sábado, 6 de julho de 2024

PORTUGAL - Que pena, Portugal

Texto originalmente publicado no Netlusa

LENDAS DAS ÁREAS Estes senhores dispensam legendas, mas
é preciso que um deles entenda seus limites (Hassan Ammar)

“O único erro foi a bola não ter entrado”. Assim, Roberto Martinez definiu a prestação de Portugal nos quartos-de-finais do Euro-2024. Também disse que não se deve avaliar a participação portuguesa por três jogos. Um a mais que a metade dos cinco, sem contarmos a hora adicional em forma de prolongamentos, contra Eslovénia e França, este já citado.

Foram 364 minutos sem meter a bola, este ser que ganha vontades quando as nossas intenções não se concretizam, nas balizas contrárias. E há muitos nomes aqui a responderem por isso: Mamardashvili, Oblak, Maignan, Martinez, Ronaldo.

O que Martinez disse é que a bola não quis entrar. Noutro sentido, o ótimo Francisco Martins, jornalista do Expresso, sacou no podcast No Princípio Era a Bola a frase que melhor resume e responde: “A bola não quis entrar e Cristiano Ronaldo não quis sair”. Reduzindo a este jogo em específico, foi o que faltou a Portugal.

Se há algo sobre o qual ninguém poderá apontar o dedo ao treinador é a sua capacidade de preparar a equipa para os jogos. Exceto pela abordagem desastrosa – como todo o resto naquele dia – para a partida contra a Geórgia, o selecionador português sempre apresentou a melhor formação possível para os contextos que se avizinhavam. 

Contra a poderosa França, de prestações à medida em todos os jogos até aqui, mas com claras hipóteses de crescer de acordo com a exigência apresentada – e Portugal exigiu o melhor que os gauleses poderiam dar –, Martinez apostou no seu onze base, mas com alguma diferença nas funções, diferenças essas há muito solicitadas. 

A mais flagrante e necessária: Bernardo Silva foi descolado da linha lateral e buscou associações com João Cancelo, dividido entre apoiar o ataque – e fê-lo muito bem – e segurar Mbappé, figura opaca em campo graças ao trabalho defensivo do lateral português e aos incômodos proporcionados pela máscara que trazia colada à cara. Do outro lado, Nuno Mendes manteve a tendência de crescimento e formou uma dupla diabólica com Rafael Leão, ligeiramente abaixo porque ainda não dá a melhor continuação às jogadas quando vence a marcação.

Esses elementos, somados a João Palhinha e Vitinha, fizeram com que o melhor de Portugal fosse melhor que o melhor da França, capaz de bascular o jogo de extremo a extremo com seu soberbo trio de médios formado por Camavinga, Tchouaméni e Kanté. Ainda assim, foi um duelo equilibrado e que, caísse para o lado que fosse nos 90 e tantos minutos, não haveria voz lúcida em Hamburgo, Paris, Lisboa ou em Diadema a sugerir uma injustiça.

Os pontos de desequilíbrio estavam justamente nas outras extremidades do campo, onde Rúben Dias e Pepe – este é um caso à parte e já voltaremos a isto – engoliam quem quer que surgisse por ali, e Upamecano e Saliba sobravam para neutralizar um destoante Cristiano Ronaldo.

E aqui talvez esteja a resposta para o desempenho abaixo do possível de figuras de proa da equipa nacional, como Bruno Fernandes, posicionado mais perto da área para compensar a ocupação de espaços que o capitão já não pode dar. E Cristiano deu pouco na maior parte da prova, sobretudo quando não foi poupado quando deveria.

Já lá voltaremos também.

A França é uma equipa que, sob Deschamps, pode ser classificada como a seleção mais cínica do mundo. Parece adormecida, adepta da lei do mínimo esforço, somente o necessário. Aí, quando o oponente abaixa os braços, vem o golpe. Suas capacidades acabam por moldar o adversário, e com Portugal não foi diferente. A primeira parte foi de estudos de parte a parte, poucas excursões ao coração da área adversária mais pela superioridade dos defensores do que pela vontade dos avançados, tanto que, remates, foram poucos concretizados.

O senso de urgência adquirido nos balneários após passadas a limpo as impressões trazidas do relvado trouxe duas equipes acutilantes, determinadas a evitar o drama da prorrogação e com a faca nos dentes. Palhinha travava Mbappé, Camavinga esteve a centímetros de fazer a festa gaulesa e Kolo Muani reviu Dibu Matinez na pele de Rúben Dias, dono e senhor de uma intervenção daquelas que valem por um golo a socorrer um Diogo Costa, cujos milagres não seriam suficientes naquele instante.

Do outro lado, Maignan esteve magnânimo para aplacar Leão. Depois, para fazer a defesa da noite quando Bruno Fernandes apareceu livre, em movimento a rasgar e recebendo passe açucarado tal uma bola de Berlim, que era onde Portugal queria estar no dia 14, mas o braço esticado do guardião francês não permitiu. Depois contou com a sorte para ver o chute colocado de João Cancelo ter outro destino, que não a vértice contrária.

A essa altura, Dembelé já estava em campo, rendendo um inoperante Griezmann. A resposta dada por Martinez foi lançar Francisco Conceição e Nelson Semedo. Deschamps ainda lançaria folego novo e pernas frescas com Marcus Thuram e Barcola. Na mesma altura, já no tempo-extra, João Félix voltaria a ser utilizado após inexplicavelmente ficar de fora de todas as opções contra a Eslovênia.

Se és um atacante e vestes a camisola da França, terás sido devorado por Pepe, possivelmente na melhor atuação desde que estreou pela Selecção Nacional. Aos 41 anos, que só foram notados naquele lance já no prolongamento contra os georgianos, o melhor zagueiro português da história – e um dos melhores do século em qualquer que seja a lista mundial que for feita se esta for minimamente séria – deu uma aula de posicionamento, leitura de jogo e vigor. Limpo, na bola, sempre na bola.

Os minutos se arrastaram até a necessidade de haver outros 30, que começaram com Francisco Conceição a levar de vencida toda a gente francesa que estivesse à sua frente antes de oferecer o gol a Cristiano Ronaldo. Aquele que fez cinco golos na última Euro não enviaria a bola à lua, como fez este, a versão pré-reforma que não venceu o tempo. 

O minuto além do 120 talvez tenha feito a pergunta a ser respondida: precisávamos do drama do prolongamento frente à Eslovênia? Em Hamburgo, este minuto teve dois ataques, de parte a parte, em que ficou nítido que o cansaço impediu que Portugal marcasse quando Nuno Mendes escolheu o pé menos usual para dar seguimento ao passe de Bernardo Silva. Thuram, na resposta, teve a porta fechada por Pepe, o melhor de todos os que estavam em campo. Pouco antes, Félix e Barcola tiveram suas hipóteses, mas as malhas que receberam a bola foram as do lado externo.

A esperança residiu ao fim no milagreiro da fase anterior, São Diogo, mas nem com asas ele pegaria as cobranças perfeitas de Dembelé, Fofana, Koundé, Barcola e Theo Hernandez. Chamado a abrir a série portuguesa, Cristiano não tremeu. Bernardo, como havia sido nos oitavas, também foi perfeito, mas João Félix, que substituiu o outro batedor, Bruno Fernandes, acabou acertando o poste. A cobrança sem reparos de Nuno Mendes serviu somente para manter a fé dos portugueses por alguns segundos.   

Se a França fez por onde passar, Portugal talvez tenha feito mais, mas o futebol é isto. Como é perceber o que foi feito de mau, reforçar o que foi feito de bom e, pelo amor de Deus, resolver o que fazer com o maior jogador português de sempre, que precisa ser convencido de que não há mais nada a provar.

