivo$, e essa é mais uma dificuldade para quem tem que sair para o jogo. 

Longe de mim querer achar que sei mais de futebol que ele, mas um campo quatro metros mais estreito e cinco metros mais curto reduz a chance de sucesso contra times que jogam com uma linha de cinco atrás. Isso requer um jogo mais pausado, com paciência, com movimentação na frente e circulação da bola para  bagunçar a marcação e achar espaços. Aí existem dois problemas: sem um 9 de referência (Rodrygo não é centroavante) para incomodar os zagueiros e fazer aparecer esses espaços para o proveito dos que vêm de trás, o Brasil ficou correndo com a bola, afoito. Tinha dois volantes sem lá muita função e, para ajudar, Vini Jr foi anulado pela marcação costarriquenha, também porque não havia espaço para jogar como gosta no Real Madrid. Nas poucas vezes em que superou seu marcador, a jogada morreu na sobra. A presença de um 9 possivelmente criaria esse espaço.

Dorival Júnior, como qualquer outro treinador, deve pensar em um time base para que as rotinas de cada posição dentro do processo sejam assimiladas, mas alguns jogos requerem jogadores de características distintas. Contra uma defesa fechadinha, seria mais proveitoso que o lateral Yan Couto ocupasse a vaga de Danilo, pois é mais ofensivo e poderia auxiliar o ponta que estivesse em campo, fosse ele Raphinha ou Savinho. 

Com 10 ou 15 dias de treinos, além dos períodos de cinco ou seis dias espalhados pela Data-FIFA anterior, o máximo que dá para fazer é ver quem se encaixa nas ideias do treinador ou como o Dorival pode ser adequar ao que tem. Não é razoável achar que a seleção, em retomada de trabalho, chegaria à Copa América em ponto de rebuçado. Da mesma forma, a tendência é ter uma cara de time bem definida quando for disputar a Copa de 2026, para a qual obviamente se classificará.

Ser mais ousado, porém, não depende disso.

BRASIL - Empate na conta do Dorival

Por Waldir Manoel do Nascimento*

Rodrygo lamenta chance desperdiçada (Kevork Djansezian/Getty Images)


Invicto em seu breve início à frente da Seleção Brasileira - 5 jogos com 3 empates e 2 vitórias -, Dorival Júnior parece ter sentido o peso de sua primeira partida por uma competição oficial, o empate sem gols com a Costa Rica na estreia da Copa América. Não pelo semblante à beira do campo. O comandante estava muito bem trajado com o uniforme branco que remetia a Mario Jorge Lobo Zagallo em sua última passagem como técnico do Brasil.

A impressão de que Dorival sentiu o peso da luta por três pontos vem da sua escalação e, especialmente, da demora em mudar o seu time diante de uma equipe jovem - o que traz a imprevisibilidade para campo - mas extremamente sem forças para atacar e assustar o gol de Alisson.

É justo que Dorival tenha o seu time e esquema preferido com dois (bons) volantes, como são Bruno Guimarães e João Gomes, e é justo que tente dar conjunto a este time e inicie uma competição com o que julga ser o melhor à sua disposição. Assim como é justo que ele entenda que Raphinha é hoje melhor para o time que Endrick ou Savinho. Mas também é justo discordar dele.

A forma como a partida diante dos costa-riquenhos se desenhou pedia um time um pouco mais solto, menos travado e abrindo mão da atenção defensiva de dois volantes. Não era nenhum absurdo ter um meio de campo com Bruno Guimarães, Andreas Pereira e Lucas Paquetá. Tanto Andreas, quanto Paquetá, reúnem condições de marcar sem a bola e dar qualidade quando a têm. São meias que já atuaram como segundos volantes, por exemplo, e que gostam de ter o jogo de frente. Podem jogar juntos, podem contribuir sem a bola com um único volante e podem, com a bola, ser muito úteis ao trio de atacantes.

