domingo, 16 de janeiro de 2022

50 anos do estádio do Canindé

Corria o ano de 1956 quando a Portuguesa adquiriu, do São Paulo, o terreno do Canindé. Para que pudesse abrigar os jogos da equipe de futebol, foi construída uma arquibancada de madeira e um campo oficial cercado por alambrados. Como ficava na várzea do Rio Tietê, o local ganhou o simpático apelido de Ilha da Madeira. 

Antes do Tricolor, porém, o terreno pertenceu a um clube da colônia alemã, o Deutsch Sportive. Por causa da perseguição promovida contra os clubes ligados aos países do chamado Eixo (Alemanha, Itália e Japão), na Segunda Guerra Mundial, os germânicos resolveram vender o terreno antes do seu iminente confisco. 

 

O jogo inaugural, realizado no dia 11 de janeiro de 1956, envolveu a Portuguesa e um combinado dos times do Palmeiras e do São Paulo. E a Lusa começou bem, vencendo por 3 a 2, tendo o primeiro gol do jogo - e, portanto, do estádio - sido marcado pelo são paulino Nelsinho. 

 

Com o passar do tempo e a abnegação dos grandes homens que fizeram a história da Portuguesa, as bancadas de madeira foram dando lugar à estrutura de concreto que existe hoje. Em 1972, na gestão do saudoso presidente Oswaldo Teixeira Duarte, a Lusa realizou algumas partidas para marcar a inauguração do primeiro anel da arquibancada, então com capacidade para 10 mil torcedores. 

 

O convidado para a primeira partida foi o Benfica, de Portugal. Naquela tarde, devido à chuva torrencial que desabou sobre a capital paulista, o jogo foi interrompido aos 33 minutos da etapa complementar, quando o placar anotava 3 a 1 a favor dos Encarnados. Marinho Peres, de pênalti, marcou o primeiro tento da Lusa na nova casa, à época com o nome de estádio Independência. Coube a Vitor Batista, porém, a honraria de anotar o primeiro tento. da nova casa rubro-verde. 


Confira a ficha técnica do primeiro jogo do Estádio do Canindé: 

 

Portuguesa 1 x 3 Sport Lisboa Benfica 

Data: 9 de janeiro de 1972 

Árbitro: Oscar Scolfaro 

Gols: PORTUGUESA: Marinho Peres (de pênalti, aos 10 minutos do segundo tempo); BENFICA: Vitor Batista (aos 17 minutos), Jordão (aos 22 minutos do primeiro tempo), e Simões (de pênalti, aos 12 minutos do segundo tempo) 

Portuguesa: Aguilera, Deodoro, Marinho Peres, Calegari e Fogueira; Lorico e Dirceu (Luís Américo); Ratinho (Xaxá), Cabinho, Basílio e Piau. Técnico: Rubens Minelli;

Benfica: José Henrique, Da Silva, Messias, Rui Rodrigues e Adolfo; Toni e Vitor; Nenê (Artur), Vítor Batista, Jordão e Simões. Técnico: Jimmy Hagan


O craque Eusébio viajou com a comitiva benfiquista, mas, lesionado, não entrou em campo. O mesmo valeu para Carlos Alberto Torres, emprestado pelo Santos para atuar no jogo festivo, mas sua participação limitou-se a trocar as flâmulas com Simões, capitão do Benfica, e a posar com o time na foto oficial da partida porque também estava machucado.

 

Nos outros jogos realizados em torno do evento, chama a atenção a partida realizada contra o Željezničar, da antiga Iugoslávia (atual Bósnia e Herzegovina). Naquela partida, a Lusa contou com o reforço do craque Roberto Rivellino, emprestado pelo Corinthians apenas para aquela ocasião, fato comum na época. O placar foi de 2 a 0 para a Portuguesa, e o Reizinho do Parque marcou, de pé direito, um dos gols da Lusa. 

 

Outro jogo marcante entre os inaugurais da casa portuguesa foi disputado contra a Seleção do Zaire. Djalma Santos, com 42 anos, fez sua última partida defendendo as cores da Lusa. Ele atuou por 30 minutos e foi substituído por Cardoso para ser aplaudido de pé pela torcida e cumprimentado por todos os jogadores que estavam em campo.

 

No ano seguinte se iniciaram as obras de construção do anel superior, que ainda hoje abriga as cabines de imprensa, as tribunas e camarotes e as cadeiras numeradas cobertas. 