O melhor jogo foi o último e há ótimos indicadores para o futuro, mas é preciso ter coragem.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: nem se voasse pegaria as cobranças francesas. Milagres não são feitos todos os dias; 
João Cancelo: se a Eurocopa serviu para algo, foi para recuperar o futebol de quem sequer sabe onde jogará na próxima temporada (Nelson Semedo: outro a recuperar a dignidade na relva alemã. Se quiseres, a lateral de um certo time vermelho da Segunda Circular estará à sua espera); 
Rúben Dias: o bloqueio ao chute do Kolo Muani teria sido aplaudido por Dibu Martinez; 
Pepe: vai voltar para Portugal com a mala carregada de atacantes de 10 a 20 anos mais jovens e incapazes de superá-lo. Um monumento de jogador; 
Nuno Mendes: a bola do jogo calhou-lhe ao pé errado. Melhor a cada jogo. 2026 estará à porta; 
João Palhinha: olhem o mapa mundi e reparem: a superfície é coberta por 60 e tal por cento de água. O resto é coberto pelo João Palhinha (Rúben Neves: era bonito seus passes teleguiados serem vistos mais vezes na Alemanha); 
Vitinha: o único azar é pisar os mesmos lugares de Bruno Fernandes (Matheus Nunes: perdeste suas férias para isso?);
Bruno Fernandes: poderia ter baixado mais vezes para organizar o jogo desde trás, onde há mais espaços. Nas duas vezes em que conseguiu, Portugal quase marcou. E ter saído é uma das tolices que ficaram na conta do mister (Francisco Conceição: seu pai certamente ficou mais orgulhoso pelo que viu do que o pai do Marcus Thuram. O problema é que eles saíram felizes, nós não); 
Bernardo Silva: juro que não entendo que caral** faz com que jogues como extremo. Entra técnico, sai técnico, e não há um corno pra te deixar jogar solto. Fez isso contra a França e, obviamente, Portugal cresceu; 
Rafael Leão: Koundé deveria passar por terapia para se livrar dos traumas causados pelos avanços de Rafael Leão. Nós todos também teremos que passar por terapia para esquecer que Rafael Leão ganha todas as jogadas e não acontece nada depois disso, a não ser uma ou outra ecrã quebrada por quem esperava pelo golo (João Félix: merecias mais respeito e minutos, mas nunca no lugar de Rafael Leão);
Cristiano Ronaldo: por quê, Cristiano? 
Roberto Martinez: havia muito potencial, flexibilidade tática, jogadores acima da média em todas as posições. Mas havia um treinador que dispôs de seis amistosos - mais um jogo para cumprir tabela - para preparar um time que ficou amarrado às vontades de seu capitão, que começou bem, mas deitou tudo ao chão conforme seu golo não saiu. O que dói é que poderia ser melhor. Uma pena, Roberto, mas simpatia não basta nos grandes palcos.

BRASIL - Tragédia anunciada... Ou não!

Por Waldir Manoel do Nascimento*

LINHAS TORTAS Suspensão de Vini Jr abre caminho para a titularidade
de Endrick (
Pedro Loureiro/Eurasia Sport Images/Getty Images)

Longe de mim cair na vala comum de dizer que o futebol é uma caixinha de surpresas. Mas que é, é. E tudo pode acontecer quando Brasil e Uruguai entrarem em campo na noite deste sábado, às 22h, pelas quartas de final da Copa América dos Estados Unidos. Mas existe um favorito para o confronto e ele veste azul. mais precisamente azul celeste.

Levando em conta os últimos resultados e o rendimento da equipe uruguaia comandada por Marcelo Bielsa, comparada ao time brasileiro de Dorival Júnior, creio que não há quem conteste que o favoritismo celeste seja real. Uma equipe de ótima qualidade técnica, bem montada e intensa. Como time, é bem superior que o seu adversário desta noite.

O Brasil, do ainda invicto Dorival, também tem a sua boa dose de qualidade técnica, mas ainda não é um time. Ainda tem bem pouca organização defensiva, há muito espaço entre os volantes e a defesa, e ao mesmo tempo não se sabe qual é a ideia quando tem a bola. Não ficou clara a intenção de Dorival com Rodrygo pelo meio junto com mais dois pontas.

Suspeito que a ideia seja limpar terreno para a volta do Neymar ao time, mas isso é tema para outra hora. Seja lá qual for a ideia, não funcionou e, forçadamente, Dorival vai mudar.

Com dois cartões evitáveis acumulados, Vini Jr está suspenso e o técnico brasileiro já confirmou a escalação de Endrick. Assim, enfim, teremos centroavante, Rodrygo jogando onde ele gosta e Raphinha (ou Savinho?) na ponta direita.

O jogo tem todo cheiro de nova tragédia na história da Seleção Brasileira, embora ninguém vá se surpreender com uma eliminação nessa noite.

Porém, lembra da história da caixinha de surpresas? Ainda que Dorival tenha cortado o barato do menino Endrick ao interromper a sequência de bons minutos que vinha tendo, é em jogos assim que os grandes nomes do futebol brilham e mostram por que são diferentes.

Quem sabe não é a vez dele?

*Cosplay do maior trio de jogadores da história do futebol mundial.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

PORTUGUESA - O desafio de sobreviver às saídas dos destaques

DE VOLTA AO RADAR O despertar do interesse dos rivais mostra a evolução do 
trabalho, mas demanda acerto na substituição (Divulgação/Portuguesa)

A Portuguesa emprestou alguns dos seus prováveis titulares na disputa da Copa Paulista. Obviamente, teve gente que reclamou: onde já se viu deixar os melhores saírem? Quero ver a reposição! É sempre assim, que nunca mais ponha os pés no Canindé!

Houve quem compreendesse. A Copa Paulista não é vitrine, não é atrativa e só está no horizonte de quem busca um lugar ao sol ou não conseguirá algo melhor mesmo.

Quem está errado? O torcedor, que quer que os destaques fiquem e cumpram o destino de recolocar a Lusa no lugar dela e quem fizer pela vida em outros cantos que vá para o caralho? Os jogadores, que têm mais é que buscar quem lhe ofereça, dentro do seu plano de carreira, as melhores condições? A diretoria, que não amarra ninguém com multas milionárias, nem arranja um investidor?

Ninguém está errado.

Mas há outro grupo: o dos resignados, que sabem que é assim mesmo e que não há o que fazer, a não ser esperar pela redenção em forma de surgimento de um novo Dener, um Zé Roberto 30 anos depois, ou mesmo um xeque disposto a lavar seus petrodólares ou euros nos lados do Pari.

Achamos o erro. Se ele for cometido por quem toma as decisões, então, é todo o caminho andado para seguirmos no limbo. Mesmo deixando escapar um Talles, um Denis, um Maceió, é nítido que o patamar de quem veste a camisa da Lusa subiu. E subiu a ponto de despertar o interesse de clubes das séries A e B.

“Beleza, Marcos, então é isso?”. É e não é. É porque, no ecossistema da bola, não é difícil perceber que a Portuguesa está na base da cadeia alimentar e que todo bicho que se move pode ser o predador. Entender essa situação é fundamental para o que vem a seguir: a previsibilidade e a antecipação.

Uma vez admitida a fragilidade no mercado da bola, é preciso detectar os potenciais alvos do mercado – os jogadores que apresentarem o equilíbrio entre talento e margem de crescimento -, que ao cabo são os melhores do elenco. Depois, buscar substitutos. É a tal antecipação que eu falei lá em cima.

