sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sobre ofensa, oportunismo e Jornalismo



"Sou homem pra c...!"

"Suei muito para chegar aqui!"

"Eu estudo. Não cheguei por acaso!"

O que poderia ser uma autoanálise e mais pareceria argumento de quem está se preparando para uma entrevista de emprego, é a prova de que Eduardo Baptista está pressionado. Alguém à vontade, confortável, não teria a reação que ele teve após a épica vitória sobre o Peñarol, no Uruguai, por 3 a 2 de virada.

Fazia mais de 40 anos que o Palmeiras não vencia em terras cisplatinas. É provável, caro leitor, que você ainda não tenha sido dado à luz quando o Verdão venceu no Uruguai pela última vez. Já seria assunto suficiente para o pós jogo.

Seria.

Não foi porque os aurinegros resolveram armar uma tocaia aos palmeirenses ainda no gramado do Campeón del Siglo, porque Felipe Melo foi perseguido e reagiu, porque os 19 seguranças palmeirenses evitaram uma tragédia. E porque Eduardo Baptista resolveu falar.

Logo no início da coletiva de pós jogo, começou a falar com firmeza, que deu lugar à indignação e meia dúzia de socos na mesa enquanto o volume da voz ia aumentando, até que exagerou no tom. Tudo que é exagero sobra, e, neste caso, a sobra é o exagero no argumento que lhe tira a razão.

Sem citar o nome, cobrou do jornalista Juca Kfouri que revelasse a fonte que lhe disse que Baptista tinha sido "convencido" por Alexandre Matos a escalar Róger Guedes contra a Ponte Preta. "Não sou maleável! Exijo respeito! Sou homem pra caralho!" 

A torcida, é claro, adorou. Este é o papel dela. E Eduardo Baptista aproveitou para sair, mesmo momentaneamente, de questionado para assumir uma condição de herói, de quem suportou a pressão com estoicismo e que se insurgiu contra as injustiças causadas por um jornalista malvado que apenas fez seu papel.

Quando o sujeito precisa ficar se explicando muito, é porque algo está errado. Ou, como diz um antigo provérbio português, "Quem se escusa, se acusa". Gosto muito dos provérbios portugueses.


Já disse Willian Randolph Hearst (1863-1951), jornalista americano que serviu de inspiração para o personagem protagonista do filme Cidadão Kane: "Jornalismo é publicar aquilo que alguém quer que não se publique. Todo o resto é publicidade". Juca tinha a informação, passada por uma fonte de sua confiança. Se ele a julga relevante o suficiente para ser notícia e tem confiança em quem a passou, vai segurar por quê? Isso é jornalismo! Todos, principalmente jornalistas, deveriam saber disso.

Como se não bastasse, Baptista exigiu que Juca, de quem - reitero - não falou o nome, falasse quem é sua fonte. Não, professor, o jornalista não revela sua fonte e isso não só é sagrado na profissão como é previsto em lei, e esta é a matéria-prima do jornalismo. Assistam ao filme O Informante e entendam, caso discordem. A reação do treinador é compreensível, mas colocar em dúvida o procedimento do jornalista não tem o menor cabimento.

É preciso entender o contexto. Baptista explodiu daquele jeito porque está pressionado. Está pressionado porque seu trabalho é pífio à frente do elenco mais caro da América do Sul. É pífio porque não consegue dar padrão ao time e porque, a cada jogo, o nome de Cuca ecoa na sua. E também porque o Palmeiras ganhou um jogo complicado, mas que só foi assim por causa do desempenho horroroso do primeiro tempo, quando o sistema escolhido por ele não deu certo. Seu mérito foi entender a bobagem que fez e consertar. O lado bom foi admitir o tamanho do erro e não se debruçar em números para justificar uma escolha equivocada.

Foi oportunista.

Eduardo Baptista tem todo o direito de se sentir ofendido e é perfeitamente compreensível que assim seja, mas existe a Justiça para pedir a reparação, em vez de ser numa entrevista coletiva, onde não há replica, onde os comportados repórteres perguntam, mas não questionam, onde Juca Kfouri não estava para responder. Insisto: Juca confia na fonte e por isso deu a informação. É mentira? Que seja interpelado judicialmente e prove.

Só Eduardo sabe onde e o quanto incomoda ter sua competência posta à prova a cada rodada depois de ter se preparado, ter estudado tanto, como ele mesmo disse, como se isso desse a garantia de que o trabalho é bem feito. Já disse isso antes nesta mesma tribuna sobre ele mesmo: defendo que a diretoria deva dar condição e respaldo para que ele trabalhe e possa, com tempo e condição para isso, ter a chance de apresentar seu trabalho da melhor forma, mas não é dando esse tipo de chilique que ele irá conseguir o respeito que julga merecer.

Mesmo porque sua aura de herói, como todas as verdades do futebol, irá durar somente até a próxima partida ruim.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A pior face do ser humano

DESUMANO Vale tudo no futebol? (Getty Images)
“Ó vascaíno, por que estás tão triste? Mas o que foi que aconteceu? Foi o Dener que bateu na árvore, quebrou o pescoço e depois morreu” (elementos vestidos com a camisa do Flamengo cantaram para provocar a torcida do Vasco em virtude da morte do meia Dener, em 1994)

“Foi no Jamor  que o lagarto ardeu” (ultras imbecis da No Name Boys, torcida extremista e violenta do Benfica, entoam este grito sempre que Benfica e Sporting se enfrentam (em qualquer modalidade), em alusão à morte do torcedor Rui Mendes, atingido por um sinalizador (chamado de “very light“, em Portugal) na final da Taça de Portugal de 1996, no estádio do Vale do Jamor, em Lisboa).

“Ah, quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica” (vagabundos da Super Dragões, uniformizada do Porto, durante uma partida de handebol entre Porto e Benfica, em 2017)

“Não é mole não, você vai cair igual o Fernandão” (grito ouvido durante um Corinthians x Internacional de 2016 em referência ao acidente de helicóptero que vitimou o atacante Fernandão dois anos antes)

“Ão ão ão, abastece o avião” (torcida organizada do Criciúma, durante o jogo com a Chapecoense, pelo Campeonato Catarinense de 2017).

