terça-feira, 23 de julho de 2013

O céu chorou


O céu chorou durante todo o dia frio. Como o prenúncio de uma notícia que todos temiam dar e ninguém queria ouvir. Morreu Djalma Santos. E pensar que, pouco mais de uma semana antes, a sua esposa, dona Esmeralda, anunciava no programa do jornalista Milton Neves a melhora do estado de saúde do seu Dejalma.

Sim, o seu Dejalma, mas, para nós, era Djalma. Que começou Santos, na Portuguesa, onde iniciou a carreira em 1948, mas que virou Djalma por causa de outro Santos, o Nilton, do Botafogo do Rio. Era o centro-médio do time, mas foi para a lateral-direita para dar lugar na equipe a outra lenda do futebol mundial, Brandãozinho, que acabara de chegar da Portuguesa Santista como a maior transação do futebol nacional até então.



E como fez bem para ele, a mudança. Pela lateral, tornou-se não só o maior jogador da história da Lusa, como transformou-se no melhor lateral-direito da história do futebol mundial. Reinou absoluto com a camisa rubro-verde entre 1948 e 59, nas 434 partidas em que defendeu o time da Cruz de Avis, anotando 33 gols e conquistando o Torneio Rio-São Paulo em 1952 e 1955. Já havia ganhado o mundo na Copa de 1958, quando apenas uma partida foi suficiente para ser eleito o melhor da posição naquele mundial que marcou a primeira conquista mundial da Seleção Brasileira.

Antes, já havia jogado a Copa de 54, quando marcou, de pênalti, contra a poderosa Hungria de Puskas, Kocsis, Szibor e Kubala, o segundo gol na Batalha de Berna, vencida pelos magiares por 4 a 2. Todos esses feitos de Santos, já Djalma, foram alcançados representando a Portuguesa na Seleção Canarinho, por quem atuou em 111 vezes, com 11 gols marcados. A partir da década de 1960, foi brilhar com a camisa do Palmeiras, onde passou mais dez anos, conquistando ainda o bi-campeonato do mundo em 1962.

Já consagrado como o maior de todos os camisas dois, foi o único brasileiro a integrar a Seleção da FIFA que, em 1963, enfrentou a Inglaterra em Wembley. Entre 1968 e 72, ainda encontrou fôlego para defender o Atlético Paranaense. Antes, fez parte do grupo que sucumbiu na Copa de 1966, na mesma Inglaterra, mas seu nome já estava escrito com letras de ouro na história do esporte bretão.



Que ironia! Justo ele, a quem o fôlego nunca faltou, foi aplacado por uma pneumonia, que o manteve internado desde o primeiro dia de julho, até que, 22 dias depois, o mundo ficou triste e o céu chorou. Morreu Djalma Santos.  

segunda-feira, 22 de julho de 2013

À sua porta

Meu coração está batendo à sua porta, mas você não vem abrir. Lembro-me que, não faz muito tempo, nem era preciso bater. Sempre que ele se aproximava, você vinha correndo e deixava a porta aberta. Afinal, já sabia que não tinha outro motivo para passar, senão te visitar.

De uns tempos pra cá, porém, você mudou. Ouvia o toc-toc na sua porta, mas não abria. Às vezes, dizia que estava ocupada; em outras, não quis abrir, e eu notei. Agora nem ouve mais. Deve estar tão acostumada com o som, com o tilintar do senhor-dos-ventos que acusa sua chegada, que nem percebe as batidas misturadas ao som ambiente.

Acho que este é o problema. Você o teve a sua disposição por tanto tempo que não dá mais importância para isso. É como uma roupa esquecida no fundo da gaveta. Quando estiver com muito frio, a encontrará e talvez queira usar. Se não quiser, deixará lá, esquecida, como está. A diferença é que uma blusa não sente. Um coração, sim. O meu também.