Esse trabalho de prospecção, de preferência, deve detectar o atleta a ser abordado antes da saída do destaque já sinalizado. Obviamente, deve ter características que sejam adequadas ao tipo de futebol que o time quer praticar.

O livro Soccernomics, que o jornalista Simon Kuper, do jornal Financial Times, e o professor de economia Stefan Szymanski, da Universidade de Michigan, lançaram em 2009, destaca como o Lyon, da França, foi da condição de um time qualquer da segunda divisão para heptacampeão nacional quando foi adquirido pelo empresário do ramo de softwares Jean-Michel Aulas.

Sim, um empresário bem sucedido comprou um time endividado e o transformou na potência que só foi desbancada pela negociata que envolveu o Catar, o PSG, o presidente da França Nicolas Sarkozy, Michel Platini e a compra de votos da Europa para a escolha da sede da Copa do Mundo de 2022.

O Málaga, por exemplo, foi comprado por um desses aventureiros que volta e meia surgem, chegou a fases altas da Liga dos Campeões, não ganhou nada, gastou de qualquer jeito e hoje sua torcida festeja o retorno à segunda divisão espanhola. Vejam, portanto, que não se trata somente do dinheiro, mas do que fazer com ele. O Lyon, por sua vez, detectava seus maiores ativos e os vendia, e bem. Benzema, Diarra, Malouda, Essien e Abidal valeram muito dinheiro para o clube.

Antes que me chamem de louco, não estou comparando porque não se trata de chegar onde o Lyon chegou, e sim de arrumar um chão firme onde se possa colocar os pés rubro-verdes. Sem metodologia, know-how (não há termo melhor em português, lamento) e competência para trabalhar, o pneu seguirá girando em falso, atolado no limbo da Copa Paulista e da busca por uma vaga na Série D.

Profissionalismo não basta. A Lusa teve gente vivida no futebol – e festejada por mim aqui – que não esteve à altura da missão. É lugar comum, mas é necessário ter gente capaz de fazer esse trabalho de detecção e prospecção dentro do alcance de nossos ainda curtos braços. Acreditem: ter um profissional assim é um investimento que pode ser mais caro a curto prazo, mas valerá mais ser feito do que contratar dois ou três medalhões distantes de seus melhores dias para se manter na elite do Paulistão e garantir a vaga na Série D do ano seguinte. A estrutura não é só física, é pessoal também.

Não que represente uma garantia, porque nada garante resultados, mas um trabalho bem feito aumenta as possibilidades de acerto.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

PORTUGAL - São Diogo

*Originalmente publicado no Netlusa

Na noite em que faltou treinador e os veteranos quase
ruíram, sobroua sobrenatural atuação para expiar
 os pecados portugueses (Heiko Becker/Reuters)

Portugal orgulha-se de ser o país mais católico do mundo. Ao menos quando miúdo ouvi muitas vezes esta ideia. Os tempos podem ser outros, mas não haverá um português, seja em Portugal, na Alemanha ou em algures no mundo que não tenha acendido uma vela para São Diogo.

Mas nem era preciso tanto sofrimento. Se existiu um acerto da parte de Roberto Martinez, este foi a escalação. Depois das mal sucedidas e mal explicadas experiências com a Geórgia, Portugal foi a Frankfurt com o sistema com dois zagueiros, tendo Nuno Mendes e João Cancelo nas laterais; os incansáveis João Palhinha e Vitinha como trincos, tendo este a missão de ser amálgama para toda a equipa. Bruno Fernandes mais próximo da área e Bernardo Silva dando largura à direita para Cristiano Ronaldo e Rafael Leão, este sempre aberto do outro lado, completarem o onze inicial. 

Sem surpresas, pois.

Surpreendente, de fato, foi o espaço que Portugal encontrou no início acutilante, na melhor entrada da turma de Martinez nesta Eurocopa. Há quem diga que Portugal andava pendido à esquerda, mas as principais jogadas sempre iam ter pelos lados de Rafael Leão, que deu as caras na competição, e Nuno Mendes, um verdadeiro tormento. E o placar só não foi movimentado porque sempre faltava algo, fossem pernas para Bernardo Silva alcançar o passe de Bruno Fernandes ou Cristiano fazer jus ao bom nome de goleador que tem. 

Os cinquenta e poucos jogos que suas pernas levam na temporada parecem pesar, a ponto de lhe tirar explosão e tempo de bola, justamente as suas principais armas. Não tem sido raras as vezes em que o camisa 7 quase chega à bola. Foi assim contra a Geórgia, foi assim no Qatar, há um ano e meio.

Ainda não ter levado o pão à sopa tem trazido à tona o pior de Cristiano Ronaldo: a ansiedade. Contra a Eslovênia, aquele atacante associativo deu lugar à versão atabalhoada e mesquinha, que invariavelmente tomará a pior decisão, como na cobrança de falta praticamente sem ângulo nem cabimento, em que tentou mandar direto para o gol, como se lá estivesse um qualquer.

Como Portugal não marcou, a intensidade caiu e a Eslovênia conseguiu respirar um bocado e vez ou outra até criou problemas, ora com Sesko - perigoso avançado de 21 anos, que venceu alguns duelos com Pepe, o monumental defensor com quase o dobro da sua idade -, ora com Sporar, de quem a bola foi tirada uma par de vezes por um Nuno Mendes insinuante a apoiar e diligente a defender. 

A segunda metade da primeira etapa teve alguma calmaria, quebrada somente quando João Palhinha, novamente soberbo, acertou o poste de Oblak pouco antes do final da primeira parte. Não faltava muito para acertar para poder encaminhar uma classificação relativamente tranquila.

Mas o segundo tempo teve duas partes distintas: uma em que Portugal teve inventividade e a que não teve nada a partir dos 20 minutos, quando da inexplicável dupla mudança promovida por Roberto Martinez, que tirou seus dois melhores homens, Vitinha e Rafael Leão, e colocou Diogo Jota e Francisco Conceição. Bruno Fernandes foi recuado para terrenos mais baixos, quando o ideal seria aproximá-lo de Bernardo Silva; Leão, um verdadeiro tormento, um felino livre e faminto na Savana, deu lugar para Chico Conceição, numa troca de imposição pelo drible que não resultou. 

O tempo foi passando, o jogo ficou partido e os eslovenos só não conseguiram algo ainda no tempo normal pela sua inaptidão ao ataque e o inevitável nulo permaneceu até o fim do tempo regulamentar. 

Como estava, já não havia mais sentido coletivo algum em Portugal, que ficou dependendo dos seus valores individuais. E Diogo Jota disse presente quando rompeu com a bola entre os defensores e só parou quando foi derrubado na área: pênalti indiscutível e a grande chance de Cristiano finalmente marcar o seu e estabelecer o recorde que, mesmo dizendo o contrário, incomodará até que consiga, mas faltou-lhe a calma de costume e o chute, forte e à meia-altura, foi desviado por Oblak e encontrou seu poste esquerdo antes de sair. 

Se o veterano avançado falhou, o jogador com mais rodagem da Terra entre todos que já estiveram pelas andanças da Eurocopa, o monumental Pepe, foi tentar um passe em zona proibida e errou tudo: bola, chão e tempo de bola. E Sesko, 20 anos mais moço, ficou com o gol à sua frente, mas desperdiçou. Ou melhor, Diogo Costa, com o pé, operou o primeiro milagre da noite já a dois minutos do fim. Seria injusto Portugal cair por erros justamente de Pepe e de Cristiano.

Quando acabou o jogo, o capitão caiu. Trocou o chilique dos gols falhados por um choro que o fez tocar o chão dos mortais, posto que é humano. Daí surgiu Diogo Dalot, seu melhor - e talvez único - amigo na segunda passagem pelo Manchester United, e o consolou. 