IMBECIS "Torcida" do Tigre que cantou sobre o avião
 da Chapecoense (Reprodução/Twitter)
O psicólogo e sociólogo francês Gustave Le Bon publicou em 1895 a tese da Psicologia das Multidões, segundo qual o contato com as pessoas traz influências pelo contágio, em que há influência no comportamento individual a partir de ações tomadas no grupo. As opiniões e crenças das multidões são propagadas por contágio e não pela razão. Este princípio é citado n’O Livro dos Insultos, de HL Mencken, no capítulo “A Turba”, que diz que, quando ombreados, homens descem um ou dois degraus intelectualmente dizendo e têm as mesmas reações mentais e intelectuais de pessoas inferiores nestes sentidos.
Menckens, brilhante jornalista americano do início do século XX, discorda. De acordo com ele, trata-se de uma rara oportunidade de exprimir sua verdadeira face em segurança. Isso foi escrito em 1918. Tendo a concordar com ele, Mencken. Hoje, as oportunidades de aglomeração de palermas dão-se todos os dias e de diversas formas. As mídias sociais são um exemplo disso, mas vamos nos ater às torcidas organizadas.

Comecei este texto citando cinco momentos infelizes, para dizer o mínimo, que ocorreram dentro de campos de futebol do Brasil e de praças esportivas portuguesas. Elas são mostras incontestes de como Mencken tinha razão ao associar o comportamento de massas com a verdadeira cara desta escumalha. 

Mostram o pior do ser humano, sua repugnância, ainda mais no ambiente do estádio de futebol, esse território sem lei onde os imbecis creem tudo poder.

Referência nacional nos estudos da violência no futebol, o sociólogo Maurício Murad, em entrevista ao site Goal Brasil, explica a sensação de impunidade e pleno poder que existe nas praças esportivas, e sua opinião vai ao encontro da teoria de Le Bon. “O futebol é um evento cultural muito forte das multidões e da paixão humana. A paixão e a multidão tudo acentuam. Então, a multidão tocada pela paixão é muito propícia a exageros, transgressões e ultrapassagem dos limites razoáveis da vida, da convivência humana. São minorias estúpidas, com um grau de irracionalidade, violência e ódio muito intensos e que pensam que o universo do futebol permite tudo; que em um estádio ou no meio da multidão você pode tudo que você não pode na, digamos, vida real”.

É um quadro desolador. Em 2014, no Derby Della Moli, torcedores da Juventus ironizaram a Tragédia de Superga (1949), quando 42 pessoas morreram, entre elas 18 jogadores do supertime do Torino (base da Squadra Azzurra que disputaria a Copa de 1950), quando o avião que trazia o Toro bateu na torre da catedral de Superga. Não é raro os rivais do Manchester United fazerem troça com o acidente que matou 23 pessoas em Munique, entre elas, integrantes da delegação do United.

Mas o que os atinge? A execração moral não os incomoda, uma vez que, entre os iguais, ganham projeção e respeito dentro da organização que se classifica como torcida organizada. Na verdade, são gangues que se aproveitam da conivência do poder público e dos próprios clubes para, como disse Murad, fazer tudo o que não poderia em outros lugares e ambientes fora do futebol. A ascensão da Barra Brava mais temida da Argentina deu-se dentro deste panorama, como conta La Doce – a Explosiva História da Torcida Organizada MaisTemida do Mundo, o excelente e indispensável livro do jornalista argentino Gustavo Grabia sobre a gangue organizada do Boca Juniors.


Esta é a pior face do ser humano. Fazer troça com tragédias desta natureza não é aceitável, não há exceção, seja pela morte de um ídolo, um adepto ou uma equipe inteira. Não se trata de um rebaixamento ou uma derrota vexatória. Há limites sim para a zoação, e o respeito da vida humana é um deles, se não o principal. A falta de discernimento e empatia é o primeiro passo para a barbárie e, daí, para a prova inequívoca de que a humanidade é uma experiência que não deu certo. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rodrigo Caio e o relativismo moral

FUI EU, PROFESSOR Rodrigo Caio pisa no goleiro Renan ao tentar proteger a bola em
 jogada com o atacante Jô, do Corinthians. Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. O trecho do discurso proferido por Rui Barbosa no Senado Federal em 1914, portanto há mais de cem anos, é citado no livro “Ética e Vergonha naCara”, de Mario Sergio Cortella e Clovis de Barros Filho.

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O gênio que o mundo esqueceu

Cortella fala do “se é bom para mim, tudo bem”, que classifica como ética de conveniência ou relativismo moral. Ele argumenta usando o caso do corredor espanhol Iván Fernández Anaya, que não quis vencer uma corrida de crosscountry em 2012 ao perceber que o queniano Abel Mutay, que venceria, parara antes por se confundir com a sinalização e achar que já tinha vencido a prova. “O que teria dito minha mãe?”, pergunta Anaya ao repórter que questionou a atitude. Para Cortella, a mãe é a última pessoa a quem se quer envergonhar.

No dia seguinte após o Corinthians vencer o São Paulo por 2 a 0 no Morumbi, o zagueiro Maicon disse que preferia ver a mãe do adversário chorando à sua . Talvez o xerifão com cara de mau e futebol igualmente assustador não tenha parado para pensar no que sua mãe pensaria se o filho visse algo injusto e calasse por e para ser beneficiado.

A atitude de Rodrigo Caio ao confessar ter pisado no goleiro de seu time ao tentar proteger a bola da investida do atacante Jô, evitando assim um injusto cartão amarelo ao adversário (que o suspenderia do jogo da volta, no qual a sua equipe precisa vencer por boa margem de gols para seguir adiante), nem deveria levantar tanta polêmica. E como toda polêmica em tempos de redes sociais para seu fomento, a discussão é a mais rasteira possível.

O tema deveria ser consenso, mas apenas é debatido porque nunca se pensou tanto no próprio umbigo. Ou melhor, porque perdeu-se a vergonha faz tempo, mas agora resolveram escancarar, como se fosse feio ser honesto, coisa de otário mesmo. Como cantou Gardel em Cambalache (e Raul Seixas traduziu dois anos antes de partir), “quem não rouba é um imbecil”.

Torcedores revoltados com a atitude do jogador condenam sua honestidade a ponto de atribuir a ela o novo insucesso de sua equipe, mesmo que esta esteja se arrastando em campo, nos chamados jogos grandes. Como se a virtude fosse errada, como se fosse justificável ganhar a todo custo.

Não é.