Mesmo assim, ele permanece aqui, ao pé da sua soleira, esperando por qualquer vestígio de atenção. E você sabe disso. E é isso o que mais dói. Como se fosse um cãozinho ao pé da mesa, que espera cair uma migalha do seu carinho. Qualquer uma. É uma condição estranha, pois é com elas que ele se alimenta, e é por causa delas que ele está morrendo. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A majestade do Majestoso

Por Vinicius Carrilho*
Imagem: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Lento, Morto Muito Louco, Iceman... Estes são apenas alguns apelidos que Danilo ganhou ao longo de sua carreira. Seu jeito introvertido, somado ao seu estilo de jogo cadenciado, fizeram muitos torcedores perderem a paciência com ele, o acusando de sumir nas partidas. Porém, seu poder em decisões fazia com que todos esquecessem os nomes mais maldosos e se unissem em apenas um codinome: Zidanilo.

Mineiro de São Gotardo, o meio-campista - ao melhor estilo mineirinho- fez o que poucos conseguiram: agradar as torcidas de São Paulo e Corinthians. Somando as conquistas pelos dois clubes, Danilo tem em sua estante nove taças, sendo cinco pelo alvinegro e quatro pelo tricolor. Porém, o jogador costuma se destaca mesmo é no confronto direto entre as equipes.

Ao todo, o jogador disputou 19 vezes o chamado “Clássico Majestoso”, saindo como vencedor em 11 oportunidades. Decisivo, balançou as redes oito vezes, sendo cinco pelo Corinthians e três pelo São Paulo.

Sua estreia no confronto aconteceu pelo Campeonato Paulista de 2004, atuando no São Paulo. O primeiro gol ocorreu no campeonato estadual seguinte. Dali em diante, Danilo disputou mais cinco partidas pelo Tricolor, marcando dois gols. Sua passagem pelo Morumbi durou de 2004 até 2006.
AGENTE DUPLO Danilo comemora gol no Majestoso,
em 2004. Foram oito em 19 clássicos
Após se aventurar no futebol japonês, o meio-campista retornou ao Brasil, em 2009, para jogar pelo Corinthians. Seu primeiro Majestoso pelo lado alvinegro aconteceu no Paulista de 2010 e o jogador já deixou sua marca. De lá até agora, mais 11 jogos contaram com a presença do jogador no lado corintiano e ele balançou as redes do tricolor em quatro oportunidades.

Com 34 anos, Danilo sabe que o fim de sua carreira se aproxima. Consagrado, o atleta curiosamente não tem nenhuma convocação para a Seleção Brasileira, porém possui em seu currículo algo até mais difícil do que o selecionado nacional: conseguir agradar aficionados de dois clubes rivais. Seu estilo de jogo - semelhante ao dos grandes craques, onde quem corre é a bola - ainda deve o render mais alguns anos no futebol e ele continuará brilhando, sendo decisivo e se consolidando como a grande majestade do Majestoso.

Números do meio-campista Danilo no Majestoso:
Jogos: 19 (12 pelo Corinthians / 7 pelo São Paulo);
Gols: 8 (5 pelo Corinthians / 3 pelo São Paulo);
Vitórias: 11 (7 pelo Corinthians/ 4 pelo São Paulo);
Derrotas: 3 (todas pelo Corinthians);
Empates: 5 (3 pelo São Paulo/ 2 pelo Corinthians);
Média de gols: 0,4 por jogo.


* Vinicius Carrilho tem 22 anos, é jornalista, 
morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida 
fazendo humor, mas escreve melhor do que conta piadas.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Problema financeiro atrapalha o Vasco da Gama - Se eu fosse técnico, assumiria o clube?

por Fábio Preccaro*
É inquestionável que o atual momento do Vasco da Gama não condiz com a sua grandeza. Problemas financeiros seríssimos, que acabam forçando a direção a buscar jogadores baratos, deixaram o elenco fraco para a disputa da Série A. Se tinha um nome no qual você poderia pensar "esse pode dar jeito no time", ERA o do técnico Paulo Autuori.

Com os atrasos de salário e o interesse público do São Paulo em contratá-lo, o comandante decidiu deixar o clube. Nos últimos dias, o presidente Roberto Dinamite havia prometido que não haveria mais atrasos de ordem financeira (leia-se salários) no time da Colina. Mera promessa impossível de cumprir. O salário atrasou de novo e o treinador pegou o boné e vazou (defendo a atitude de Autuori).

Sem comandante, Dinamite e o diretor de futebol Ricardo Gomes cogitam a volta de Dorival Júnior, que teve uma passagem de sucesso pelo clube e que foi demitido do Flamengo em março por conta de seu alto salário - comentava-se que seus vencimentos giravam em torno de R$ 700 mil mensais (Que irônico!!!).