Ao mesmo tempo, qual é o melhor tridente ofensivo? Vini Jr. e Rodrygo são titulares incontestáveis, e surge a dúvida sobre o terceiro nome. O imediatismo pede a entrada de Endrick, o que deslocaria Rodrygo - um falso 9 na formação inicial - para a ponta direita, onde atualmente está Raphinha, com a forte sombra de Savinho.

Para além das escolhas individuais e pensando muito mais nas características de cada jogador e no momento da seleção, meu titular hoje seria o Endrick. Por ser um centroavante, simplificaria o esquema, apesar de obrigar Rodrygo a seguir atuando pela direita, enquanto Vini Jr ocupa a ponta esquerda. Ao mesmo tempo, porém, Paquetá pode inverter essa posição com o camisa 10, jogando o atacante para perto de Endrick, por dentro e com Andreas armando o jogo, resguardado por Bruno Guimarães.

No melhor estilo nostálgico, Bruno Guimarães seria o 5; Andreas, o 8; Paquetá, o 10; Rodrygo, o 7; Endrick, o 9; e Vini Jr, o 11. Esta seria a minha formação para o confronto com o Paraguai, outra equipe que deve se fechar com os 11 atrás da linha da bola, na expectativa de encontrar, em um lance, a chance de marcar e se segurar ainda mais.

Pensando em classificação - e consequentemente na continuidade do trabalho do treinador -, a vitória é fundamental!

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

BRASIL - O desinteresse pela seleção brasileira: reflexões sobre Cultura, Política e Economia do futebol

(Foto: Divulgação/Conmebol;UEFA)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

A Eurocopa começou e, com ela, emergiu a radicalização do discurso nas redes sociais contra os "colonizadinhos" que se interessam mais pelo futebol europeu do que pelo futebol-penta-campeão-do-mundo-aqui-é-brasil-com-muito-orgulho-com-muito-amor, uma releitura moderna da “síndrome de vira-lata”. É dever afirmar que “radicalização” e “redes sociais” são praticamente irmãos siameses, mas as disputas simultâneas de Eurocopa e Copa América devem potencializar essa polarização.

Sugiro que tentemos aprofundar o debate e fugir de respostas fáceis: por que a seleção não desperta o mesmo interesse de há 20 e poucos anos? Por que muita gente prefere um rival, como a Argentina? Por que reclamam quando jogadores de seus clubes são convocados?

Eu, que tenho ascendência portuguesa e me identifico como torcedor da seleção de Portugal, não sou exemplo de nada, tampouco sirvo para explicar qualquer tendência neste sentido. Além da minha origem, existe o aspecto cultural, e pesa a safadeza feita em 2013 com a Portuguesa, clube do qual sou torcedor e era assessor de imprensa à ocasião. Isso fez com que eu enterrasse de vez qualquer simpatia por qualquer coisa que tenha a chancela da CBF (exceto o futebol feminino, que não tem a devida atenção de todos os setores que atuam no futebol).

A mesma CBF, desde que repassou o direito de negociar os jogos da seleção para empresas de marketing esportivo, que passaram a levar a maioria dos amistosos para o exterior, afastou o torcedor (entre 2000 e 2019, foram disputados 135 amistosos, dos quais, 112 no exterior). Ainda assim, quando joga em território nacional, o preço é proibitivo. Para se ter uma ideia, em outubro do ano passado, quem gastou menos para ver o Brasil levar um gol de bicicleta da Venezuela na Arena Pantanal pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 terá desembolsado R$200,00 caso tenha tido direito à meia-entrada. O preço cheio variou entre R$400,00 e R$600,00 – pouco menos da metade do salário-mínimo vigente em 2023 (R$1.320,00). Aqui mesmo, publiquei uma comparação dos custos para um torcedor ver o jogo de sua seleção no Brasil e em Portugal.