A competitividade no futebol não pode ser desculpa para que seja instituído uma espécie de território sem lei, onde tudo é permitido, desde uma simulação para obtenção de vantagem imerecida à ofensa racial, buscando o destempero do contrário. O futebol nada mais é que a metáfora da vida e isso explica essa elasticidade moral vista quando a bola rola, quando Fred cava um pênalti na estreia da Copa, quando Rivaldo simula uma bolada no rosto, quando Henry leva a mão à bola para classificar a França. Aplaude-se o esperto pelo resultado obtido. Resultado: é o que diferencia também o esperto do trouxa.

Mas não se enganem. O mesmo relativismo moral cunhado no diálogo entre Cortella e Barros Filho explica os elogios dos jogadores corintianos, que não tomaram atitude semelhante quando tiveram oportunidade. Sem medo de errar, fosse um companheiro de time deles a fazer o que fez Rodrigo Caio, o discurso seria outro.

O excelente Moacyr Franco, na Praça da Alegria, criou o personagem Mendigo, que andava com um jornal amassado sob o braço e repetia o bordão “e quanto é que eu levonisso?” quando reclamava da vida. A resposta a esta pergunta tem determinado a distância entre o esfregar das mãos e a indignação.


O problema é cultural, é de berço, é de (falta de) retidão de caráter. O cidadão que, ao se vestir de torcedor, aceita qualquer cambalacho que favoreça seu time, despe-se da moral. Mas ao contrário do Mendigo de Moacyr Franco, sua mendicância é vil, é desprezível. Ele mendiga por favores, por benesses, mesmo que seja à margem da lei e em todos os níveis, desde o cafezinho para o guarda à propina do fiscal.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O gênio que o mundo esqueceu


Naquele atípico 13 de novembro de 1991, primavera paulistana, fazia frio. O placar ainda manual de um mal iluminado Canindé apontava um insosso empate sem gols entre Portuguesa e Internacional de Limeira, pela segunda rodada da segunda fase do Campeonato Paulista de 1991, quando, já perto do final do jogo, o time do interior teve um escanteio pela direita, no lado do gol dos vestiários do Dr. Oswaldo Teixeira Duarte. O tiro de canto, mal batido, foi interceptado já no primeiro pau pelo capitão do time, o zagueiro Wladimir. Nilson, o centroavante, ajeitou a bola à altura do grande círculo central para Dener, que vinha em velocidade.

Como um bólido, partiu com a bola dominada e foi superando os adversários, um por um: primeiro Ivan, driblado na passada; depois, um drible da vaca em cima do zagueiro Lica. Denis, lateral-esquerdo, veio babando para aplicar uma tesoura, mas o arisco camisa 10 luso nem tomou conhecimento, para, da marca do pênalti, apenas tirar, com um toque sutil do lado direito, o goleiro, que tentava em vão fechar o ângulo.

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Não mudarei meu nome

Na mesma noite, todos os telejornais (em 1991 a internet para uso doméstico nem existia no Brasil) davam destaque ao gol de placa marcado pelo menino que, menos de um ano antes, encantara (vestindo a mesma camisa 8 que foi imortalizada por Enéas) o país na histórica conquista da Taça São Paulo de Futebol Júnior.


Dener era assim: reinventava a lógica em jogos em que parecia que não aconteceria mais nada, fadados ao esquecimento, como na antológica arrancada que abre este texto. Ele foi um dos últimos gênios do futebol brasileiro. “Meia à moda antiga, criava chances de gol a partir do nada”, constatou o guia do Campeonato Brasileiro de 1993, da revista Placar. “O melhor do mundo. Morreu antes do reconhecimento”, disse certa vez Edinho, ex-goleiro do Santos e um dos grandes amigos do genial jogador, com a autoridade de quem é filho do Rei Pelé. Dos inúmeros sucessores de seu pai, Dener foi o que mais mereceu a comparação sem que soasse como heresia. Como se não bastasse, Pepe, que jogou com Pelé na Seleção Brasileira e no Santos e foi técnico do craque luso no jogo em que o Reizinho do Canindé destruiu o Peixe em 45 minutos de pura classe e raiva, decretou em entrevista ao site Globoesporte.com quando o desaparecimento do craque completou das décadas: “Foi um dos cinco melhores atacantes que eu vi, e olha que eu vi Pelé, Eusébio, Puskas… Dener está nessa turma aí”.

Onde chegaria? Ninguém sabe, a não ser Deus. À espanhola Líbero, há quase dois anos, falei de Dener na condição de então assessor de imprensa da Portuguesa e torcedor que viu de perto todos os passos do gênio que foi esquecido. Sem medo de parecer exagerado, disse ao jornalista Arturo Lezcano que Dener tinha bola para ser maior que Messi, mas seu temperamento por certo o impediria de triunfar no duro futebol alemão, destino assinado na noite anterior da manhã em que seu fado foi cumprido à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Não fosse seu temperamento arredio, talvez estivesse em Paris com a Seleção Brasileira, que estava concentrada para um amistoso com o PSG que acabou 0 a 0, como uma espécie de boicote de uma bola enlutada, como se estivesse se recusando a fazer festa quando queria apenas chorar a perda do seu maior amor.


Hoje, 19 de abril, faz 23 anos que Dener se foi, justamente a idade que tinha quando o absurdo se consumou. E, mais uma vez, pouco ou nada foi dito sobre o gênio que, como Enéas, reinou no meio-campo da Portuguesa e só parou na morte, seu marcador mais desleal, que chegou de surpresa, como um zagueiro maldoso que lhe atinge por trás sem sequer procurar pela bola. O deus irônico e farsante que Drummond supôs que regularia o futebol quis levá-los cedo demais. Se de Garrincha este deus retirou a capacidade de perceber sua condição de agente divino, a Dener ele negou o tempo. E não há outro Mané. Nem outro Dener. E as tristezas sempre voltam.

Verdade seja dita, chances para ele não faltaram, mas uma escapada da concentração, ainda na época de Paulo Roberto Falcão, afastou da equipe nacional o maior talento que o futebol brasileiro viu no fim do século passado. Dener não estava nos planos de Parreira para a Copa de 94 por causa dos inúmeros casos de indisciplina que começou a colecionar ainda na base da Portuguesa e que o fizeram ir e voltar ao profissional da Lusa incontáveis vezes. Ou então, sob a orientação de Telê Santana, que o indicou para o São Paulo campeão de tudo, o menino que cresceu na Vila Ede, Zona Norte da capital paulista, talvez tivesse outro caminho. Conjecturas. Apenas conjecturas que nunca serão provadas e que servem apenas para aumentar o mito. Um mito que não pode ser esquecido, sob pena de se enterrar uma das mais bonitas páginas do futebol brasileiro.