Claro que, se confirmada a chegada de Dorival, ele não receberá nem metade disso. Porém, a situação em nada mudará, haja vista que as contas continuarão chegando, o dinheiro continuará minguado e os atrasos continuarão se repetindo...

Com esses problemas do Vasco (que começaram há um bom tempo...), comecei a pensar em possíveis motivações para algum treinador assumir o clube. Não cheguei a muitas conclusões. Mas vamos lá:

Se eu fosse um treinador renomado, extremamente vitorioso, como Muricy Ramalho, Tite ou Felipão, recusaria o trabalho na hora. Minha situação financeira estaria melhor que a do Eike Batista, sofreria pressão de clube grande, mas com um elenco fraco e desmotivado pelos atrasos, além da desorganização do clube (quantas vezes Roberto Dinamite é bombardeado e Eurico Miranda cogita voltar ao poder?).

Caso fosse um técnico respeitado (ou com alguns trabalhos bons nos últimos anos), mas que ainda busca cravar o nome entre os melhores treinadores do momento, como Gilson Kleina, Dorival Júnior e Celso Roth. Se estivesse nessa classe, só aceitaria trabalhar NESTE Vasco da Gama se eu quisesse ficar sob os holofotes do futebol. Pegar um clube dessa grandeza recoloca seu nome na mídia e, mesmo não indo tão bem, nas mesas de outros dirigentes.

Caso ainda fosse um treinador novo no mercado ou que já tivesse feito algum bom trabalho e agora amargasse um time da Série B ou o desemprego há algum tempo, entraria em contato com o clube neste segundo (sem trocadilhos com o time da Colina). Colocar “Vasco da Gama” no currículo ajuda qualquer um.

Além de ser uma opção interessante, já que não teria um salário alto, um técnico deste nível saberia muito bem trabalhar com time um que passa por dificuldades. Nessa classe pensei em Sérgio Guedes e Márcio Bittencourt.

Claaaaro que, para se encaixar nisso que escrevi, não adianta chegar, ficar cinco ou seis jogos e ser demitido. É preciso se manter fora da zona do descenso e conquistar resultados interessantes, como vencer algum time de ponta fora de casa, e ir bem nos clássicos. Isso dá moral e crédito com a torcida, que muitas vezes é a culpada por demitir e contratar técnicos, vide o São Paulo com Ney Franco e a possível e remota volta de MR ranzinza.

*Fábio Preccaro tem 22 anos, é estudante de Jornalismo,
é fã do futebol do Velho Continente, dos Raimundos,
do Bad Religion e da Luíza.

sábado, 6 de julho de 2013

Ele voltou inspirado


                  Valdívia teve ótima atuação em campo (Foto: Célio Messias/LANCE!Press)

Um placar elástico, 4 a 0, e a permanência no G4 com 15 pontos, mas o que chamou a atenção mesmo foi a atuação do Valdívia na partida diante do Oeste, pela sétima rodada da série B do Campeonato Brasileiro.

Sim, caros leitores, o chileno voltou aos gramados após 114 dias afastado por inúmeras lesões e mostrou que está disposto a reconquistar a confiança da torcida palmeirense e voltar a ter boas atuações em campo como hoje: teve participação direta nos três primeiros gols,  só faltou marcar o dele para fechar com chave de ouro a sua volta as quatro linhas.

Apesar do esquema montado pelo técnico do Oeste, Roberto Cavalo, de fazer uma linha de cinco jogadores no meio de campo e a outra de três no ataque, marcando sobre pressão, Gilson Kleina apostou mesmo no meia armando a equipe e distribuindo as jogadas para a equipe alviverde fugir da forte marcação que a equipe do interior paulista estava disposta a fazer.

Só para não perder a carruagem do resultado do jogo, o atacante Leandro e o volante Charles foram quem balançaram as redes, duas vezes cada. Pois bem, a grande dúvida daqui para frente será na continuidade de Valdívia nos gramados ajudando a equipe paulista. Todo mundo sabe o histórico de lesões do jogador, que o mesmo não consegue ter sequência e vinha sendo um peso morto no elenco.