O recente incremento financeiro no futebol brasileiro fez com que alguns atletas selecionáveis possam permanecer no Brasil, mas isso não significa que os clubes tenham fôlego para segurar seus principais talentos. Por outro lado, trouxe o inchaço do calendário, que recebe cada vez mais jogos e impede que haja, por exemplo, uma pré-temporada minimamente decente. Diferentemente do que acontece na Europa, o futebol daqui não vai parar durante a competição de seleções. "Ah, quando há jogo da Seleção, os clubes não jogam”. Sim, jogam, mas no dia seguinte. Então, desfalques irão ocorrer do mesmo jeito. E a culpa de uma eventual derrota será da seleção, já que ninguém tem a dignidade de assumir os próprios erros. Convenhamos: é fácil tacar pedra na Geni.

Outro ponto que traz chateação é o chamado "vírus-FIFA" (lesões ocorridas em jogos das seleções), essa ideia rasa que tenta convencer que os jogos entre selecionados, e não esse monte de competições de clubes, são os excedentes. Reitero: é confortável para dirigentes e treinadores transferirem a responsabilidade. Além do mais, está assim, ó, de torcedores que adoram achar que seu time está sempre contra-tudo-e-contra-todos, numa cruzada antissistema que só existe na cabeça vazia dessa malta.

Repito, não tenho a intenção de responder todas as questões ou passar o que penso como verdade inquestionável. Outros pontos que me escapam podem e devem ser considerados para ajudar a explicar esse afastamento.

A obrigação doentia de vencer a qualquer custo e que se lasquem os métodos que podem aproximar projetos de conquistas também não ajuda. Assim, muitos treinadores daqui adotam posturas defensivas porque precisam satisfazer a sanha do torcedor barulhento, alimentada por um sem-número de debates mais barulhentos ainda, para manter seus empregos. Boa parte da mídia também tem culpa no nível do futebol praticado e dos programas apresentados, que às vezes resvalam na indigência. Sequer temos uma escola tática, um estilo próprio, e isso tem influência direta do que é praticado lá fora.

Neste sentido, o período sem títulos nas Copas do Mundo diminui o interesse do torcedor que aprendeu que só quem vence é digno de respeito e os outros são um bando de fracassados. Não basta ganhar outras competições, como as continentais ou a Olimpíada, tem que ser o dono do mundo. Desde a primeira conquista brasileira, em 1958, o maior jejum de títulos correspondia a cinco edições, entre 1974 e 1990, igualado em 2022.   

A popularização das ligas estrangeiras também causa consequências no nível do nosso jogo, como se fosse simples emular o que é feito na Europa. Para isso, precisaríamos entender os conceitos, assimilar e dar tempo para que os trabalhos possam amadurecer. É como querer construir uma casa a partir do teto. Em vez disso, meia-dúzia de jogos bastam para definir se fulano ou cicrano servem – normalmente não servem. E essa histeria é alimentada pelos repetitivos programas de debates e suas "sensacionais e originais" enquetes para ouvir a "voz do torcedor". Como só vencer serve, criamos uma geração de consumidores, não de torcedores, que gritam "não pago meu sócio-torcedor pra isso!”

A facilidade para acompanhar campeonatos muito melhores também não ajuda, quando comparados com o que é praticado aqui. Então, a molecada que cresceu ouvindo que só a vitória interessa, vai gritar "meu City, meu PSG, halla Madrid!" Ou outro fortão da vez, pois isso também muda. Ou alguém vê mais camisas do Milan, febre da primeira década desse século, quando tinha brasileiros inquestionáveis na seleção, como Kaká, Cafu e Dida, do que de um desses endinheirados da vez?

Aí, criamos outro tipo de torcedor: o que torce pelo seu jogador preferido e leva uma leva de gente para onde for. Messi e Cristiano Ronaldo – e Neymar também bateu aí – são os expoentes dessa modalidade. Notem quantas camisas do Inter de Miami e do Al Nassr estão sendo expostas por aí, sobretudo nas crianças. E isso acaba refletindo também no futebol de seleções. Ao cabo, os candidatos a ídolos brasileiros não esquentam lugar, nem criam laços com clubes daqui, e muita gente não se sente representada, nem é brasileira-com-muito-orgulho-com-muito-amor.