Mas ainda faltava o fado, o drama, o palco perfeito para o surgimento de heróis e vilões. E santos. 

A canonização é possível quando dois milagres são comprovados. Faltava um. E este veio na forma de três pênaltis defendidos, mas não daqueles em que o goleiro escolhe um canto e seja o que Deus quiser. Foi buscar os três, a começar pela injustiça da perda nos pés de Ilicic, que venceu uma depressão e é um dos vencedores desta Euro. 

Cristiano, mais calmo, se redimiu com uma cobrança perfeita que, não o fosse, teria parado nas mãos do outro santo dos postes. Bruno Fernandes e Bernardo Silva também foram chamados e colocaram Portugal no comboio para Hamburgo, onde a França, também de prestações mininas até aqui, espera para mais um duelo entre os países que disputaram uma final e duas meias finais. 

O apuramento aos quartos teve todo o drama que toda a gente mais dada a emoções e histórias de superação mais gosta. Se resultar em um troféu ao alto no dia 14, lembrar-se ao dos campeões forjados com lágrimas, suor e sofrimento. Se não resultar, e isto sempre é o mais provável, perguntarão por que um jogo acessível se arrastou a ponto de extenuar toda a gente? Por que Vitinha, o melhor em campo, saiu? Por que Bernardo Silva fica fixo como extremo, se joga melhor quando se associa por mais partes do relvado? Por que colocar os objetivos de Cristiano Ronaldo acima da própria equipa? 

E será preciso mais, pois milagres não acontecem todos os dias.

(Getty Images)


***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Se algum português estiver a escolher o nome do filho e não pensar em Diogo estará morto por dentro. E se for menina? Nomes compostos servem pra isso;
João Cancelo: Queira descobrir algum segredo cabeludo do mister para usar contra ele quando pensar em te tirar da lateral (Nelson Semedo: Tenho para mim que o Semedo sabe);
Rúben Dias: Estupendo, como sempre. Mas podia correr um bocadinho mais quando o Pepe deu aquela fífia;
Pepe: Os monumentos tombam, afinal (Rúben Neves: "Ó, mister, duvidas que eu dê um pontapé e meta a bola pra fora do estádio?" E foi assim que Rúben Neves entrou);
Nuno Mendes: Jogas tanto, mas tanto, que nem pareces jogador do PSG;
João Palhinha: Já que tens que marcar por todos, faça uma pergunta ao mister: "VAIS TIRAR O VITINHA? ÉS PARVO OU O QUÊ?";
Vitinha: Não erras um cara** de um passe e és tu que sais? (Diogo Jota: Não inventes mais de sofrer um pênalti quando o Cristiano estiver ansioso);
Bruno Fernandes: Já pensaste em colocar laxante no suco do mister? Ele jamais desconfiaria de ti; 
Bernardo Silva: Interessante, a ideia do mister ao te tirar da ponta direita, onde não rendes, e te passar para a esquerda, onde nunca jogas. Nem Jorge Jesus faria isso. Não hoje;
Cristiano Ronaldo: Que a humanização do seu choro e a humildade do pedido de desculpas te façam ver que podes não jogar sempre; 
Rafael Leão: Excelente estreia, Rafael Alexandre. Onde estiveste este tempo todo? (Francisco Conceição: "Eu? No lugar do Rafa? É isso mesmo?" Essas eram as únicas perguntas a serem feitas, pá, até ele cair em si);
Roberto Martinez: Não basta ter os ovos para fazer a omelete; tens que quebrá-los. Sim, é do Cristiano que estou falando.

domingo, 30 de junho de 2024

BRASIL - Vini Jr, do Real, decide pela Seleção

Por Waldir Manoel do Nascimento*

(Reprodução TV Globo/Globoplay)

Dorival Júnior fez mudanças, mas não a que a gente queria. Venceu o Paraguai por 4 a 1 na segunda rodada do Grupo D da Copa América sem recorrer a um centroavante no time. Insistiu com seu sistema e foi premiado com uma vitória tendo seu trio ofensivo de pontas como protagonista. Em especial, Vini Jr que foi na seleção o que costuma ser no Real Madrid, o que o credencia a ser o melhor do mundo na temporada.

Com Wendell na lateral esquerda na vaga de Guilherme Arana, que realmente jogou muito mal contra a Costa Rica, e Savinho na vaga de Raphinha na ponta direita, o Brasil enfrentou um Paraguai que não se acovardou, não ficou com os 11 na defesa esperando espaços para um contra-ataque.

Pelo contrário.

Embora a Seleção Brasileira tivesse ímpeto ofensivo desde o início da partida, ps paraguaios foram mais efetivos até a abertura do placar. Damián Bobadilla, volante do São Paulo, finalizou e contou com o desvio em Éder Militão para quase vencer Alisson que, por sua vez, conseguiu evitar o gol.

Até ali o goleiro Morinigo pouco ou quase nada trabalhara.

Mas o jogo mudou e o Brasil abriu 3 a 0 em menos de 15 minutos. Antes, Lucas Paquetá mandou (muito) para fora, aos 31 minutos, cobrança de pênalti após a bola bater na mão de um defensor paraguaio. Quatro minutos depois, porém, o mesmo Paquetá recebeu de Bruno Guimarães e com um toque deixou Vini Jr na frente do goleiro. Vini foi o Vini do Real, teve velocidade e tranquilidade para se livrar da marcação e, com o gol praticamente aberto, abrir o placar.

Se efetivamente não merecia aquele placar, o time de Dorival Júnior fez por merecer ampliá-lo ao não se acomodar. Sufocado, oito minutos depois o Paraguai viu Rodrygo se desvencilhar da zaga pela esquerda e, já dentro da área, bater forte para Savinho aproveitar o rebote do goleiro e a falha da defesa para ampliar. Com quatro minutos de acréscimos Vini Jr abafou a zaga adversária, que errou e proporcionou ao atacante do Real o terceiro gol brasileiro.

Mérito total da equipe brasileira que não se acomodou com o resultado favorável em momento algum para construir um placar tranquilo.

Logo no começo do segundo tempo o bom zagueiro Alderete diminuiu para os paraguaios, mas Lucas Paquetá teve uma segunda chance em outro pênalti em que a bola também bateu na mão de um defensor e decretou o 4 a 1, a primeira vitória do Brasil na Copa América 2024.

Chamou atenção a aparente apatia do relegado Endrick. Espero estar errado.

Para fechar a primeira fase, o Brasil enfrenta a líder Colômbia na terça-feira, 2 de julho, às 22h, pela liderança da chave. Nessa disputa, o empate favorece o bom time colombiano.

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

PORTUGAL - Vivendo e aprendendo a jogar

*Originalmente publicado no Netlusa

PESADELO Na noite em que nada resultou, Portugal sofreu sua primeira
derrota oficial com Roberto Martinez (Foto: Patrícia Melo Moreira/AFP)

Portugal tem motivos para reclamar na primeira derrota em jogos oficiais sob o comando de Roberto Martinez e que impede o registro limpo na primeira fase. Pode reclamar do pênalti não marcado sobre Cristiano Ronaldo quando o placar ainda apontava o 1-0 ofertado por um infeliz e deslocado António Silva; poderá reclamar do suíço que estava a dormir na cabine do VAR, enquanto o outro suíço estava a cochilar no relvado, a ponto de não ver o puxão que testou a elasticidade da belíssima camisola azulejada do capitão; poderá reclamar da monstruosa atuação de Mamardashvili, que já havia feito pela vida contra os turcos. Mas o maior motivo de reclamação deve ser endereçado às escolhas de Martinez, da abordagem ao jogo ao onze que escolheu. Ao cabo, os maiores responsáveis pela derrota terão sido o próprio selecionado e seu selecionador.