 

Em 1981 foi realizado um torneio em comemoração à inauguração dos refletores. Era um quadrangular com a participação de Corinthians, Fluminense e Sporting (POR). A Lusa venceu o Fluminense nos pênaltis, por 4 a3, após empate por um gol no tempo normal. Do outro lado, os Leões bateram o Corinthians por 1 a 0. Na decisão, vitória da Lusa por 2 a 0, gols de Caio e Beca. 

 

Três anos depois, o presidente Oswaldo Teixeira Duarte foi imortalizado com a maior homenagem que poderia receber: a casa portuguesa passou a se chamar oficialmente Estádio Dr. Oswaldo Teixeira Duarte. 

 

O maior público da história do Canindé foi observado quando 29.465 pessoas assistiram ao clássico Portuguesa 1 x 0 Corinthians. Em se tratando de público pagante, porém, nenhuma partida supera as quartas-de-final do Brasileirão de 1998. 25.491 pessoas pagaram para ver a vitória da Lusa sobre o Coritiba, por 3 a 1, no dia 15 de novembro. 


A casa portuguesa completa 50 anos. Meio século de um sonho que se tornou realidade em 9 de janeiro de 1972, chamado de Estádio Independência. Independência, mas poderia se chamar Orgulho, Amor ou Fé, que são os sentimentos que nos movem, que nos guiam, que nos sustentam. 


Em tempos de arenas modernas, de elitização nos estádios, de obras nababescas sem alma e pasteurizadas sob o padrão FIFA, o lugar onde nos sentimos à vontade é o humilde e nosso Canindé. É o rio que corta a nossa aldeia. É onde nós nos encontramos com os nossos, é onde temos a sensação de pertencimento. É o nosso lugar no mundo. É o nosso lar.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Lusa na Copinha - esperança com moderação

Texto originalmente publicado no NetLusa

100% Lusa venceu a Copinha em 91 com a melhor campanha
da história da competição. De quebra, revelou
jogadores como Sinval, Tico e Dener


Entra ano, sai ano e, todo ano, a fé do torcedor da Portuguesa floresce na disputa da Copa São Paulo de Futebol Jr. É na Copinha, vencida pela Lusa em duas oportunidades e que na qual irá estrear neste dia 4, que germina a esperança por dias melhores na forma de dois ou três pratas-da-casa capazes de segurar a bronca no time de cima.


A reputação de reveladora de craques acompanha a Portuguesa há muito tempo e é natural que o torcedor veja nas categorias de base e, principalmente, na Copinha, a possibilidade de que surgirão os talentos que poderão ajudar a reforçar o elenco principal sem que, para isso, seja preciso disputar com outros clubes por jogadores já prontos no mercado. 


Dá para fazer vários e vários times só com grandes nomes que saíram da formação lusitana: Djalma Santos, Zé Maria (os dois), Bruno Rodrigo, Zé Roberto, Guilherme, Henrique, Basílio, Enéas, Diogo Edu Marangon, Esquerdinha, Jair da Costa, Ivair, Servílio, Dener, Sinval, Tico, Jorginho, Bentinho, Ricardo Oliveira, Leandro Amaral, Rodrigo etc. Isso sem contar vários atletas que passaram pela base do clube, como o volante Paulinho, os zagueiros Geromel e Breno, e o meia Everton Ribeiro, para citar alguns que não chegaram a estrear profissionalmente na Lusa.


Antes de esfregar as mãos à espera de uma nova fornada ou de um jogador especial, é preciso ter calma e entender momentos e processos. O que é necessário para formar um jogador? Qual é a condição e quais as condições que o clube oferece aos aspirantes a profissionais? Não é tão simples. Ou melhor, não é nada simples.


Até outro dia, as categorias de base do clube estavam terceirizadas, entregues a empresários que usavam o nome e a camisa da Lusa como incubadora para direcionarem os mais talentosos para onde fosse mais interessante para eles, não para a Portuguesa. Em condições assim, o clube tem pouco ou nenhum poder de interferência na sequência da carreira destes garotos.