Gilson Kleina sempre deixou claro que contaria sim com o chileno para as competições que o Palmeiras disputa esse ano, apesar de sondagens de clubes da Arábia no jogador. De fato o meia é o grande nome do elenco, principalmente para levar o clube de volta a elite do estadual, e apesar de não ser craque, é bom jogador e tem o seu diferencial (e não estou falando do chute no vaco,  que não é nada de mais).

Os torcedores presentes em Presidente Prudente certamente saíram animados com a atuação do “El Mago”, tanto que o aplaudiram, e muito, quando foi substituído por Mendieta. Essa pausa na competição por causa da Copa das Confederações fez bem para o chileno recuperar-se da lesão e ter ritmo de jogo durante os jogos-treinos realizados na Academia de Futebol. Espera-se daqui para frente um Valdívia mais comprometido em ajudar a Sociedade Esportiva Palmeiras com a principal meta: volta para a Série A do Brasileirão.

domingo, 30 de junho de 2013

Touradas do Maraca

Thiago Silva faz gesto perpetuado por Bellini (Flavio Florido/UOL)
No dia 13 de julho de 1950, o Brasil goleou a Espanha por 6 a 1, pela Copa do Mundo de 1950. Naquela tarde, no Maracanã, 152.772 torcedores cantaram a música Touradas de Madri, de Braguinha, que era uma marchinha de Carnaval de muito sucesso naqueles dias. Mais de 60 anos depois, no mesmo Mário Filho, o Brasil toureou a mesma Espanha, que desta vez chegou ao país do futebol com a alcunha de maior seleção do mundo (e uma das maiores da história).

Para conseguir aplacar o poderoso adversário, a seleção de Scolari teve que ser humilde, renunciar ao seu futebol e jogar de acordo com as características da Fúria. A proposta era adiantar a marcação, pressionar de forma alucinante a saída de bola espanhola, agredir sem parar e recompor a marcação com rapidez quando perdesse a bola, evitando que ela chegasse limpa aos pés pensantes de Xavi e Iniesta, os já míticos responsáveis pela construção de jogadas do time do também lendário Del Bosque.

O volante Paulinho, de futebol vistoso e vertical, foi o volante-volante que Felipão tanto aprecia e se doou pelo time. Hulk, tão criticado pelo torcedor e principalmente por parte da imprensa, que clamava por Lucas, jogou em cima de Jordi Alba, anulando a principal jogada de desafogo da Espanha e, de quebra, ainda abriu campo para Daniel Alves fazer uma de suas melhores partidas pela Seleção. David Luiz, visto como um dos pontos fracos da equipe, fez uma partida perfeita, e só não foi o Man Of The Match porque Fred decidiu, como se espera de um nove, e Neymar mais uma vez foi soberbo.

Fred comemora. Cinco vezes em cinco jogos (Christophe Simon/AFP)
Claro que seria humanamente impossível empreender este ritmo durante os 90 minutos, mas o gol de Fred, deitado, chorado, antes da segunda volta do ponteiro, facilitou todo o trabalho do time canarinho. A Espanha, nervosa como poucas vezes se viu, esbarrava na marcação e apelava para a ligação direta da defesa para o ataque, abrindo mão da articulação no meio, o que fez com que se tornasse, naqueles instantes, um time trivial, comum.

Quando conseguiu colocar a bola no chão, quase empatou com Pedro, que entrou livre e tocou na saída de Julio César, mas, quase sobre a linha do gol, um monumental David Luiz surgiu do nada e desfez o gol certo, que valeu como um gol. Ainda mais porque, logo na jogada seguinte, Neymar marcou o segundo, numa bordoada de canhota (seu pé menos bom), cruzada, sobre um atônito Casillas.

Os gigantes David Luiz e Luiz Gustavo: campeões (Marcos Brindicci/Reuters)
Assim que a bola rolou na segunda etapa, o filme se repetiu com o avançado Fred marcando o terceiro e fechando o caixão espanhol, também aos dois minutos. E poderia ter sido mais, se Marcelo, que fez uma Copa das Confederações impecável, tivesse visto Fred livre, na pequena área, esperando o passe que não veio. A partir dali, bastou inverter os papéis e tocar a bola sob o incessante "olé", vindo das arquibancadas, que não cantaram o parara tchimbum das Touradas de Madri, como os mais de 150 mil de 1950, mas viram a camisa mais pesada do mundo jogar, se não sua melhor partida, um jogo para recolocar de vez o Brasil no caminho da reconquista do mundo.

sábado, 29 de junho de 2013

Quem leva?