Há outro ponto importante na comparação entre Copa América e Eurocopa: como o produto é trabalhado - e não adianta encampar o ódio-eterno-ao-futebol-moderno. É lidar, como diz-se em Portugal. A partir daí, entender como valorizar a competição como produto. Na sua coluna no Guia da Copa América e da Eurocopa da Placar - mesmo tratamento para ambas, mesmo espaço, bola dentro! -, o jornalista Vitor Sérgio Rodrigues fala, e bem, do desgaste causado pela exposição exagerada da Copa América, a ponto de ser banalizada. A Euro, uma mini-Copa do Mundo, é feita para ser exatamente isso. A competição da lamentável Conmebol - não que a UEFA seja muito melhor, mas sabe trabalhar - caminha para ser mais respeitada. Estabilizar o intervalo entre as edições é um dos passos pais importantes. 

Portanto, cada um que acompanhe o que quiser, sem essa de rotular sem contextualizar porque é mais fácil. Esta Copa América, que a Conmebol entregou para os Estados Unidos colocarem em gramados cujas dimensões são diferentes do que veremos na próxima Copa do Mundo (enquanto a Eurocopa é organizada como a própria Copa do Mundo), tem como maior atrativo ser provavelmente a última competição de Messi pela Argentina.

E todos somos responsáveis por isso.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

À Tite, Brasil conquista Copa América e seu treinador enfim volta a ter paz

YOU ARE THE CHAMPIONS Brasil, mesmo sem Neymar, conquista
 a nona Copa América de sua história (Foto: Vítor Caivano /AP)
Após a decepção causada pela Copa de 2018 sem brilho, Tite tinha como missão vencer a Copa América, fosse como fosse. Resolveu, então, dar uma bica no planejamento para o Mundial e garantir seu lugar sob o boné no Catar. Assim, convocou jogadores cascudos que, talvez, não cheguem em dezembro de 2022 (o evento foi transferido pela primeira vez para o fim do ano por causa das temperaturas desumanas do verão no Oriente Médio) em condições físicas, como Thiago Silva e Daniel Alves, dois dos três melhores jogadores da equipe na competição (o outro foi Gabriel Jesus, que, mesmo torto à direita, foi decisivo nas semifinais - talvez não tanto quanto a arbitragem - e na final - apesar da arbitragem). 
Com o cargo em risco e sem seu principal jogador, Neymar, o selecionador brasileiro gastou uma competição de importância secundária, na qual poderia, caso seu prestígio fosse o mesmo do pré-Copa da Rússia, fazer experimentos no ambiente de competição, que sempre é diferente de amistosos. Por isso, mudanças táticas foram quase inexistentes, e os nomes dos titulares, com exceção de David Neres, que realmente foi muito mal no jogo e meio em que atuou, só mudariam a partir do Departamento Médico. Obra do acaso ou da melhor distribuição em campo causada pelo fim das centralizações de jogadas em Neymar, o Brasil mostrou-se uma equipe mais sólida, embora pouco imaginativa por causa das opções táticas de Tite.   

A final com o digno time do Peru teve a cara do treinador brasileiro, assim como quase toda a competição: obediência tática, entrega e um ou outro brilhareco individual, o suficiente para conquistar o nono título da Copa América e manter a escrita de sempre vencê-la em território brasileiro, como já fizera em 1919, 1922, 1949 e 1989. Bonito ou não, pouco importa, como pouco será dito sobre a desastrosa arbitragem da decisão, que expulsou Gabriel Jesus sem motivo algum e marcou um pênalti  sobre Everton Cebolinha que nem Javier Castrilli marcaria. Mentira, aquele argentino desgraçado marcaria sim!