Isso deve-se, não raro, ao fato de o clube não ter condições de bancar o necessário para a formação de um atleta de alto rendimento, que é o caso do jogador de futebol. Desde 2016 a Portuguesa não tem o Certificado de Clube Formador, selo outorgado pela CBF mediante a comprovação de que o clube tem condições de garantir que seus jovens atletas tenham uma formação adequada. Sem ele, um clube pode perder qualquer jogador entre 14 e 16 anos sem que seja ressarcido por isso.


Isso já faz com que exista a grande possibilidade de, uma vez detectado antes de assinar seu primeiro contrato profissional, uma promessa seja desviada e sequer atue em nível de competição pelo clube. Quem perde com isso? A resposta é óbvia. Fazendo um rápido exercício de memória, qual foi o último grande jogador revelado pela Lusa? Ou então, quantos jogadores nos elencos das principais equipes do futebol brasileiro foram revelados no areião do Canindé, que nem existe mais?


Com as finanças minguando e não tendo nem para o profissional, que é o carro chefe do clube como um tudo, o que sobra na base é uma estrutura precária, seja ela física ou nos outros aspectos inerentes à formação do atleta, e nem é preciso dizer que o surgimento de um jogador acima da média não se dá da noite para o dia. É um processo longo, de altos e baixos, de paciência e que envolve inúmeros fatores, técnicos, estruturais, educacionais e culturais. 


Quando um atleta está inserido no clube desde a categoria mais baixa, seja o Sub-11, que deve ter caráter recreativo, ou o Sub-15, no qual começa a cultura de competição, as chances de chegar mais bem preparado ao time principal e em condições de se estabelecer como atleta profissional são maiores. Mesmo que chegue ao clube no decorrer deste percurso, ele precisa de um ambiente pronto e bem alicerçado para que se encaixe, coisa que quem sequer tinha autonomia sobre as categorias de base há pouco tempo não pode oferecer.  


Portanto, não há nada de errado em torcer para que surja um novo Dener no time que jogará a Copinha. O que é preciso entender é que, caso a campanha não seja satisfatória, não será necessariamente um fracasso ou sinal de terra arrasada, mas sim um passo a mais dado na recuperação da própria Portuguesa. E essa é uma recuperação em que critério, trabalho e paciência valem ouro, assim como é necessário para a revelação de um craque.


Em 2002, Lusa ficou com a taça, mas torneio revelou poucos jogadores.
Da Portuguesa, o volante Lelo, o meia-atacante Rafinha, o goleiro
Daniel e o zagueiro Luis Henrique tiveram algum destaque

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - SAF-se quem puder?

Divulgação

Com a aprovação da Lei das SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol), que permite transformar os clubes de futebol em empresas, sancionada recentemente pelo presidente da República, passou a ser o objetivo, ou melhor, o sonho de muitos torcedores de diversos clubes que o seu seja agraciado com a venda para algum multimilionário que estiver dando sopa por aqui e, ao ver que o distintivo está no mercado, atrás de investidores, perguntar a si mesmo “e por que não?” antes de despejar muitos milhões e transformar emblemas combalidos em potências do futebol mundial da noite para o dia.

Querem um "velho da lancha", um sugar daddy.

Essa espécie de loteria, desejo do torcedor, ficou ainda mais forte quando Ronaldo Fenômeno comprou o Cruzeiro e a venda do Botafogo para o investidor americano John Textor está a ponto de ser sacramentada. Textor, vale lembrar, detém 18% das ações do Crystal Palace-ING e andou balançando seu gordo cofre para a SAD do Benfica, que não quis saber de negócio.

Naturalmente, a torcida da Lusa não é diferente - ou ao menos a parte que costuma se manifestar em redes sociais. Quando a Red Bull tornou-se parceira do Bragantino, muito foi falado nas alamedas do Canindé que o negócio poderia ter sido feito com a Lusa. Aí está um ponto importante e pouco agradável de ser tocado: o Bragantino, à época, disputava a Série B do Brasileirão e a Série A1 do Paulista, estando numa posição muito mais interessante para a empresa austríaca, que já tinha seu time aqui, o Red Bull Brasil, que, como não conseguia avançar no cenário nacional ameaçava largar o projeto. Ou seja, a Portuguesa não tinha - e ainda não tem - condição de oferecer o que eles queriam. O que vinha depois, que era a mudança do distintivo, do nome e das cores, é outro ponto de discussão que não cabe aqui, no momento.