Neste domingo, Brasil e Espanha fazem a final da Copa das Confederações no novo Maracanã. Em campo, duas seleções com história pra contar e vivendo momentos distintos. Em que pese a falta de importância histórica do torneio, não será uma decisão qualquer. 

O Brasil, em franca ascensão, vive seu melhor momento desde a Copa da África do Sul. Felipão parece ter encontrado uma forma de explorar o futebol de Paulinho, o melhor jogador da competição, ao menos até a disputa da final. Neymar, que ainda não rendeu o que pode, tem sido decisivo. Nada mal para quem chegou ao certame com o peso da desconfiança sob os ombros.

Nas meias-finais, diante dos uruguaios, o escrete canarinho conquistou seu resultado mais expressivo, e olha que antes já havia superado a Itália. Não é pouco. Foi um jogaço, e o êxito foi conquistado nos minutos finais, garantindo aproveitamento de quatro vitórias em quatro jogos.

Paulinho garante vitória diante do Uruguai (Nelson Almeida/AFP)
A Espanha, por sua vez, tem jogado a conta para vencer seus adversários. Foi soberba diante do encolhido e valente Uruguai, que vendeu cara demais a derrota para o Brasil. Aplicou dez gols, com o time reserva, no inexplicável Taiti, e teve problemas para superar a Nigéria, sobretudo por conta da pouca pontaria do avançado Soldado. 

Contra a Itália, avançou após um dos jogos mais difíceis desde que tomou para si o cetro do futebol mundial. Enfrentou um time que, além de povoar o meio de campo espanhol, seu nascedouro de jogadas, ainda criou várias hipóteses de golo e graças a atuação impecável do enorme Casillas, além da falta de um centroavante competente (leia-se Balotelli), não pos termo à invencibilidade de mais de três anos da Fúria em jogos oficiais.

O alívio após a vitória nas grandes penalidades (Paulo Whitaker/Reuters)
A campanha perfeita do Brasil, no entanto, esconde problemas. David Luiz tem falhado em todos os jogos, sistematicamente, e outro erro pode ser fatal contra a Fúria. Marcelo é uma bomba-relógio com o visor tampado, que pode explodir a qualquer momento, e Luiz Gustavo ainda não viu a cartolina encarnada graças à conivência dos árbitros.

Para chegar à quarta decisão seguida, a Fúria também apresentou problemas, e com suas maiores estrelas. Xavi não tem mais o mesmo vigor de outrora e Iniesta foi burocrático. Sem contar um defeito que parece crônico: a falta de um goleador confiável. Torres não emplaca desde que foi para o futebol inglês e Villa, maior artilheiro da Seleção Espanhola, não retomou o ritmo de antes da fratura do Mundial de Clubes de 2011. 

É um panorama muito parecido com o visto na Eurocopa, quando a Fúria chegou claudicante à final, após uma semi-final suada, diante de Portugal, e também vencida nas grandes penalidades. Na decisão, Xavi jogou tudo o que não jogara nas partidas anteriores (como Iniesta nesta Copa das Confederações) e o time de Del Bosque deitou por terra todas as críticas, dúvidas e questionamentos com uma aula de futebol sobre a Squadra Azzurra. 

Exceto Portugal, naquela ocasião, e Itália, agora, ninguém conseguiu emparelhar o jogo espanhol. E isso foi feito graças à diminuição de espaços e a sufocante marcação no meio. Só que é praticamente impossível exercer essa marcação durante o jogo todo, ainda mais sem disciplina e organização tática, coisas que o Brasil não tem e não se aprende de uma hora pra outra. 

O rótulo de favorita só não estará estampado na testa dos espanhóis porque, do outro lado, está a camisa mais pesada do futebol mundial, comandada por um treinador afeito a este tipo de partida. Será épico ver o encontro da seleção mais vitoriosa de todos os tempos com a mais vencedora dos últimos tempos. 

Desse jeito não dá, "profexô"

Se esse cidadão não foi craque dentro das quatro linhas como lateral-esquerdo defendendo grandes clubes do Brasil, como Flamengo, Internacional e Botafogo, como treinador a história é muito diferente. Largou o futebol precocemente, devido a uma contusão, em 1980.