O Brasil abiscoitou todos os prêmios individuais: melhor goleiro (Alisson), artilheiro, melhor jogador da final (ambos para Everton Cebolinha) e craque da competição (Daniel Alves), e isso numa competição marcada pelo nível técnico nivelado por baixo, cujo grande jogo, entre Brasil e Argentina, não foi nenhum exemplo de partida para ficar na história. E olha que estamos falando de uma Copa América em que, exceto Neymar (que não fez a menor falta, diga-se), as seleções trouxeram seus craques (Sanchez e Vidal, pelo Chile; James com a Colômbia; os uruguaios Cavani e Suárez; e Messi). Ok, o Japão veio com o Sub-23 reforçado, mas também não é lá algo para se notar a ausência.


FEZ A LIMPA Todos os prêmios individuais ficaram com brasileiros, bem
como a taça de campeão e o troféu Fair Play (Foto: Mauro Pimentel/AFP)


O que interessa, de fato, é que o Brasil volta a conquistar algo relevante depois de quase 12 anos (o bicampeonato da Copa das Confederações não conta para uma seleção com tantos títulos) e Tite terá, enfim, fôlego para renovar a equipe que disputará a próxima Copa do Mundo, e também para corrigir o problema crônico de pouco criar contra times fechados. Para vencer na América do Sul foi suficiente; contra gente grande mesmo, são outros 500, mas seria muito rabugento de minha parte destacar isso poucas horas depois da conquista. De chato, basta o futebol da Seleção.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Para o gasto e sem o VAR, deu Brasil

BRILHANTE  Gabriel Jesus "renasceu" na Seleção (Foto: Eugenio Souza/AP)
Suficiente e letal. Assim pode ser considerada a atuação do Brasil na vitória sobre a Argentina, pelas semifinais da Copa América. Messi e Argentina fizeram seu melhor jogo na competição, o que não significa dizer que foram bem. 

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Da Albiceleste, o que dá para elogiar é a entrega, e só. Um catado de azul e branco, que não se armou para se defender porque não sabe e não atacou decentemente porque Messi não joga sozinho, e que tomou um gol patético, parando para pedir um pênalti (que não houve)* e com três jogadores desabando ao tentar tirar a bola de um Gabriel Jesus extenuado, quase se arrastando de cansaço. Ainda assim, o "time de Scaloni" acertou duas bolas na trave. 

Ainda sobre Messi: não se joga sozinho. Ele começa a jogada, passa a bola e o lance acaba. Contra uma defesa sólida, que não tomou sequer um gol no torneio, era preciso ter companheiros minimamente razoáveis, coisa que ele não tem.

Sobre o Brasil, uma partida com a cara de Tite: fria, calculista, sólido na defesa e com poucas chances de gol, mas com um aproveitamento exemplar. O Brasil fez um jogo burocrático, com Cebolinha e Arthur abaixo, mas com Gabriel Jesus brilhante (e sacrificado outra vez pela teimosia do treinador) e Daniel Alves fazendo uma partida gigante, de almanaque, de contar para os netos. Quiçá, a melhor exibição com a camisa da Seleção do jogador mais titulado da História do futebol.

Pode não ter sido vistoso, e não foi mesmo, mas jogos como estes não são feitos para que o brilho apareça, e sim a entrega, e, convenhamos, isso não faltou de parte a parte, quer pelo burocrático Brasil de Tite, quer pela tragicômica Argentina de ninguém. 

Enfim, um Brasil x Argentina raramente é um jogo excepcional e o Brasil teve o desempenho que se espera num jogo desses. Se pensarmos em atitude, todos foram brilhantes, pois não afinaram, não tiraram o pé. Assim, encaminhou uma vitória importantíssima.

