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domingo, 20 de julho de 2025

Pílulas amadoras - 27

*por Humberto Pereira da Silva

O jornalismo, a ética em jornalismo, exibe momentos bem sensíveis, delicados. É o caso no texto de Milly Lacombe sobre Robinho Jr, em início de carreira no Santos. Em primeiro lugar, antes de tudo, "defendo até a morte o direito de ela expressar liberdade de opinião", para aludir a sentença atribuída a Voltaire. 

Justamente por isso, seu texto, sua opinião, se põem no campo de discussão sobre limites éticos na prática jornalística. É enxergar na estrada uma via de mão dupla. De modo bem direto, caso ela - não suponho que escreva movida por impulso desonesto - tenha de fato boas intenções em que acredita, e faça - muito bem - uso do poder da escrita para defender causas justas. Como princípio, não coloco sob suspensão suas razões para escrever o que escreveu. Tampouco que seja falso como ela se sente sobre Robinho, o pai, e o quanto possa estender às mulheres o horror do estupro e, como decorrência, a condenação do ex-jogador.

Mas, justamente por isso, ao não colocar sob suspensão sua honestidade, para um texto tão duro direcionado a Robinho Jr, da parte dela, deveria haver uma ponderação: fazer um exame de consciência, tendo como ponto de partida o duplo movimento da estrada. Um texto como o que escreveu não faria Robinho Jr sofrer por um crime cometido pelo pai? Quer dizer: Robinho Jr também paga pelo crime da pai?

Esse, para mim, é um ponto extremamente complicado porque não parto do princípio de desonestidade nela. Então, entendo, ela poderia examinar a consciência e ponderar se é justo que além do evidente sofrimento, "vergonha" pelo que o pai fez, o jovem Robinho seja marcado definitivamente e lembrado eternamente de que é filho de um estuprador. 

Outro ponto a respeito propriamente da ética jornalística. O poder e, em decorrência, os efeitos daquilo que se escreve. Mais: como aquilo que se escreve é recebido por quem lê. Eu recebi da seguinte forma: para ela, é um erro o filho adotar o nome profissional de Robinho, o que, de algum modo, seria uma defesa do pai. Ela pode, sim, ter razão numa eventual inconveniência. Só que ela, com o poder que tem, joga nas costas do rapaz todo tipo de indisposição que para a malta faz dele um criminoso como o pai. 

Do ponto de vista ético, para mim, Milly Lacombe subestima os efeitos que uma imputação assim possa ter na carreira e na vida pessoal de Robinho Jr. Seu eventual fracasso como jogador não estaria descolado de coisas como as que Milly escreveu. 

Seria só o caso de não adotar o nome Robinho? Nesse ponto, não sendo desonesto nem ingênuo, não há como desvincular a imagem de filho e pai. Daí, para mim, a responsabilidade ética jornalística: o cuidado para separar o joio do trigo (a conveniência, para o jornalista, deve ser vista também como via de mão dupla; mas isso está longe do texto da Milly Lacombe). Como jornalista competente, aconselharia Milly a passar os olhos pela Bíblia em sua prática jornalística.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


segunda-feira, 11 de março de 2024

Cuca, Bauermann, Robinho e a ética masculina do torcedor de futebol

*texto originalmente publicado no site Ludopédio (ligar)

Protestos abreviaram a passagem do treinador, então condenado
 por estupro, pelo Corinthians (foto: Meu Timão)

Cuca foi anunciado como novo treinador do Athletico paranaense e o caso da condenação por estupro quando ainda era um jogador no início da carreira e defendia o Grêmio voltou ao centro das discussões, como era esperado. Da mesma forma, também, discutimos uma porção de coisas: se ele poderia ou não voltar a trabalhar, se pode ocupar um lugar de liderança ou idolatria, mesmo se é culpado, já que o processo foi anulado e o crime prescreveu, portanto, sem haver a possibilidade de um novo julgamento. Até sobre a legislação suíça nós palpitamos a rodo nos últimos dias, como se estivéssemos falando de trivialidades como o preço da cerveja. Falamos de quase tudo, exceto o essencial. Não falamos sobre a vítima.

Precisamos discutir a ética masculina do torcedor de futebol e o que a constrói. Atenção! Não é a ética do torcedor masculino, é a ética masculina, pois há mulheres que reproduzem o discurso machista e duvidam da palavra da vítima, suposta ou não, como se o homem não fosse o agressor, apenas uma vítima da mulher ou das circunstâncias.

É uma construção social complicada de ser desfeita, mas é necessário. As escrituras, no nono mandamento da Lei de Deus, coisificaram a mulher. O que hoje é “não cobice a mulher do próximo”, era “Não cobice a mulher. Não cobice a casa do seu próximo, nem a sua propriedade, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. A mulher era reduzida a uma propriedade.

Segundo a ética masculina do torcedor de futebol, é mais grave quando um Bauermann combina um cartão amarelo ou troca um pênalti por alguns trocados do que agredir, violentar ou matar uma mulher. Robinho, condenado por estupro na Itália, está livre a ponto de frequentar churrascos no Santos e ser tietado por um jogador que até outro dia respondia por violência doméstica.

“Ah, a moça retirou a queixa”, mesmo com farto material probatório. A retirada da queixa não significa que a agressão não existiu; a prescrição do crime não faz o estupro desaparecer.  E discute-se se o jogador estragou a carreira. “Que pena, tinha tanto potencial”. “Quem poderia imaginar? O jogador com mais títulos na história do futebol jogou sua história no lixo”. Que se lixe a história, a carreira. O valor disso é ínfimo ao pé do que destruiu.

Milly Lacombe, no UOL, questionou brilhantemente a formação do indivíduo. A mulher é educada a saber se portar, a se vestir sem provocar, a não se colocar em situações que favoreçam que seja violentada, como se seu comportamento justificasse o crime. Ao homem é ensinado a caçar e interpretar qualquer sinal de simpatia feminina como uma possível abertura de pernas. Seu capital social, e aqui reproduzo exatamente o termo que Milly usou porque não há forma melhor para se referir a isso: o capital social do homem aumenta conforme ele pega mais mulheres. Ela é a vagabunda; ele, o fodão.  

Da mesma forma que o menino espanhol chamou Vini Jr. de macaco porque reproduz o que observa no seu entorno, é ensinado que a mulher está em uma categoria inferior e deve servir ao homem, querendo ou não. Mais importante que discutir a punição e a recolocação profissional é rever como estamos educando nossas crianças, principalmente os futuros homens, para que eles não vejam as mulheres como mero instrumento para uma noite de farras, a tal travessura irresponsável, como qualificou na ocasião o colunista do jornal Zero Hora, Paulo Santana. Para o homem pode ser somente uma noite. Para a mulher, a vítima, é uma vida. É a vida dela, da família dela.

Não cabe mais repetir a célebre e infeliz frase atribuída a João Saldanha, "eu o quero para jogar no meu time, não para se casar com a minha filha", tão comum nos anos 1990, os tais anos de ouro dessa bobagem que chamamos de futebol raiz, o “futebol que respira”. Porque a mensagem é mais importante que o gol. Não é sobre ganhar ou perder, é sobre ser decente.  

E só seremos decentes quando interrompermos este processo, entendermos o valor e lutarmos de verdade para que as mulheres sejam respeitadas e tratadas como iguais.