Quando morreu, naquela estúpida madrugada de 19 de abril de 1994, a caminho de São Januário, Dener estava no banco do carona do Pássaro Branco, que era como ele chamava o seu Mitsubishi Eclipse, de placa DNR-1010 e que foi uma de suas exigências para a renovação de mais um dos contratos com a Lusa. No momento em que Otto Gomes Miranda, amigo que conduzia o carro, colidiu numa árvore na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, Dener dormia.

Coube a André Kfouri a definição que mais se aproximou da perfeição: “Se estivesse acordado, certamente teria driblado a morte”.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Não mudarei meu nome

(Foto: Rodrigo Corsi / FPF)
“Quer saber? É bem feito! Mudo meu nome se os clubes unirem-se de fato para reverter isso. Principalmente os cartolas paulistas, esse bando de frouxos que diz amém a tudo que ele faz desde a época da FPF, quando já eram picados pelo escorpião de Esopo.”

Com este parágrafo eu encerrei um dos meus últimos textos, como você, leitor, pode conferir aqui. Eu tratava do passa-moleque que a CBF deu nos clubes ao elaborar, revisar, aprovar e promover a mudança do estatuto, que tirava poderes dos clubes e aumentava os das federações, todas elas rezando no catecismo delneriano, evidentemente.

Um escárnio que fere todas as leis do esporte.

Dias depois, alguns dirigentes se mostraram indignados com a questão. Modesto Roma Jr, presidente do Santos, disse em reportagem de Gabriela Moreira, da ESPN, que “não é ganhar ou perder, temos o direito de opinar. O que fizeram deixa os clubes com uma pergunta: é isso o que nós queremos? É este futebol que nós estamos buscando?”

A CBF até se adequou à Medida Provisória nº 671, de 19 de março de 2015, a chamada MP do Futebol e, dentro da reforma estatuária que aprovou enquanto a Seleção Brasileira estava em campo, não por coincidência, deu voto aos clubes da Série B, mas alterou o peso dos votos das federações estaduais para 3 e dos clubes da Série A para 2, mantendo maioria. Numa situação em que os clubes queiram tirar força dessas federações, perderiam por 81 a 60, isso se todos os clubes votantes fecharem questão.

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O escorpião e o sapo

Eis que Bahia, Atlético-PR, Coritiba, Atlético-MG, Flamengo e Fluminense resolvem promover um encontro para discutir o assunto. Escolheram a cidade de São Paulo para atrair os grandes clubes da capital paulista, mas os clubes da São Paulo, incluindo o Santos de Modesto Roma Jr, fecharam questão em torno da decisão da Federação Paulista de Futebol, sob as ordens do todo poderoso Reinaldo Carneiro Bastos, de boicotar o movimento anti-CBF que começava a ser desenhado para questionar as mudanças na carta maior da entidade (que deveria ser moralmente também) maior do futebol nacional.

Mas não é de hoje que a CBF anda à margem da Lei. O parágrafo 5º do artigo 20 da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, popularmente conhecida como Lei Pelé, diz que “é vedada qualquer intervenção das entidades de administração do desporto nas ligas que se mantiverem independentes”. O parágrafo 6º do mesmo artigo diz que “as ligas formadas por entidades de prática desportiva envolvidas em competições de atletas profissionais equiparam-se, para fins do cumprimento do disposto nesta Lei, às entidades de administração do desporto, que são as federações estaduais e a CBF. mas esta, em estatuto, se dá o direito de permitir ou não a realização destas ligas, o que de antemão inviabiliza qualquer tentativa de independência, uma vez que a FIFA e a Conmebol só reconhecem representantes de torneios que tenham o aval da tal entidade nacional de administração do desporto.

Exemplos de ligas bem sucedidas não faltam: Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Portugal, para ficar somente nas seis maiores da Europa, foram criadas em linha com as federações locais (as tais entidades de administração desportivas), que as reconhecem e indicam seus campeões e equipes bem classificadas como seus representantes em torneios internacionais. A Lei Pelé, em tese, até permite a criação de ligas independentes, mas quem investiria em um campeonato que seja como a Transamazônica, levando nada a lugar nenhum? Sem a participação dos grandes clubes, que não poderiam participar de um torneio pirata, seria natimorta ou morreria pouco tempo depois, como foi o caso da Dimayor, a Division Mayor del Futbol Colombiano, ou, caso queiram, a histórica Liga Pirata da Colômbia, que não reconhecia o valor legal dos passes dos jogadores de clubes de outros países e, por isso mesmo, foi considerada “pirata”, de acordo com o próprio Jules Rimet.

Ela se aproveitou da greve do fim dos anos 1940 no futebol argentino e no uruguaio para recrutar craques, convencendo-os com o melhor argumento possível: salários que seus clubes não poderiam pagar. E assim jogadores como Adolfo Pedernera, Alfredo Di Stefano e Nestor ‘Pipo’ Rossi, todos titulares da fortíssima Argentina tricampeã sul-americana, foram para o Millonarios de Bogotá, mas, com exceção de La Saeta Rubia, que foi para o futebol espanhol, todos foram devolvidos à La Maquina, como era conhecido o timaço do River Plate. Era assa a exigência da FIFA para reconhecer a Dimayor e cancelar as sanções ao futebol colombiano. Como dado histórico, os brasileiros de destaque que foram atrás do eldorado foram Elba de Pádua Lima, o Tim, já em fim de carreira, e o genial Heleno de Freitas, que estava brigado com Flávio Costa e não tinha a menor chance de ir à Copa de 1950.

Mais uma vez, os clubes têm a chance de se livrarem do jugo de uma entidade que sucateou o maior bem cultural do país, o futebol, mas precisam ter coragem para isso, coisa que ao menos os de São Paulo não mostraram que têm. São covardes ou mal intencionados.

Não sei o que é pior.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O escorpião e o sapo

DE POUCOS AMIGOS É somente a cara. Del Nero tem na mão
 os cartolas do futebol brasileiro (Foto: Reuters/Sergio Moraes)

De acordo com a fábula do escritor grego Esopo (620-560 a.C.), o escorpião pediu ajuda ao sapo para atravessar o rio. O sapo estava receoso de ser picado durante a travessia e o escorpião argumentou que, se o picasse, os dois se afogariam. Só que o escorpião de fato picou o sapo e disse: “Perdoe-me. É da minha natureza”.

