domingo, 16 de junho de 2013

A onda e o cheiro do bode

Acho legítimo o direito de promover manifestações. Quaisquer que sejam elas. Independentemente dos motivos. E concordo com a que serviu de gatilho para as demais, que teve como mote não o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, mas a falta de subsídio para o seu barateamento. Só não acontecerá porque envolve os interesses de muita gente graúda (o pessoal de Santo André que o diga).

Sempre fui ácido quanto ao comportamento bovino do brasileiro, que normalmente abaixa a cabeça e aceita tudo o que lhe é imposto, passivamente, a não ser que a questão seja seu time de futebol. Aí, e somente neste caso, o brasileiro se coça.

Eis que, de uma hora para outra, o povo resolveu colocar as mangas de fora, sair para a rua e reclamar como se deve. Claro que existem os mais exaltados. Afinal de contas, não se trata de procissões, mas de manifestações. Também há oportunistas e a molecada que vai só para causar, e é preciso ter cuidado para não virar massa  de manobra de partidos políticos e movimentos sócio-políticos que aderiram à causa, qualquer que seja.

Faixa exibida por manifestantes que questiona as prioridades do governo 
do país sede da Copa do Mundo de 2014. (Dassler Marques/Terra)
No entanto, existe o risco da grita virar "carne de vaca". A molecada se mobiliza e vai pra rua protestar sabe-se lá pelo quê. É o manifesto pelo manifesto. Raso, tende a sumir conforme a onda passar. Será que sairão dos passeios e tomarão o asfalto para voltar a lutar pela causa indígena na demarcação de sua terras? Honestamente eu duvido.

Agora tomam as ruas por causa dos gastos para a Copa do Mundo e a das Confederações. Chiam por conta da falta de investimentos em saúde e educação, como se isso fosse novidade. Só que foi decidido em 2007 que o Brasil seria sede do Mundial de 2014 e, por conseguinte, da Copa das Confederações de 2013, e ninguém falou nada. Em vez disso, fizeram festa, regada a muito dinheiro público e apoio da Globo, dona dos direitos de transmissão (e da alma de muitos).

SEIS ANOS DE ATRASO Protesto contra a realização da
 Copa do Mundo no Brasil
 (Evelson de Freitas/AE)
O ex-jogador Ronaldo saiu em defesa da FIFA, alegando que o brasileiro estaria interessado na festa e não se importaria com o atraso das obras e com o consequente estouro orçamentário. Como ele é blindado pela boa vontade do torcedor, as bobagens que tem dito não repercutem como deveriam.

Parece até que dormimos sem a Copa e acordamos assustados com o bode na sala. Só que ele tá aí faz tempo, e fede. Nós é que não nos incomodamos com o cheiro antes.


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