Martinez, que escolheu dar minutos a uns e descansar outros, voltou ao sistema com o trio de centrais, formado por Danilo, ao centro, ladeado pelos jovens António Silva e Gonçalo Inácio. Nas alas, Diogo Dalot e um estranho Pedro Neto dariam largura para que a dupla de Joões – Palhinha e Neves – tivesse algum espaço para avançar com a bola e levá-la a Francisco Conceição, enquanto Cristiano Ronaldo e João Félix teriam liberdade para trocar de lugar e criar alguma dificuldade para o sistema defensivo de Willy Sagnol.

Com menos de dois minutos, toda a gente se colocou no campo de ataque e António Silva carregou, carregou, carregou. Era um tanto cedo para essa desorganização. Mais fora de hora ainda para o passe errado, com desleixo, de quem esteve intimamente ligado também ao segundo tento, e que apanhou tudo fora do lugar e acabou com Kvaratskhelia a comemorar seu primeiro golo na prova do jeito que mais lhes apetecia: o roubo da bola em zona proibida, a descida em velocidade e a bola no pé do seu melhor jogador.

Fora de lugar. Se as escolhas da estreia foram justificadas pela expectativa de uma Chéquia que mudou a si própria para enganar Portugal – e conseguiu -, a falta de rotina numa defesa a três do jovem benfiquista novamente foi flagrante. Da mesma forma, Pedro Neto não tem as valências defensivas de Nuno Mendes e sua presença na ala era, é e será algo injustificável.

Também não se explica, a não ser pela possibilidade de deixar o capitão levar o pão à sopa e afastar a ansiedade que costumeiramente atrapalha e contamina toda a gente, a presença de Cristiano Ronaldo no time que começou o jogo, mesmo que Diogo Jota e Gonçalo Ramos tenham feito somente um treino.

Mesmo assim, Portugal ainda fez por onde merecer melhor sorte, sobretudo porque João Félix e Francisco Conceição estiveram à altura da missão, que talvez seria mais bem conseguida com Vítinha, melhor português da Euro, pudesse encher as medidas do campo como o fez nos outros dois jogos.

Haverá a reclamação pela grande penalidade sonegada pela arbitragem, e com o auxílio da vídeo arbitragem é ainda mais inaceitável que o lance tenha passado sem maiores consequências. Mas há que ser perguntar: i) por que escalar Pedro Neto em vez de João Cancelo?) por que diabos Dalot, se Nelson Semedo está em melhor forma e vai mais ao fundo? iii) por que João Palhinha, se era para sair ao intervalo para evitar um segundo cartão amarelo e a suspensão nos oitavos? e iv) por que voltar ao sistema em que toda a gente fica desconfortável e que nunca resultou?

Pelas características de quem estava em campo, faltou paciência e critério para furar o bloqueio com cinco ou até seis defensores. Como na estreia, havia gente para conduzir, não para passar a bola ou buscar um passe a rasgar entre os contrários. A essa altura, ao cabo da fase em que ainda era permitido perder sem maiores consequências diretas no apuramento, é preocupante tornar a ver os mesmos problemas da estreia.

Enquanto Portugal usou o jogo para poupar e dar a chance de Cristiano Ronaldo marcar um gol – o fantasma do dono do time que se coloca acima dos interesses do grupo sempre aparece quando as coisas não correm a contento -, a Geórgia ousou sonhar e, com seus dois craques a decidir, fez história e se classificou logo na sua primeira fase final de uma grande competição. Aqui, o sonho foi capaz de abrandar as terríveis falhas defensivas que fizeram do seu goleiro o melhor da posição na primeira fase.

Com a derrota, calhou-nos a Eslovênia, mesmo adversário de um dos amigáveis depois da fase de classificação. Na ocasião, Roberto Martinez convocou mais de 30 jogadores e os distribuiu em em três turmas, resultando numa equipe alternativa na primeira derrota de Portugal sob sua direção. Dali, tirou notas sobre como não jogar.

Que o desaire frente aos georgianos tenha servido ao menos para isso.

***
As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Camisolas azuis e brancas, golos oferecidos. Parecia que estavas a defender o Porto;
António Silva: era preciso avisar que, no jogo entre malta de camisolas vermelhas e os de azul e branco, tu estavas com esses últimos? (Nelson Semedo: se a sua missão era ser melhor que o António Silva, já o farias se dissesse seu nome corretamente a quem eventualmente perguntasse);
Danilo Pereira: podias estar de férias, podias estar a pensar em como fazer para o timinho que tu defendes em França ganhar qualquer caralho além das fronteiras. Tu sabes que não estavas, Comendador?
Gonçalo Inácio: Ora viva! Tu foste o melhor dos três da defesa. Não era preciso muita coisa, que fique claro;
Diogo Dalot: quando o mister disser que tu precisas jogar como um avançado, será de bom tom dar com algo teso na cabeça dele. Se não for possível, queiras tropeçar na escada da saída do balneário. Não havia escadas? Então fica difícil, pá. Mais difícil que furar defesas a cinco, como a que vem aí;
João Palhinha: entre as perguntas que deverias fazer antes do jogo, a principal seria “Eh, pá! Vais mesmo me escalar sendo o único gajo a arriscar uma suspensão para o jogo a doer? Não que ia resultar, mas ficava o registo (Rúben Neves: o mister sabe que não és avançado?);
João Neves: Saudade do Florentino, né, meu filho? (Matheus Nunes: até o fim do Euro, será que consegues jogar um tempo completo? Já disseste ao mister que podes?);
Pedro Neto: Ó, miúdo, faz favor, anda cá. O mister disse que te escalou a ala porque já havias jogado assim no Wolverhampton. Por que caraças não disseste que não eras tu? (Diogo Jota: foste o único a entrar na posição certa. Aproveite essa predileção para, sei lá, fazer com que o Rafael Leão fique no banco caso Portugal passe pelos eslovenos);
Francisco Conceição: ao par de João Félix, teu melhor amigo, eras o mais inconformado com o que (não) aconteceu. Faça o favor de ser amigo de todos os outros também. E do mister;
Cristiano Ronaldo: Peça o quadro usado pelo Rafael Leão após a estreia e escrevas o seguinte, quanto baste: “Os interesses coletivos estão acima dos individuais”. Pela atenção, obrigado (Gonçalo Ramos: não jogas no Paris, não jogas na seleção nacional. Sabia que na Segunda Circular, em Lisboa, há um clube em que tu jogarias? Não, não é o Sporting, lá também não jogarias);
João Félix: se este jogo serviu pra algo, foi pra mostrar que há vida no gajo que não quer ser um flop. Depende mais de ti que dos outros;
Roberto Martinez: cantas A Portuguesa e és teimoso feito um cavalo. Para ser um português completo, falta gritar ao Ronaldo: “Ó, pá, pro caralho com os recordes! Foda-se! Vê-se que não falta muito.

BRASIL - Bota 9, Dorival!

Por Waldir Manoel do Nascimento*


Foi-se o tempo em que a escalação da Seleção Brasileira povoava os pensamentos e as preocupações de 11 em cada 10 torcedores brasileiros. Num processo de deterioração da imagem junto ao torcedor que começou há décadas, poucos realmente se importam com o escrete canarinho e quem estará em campo por ele. Não existe mais o Zé da Galera, personagem do Jô Soares que atormentou o técnico Telê Santana às vésperas da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, pedindo a escalação de um ponta direita na equipe. "Bota ponta, Telê!", repetia o Zé da Galera.