No fim de 2015, Del Nero aglutinou os clubes em torno de seu umbigo para que, por manobra, o Coronel Nunes, presidente há mais de 25 anos da Federação PARAENSE de Futebol, fosse eleito vice da região SUDESTE (que fica a pelo menos 2 mil km do Pará). O objetivo era impedir que um adversário político, Delfim Peixoto, que morreria um ano depois no acidente da Chapecoense, assumisse a presidência da CBF quando ele, Del Nero, tivesse que se “afastar” do cargo. Eram tempos de moralização do futebol mundial e o Don Juan da Barra Funda estava com aquilo na mão de as investigações do FBI respingarem nele.
Em caso de vacância do mandatário, quem assumiria a presidência seria o vice-presidente mais idoso, e este era o falecido Peixoto, 74, presidente da Federação Catarinense de Futebol e dirigente que não simpatizava com a gestão Del Nero/Marin. Então foi costurado o acordo: Antonio Carlos Nunes de Lima, de 79 anos e parceiro de longa data do ex-presidente Marin, que ainda cumpre prisão domiciliar nos Estados Unidos, enquanto aguarda julgamento, seria o candidato para concorrer a uma das vice-presidências, a do Sudeste, quintal de Del Nero.

Era a chance de os clubes livrarem-se do jugo da CBF, do clientelismo, dos desmandos e das maracutaias que os cartolas da entidade máxima do futebol estavam tão acostumados. Mas não. Nenhuma voz foi contrária ao acordo. Ninguém sequer questionou os porquês de um dirigente de uma federação completamente estranha à região, e que em meio século não havia desenvolvido em absolutamente nada o esporte do Norte do país.

Fecharam questão em torno do Coronel Nunes, de história ligada à Ditadura Militar, a suspeitas de enriquecimento ilícito e favorecimento, que foram investigadas por uma CPI na Assembleia Legislativa do Pará e não deu em nada, apesar do teor das acusações. A Comissão tinha, entre seus membros, parlamentares que receberam doações da entidade presidida por Nunes.

CORONÉ DE CAPACIDADE O caricato Coronel Nunes, homem
 de Marin e Del Nero, que presidiu interinamente a CBF
 até Il capo voltar (Foto: Lucas Figueredo/MowaPress)
 

Nada que fuja ao modus operandi da própria CBF.

Sobre ele, o “moderno” Paulo Nobre, ex-presidente/mecenas do Palmeiras, disse ter capacidade quando da vergonhosa manobra. Um escárnio. Um nojo. Depois que colocou seu capanga no posto, Del Nero enfim licenciou-se da presidência. E o cavalo passou selado mais uma vez.

Pois bem. Passado o susto e com todos os seus asseclas acochambrados sob sua asa, eis que Il Capo Del Nero resolveu passar a perna nos clubes na absurda reforma estatutária que ele mesmo promoveu (no mesmo dia do jogo da Seleção Brasileira contra o Uruguai), tirando-lhes poder e, pelo visto, se agarrando feito cipó-parasita no poder ad aeternum.

Pela reforma sugerida pela CBF, aprovada pela CBF e promovida pela CBF, as Federações passam a ter peso maior que os clubes nas eleições, o que, na prática, significa que os desejos da entidade passarão a ser ordem. Clubes e imprensa não foram avisados, tampouco a assembleia surpresa foi publicada no site da entidade, o que fere a Lei Geral do Esporte. Não pelo entendimento da CBF, entidade privada segundo qual não reconhece interferência alguma sobre seu estatuto.

Coloca-se acima do bem e do mal.

Pela reforma, haverá um conselho administrativo formado por oito vice-presidentes, o que tiraria, teoricamente, o poder do presidente. Isso se estes oito não fossem da chapa de Del Nero.


Quer saber? É bem feito! Mudo meu nome se os clubes unirem-se de fato para reverter isso. Principalmente os cartolas paulistas, esse bando de frouxos que diz amém a tudo que ele faz desde a época da FPF, quando já eram picados pelo escorpião de Esopo. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Vinicius Junior, a bola da vez

TEMPO DE MATURAÇÃO Vinicius Junior já é cobiçado por
 grandes da Europa (Foto: Vinicius Gregório)
“Vinicius Junior vai estrear no profissional antes de Neymar? Fla avalia”. Este é o título da matéria do ótimo Rodrigo Mattos, do UOL, sobre a mais nova promessa de craque do futebol brasileiro. Vinicius Junior, a bola da vez, tem 16 anos e idade de juvenil.
Brilhou na Copa São Paulo de Futebol Jr com o seu Flamengo, clube que orgulha-se da frase “Craque o Flamengo faz em casa”, embora não tenha feito tantos assim nos últimos anos. Seu brilho na competição durou enquanto o Rubro-Negro enfrentou catadões de qualidade duvidosa, times de empresários que empestearam aquela que era para ser a maior e melhor competição do futebol de base do Brasil, de onde saíram Falcão, Toninho Cerezo, Djalminha, Dener, Kaká e Neymar, mas hoje é um balcão de negócios dos mais ordinários. No primeiro obstáculo parrudo, sucumbiu.
Demérito algum para um menino de 16 anos.
Depois veio o Sul-Americano Sub-17, em que foi o principal destaque do título invicto da Seleção Brasileira e chamou a atenção de emblemas como Barcelona e Real Madrid, que, é o que se diz, não medirão esforços pelo garoto, cujo vínculo com o Flamengo vai até 2019 (menores de idade não podem assinar por mais de três anos e o Flamengo tenta, para julho, mês de aniversário do jogador, esticar o contrato até 2020).

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Sobre retranca, postura. apito e linha burra
Já existe uma pressão desgraçada para que o time da Gávea inscreva o garoto nos campeonatos. Dirigentes flamenguistas adotam o discurso de que já viram histórias de joias que não foram lapidadas e acabaram se perdendo. Mattos, o jornalista, compara a trajetória dele com a de outro talento precoce, Neymar, tendo como base a idade de estreia no time principal. Neymar debutou no time de cima do Santos com 17 anos e um mês.