É isso o que a malta rubro-verde precisa perceber: o que temos a oferecer hoje, além da nossa tradição e da nossa história? Claro que isso é um cenário que pode mudar em dois ou três anos, mas até lá a Portuguesa ainda luta para voltar à Série D e à A1 do Paulista, e, é bom que se diga, não é algo lá que atraia os investidores mais graúdos para os nossos lados. E é importante também entender que um investidor não é um mecenas. Muito pelo contrário. Relações como a que tínhamos com o saudoso dono dos Armarinhos Fernando são bem diferentes de alguém - ou algum grupo - que queira usar a Portuguesa para ganhar dinheiro, que é, afinal, o resultado esperado em todo investimento.

A mudança para que a Lusa se transforme em uma SAF é o caminho natural - e até aconselhável -, mas que isso não faça o torcedor achar que todos os problemas serão solucionados. Não é raro haver uma espécie de fetiche com relação às chamadas gestões empresariais, como se elas significassem boa governança e garantia de sucesso. Empresas quebram todos os dias e por diversos motivos, e a Portuguesa, ou outro clube qualquer, não estão livres disso, mesmo sendo SAF ou não. Vejam casos como o do Desportivo das Aves, e d’Os Belenenses, em Portugal, ou no Chile, onde o Colo-Colo passa por aperto desde que foi comprado. São estes, bem como a Espanha, os países que serviram como modelos para os autores da Lei 14.193/2021. Para tanto, sugiro a leitura do livro “Clube-Empresa - Abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, de diversos autores, organizado pelo jornalista Irlan Simões.

Eventual mudança de modelo de gestão não significa, necessariamente, a solução para os nossos problemas, como mostra o exemplo do Colo-Colo, quase rebaixado no Chile (Getty Images)

Além do mais, a legislação, por obra e desgraça do presidente, não obriga o investidor a ter sua identidade revelada sob o pretexto de que isso poderia espantar eventuais interessados que preferem se manter no anonimato (diferentemente do que era previsto no PL e foi um dos itens vetados pelo presidente. O Senado Federal ainda derrubou alguns vetos, mas este foi mantido), justamente o ponto que garantiria transparência no negócio. Em outras palavras, abre as portas dos clubes para quem quer lavar dinheiro sujo e não quer, obviamente, mostrar a origem da grana.

E é aí que está o negócio - ou o ponto mais importante dele. Devemos ter muito cuidado com quem irá colocar o dinheiro, de onde ele vem, o modelo da gestão e, principalmente, as diferenças no plano de negócios nas ações de curto, médio e longo prazo. É isso ou será mais um capítulo a ser lamentado na nossa história. E, convenhamos, capítulos lamentáveis não nos têm faltado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Porto x Lisboa, capitão antifascista e uniformes da Casa Pia - há 100 anos, estreava a Seleção de Portugal


O primeiro jogo da história da Seleção Portuguesa, que perdeu para a Espanha por 3 a 1, foi uma esculhambação. Começou ainda na convocação. A imprensa, que já era chata pra diabo há um século, questionou a presença de Francisco Pereira, dos Belenenses, fazendo com que ele renunciasse à chamada. Com isso, outros jogadores da equipe lisboeta resolveram recusar a convocação, inclusive seu irmão, Artur José Pereira, considerado o melhor do país na época, o que fez com que Augusto Sabbo, que também era técnico do Sporting, entregasse o boné.

Resolveram então fazer uma junta, formada por seis integrantes da Associação de Futebol de Lisboa, para convocar os jogadores para o tal jogo com os espanhois, que estava de rosca desde 1912, quando nem havia ainda Federação Portuguesa de Futebol, e que não saiu na ocasião porque os vizinhos queriam que Portugal bancasse todas as despesas. O fato de a tal junta ter só o pessoal do Sul causou a insatisfação dos clubes da Associação de Futebol do Porto, principalmente os Dragões. Além do mais, somente Artur Augusto, que jogava no Porto, foi convocado para além dos jogadores de fora da associação lisboeta, o que era mais um motivo de queixa dos nortenhos, que proibiram os seus jogadores de servirem à debutante seleção. Inclusive, Artur Augusto ter nascido em Lisboa reforçaria a tese de que aquela não era uma seleção nacional, mas da Capital.