**

*PS. "Una VARbaridad". Esta é a manchete do Diário Olé, o principal jornal de esportes argentino. Vi os lances reclamados pelos argentinos após o jogo, no programa Linha de Passe, da ESPN. Eles têm razão. Daniel Alves faz um pênalti gigantesco no início da jogada do segundo gol do Brasil, que não teria acontecido caso tivesse sido marcado. Messi poderia perder, poderia cair num buraco na hora da cobrança, poderia ter sofrido um enfarte, uma porção de coisas, mas o pênalti deveria ter sido marcado. Antes que falem em interpretação, não era para isso. Foi pênalti em todas as interpretações possíveis. O segundo, do Arthur no Otamendi, também foi, mas o placar já estava praticamente definido. O VAR é uma vergonha e foi desmoralizado porque o péssimo juiz central simplesmente não quis ver o vídeo. Se o VAR avisou que não houve nada de anormal, fechem as portas e abandonem o recurso. 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A quadradabilidade da Seleção de Tite

E AÍ, PROFESSOR? Time previsível pelas escolhas convencionais do treinador,
que passou de Midas a contestado (Foto: Juan Mabromata/AFP)
Um chute no gol em 100 minutos de jogo. UM CHUTE! Um Brasil burocrático e bagunçado, com um técnico previsível, com jogadores fora de posição e com muito o que explicar na coletiva. VAR (essa desgraça do futebol moderno) à parte, o Brasil não mereceu vencer a boa Venezuela, armada para se defender bem e que, com uma boa dose de coragem, poderia ter feito história em Salvador.

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Taticamente o Brasil se comportou bem sem a bola, com recomposição rápida e pressão no campo de ataque para recuperar a bola rapidamente. Mas o que fazer quando se tem a bola? Tite armou um time quadrado, com pouca movimentação e com jogadores em posição errada. Com pouco tempo para treinar, seria interessante aproveitar as características possíveis de serem aglutinadas, como o posicionamento de Roberto Firmino um pouco mais recuado, jogando atrás do outro atacante. 

Comparando com outra seleção só para aproximar as condições, Fernando Santos mudou o jeito de Portugal jogar durante a Eurocopa e também na Liga das Nações. A coincidência foi ter ganho ambas. Na Euro, Portugal empatou os três jogos na primeira fase, com direito ao maior número de finalizações e segunda posse de bola, mas com pouca efetividade. Na Liga das Nações, quando ele recuou Bernardo Silva e Gonçalo Guedes, Portugal voltou a ter a bola, mas com jogadores melhores pra isso.

Em ambos os casos, a qualidade do jogo apareceu nisso, e em direções opostas, mas guiado pelo que poderiam entregar em campo. Obviamente que não é o caso de o Brasil passe a jogar como na época de Dunga e volte a especular, pois não é esta a característica do nosso jogo, tampouco dos jogadores à disposição, mas, até aqui, Tite não se mostrou à vontade para modificar a forma de jogar. Contra a Vinotinto, fez três substituições: Richarlison por Gabriel Jesus, Casemiro por Fernandinho e David Neres rendido por Everton Cebolinha. Trocando em miúdos, três trocas simples, com jogadores com características parecidas para executarem a mesma função dos substituídos.

SEIS POR MEIA DÚZIA Alterações somente nos nomes, não na forma de jogar
Tite, durante a coletiva, disse que não dá para esperar que, na troca de volante por meia, as coisas mudem por um "passe de mágica" e que é preciso haver uma estrutura tática que propicie isso. Ora, qual o trabalho do treinador, que não este? Qual é a função do comandante, além de encontrar uma maneira de fazer o meio-campo, setor fundamental para quem tem a bola como o Brasil tem, organizar o jogo e fazer com que os atacantes sejam servidos, ou, em outra situação de jogo, fazer com que os espaços surjam contra equipes fechadas?

Não se trata do mítico “camisa 10”, esta instituição sumida no futebol brasileiro, e sim de fazer o negócio funcionar, o jogo fluir, os volantes aparecerem na frente.  Como na Copa, Tite se agarra às suas convicções. Coutinho vai mal, Casemiro vai mal, Tite vai mal.
Um chute no gol em 100 minutos, apesar da posse de bola de 70%, mas 37 cruzamentos na área, o que explica o meio-de-campo insosso. Se o frio torcedor paulistano que foi ao Morumbi não apoiou na estreia, em Salvador nem o "axé dos baianos" resolveu.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Decime que se siente

Umas das acusações mais recorrentes feitas ao genial Lionel Messi é que ele não sente a camisa da Argentina. Que é mais espanhol do que argentino, se é que ainda lhe restaria algo da terra de Perón no caráter. Que é um pecho frio (peito frio). Não cantar o hino do país antes das partidas também depõe, segundo seus detratores, contra si.