PRECOCE Neymar já era esperança aos 15 anos
 (Foto: Ricado Saibun/Gazeta Press)
Um dos treinadores que Neymar teve antes de estourar foi Vanderlei Luxemburgo, que não lhe deu a titularidade de vez, como parte da torcida e da imprensa exigiam. Em vez disso, foi introduzindo aos poucos o então aspirante a craque no time principal, o que, hoje, é motivo de piada entre os videntes do passado. Outro treinador ridicularizado pelo mesmo motivo é Osvaldo Oliveira, que tinha nas mãos Gabriel Jesus, que sequer havia estreado entre os profissionais e já era tratado como estrela num Palmeiras pré-Crefisa. Em 2014, Gabriel fez 37 gols em 22 jogos no Campeonato Paulista Sub-17, e destacou-se na campanha do Verdinho no ano anterior na Copinha, quando foi vice-campeão. Como Neymar, Jesus teve que esperar pela chance.
MÁQUINA DE GOLS Gabriel Jesus: estrela antes
 de chegar ao céu (Ross Setford/AP)
Estes são casos de meninos que deitavam e rolavam em cima de moleques da mesma idade e que, com cuidado e preparo, quando enfrentaram os mais velhos, também passaram por cima. Mas foram preparados, curtidos, maturados para isso. E viraram regra quando os apressados argumentam que “o craque já nasce pronto”, essa irritante frase feita que, de antemão, transforma em nada qualquer filosofia de trabalho ou projeto em longo prazo para formação de jogadores de qualidade, como a Alemanha faz. Afinal, se nascem prontos, é só esperar e torcer para que não haja nenhum desvio no caminho para que não saia da rota do sucesso nos gramados.
Pura conversa fiada.
Para cada história de sucesso, há um sem número de fracassos de garotos igualmente talentosos. Jean Chera, por exemplo. Apareceu do nada, ganhou contrato de gente grande no Santos, que arranjou emprego para o pai e o trouxe do Paraná, como fazem os clubes europeus quando querem burlar as normas de transferência de menores de 18 anos da FIFA – Messi é um caso clássico destes, em que o clube oferece emprego para o pai, que se muda de país e leva o filho com ele. Contemporâneo de Neymar, Jean Chera sucumbiu à obrigação de ser craque, muito em função da influência negativa do pai, e não deu em nada, a não ser notícia batida a cada transferência. Como Lulinha, preciosidade das categorias de base do Corinthians e que, por pressão de seu empresário, queimou etapas e, quando foi disputar com jogadores maiores (em todos os sentidos), virou sinônimo de fracasso. Piada repetida a cada história semelhante.


ETERNA PROMESSA Estigma segue Lulinha, craque da
 base que não vingou no profissional (Getty Images)
O ínfimo número de fracassos que ganham notoriedade dão a impressão de que não é algo tão corriqueiro assim. Mas é. De acordo com o estudo A Formação do Jogador de Futebol e sua Relação com a Escola, publicado em 2012, de cada 1000 meninos que sonham em ser jogadores de futebol, três conseguem ingressar na carreira. Destes, somente 3% tornam-se profissionais, sendo que muitos abandonam a carreira logo no início. Se formos pensar nos que ganham notoriedade, então, o corte é infinitamente maior. Só no Brasil, cerca de 800 times são filiados à CBF, com quase 30 mil jogadores profissionais. Destes, 82% ganham menos de R$1.000 por mês, isso quando recebem.
Qual é o apoio psicológico que eles recebem para ter tenacidade ou para lidar com o fracasso? Quantos são preparados para seguirem outros caminhos caso não passem na finíssima malha da peneira do sucesso dos campos de futebol? Quantos respondem bem quando chamados à responsabilidade de resolver as dificuldades do time numa idade em que, em condições justas, estariam no ensino médio, decidindo que caminho trilhar profissionalmente? Quantos têm uma segunda chance, no caso de fracassarem diante da expectativa criada pelo clube, que anseia por um ativo valioso em mãos, pelo agente, que o vê como uma mina de ouro a ser explorada, e até pela família, que deposita neles não raro a única chance real de tirar o pé da lama? Subiu e não correspondeu, amigo? Um abraço! A porta da rua é a serventia da casa.
Vinicius Junior precisa de tempo e compreensão, principalmente se não, como diz o jargão futebolístico, der jogador logo de cara. Inevitavelmente, cairá sobre seus ombros a pressão de ser o craque que provavelmente será se tiver espaço para tentar, errar, aprender e tentar novamente, caso falhe no alto de seus verdes anos. Para diminuir o risco de, em vez de ser como Neymar, ter uma trajetória como a de Jean Chera e virar notícia a cada clube de terceira divisão que vier a defender antes de encerrar a carreira precocemente.   
MENINO PRODÍGIO Jean Chera, com Gabigol e Neymar na base do
Santos: o mais talentoso dos três. O único que não deu jogador
 

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sobre retranca, postura, apito e linha burra

O DONO DA BOLA Neymar só não fez chover na
 histórica goleada sobre o PSG (Getty Images)
Passadas quase 24 horas da hecatombe blaugrana pelo jogo de volta das oitavas de final da Liga dos Campeões, creio que não caibam em uma discussão os aspectos táticos vistos no Camp Nou envolvendo Barcelona e PSG. De notável mesmo, só o fato de o Barça ter abdicado dos laterais e,com três zagueiros e dois meias abertos nos flancos, ter matado um adversário que resolveu jogar com 10 atrás da linha de bola.


Parece maluquice, mas a gigante vantagem de quatro gols fez mal ao Paris Saint Germain. Isso porque Unai Emery armou o time para se defender o tempo todo e achou que seria o suficiente para não tomar impensáveis cinco gols. Tomou seis. A tática funcionou bem até os 42 minutos do segundo tempo, quando a avalanche azul e grená caiu por cima do time de Paris e um encapetado Neymar resolveu que ainda dava.

No entanto, o placar de 6 a 1 esconde tudo o que aconteceu no jogo: um Barcelona pouco inspirado no primeiro tempo, com Suárez isolado e perdido entre os zagueiros, Messi com poucas ideias e Neymar mais preocupado em reclamar do que em jogar bola. O placar de 2 a 0, muito dilatado pelo que o Barça produziu, foi um castigo merecido para quem resolveu não atacar.