Ainda assim, Artur resolveu que jogaria. E jogou. E ajudou a escrever a história do futebol português, sofrendo o pênalti convertido pelo irmão, Alberto Augusto, que jogava no Benfica, portanto, o primeiro gol da história de "Equipa das Quinas". Destaca-se aqui o nome do goleiro espanhol: o mítico Zamora - que viria a ser o arqueiro da equipe na Copa do Mundo de 1934, quando defendeu um pênalti cobrado por Waldemar de Brito, o descobridor do Rei Pelé -, que hoje dá o nome ao prêmio de melhor goleiro da Liga Espanhola.

A base do time era formada por cinco jogadores do Casa Pia, que também forneceu os belíssimos uniformes negros utilizados na partida. O capitão era Cândido de Oliveira, homenageado com o nome da Supertaça e que ainda foi jornalista e um dos fundadores do jornal A Bola, além de técnico e selecionador nacional. Notabilizou-se também no combate ao fascismo, tornando-se agente secreto a serviço dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Capturado pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, uma espécie de DOPS da desgraçada ditadura salazarista), foi enviado a um campo de concentração em Cabo Verde, sendo libertado após o fim da guerra.

Outro nome está ligado ao combate ao salazarismo: o benfiquista Vitor Gonçalves era pai do General Vasco Gonçalves, um dos militares que participaram da Revolução dos Cravos e que foi primeiro-ministro de Portugal no II, III, IV e V Governos Provisórios, o chamado PREC (Período Revolucionário em Curso). Outro fundador d’A Bola também alinhou no 11 português: Ribeiro dos Reis, também casapiano como Cândido de Oliveira, que posteriormente foi o treinador de Portugal na primeira vitória da seleção, contra a Itália, quatro anos mais tarde, cujo gol foi marcado pelo leonino João Francisco, que também esteve em campo naquele 18 de dezembro de 1921. 

O jogo? Bem, o jogo foi 3 a 1 para a Espanha, que já tinha alguma experiência internacional, tendo inclusive conquistado a medalha de prata nos Jogos Olímpicos da Antuérpia, no ano anterior. Com 10 minutos, Meana e Alcantara já haviam feito 2 a 0 para os espanhóis e, só depois, Portugal conseguiu equilibrar as ações e evitar uma goleada. No início do segundo tempo, a Espanha voltou melhor, mas fez o terceiro só aos 21, novamente com Alcantara. Nove minutos depois, Portugal diminuiu com Alberto Augusto, fechando o placar. 

Portugal alinhou com Carlos Guimarães (CIF); Pinho (Casa Pia) e Jorge Vieira (Sporting); João Francisco (Sporting), Vitor Gonçalves (Benfica) e Cândido de Oliveira (cap, Casa Pia); José Gralha (Casa Pia), António Augusto Lopes (Casa Pia), Ribeiro dos Reis (Casa Pia), Artur Augusto (Benfica) e Alberto Augusto (Porto), tendo Carlos Villar, presidente do CIF, como treinador. A Espanha foi a campo Zamora (Barcelona); Meana (Gijón) e Fajardo (Atlético); Balbino (Fortuna), Pololo (Atlético), Arrate (cap. Real Sociedad); Sesúmaga (Sama), Arbide (Real Sociedad), Pagaza (Racing Santander), Olaso (Atletico) e Alcantara (Barcelona) - Técnicos: Manuel Castro e Julian Ruéte.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - Quase fomos

* Texto originalmente publicado no NetLusa


Era um dia diferente. Era um domingo diferente. Era dia de decisão do Campeonato Brasileiro, algo especial por si só. O pessoal de hoje, com seus extremos desequilibrantes, wingers, box-to-boxes e hat-tricks, não faz ideia, mas campeonato com final era legal pra caramba, não essa bobagem de pontos corridos em que “todo-jogo-é-decisivo”. O escambau que é!

Só que aquele 15 de dezembro de 1996 não era igual aos outros 25 dias parecidos que aconteceram desde 1971 (repitam comigo: “O Campeonato Brasileiro começou em 1971"): nenhum deles teve a honra de ter a Portuguesa em campo. E com a vantagem de ter vencido por 2 a 0 o primeiro jogo, numa quarta-feira de muita chuva e atuação de gala de Gallo, Caio, Zé Roberto e Rodrigo.