Aquele time tinha um ponta do lado esquerdo, Éder, que tinha a companhia de Serginho Chulapa no ataque abastecido pelos meias Zico, Sócrates e Falcão, resguardados pelo volante Toninho Cerezo e os zagueiros Oscar e Luizinho, e apoiados por Leandro e Júnior nas laterais. Um time que encantou e fez o Brasil chorar quando perdeu para a Itália de Paolo Rossi. Mesmo assim, antes de iniciado o Mundial, Zé da Galera cobrava: "Bota ponta, Telê!"

Sem entrar no mérito da comparação entre as épocas - não é essa ideia neste texto -, os que se interessam pela Seleção Brasileira parecem unânimes em dizer: falta um centroavante ao time de Dorival Júnior que enfrenta o Paraguai nesta sexta-feira, 28 de junho, às 22h de Brasília, pela segunda rodada do Grupo D da Copa América.

O treinador brasileiro tem optado por escalar três pontas no ataque - estaria feliz o Zé da Galera? -- com Raphinha e Vini Jr. pelos lados e Rodrygo, o camisa 10, por dentro. Porém, pela ineficiência do trio até aqui, ainda não deu para entender se a intenção é que o jogador centralizado seja o falso 9 ou se a ideia é que os pontas façam este papel, entrando na área no espaço deixado por Rodrygo ao sair para armar o time.

Seja qual for a ideia, não parece estar funcionando, vide a dificuldade que teve o Brasil no amistoso frente aos Estados Unidos e na estreia da Copa América contra a Costa Rica. O time considerado reserva, com Evanílson de centroavante contra o México, funcionou melhor e construiu a vitória já no primeiro tempo do confronto.

Hoje, quem olha com carinho o time de Dorival sente a falta de um jogador de referência na área, mais especificamente de Endrick. Ainda que entenda que é preciso ter calma pela pouca idade do agora atacante do Real Madrid, seria mais simples para o treinador colocá-lo em campo e transferir a responsabilidade a ele. Em qualquer situação Dorival se sairá bem: se arrebentar, soube a hora de escalar e, se isso não acontecer, estava com a razão ao pedir paciência com o que é só um menino ainda.

Na dúvida, bota 9, Dorival!

Este texto, porém, quase teve outro título: bota meia, Dorival.

Ainda que a seleção paraguaia se apresente com dois volantes, um meia, dois pontas e um centroavante - teoricamente ofensivo -, o time de Daniel Garnero deve repetir o expediente costa-riquenho e se fechar na defesa desde o primeiro minuto, tentando surpreender os brasileiros no contra-ataque e, sendo assim, a presença de um meia na vaga de um dos volantes, pode ser interessante.

Mas, e por isso o tema do texto não é este, não se trata de uma mudança urgente a ser feita. Todos os volantes brasileiros sabem jogar, e se a mudança no ataque surtir efeito e fizer a seleção ser efetiva e vazar a meta paraguaia, ter um time equilibrado pode ser interessante para obter os importantíssimos três pontos válidos no confronto.

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 18

*Por Humberto Pereira da Silva



Uma cousa que eu realmente hoje não discuto no futebol: marcação ou não de pênalti e uso do VAR para uma decisão dessa natureza. 

Quando não havia o árbitro de vídeo e bem menos câmaras eram usadas, a dúvida gerava toda discussão e o folclore do futebol. Reza a lenda que a bola não entrou no gol da Inglaterra em 66. Hoje a tecnologia diria se foi ou não gol. E não foi.

Hoje, com a VAR, certas coisas eu realmente não entendo. O juiz suíço não "viu" pênalti em CR7 e também não viu a favor da Geórgia. O VAR suíço entrou em ação numa situação e em outra, não.

Sem maldade, e sem conhecida ignorância de jogador de futebol, já ouvi jogador não entender os "critérios" na marcação de pênalti: bola na mão, mão na bola... e tudo fica assim: no bar o garçom pergunta que cerveja eu quero, eu paro, penso pergunto o que tem e digo o que quero... mas poderia querer... e na verdade em momento algum fui para o bar pra tomar Antártica, Brahma.

Com o VAR assim é a marcação de um pênalti. O do Gentile, que rasgou a camisa do Zico em 82, faz parte do folclore, da lenda. Como o do Nilton Santos em 62. Se o VAR ontem num lance solicitou revisão e n'outro não, e se eu não entendo atuação da máfia, do crime organizado, ou da contravenção, acho insulto à minha inteligência discutir razões de marcação numa situação e não n'outra. 

Bem entendido, como ocorreria antes sem o VAR, não duas situações o juíz não teve CORAGEM pra assumir decisão e indicar a marca do cal. 

Como não tenho qualquer elemento pra suspeitar de atuação do crime organizado na Euro, que haja maquinação contra Portugal (!) e não li regulamentos e regras no papel e assim acredito em bruxas, não sei se por LEI quando o VAR pede revisão, o apitador não pode não ir ver o lance como não pode iniciar um jogo sem apitar o início, como apita o fim, com apita uma falta.

Se o juiz pode não rever um lance solicitado pelo VAR, ele não tem dúvida alguma do que viu e interpretou e tem absoluta convicção da decisão, sou levado a especular sobre excentricidades humanas. Não maldade, mas excentricidade, esquisitice. Eu, de repente, não gosto de quem usa rabo de cavalo ou quem pinta o cabelo, usa brinco... sei lá... Daniel Passarela passou a não gostar de cabeludo depois que parou de jogar.

Sendo assim, também tenho "direito" a esquisitice, desconfiança. A suspeitar, meio que teoria conspiratória, que decisões de juízes envolvem caprichos, coisas como NÃO GOSTO DE UM JOGADOR CHAMADO CRISTIANO RONALDO. E olha que, quando Portugal massacrou a Suiça ns oitavos-de-final da última Copa do Mundo, Cristiano entrou em campo com a goleada já construída.

Viagem minha? Acho que certos árbitros podem não gostar de certos jogadores e levar suas antipatias para dentro do relvado. Como Passarela não gostava de cabeludos... o que gira em torno de CR7 pode muito bem para mim afetar decisões num jogo de futebol.

Sinceramente, é o que para mim pareceu. Alguma coisa estranha, além do pênalti, na relação CR7 e juíz suíço. Eu vi o jogo. O lance do pênalti não foi isolado. Houve outros, digamos, atritos de marcação e ao seu estilo depois de receber o cartão, como também já fez em outra ocasião, CR7 "abandonou" o jogo.

A gesticulação dele, a saída de campo ao fim do primeiro tempo e depois sendo substituído, foram bem filmadas pelas centenas de câmeras hoje. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 25 de junho de 2024

BRASIL - Sem alegria, nem ousadia

ENGESSADO Brasil parou na marcação e na falta de
criatividade do sistema de jogo (Patrick T. Fallon/AFP)


No primeiro jogo oficial sob o comando de Dorival Júnior, um insosso 0 a 0 com a Costa Rica, o Brasil teve uma estreia muito abaixo do esperado na Copa América do Tio Sam, competição na qual tentará o décimo troféu.  

Como sempre, a seleção brasileira está exposta ao exagero, qualquer que seja a fase e o desempenho apresentado em campo. Como o Brasil partiu do nada deixado por Fernando Diniz para o aceitável com o Dorival - que recebeu a batata quente em forma de previsão de goleadas contra Inglaterra e Espanha -, a malta voltou a achar que o "futebol penta campeão" engrenar. E ainda há a passagem de bastão do Neymar, que não foi sombra do que poderia, para o Vinícius Júnior, favorito por ora à Bola de Ouro, mas que ainda não esteve à altura na seleção por uma série de fatores. 