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O segundo tempo começou e a mão da arbitragem resolveu aparecer. O pênalti marcado em Neymar chega a ser indecente. Meunier caiu e foi o brasileiro que buscou o contato, causou o choque. Ele tropeçou, não foi atingido. Porém, o gol de Cavani, que em condições normais teria dado a classificação aos visitantes, diminui o impacto desse lance, pois o Barcelona poderia ter marcado em outros ataques, uma vez que o gol no fim da primeira etapa foi o combustível para um reinício aceso de jogo. Caso o placar do primeiro tempo fosse a vitória mínima, alcançado logo no segundo minuto de jogo, a ausência do segundo gol no intervalo poderia representar um entrave (mais um) à missão quase impossível de reverter a vantagem da representação parisiense.

A partir daí é que a epopeia se desenha e, qualquer que seja a gravura, terá que levar um apito nela. Di Maria, melhor em campo na ida e que ficou no banco por não estar inteiro fisicamente, entrou no lugar do quase sempre apagado Lucas e teve a chance de matar o jogo, mas foi ele que quase morreu ao ser derrubado por trás por Mascherano (depois do jogo, ele admitiu ter feito pênalti no compatriota), no lance que poderia e deveria definir a partida. Na pior das hipóteses para o PSG, o penal poderia ser desperdiçado, mas haveria um jogador a mais em campo com a evidente expulsão do volante/zagueiro barcelonista, um dos esteios da equipe.

Quando um até então irritadiço, mas efetivo, Neymar achou o golaço de falta, faltavam três minutos (e três gols) para o fim do jogo. Naquele momento, se fosse um time maior, mais esperto e mais equilibrado emocionalmente, o PSG teria amarrado a partida até os 300 minutos, se fosse necessário. Aí entrou em colapso quando o árbitro inventou outro pênalti, este de Marquinhos em Suárez. O relógio já marcava 46 minutos e ninguém teve a decência de cercar o nefasto árbitro ou segurar a bola no ataque, ou mesmo “cozinhar” o jogo até o fim.

Aí veio linha burra. A um minuto do fim, com todos os jogadores na área, é inadmissível Sergi Roberto ou outro jogador qualquer receber a bola sozinho, ainda mais com uma zaga que custou o que custou.

O Barcelona, que aceitou a eliminação que parecia clara até o quarto gol, passou porque teve ânimo, porque Neymar deixou de frescura e resolveu jogar (muita) bola, mas também porque o árbitro alemão fez uma das piores e mais tendenciosas arbitragens de que se tem notícia em jogos deste tamanho, mas não dá para eximir um time que, em oito minutos, jogou fora por covardia o que construiu durante mais de 170 minutos. E que fez a linha burra mais burra da história do futebol.

MILAGRE de Santo Apito e marcação frouxa possibilitam
 a festa final (Albert Gea / Reuters)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Causa e efeito

SHOW DE HORRORES A coletiva post-mortem da Comissão Técnica após o 7 a 1
foi mais vexatória que o próprio jogo (imagem: Eduardo Knapp/Folhapress)
No livro Gol da Alemanha (Editora Grande Área, 2014), o espanhol Axel Torres e o alemão André Schön fazem um levantamento completo para entender os caminhos percorridos na reestruturação do futebol alemão. A ideia dos autores é mostrar quando e porque começaram e como foram feiras as mudanças que fizeram os germânicos deixarem para trás o pragmatismo do futebol força para se tornarem referências na produção de jovens talentos para abastecerem os clubes da Bundesliga e, por conseguinte, o Nationalef.

O Brasil sempre foi tido como o país do futebol, mesmo antes da conquista da primeira das cinco copas. O nome Seleção Brasileira era sinônimo de alegria e beleza na prática do esporte. É o que o falecido escritor uruguaio Eduardo Galeano classificava como poesia no seu excelente e indispensável Futebol ao Sol e à Sombra. A cada ciclo, jogadores de excelência surgiam e não era raro um jogador de 30 anos ser tratado como veterano, pois a reposição era rica e constante. Também não era incomum um jogador acima da média ser descartado pelos conjuntos que disputaram mundiais, como Ivair, Enéas, Neto (em 1990), Evair, Djalminha e Alex. A ideia de que seria possível formar três times competitivos simultaneamente não era nenhum disparate. Vou escusar-me de tratar do livro em si, pois quero mesmo é traçar um comparativo com o futebol brasileiro do pós-7 a 1 e quem quiser fazê-lo pode ler o livro. Antes, porém, destaco que, desde 1954, quando foram campeões pela primeira vez, os alemães não chegaram ao menos às semifinais dos mundiais em 1962, 1978, 1994 e 1998. Quando somaram dois mundiais seguidos caindo nas quartas-de-finais, o sinal vermelho foi ligado e a necessidade de mudança ficou clara, mesmo que, no ínterim entre as copas de 94 e 98, a Alemanha tenha sido campeã europeia em 1996.

Comparando com o mesmo período apontado acima, o Brasil não esteve entre os quatro melhores em 1954, 1966, 1982, 1986, 1990, 2006 e 2010. Ao contrário da Alemanha, porém, o futebol bonito, sobretudo o dos anos 1980, com Telê Santana no comando e jogadores como Zico, Júnior, Falcão, Cerezo, Éder, Sócrates, Luizinho e Careca a desfilar seu talento nos campos de todo o mundo, além da já citada reposição, serviam como credencial para seguir com o trabalho que era feito.

Por muitos anos, vendeu-se a ideia de que o Campeonato Brasileiro era o mais forte do mundo por ter, de saída, pelo menos três times em condições de serem campeões. Ledo engano. O Brasileirão é equilibrado, mas isso não significa necessariamente que seja bom. Não é. É nivelado por baixo, bem por baixo, e dá para contar nos dedos os jogos memoráveis das últimas edições. De bate-pronto, só me lembro do histórico Santos 4 x 5 Flamengo de 2011 e do 2 a 2 entre Atlético Mineiro e Flamengo no ano passado, mas mais pelos cinco minutos finais do que por tudo o que foi construído durante os outros oitenta e poucos minutos.

Pouco para quem a fama que tem (ou tinha) o ludopédio tupiniquim.