Vale, aqui, contextualizar:

Jogando nas categorias inferiores do Newells Old Boys, Messi foi detectado com uma disfunção hormonal que limitava seu crescimento. Como nem o Newells ou outro emblema argentino quis custear o tratamento de 900 dólares por mês, seu pai o levou à Espanha, onde fez testes no Barcelona e foi aprovado imediatamente pelo clube blaugrana, que não só pagou seu tratamento, como empregou seu pai. 

Se quisesse, La Puga poderia optar pela seleção espanhola, mas nunca escondeu de ninguém sua preferência pelo seu país natal, tampouco ter Los Leprosos como time de coração.

Mas por que o cobram tanto?

Messi é acusado de não render pela Albiceleste o mesmo que joga na Catalunha, como se os jogadores que o acompanham fossem os mesmos. Sua personalidade introspectiva reforça a impressão de indiferença, o que faz com que, a cada partida ruim ou desaire pela seleção, os críticos cantem o mesmo tango de sempre. 


Messi chegou a um patamar que não precisaria provar mais nada a quem quer que seja. O problema é que ele é o expoente técnico de uma geração talentosa, mas que não ganhou nada, exceto duas medalhas de ouro olímpicas.

Ao perder sua quarta decisão com a camisa da Argentina (a terceira em três anos seguidos), o genial camisa 10 resolveu abdicar da Seleção, admitindo que fracassou na missão de dar ao país historicamente acostumado a vencer um título que não vem há 23 anos.
Estar à frente do fracasso, após arrebentar em todos os jogos que participou no torneio, o colocou na berlinda outra vez, como quem sucumbe à pressão de ser tão grande usando azul e branco quanto foi Maradona, sua sombra mais escura, mais densa. Justamente este ano, faz 30 que El Pibe de Oro conduziu, praticamente sozinho, uma equipe limitada ao título mundial. E a tão inevitável quanto injusta comparação pesa, embora pese mais ainda quando o Messi argentino é medido pelo Messi barcelonista.  

Pela primeira vez, Messi foi responsável direto pelo infortúnio ao isolar sua cobrança em Nova Jersey. Do contrário das outras ocasiões, desta vez Messi desabou. O desespero ao chutar para fora, cobrindo o rosto com a camisa, como se tentasse buscar refúgio, e que era potencializado a cada gol chileno. O choro antes da premiação. A culpa. Tudo isso desnudou um Lionel Messi que a Argentina desconhecia, um craque com coração e alma. E caráter.

O sofrimento tipicamente portenho o retirou do pedestal, devolveu-lhe a cidadania e o redimiu do pecado de não se sentir argentino. 

Messi entre a cruz e a espada

Por Humberto Pereira da Silva*

ACABOU? Messi lamenta derrota na Copa América
Centenária (Adam Hunger/Reuters)
Lionel Messi falhou contra o Chile, na decisão da Copa América Centenária. Depois do empate no tempo regulamentar e na prorrogação, Messi perdeu pênalti na disputa final e a Argentina, a Copa.

Mais uma vez, pela terceira consecutiva, a Seleção Argentina chega à final nos últimos três anos e deixa o título escapar. Mais uma vez Messi não consegue ser campeão pela seleção de seu país. E nessa última decisão, para agravar, ele perdeu um pênalti decisivo.

Dias depois, em enquete do UOL para importantes jornalistas esportivos, duas perguntas: qual a responsabilidade de Messi nesses fracassos? Que lugar ele ocupa na História?