Aí, é sempre bom lembrar que todos os adversários têm um trabalho em andamento. O Brasil, por absoluta incapacidade da CBF, ainda está engatinhando. Essa foi a quinta partida do Dorival, salvo engano. Não se faz um time em meia-dúzia de jogos.

E tem a estupidez da Conmebol, que aceita que a Copa América seja jogada em campos menores, $abe-$e lá por quai$ motivo$, e essa é mais uma dificuldade para quem tem que sair para o jogo. 

Longe de mim querer achar que sei mais de futebol que ele, mas um campo quatro metros mais estreito e cinco metros mais curto reduz a chance de sucesso contra times que jogam com uma linha de cinco atrás. Isso requer um jogo mais pausado, com paciência, com movimentação na frente e circulação da bola para  bagunçar a marcação e achar espaços. Aí existem dois problemas: sem um 9 de referência (Rodrygo não é centroavante) para incomodar os zagueiros e fazer aparecer esses espaços para o proveito dos que vêm de trás, o Brasil ficou correndo com a bola, afoito. Tinha dois volantes sem lá muita função e, para ajudar, Vini Jr foi anulado pela marcação costarriquenha, também porque não havia espaço para jogar como gosta no Real Madrid. Nas poucas vezes em que superou seu marcador, a jogada morreu na sobra. A presença de um 9 possivelmente criaria esse espaço.

Dorival Júnior, como qualquer outro treinador, deve pensar em um time base para que as rotinas de cada posição dentro do processo sejam assimiladas, mas alguns jogos requerem jogadores de características distintas. Contra uma defesa fechadinha, seria mais proveitoso que o lateral Yan Couto ocupasse a vaga de Danilo, pois é mais ofensivo e poderia auxiliar o ponta que estivesse em campo, fosse ele Raphinha ou Savinho. 

Com 10 ou 15 dias de treinos, além dos períodos de cinco ou seis dias espalhados pela Data-FIFA anterior, o máximo que dá para fazer é ver quem se encaixa nas ideias do treinador ou como o Dorival pode ser adequar ao que tem. Não é razoável achar que a seleção, em retomada de trabalho, chegaria à Copa América em ponto de rebuçado. Da mesma forma, a tendência é ter uma cara de time bem definida quando for disputar a Copa de 2026, para a qual obviamente se classificará.

Ser mais ousado, porém, não depende disso.

BRASIL - Empate na conta do Dorival

Por Waldir Manoel do Nascimento*

Rodrygo lamenta chance desperdiçada (Kevork Djansezian/Getty Images)


Invicto em seu breve início à frente da Seleção Brasileira - 5 jogos com 3 empates e 2 vitórias -, Dorival Júnior parece ter sentido o peso de sua primeira partida por uma competição oficial, o empate sem gols com a Costa Rica na estreia da Copa América. Não pelo semblante à beira do campo. O comandante estava muito bem trajado com o uniforme branco que remetia a Mario Jorge Lobo Zagallo em sua última passagem como técnico do Brasil.

A impressão de que Dorival sentiu o peso da luta por três pontos vem da sua escalação e, especialmente, da demora em mudar o seu time diante de uma equipe jovem - o que traz a imprevisibilidade para campo - mas extremamente sem forças para atacar e assustar o gol de Alisson.

É justo que Dorival tenha o seu time e esquema preferido com dois (bons) volantes, como são Bruno Guimarães e João Gomes, e é justo que tente dar conjunto a este time e inicie uma competição com o que julga ser o melhor à sua disposição. Assim como é justo que ele entenda que Raphinha é hoje melhor para o time que Endrick ou Savinho. Mas também é justo discordar dele.

A forma como a partida diante dos costa-riquenhos se desenhou pedia um time um pouco mais solto, menos travado e abrindo mão da atenção defensiva de dois volantes. Não era nenhum absurdo ter um meio de campo com Bruno Guimarães, Andreas Pereira e Lucas Paquetá. Tanto Andreas, quanto Paquetá, reúnem condições de marcar sem a bola e dar qualidade quando a têm. São meias que já atuaram como segundos volantes, por exemplo, e que gostam de ter o jogo de frente. Podem jogar juntos, podem contribuir sem a bola com um único volante e podem, com a bola, ser muito úteis ao trio de atacantes.

Ao mesmo tempo, qual é o melhor tridente ofensivo? Vini Jr. e Rodrygo são titulares incontestáveis, e surge a dúvida sobre o terceiro nome. O imediatismo pede a entrada de Endrick, o que deslocaria Rodrygo - um falso 9 na formação inicial - para a ponta direita, onde atualmente está Raphinha, com a forte sombra de Savinho.

Para além das escolhas individuais e pensando muito mais nas características de cada jogador e no momento da seleção, meu titular hoje seria o Endrick. Por ser um centroavante, simplificaria o esquema, apesar de obrigar Rodrygo a seguir atuando pela direita, enquanto Vini Jr ocupa a ponta esquerda. Ao mesmo tempo, porém, Paquetá pode inverter essa posição com o camisa 10, jogando o atacante para perto de Endrick, por dentro e com Andreas armando o jogo, resguardado por Bruno Guimarães.

No melhor estilo nostálgico, Bruno Guimarães seria o 5; Andreas, o 8; Paquetá, o 10; Rodrygo, o 7; Endrick, o 9; e Vini Jr, o 11. Esta seria a minha formação para o confronto com o Paraguai, outra equipe que deve se fechar com os 11 atrás da linha da bola, na expectativa de encontrar, em um lance, a chance de marcar e se segurar ainda mais.

Pensando em classificação - e consequentemente na continuidade do trabalho do treinador -, a vitória é fundamental!

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

PORTUGAL - O altruísmo, a sorte e o domínio absoluto

 Texto originalmente publicado no Netlusa

CASA PORTUGUESA A alegria está na riqueza de dar e
ficar contente (Federação Portuguesa de Futebol)
 

Já está! O primeiro dos objetivos de Portugal no Euro foi atingido já na segunda jornada do Grupo F, com a vitória por um insuspeito 3 a 0 contra uma tão perigosa quanto inocente Turquia.

Se a passividade vista na estreia ligava as luzes de alerta, a concentração para não cair na esparrela das respostas fáceis notou-se quando o onze de Portugal foi anunciado. Por muito menos, revoluções já foram promovidas depois de uma partida mal conseguida, mas a atuação cinzenta em Leipzig esteve mais ligada à abordagem ao jogo do que problemas técnicos ou exibicionais. Roberto Martinez trocou somente Diogo Dalot por João Palhinha, que era o que o jogo com os turcos, ricos de talento no setor de criação, exigia.

Assim, o trio de centrais que se esfumaçou às condições com o tchecos não retornou sequer em eventuais descidas de Palhinha ou encaixes de Nuno Mendes. Pelo contrário, uma clara e sólida linha de quatro defensores foi formada com João Cancelo e Nuno Mendes nas laterais e os habituais Pepe e Rubén Dias ao centro.

À frente, eram protegidos pelo médio-centro-limpa-trilhos que deve deixar o Fulham e pelo multifuncional Vitinha, novamente soberbo em campo. Livre das amarras da cabeça-de-área; o ataque, também municiado por Bruno Fernandes, se manteve com o trio da estreia: Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.

Diversos comentadores pediam Palhinha, mas queriam que Bernardo e Leão dessem lugar a Chico Conceição e Diogo Jota, como se as condições da primeira partida se repetissem. Não existem jogos iguais e as características do jogo da Turquia indicava dificuldades – e oportunidades – diferentes. Se os tchecos eram praticamente herméticos e mal se aventuravam no ataque, os turcos podiam até ter jogadores de qualidade inquestionável, mas nunca foi um time confiável defensivamente – já o mostrara na estreia.