Se os alemães resolveram, segundo Torres e Schön, tocar a própria ferida e mudar tudo, como fizeram, o Brasil segue andando para a frente enquanto olha o retrovisor. Eles chegaram à conclusão de que, para se ter uma seleção forte, era preciso que os clubes formassem jogadores de boa qualidade técnica. Então todos os clubes se comprometeram a implementar o mesmo sistema de jogo desde a base até o profissional, com método, trabalho e tempo para os frutos serem colhidos. Por aqui, os clubes menores arrendam as categorias de base a empresários e, no primeiro sinal de talento, perdem um jogador que na verdade nunca foi seu, embora exista a obrigação de haver um registro na federação, o que, na prática, não representa nada.

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Como os times pequenos, antigos fornecedores de talento para os grandes, agonizam, a saída encontrada foi, em vez de reestruturar o futebol daqui, buscar atletas em outros centros. Por pior que esteja, a economia brasileira ainda possibilita que os clubes contratem jogadores vindos de diversos países da América do Sul ou que repatrie nomes de peso que não encontrem lugares nos melhores mercados europeus. Nas décadas de 1970 e 1980, destaques de clubes dos países vizinhos eram trazidos para cá, ao passo que, hoje, é praticamente impossível haver um único emblema brasileiro sem jogadores estrangeiros, e são poucos os que agregam valor técnico aos campeonatos disputados.

Acha exagero meu? Apontem a última temporada europeia de destaque do meia Diego, hoje no Flamengo, antes de voltar para cá. Robinho, um dos melhores jogadores do último Brasileirão quando vestiu a camisa do Atlético Mineiro, estava apagado no pior Milan dos últimos anos. Elias, que chegou à Seleção Brasileira quando brilhou no Corinthians, não conseguiu se firmar no Atlético de Madrid e no Sporting, este disputando uma liga de segundo ou terceiro escalão no Velho Continente, a Portuguesa. E nenhum deles veio ganhando pouco.
O exemplo mais recente de que o 7 a 1 não serviu para absolutamente nada foi a demissão de Rogério Micale da Seleção Sub-20, que conseguiu não se classificar para o mundial da categoria ao terminar em quinto lugar o hexagonal final do Sul-Americano do Equador, que reservou quatro vagas, sendo que uma delas ficou com a Venezuela. Micale assumiu o comando no lugar de Alexandre Gallo, demitido após o fraco desempenho mostrado na competição continental de 2015, mas que se classificou com a última vaga. Faltavam 20 dias para a estreia no Mundial e, ainda assim o Brasil apresentou um futebol vistoso, embora tenha perdido a final para a Sérvia.

Era um respiro de bom futebol no pós-7 a 1.

Como Dunga caiu e Tite não quis ser o treinador na Olimpíada, como queria a perdida direção da CBF, foi com Rogério Micale que o Brasil, que começou claudicante, conquistou a medalha de ouro. Vale salientar que, na competição, o único dos candidatos ao pódio que não teve problemas com liberação de jogadores foi o Brasil. Tatá Martino demitiu-se da Argentina por não ter apoio da AFA para montar a equipe que viria ao Brasil; Rui Jorge, selecionador português, teve que convocar 52 jogadores para conseguir ter 17 nomes – seriam 18, mas um foi cortado 40 minutos antes da divulgação da lista pela não liberação do seu clube -, sendo somente 11 dos quais os que seriam convocados caso não houvessem problemas com as suas liberações. A Alemanha, que terminou com a prata e dominou boa parte da decisão, veio com uma equipe alternativa também.

E, convenhamos, o futebol olímpico não passa de um campeonato sub-23 banhado a ouro e que não conta, por razões políticas e de marketing, com a chancela da FIFA. É este o título que o Brasil conquistou.

Poderíamos alegar que o cenário não é o mais catastrófico e desalentador possível, pois mesmo com a goleada sofrida no malfadado Mineiraço do dia 8 de julho de 2014, a Seleção chegou às semifinais de uma Copa do Mundo, o que não aconteceu com o grupo recheado de craques de 2006 e com o bom time de 2010, mas o futebol apresentado nos gramados brasileiros foi o mais questionável possível: venceu a Croácia com a ajuda da arbitragem; empatou com o México tendo passado sustos na defesa; goleou Camarões por 4 a 1, é verdade, mas os africanos estavam desfalcados dos dois principais jogadores (Song e Eto’o) e já estavam eliminados, e ainda criaram problemas quando chegaram ao gol de empate.

Nas oitavas, foi bem demais até tomar o gol de empate do Chile e quase caiu no fim da prorrogação, quando Pinilla acertou o travessão de Julio César. A melhor apresentação brasileira foi nas quartas-de-final, quando jogou com o coração e venceu a excelente e superior Colômbia. A partir daí todo o desequilíbrio técnico, tático e emocional da equipe foi canalizado e flagrante na vexatória derrota para a Alemanha. O 3 a 0 para a Holanda, na disputa do terceiro lugar, foi apenas o impacto de um time completamente desmoralizado e que não priorizou os treinamentos durante a competição.

Micale caiu porque não classificou a Seleção ao Mundial da Coreia do Sul, mesmo não tendo à disposição um grupo de jogadores qualificado. E não o tinha porque simplesmente não há um método de trabalho nos clubes que possa garantir a geração de talentos em grande escala. Os times de base nos grandes clubes são montados com o intuito de: a) vencer campeonatos; b) vender jogadores; c) distribuir cargos de acordo com a conveniência política. Isso sem contar que, quando não são vendidos, os jovens mais talentoso queimam etapas e chegam crus ao time de cima. São mimados e tratados como joias quando não passam de jogadores de potencial, mas que precisam ser lapidados ainda.

Voltando ao cenário de 2014, a coletiva seguinte à humilhante e histórica derrota - quando Parreira e Felipão não admitiram em momento algum o trabalho mequetrefe e obsoleto, com um esquema de jogo manjado e um homem de área parado entre os zagueiros (coisa que nenhuma outra seleção de ponta mantinha), e que teve como ápice a leitura de uma tal Dona Lúcia, imediatamente inserida no folclore futebolístico nacional e lida pelo coordenador técnico Carlos Alberto Parreira, o mesmo que declarou que a CBF era “o Brasil que deu certo” e que a seleção brasileira “estava com uma mão na taça” antes do início da Copa - poderia ser vista à época como uma resposta de quem ainda estava, absorto, sob efeito de uma espécie de sedativo moral.

Não era.

Para a Alemanha, o 7 a 1 foi o resultado da transformação de quem percebeu que estava parado no tempo, admitiu suas limitações e explorou o melhor dos melhores nomes que tinha à disposição; para o Brasil, não foi nada mais que um apagão de oito minutos.