Pouco importa quais respostas foram dadas. Melhor, foram espontâneas, resultaram do calor da hora. Justamente por isso elas, e quaisquer outras, dizem alguma coisa tanto quanto não dizem nada. Sobre as questões do UOL, então, vale apenas especular.
PRIMEIRO REVÉS: Ainda coadjuvante, Messi caiu para um
Brasil reserva na final da Copa América de 2007 (Getty)
Para a expectativa geral, com o que fez e conquistou pelo Barcelona, Messi fica exposto a extremos: vencendo é endeusado; perdendo torna-se alvo de críticas sem meio termo.

A derrota é imperdoável para um craque na sua condição, daí a cobrança desmedida. Mas futebol, não nos esqueçamos, é um esporte coletivo: somente a miopia de muitos faz crer que individualidades são necessárias e suficientes.

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Vencedores e vencidos 


A situação que se oferece a Messi na Albiceleste não é a mesma da do Barcelona. Na seleção, falta-lhe uma condição essencial, vital: alguém que assuma a liderança da equipe, um Iniesta, e assim lhe permita somente jogar futebol.
VICE NA COPA DO MUNDO Escolhido melhor jogador da Copa de 2014,
Messi não conseguiu levar Argentina ao título (Xinhua/TELAM)
Na Argentina, nenhum jogador tem o papel de Iniesta. Com isso, Messi é colocado na posição de assumir um papel para o qual não tem qualquer aptidão: liderar. Messi não tem predisposição para ser líder.

As razões para isso não cabem em especulações dadas no calor da hora. De fato, como já foi levantado sem esclarecimentos plausíveis, ele sofreria de Síndrome de Asperger? Se não, o fato é que diante de uma situação desfavorável, na qual se esperaria dele ser mais que um jogador extraordinário, ele sucumbiu à pressão.

No futebol, o individualismo, a magia de um craque, não é suficiente numa situação de decisão. Messi falhou em grande parte nessas três decisões de que participou porque nelas ele contou somente com seu extraordinário talento.

Um extraordinário talento, contudo, pode ser uma condição necessária, mas não suficiente. Messi não é dotado da capacidade que alguns poucos jogadores têm, mesmo que tecnicamente menos talentosos, de controlar, estabelecer o ritmo de uma partida e assim comandar seus companheiros. Se essa capacidade foi um fator decisivo, Messi não pode ser cobrado pelo que não podia oferecer.
TERCEIRA FINAL PERDIDA No Chile, Argentina cai nos pênaltis
 para o time da casa. Messi marcou o seu (Veja.com/AFP)
Mesmo assim não deixa de ser incomum uma equipe chegar a três decisões seguidas e perdê-las. Um detalhe ou outro no jogo de circunstâncias e a Argentina teria vencido esta ou aquela das três decisões.

Sim, mas o fato e que a Argentina e Messi perderam as três. E é na decisão, efetivamente, que se mede a pressão sobre um jogador fora-de-série. Perder as três deve trazer alguma coisa sobre a incapacidade emocional de Messi na hora H.

A esse respeito, a segunda questão da enquete do UOL: que lugar lhe cabe na história?

O futebol legou uma galeria de jogadores fantásticos. Messi está entre estes. As circunstâncias de seus fracassos na Seleção Argentina, contudo, alimentarão polêmicas. O que me parece mais notável é que seus insucessos na seleção lançam dúvidas sobre suas conquistas no Barcelona.
MAIOR DOR Messi perde pênalti e é vice pela
 quarta vez com a  Argentina (Getty) 
Quer dizer, se futebol fosse exclusivamente talento com a bola nos pés, não seria exagero sustentar que Messi é o craque mais maravilhoso que o futebol conheceu. Mas futebol não se restringe a talento individual. Independentemente de números, estatísticas e folclores, na hora H Pelé ou Maradona foram assustadoramente colossais.

Diante deles, para mim, na hora da decisão Messi é pequeno; carece de alguém do lado para que despreocupadamente possa exibir seus dotes de fora de série.

*Humberto Pereira da Silva, 52 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.