Para chegar ali, foi preciso passar pelas águas tortuosas das 23 rodadas da primeira fase, que distribuía oito vagas para o mata-mata. Na última delas, a gente estava em 11º lugar e dependia de uma combinação enorme para passar: era preciso torcer contra três dos quatro concorrentes às duas vagas que restavam (Goiás, que jogaria com o classificado Grêmio em Porto Alegre; Internacional, que visitaria o rebaixado Bragantino; Sport, que visitaria o também classificado Palmeiras; e São Paulo, que pegaria o eliminado Paraná, fora de casa), além de vencer o Botafogo, campeão em título, mas que não brigava por nada. 


Como o Canindé havia sido interditado porque alguns gênios resolveram atirar objetos no gramado na partida com o Vitória, os últimos dois jogos como mandante da primeira fase foram disputados longe, bem longe, da nossa casa. Pior: o time vinha de duas derrotas seguidas, para o Internacional em São Januário, no primeiro dos jogos em que cumpriu a punição, e para o Coritiba, uma sova de 4 a 0.


Aí, o inesperado: um incontestável 4 a 1 no Fogão, com direito a cai-cai quando o goleiro Clemer se preparava para bater um pênalti, combinado com as derrotas do sétimo colocado Inter (gol do ex-luso Esquerdinha) e do oitavo Sport, e o empate do Tricolor, bastaram para a Lusa avançar. Por força do imbecil regulamento da época, os jogos a partir das quartas-de-finais não poderiam ser disputados no Canindé, que não tinha a capacidade mínima exigida para dali em diante. Toca para o Morumbi, então.


Desde o milagre da última rodada, tudo parecia possível. Bater o líder Cruzeiro? Opa, tranquilo. Toma um 3 a 0 aqui com show do saudoso Alex Alves. Veio o grande Atlético Mineiro, que ainda não era esse troço cheio de grana de construtora e nova vitória “em casa”, mas pela margem mínima. Havia ainda, no Mineirão, mais de 80 mil vozes enlouquecidas gritando “lutar, lutar, lutar!”. Lutamos, viramos e seguramos um 2 a 2 com a força das nossas almas. Quase não deu, mas deu. 


Faltava a final com o copeiro Grêmio.


Que dias foram aqueles! Como o Guarani e o Palmeiras rodaram já na segunda fase - e cabe um adendo aqui: os quatro melhores colocados foram eliminados por quem teria que decidir a sorte longe de casa e as semifinais foram disputadas por Atlético Mineiro, Goiás, Grêmio e Portuguesa. Voltando, como o Bugre e o Verdão dançaram, a Lusa foi a única representante paulista dali em diante e, exceto os gremistas e um ou outro ser de coração ruim, todo brasileiro que não era indiferente ao futebol vestiu nossas cores. E foram todos muito bem-vindos. Eu mesmo cansei de levar amigos que não tinham a sorte suprema na vida de serem torcedores da Portuguesa ao Canindé. E todos com camisa da Lusa, emprestadas por mim, claro. Por que diabos não receberia de bom grado este reforço de última hora? Acho que todo mundo tem direito de ser feliz na vida, mesmo que por somente 90 minutos.


Desde que Clemer fez uma defesa sobrenatural no chute do volante Moacir - que seria um dos nossos no ano seguinte - e segurou o 2 a 2 no Mineirão, o Canindé havia se tornado o epicentro do futebol brasileiro. Imprensa todos os dias, páginas, páginas e mais páginas dos jornais, Globo Esporte na hora do almoço. Galvão Bueno gritando “ééééé da Luuuusaaa!” (com licença, Flávio Gomes) no domingo. Era tudo nosso e tudo era Lusa. 


No primeiro jogo, disputado sob um dilúvio, Alex Alves seguiu endiabrado. Foi ele quem sofreu a falta na qual saiu o primeiro gol. Marco Antonio, lateral que substituiu Arce, foi expulso e, segundos depois, a perfeição esteve no gramado, na forma da cobrança de Gallo, da meia lua, no ângulo de Danrlei. Um golaço. Mesmo com um a mais, o nervosismo lusitano era flagrante e o Grêmio, forjado para jogos como aquele, perdeu um caminhão de gols. Ainda assim, o 2 a 0, reforçado pelo tento de Rodrigo, outro jogador em estado de graça e craque daquele campeonato, nos levou ao Olímpico podendo perder por até um gol. A vantagem era grande demais. Até então, somente em uma ocasião um time havia conseguido superar uma desvantagem dessas.


Era o Grêmio.