Do lado turco, o italiano Vincenzo Montella poupou o ótimo Arda Guler, apoquentado por problemas físicos, mas ainda assim havia quem espalhasse perfume no Signal Iduna Park, casa do Borussia Dortmund e da temida Muralha Amarela, tingida de vermelho e branco numa proporção 4x1 em que as vozes portuguesas mal eram ouvidas.

Com Kökçü, Çalhanoglu e Aktürkoglu capazes de causar problemas, a presença de Palhinha foi essencial para impedir que a bola chegasse aos pés de Yilmaz, bem vigiado pelos centrais. Pepe, a cada lance, dava uma aula de vitalidade, posicionamento e liderança em campo. O lance, já no segundo tempo, em que desarma um abusado Arda Guler, como a dizer “tens muito o que aprender, miúdo, fez levantar o estádio em reverência à lenda brasileira que chegou a Portugal e teve que optar entre comprar uma sandes ou ligar para a mãe.

Na frente, Rafael Leão se aproveitava da companhia de Nuno Mendes para causar dores de cabeça a Çelik. O primeiro gol português nasce de uma jogada deles, em que o lateral do PSG foi ao fundo e procurou Cristiano Ronaldo, mas o desvio no pé de Kökçü levou a bola a Bernardo Silva, que bateu com gosto, com curva, com a alegria de quem marcou seu primeiro gol em fases finais de competições.

Lembram-se da sorte da estreia? João Cancelo roubou a bola no meio e deu um passe completamente disparatado para Cristiano, que desatou a ralhar. A câmera fechou no lateral e só abriu depois de que o sorriso repentino do português denunciou a trapalhada de Akaydin, que desrespeitou um dos princípios básicos do jogo: não se deve atrasar a bola ao goleiro na direção do gol. Mais que isso, recuou no contrapé, e um eventual mal-estar acabou na comemoração do insólito gol que basicamente definiu o jogo ainda antes dos 30 minutos.

A partir daí, Portugal empilhou chances de ampliar, mas viu Rafael Leão simular uma falta e receber o segundo cartão amarelo na prova, e pelo mesmo motivo. Palhinha, um dos responsáveis pela exibição em grande de toda a equipe, também foi advertido e, para não correr o risco de recolocar a Turquia no jogo, Roberto Martinez deixou ambos no balneário e voltou para a segunda parte com Pedro Neto e Rúben Neves. Havia quem esperasse Diogo Jota ou mesmo Francisco Conceição, mas o treinador quis manter o sistema com um jogador que abrisse o jogo e desse espaço para o jogo interior de Nuno Mendes, que pode ter feito sua melhor partida pela equipa nacional.

Com os turcos entregues, exceto por um ou outro fogachinho no ataque, Portugal usou o segundo tempo para gerir a partida. Logo no décimo minuto, um lance que pode marcar uma nova era: antes, a paciente troca de passes de um lado para outro do campo com o objetivo de criar espaços e desorganizações defensivas, com Nuno Mendes a buscar Bernardo Silva e este a acionar Rúben Neves, o homem dos passes teleguiados, que encontrou Cristiano Ronaldo livre, somente com o goleiro Bayindir para tentar evitar que escrevesse seu nome pela sexta vez na lista de goleadores em que já é o líder com folga, mas Bruno Fernandes estava livre ao seu lado para receber o passe do solidário CR7.

A partir daí, a missão portuguesa passou a ser fazer de Cristiano um dos goleadores do dia, ao passo que aos turcos coube tentar evitar. Assim, o jogo perdeu algum fulgor, mas serviu para demonstrar que Pepe, aos 41 anos, é um dos melhores zagueiros do mundo e que o Porto cometerá um erro terrível se não prolongar por mais um ano o vínculo com este monumento de jogador.

Com seis pontos e a liderança do Grupo F garantida, Roberto Martinez deverá usar o jogo com a Geórgia para dar minutos a quem não teve e descansar algumas pernas. É mister, porém, notar que entre o jogo de ontem e as oitavas, vão nove dias, tempo suficiente para perder ritmo de jogo. Uma revolução no onze é perigosa, pois.

O adversário dos oitavos-de-finais será um dos terceiros colocados dos grupos A, B ou C, e só o saberemos ao final da primeira fase.

_________________________________________________________________

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Foi tão bem com os pés que usou um deles para defender a única investida no alvo dos turcos;
João Cancelo: Mais uma atuação dessas e é capaz de o Guardiola pedir desculpas e chamar de volta. Façamos votos para que estejas assim até 15 de julho (Nelson Semedo: façamos assim: o Cancelo joga 60 e tu, os outros 30. E todos ficam felizes pra caraças);
Rúben Dias: “Eu é que não vou perder a vaga para este miúdo do Sporting”, terá pensado o Rúben. Segue assim, ao mais alto nível, e é capaz de seres o capitão quando o Cristiano se retirar, depois de ser o primeiro acima de 50 anos a jogar a fase final de uma grande competição;
Pepe: Foi visto no vestiário adversário devolvendo os 16 turcos que estavam no bolso ao fim do jogo porque eles ainda jogam com os tchecos (António Silva: Poderá dizer aos netos que substituiu o maior zagueiro da história do futebol português);
Nuno Mendes: O Nuno Alexandre Tavares Mendes é o único Nuno Tavares do mundo que sabe jogar como lateral. E dos bons. E se precisar, ainda é um extremo bem porreiro;
Bruno Fernandes: Não sendo brilhante, esteve ligado ao segundo gol e marcou o terceiro porque estava disponível para receber a prenda do Cristiano;
João Palhinha: Tivesse jogado além do primeiro tempo, teria sido o melhor em campo. Um polvo a esticar os tentáculos por todo o campo – ou algures havia algum turco mal-intencionado com a bola e chance de causar estragos. Quanto não esteve para cobrir, fez a falta tática perfeita que resultou no cartão amarelo (Rúben Neves: Desculpa lá pelas vezes em que disse que a falta de competitividade do Arabão deveria contar para não ser chamado. A capacidade do passe teleguiado não se perde);
Vitinha: Procure um jogador melhor que o Vitinha na Eurocopa e falhe miseravelmente (João Neves: Cinco minutos hoje, seis no próximo jogo, até a final, com alguma sorte, jogas uns 10 minutinhos;
Bernardo Silva: Já prometa ao João Cancelo que, se continuarem assim juntos, voltarás com ele para Manchester. Duvido que o mister Guardiola se oponha;
Cristiano Ronaldo: Este camisola 7 não lembra vagamente aquele outro camisola 7 que só encheu o saco no Qatar? Gostamos mais deste, que fique claro;
Rafael Leão: Já que não vais acertar o passe depois do drible mesmo, que bom que o mister meteu ao seu pé o Nuno Mendes para fazer a parte mais difícil. Mudando de assunto, tens andado a tomar dicas com o Taremi? Que mania do caraças essa de se jogar, pá (Pedro Neto: entrou para manter o desenho tático e a capacidade de errar os passes. Cumpriu à risca);
Roberto Martinez: Se ele se aprofundar na cultura portuguesa, já terá aprendido alguns clássicos, como Casa Portuguesa, que poderá ter cantado que "essa franqueza fica bem e o povo nunca desmente que a alegria da pobreza está na riqueza de dar e ficar contente", quando Cristiano ofertou o golo quase certo a Bruno Fernandes. Espero que ele saiba a Caninha Verde e não caia numa esparrela, caso pense em trocar toda a malta para o próximo jogo. Seja como for, temos um técnico.