O início do jogo foi o pior possível. Uma posse de bola besta perdida no campo de defesa, um escanteio. A bola mal rebatida e o gol de pé esquerdo do destro Paulo Nunes. Três minutos de jogo. 55 mil pessoas fazendo o Olímpico tremer. “Era tudo o que o Grêmio queria!”, disse Galvão Bueno. Avizinhava-se, pois, o inferno. Mas não. A Lusa fez-se cascuda nos jogos com os mineiros, quando segurou o melhor time nas quartas e virou o placar nas semifinais, cedendo o empate já no fim, mas era o suficiente. Com os nervos no lugar, a Lusa colocou a bola no chão, equilibrou o jogo e criou chances para empatar com Rodrigo e Caio. 


Desperdício. Fatalidade.


Já no fim do jogo, um aparentemente inofensivo arremesso lateral cobrado à altura do meio-campo encontrou Carlos Miguel desmarcado. Aos 39 minutos do segundo tempo, a única tática para quem precisa marcar é a absoluta falta de alguma tática. Daí, a bola esticada para ver no que dava. Ninguém avisou que o lance era morto e César, impecável até ali, cabeceou mal e a bola caiu no pé esquerdo de Ailton, destro como Paulo Nunes. E o chute saiu indefensável, na veia, tão improvável quanto a combinação de resultados da 23ª rodada da primeira fase. 


Frustração. Tristeza. Estávamos tão perto. No dia seguinte, fui à escola vestindo a camisa da Lusa, pronto para partir pra porrada com quem risse da minha desgraça. Mas não riram e, em vez de ser alvo de toda troça, plenamente justificável, ouvi aplausos, o que me deixou irritado na mesma. 


Jamais tive coragem de rever aquela final e este relato pode ter alguma das confusões que a memória nos prega e, 25 anos depois, ainda me pergunto o que teria sido de nós se Caio tivesse marcado o gol depois da saída errada de Danrlei, se Rodrigo tivesse devolvido a bola para o Alex Alves quando eram os dois contra um zagueiro só. Ou se Rodrigo não chutasse em cima do Arce a última das chances claras da Portuguesa antes do Sobrenatural de Almeida vestir a camisa gremista. 


25 anos depois, agora me pergunto: o que será de nós?


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - O ano que não terminou

Texto originalmente publicado no NetLusa*


“Lemniscata” é um termo originado do Latim que significa, no Esoterismo, a eterna recriação e a repetição do Universo. É a infinitude representada por uma espécie de 8 deitado.

Este é um número cheio de significado para mim, na minha relação com a Portuguesa. Era o número do Toninho, meu primeiro ídolo; Dener, o craque que o tempo nos negou, usava a oito na histórica Copa São Paulo de 1991; Enéas, o gênio esquecido, que aterrorizou defesas adversárias com a Cruz de Avis ao peito e o 8 às costas, tornou-se eternidade oito anos depois de ter saído da Lusa.

Era um 27 de dezembro, exatos 25 anos antes do dia 27 de dezembro de 2013, dia em que o farsante STJD condenou a Portuguesa à Série B graças à escalação do meia Héverton na última rodada do Brasileirão daquele ano, no último jogo da Lusa na Série A.

O dia? Oito de dezembro. Há exatos oito anos.

Não vale a pena relembrar nestas linhas o ocorrido, pois uma simples busca no Google traz toda a sorte de informações e opiniões, estas nem sempre corretas, do que aconteceu para que a Portuguesa pusesse-se a jeito, como diz-se em Portugal. Como também não faz sentido nenhum não admitir tantos erros que nos deixaram ao alcance da armação que teve lugar na malfadada Rua da Ajuda.

Mau fado este, o nosso. Um fado cantado com melancolia, como todo bom fado deveria ser, caso este fosse bom. Não se enganem: faça o que fizer, a Portuguesa só começará a sair do limbo em que se encontra no dia em que exorcizar seu maior fantasma. No dia em que o ano de 2013 deixar de ser eterno.

Só depois disso é que será possível retomar alguma coisa. Até lá, o samba do mestre Cartola, que nasceu em 1908 e partiu em 1980, cairá como uma luva para o fado lusitano: “Em cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares, estás à beira do abismo. Abismo que cavaste com seus pés”.

E este abismo já dura oito anos de um sofrimento perene, contínuo, uma eterna recriação, uma repetição de um pesadelo que não acaba.

Lemniscata.