Formou-se em Educação Física no Rio de Janeiro. Em 1983 resolveu ficar fora das quatro linhas, só que na beira do gramado como treinador do Campo Grande, do Rio de Janeiro. Mas, um convite de um time Capixaba, o Rio Branco, fez com que ele começasse a trilhar a sua história no futebol brasileiro. Resultado: Rio Branco campeão capixaba. Ali tinha um treinador bom de tática e de muita cobrança dentro de campo.

Bom, esse foi o primeiro título dele como treinador. Mas, seria no ano de 1990 que ele ganharia reconhecimento dos apaixonados pelo futebol. Calma, leitores, daqui a pouco eu vou falar o nome dele para aqueles que ainda não descobriram. Enfim, foi nos anos 90 que esse cara ficou conhecido no futebol nacional. Títulos inéditos com o Bragantino: Série B do Campeonato Brasileiro em 1989 e Campeonato Paulista no ano seguinte.

Dali em diante, ele se tornaria o principal treinador brasileiro da época. Por quê? Bom, conquistou seu primeiro título em um clube de destaque em 1993, no estadual, treinando o Palmeiras. Aliás, o titulo que tirou o clube alviverde de uma secura grandiosa, 16 anos sem conquistas. Luxemburgo já havia entrado para a história do Palmeiras. Mas calma, não acabou. No mesmo ano, título do extinto Torneio Rio-São Paulo e do Campeonato Brasileiro.  Em 94, novamente campeão paulista e brasileiro. Nome: Vanderlei Luxemburgo. Status: melhor técnico do Brasil.

Sua segunda passagem pelo Palmeiras não seria diferente. Em 1996, Luxemburgo levou o elenco a mais um título paulista. Para quem não se lembra, esse estadual ficou marcado pelos mais de 100 gols anotados pela equipe alviverde. Já em 1997, Vanderlei Luxemburgo trocou o Palmeiras pelo Santos e conseguiu mais um título Rio-São Paulo para a caderneta.

Vanderlei Luxemburgo chamava a atenção pela sua eficiência em organizar taticamente a equipe, fazer substituições certeiras, que faziam a diferença na partida e que mudavam o placar do jogo. Pois bem, agora que todos sabem como foi o inicio de carreira desse treinador, serei breve nos outros títulos conquistados pelo mesmo: Corinthians – Campeonato Brasileiro (1998), Campeonato Paulista (2001); Seleção Brasileira – Copa América (1999) - o primeiro ápice na carreira de Vanderlei Luxemburgo; Cruzeiro – Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro (2003); Santos – Campeonato Brasileiro (2004), Campeonato Paulista (2006 e 2007); Palmeiras – Campeonato Paulista (2008); Atlético Mineiro – Campeonato Mineiro (2010) e Flamengo -  Campeonato Carioca (2011).

Contudo, parece que a trajetória no futebol não vem fazendo a diferença para o “profexô”, afinal, por onde tem passado nos últimos anos, vem tendo problemas com elenco e diretoria. Não tem sido feliz em organizações táticas, substituições eficazes e sempre bate boca com profissionais da imprensa. Está virando apenas um treinador com um vasto currículo,  mas que está perdendo toda a sua credibilidade. Não à toa, hoje foi demitido de mais um clube, o Grêmio, uniformizado e pronto para treinar os jogadores. Motivo: desgaste entre diretoria e treinador, segundo o presidente do Grêmio, Fabio Koff.

                            Luxemburgo é demitido mais uma vez (Foto: Ricardo Rímoli/LANCE!Press)

Novos treinadores estão surgindo com táticas que vêm fazendo a diferença, Luxemburgo parece ter ficado para trás, não vem fazendo nada de diferente. E nós, amantes do futebol, sabemos que o futebol não para, vem um jogador ou treinador diferente e disposto a fazer história a cada ano. Ah! Eu comentei sobre o primeiro ápice de Vanderlei Luxemburgo, o segundo foi treinar o Real Madri, em 2005. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cinco títulos mundiais em campo

Uma final que foi antecipada. Assim é vista a semifinal de hoje entre Espanha e Itália pela Copa das Confederações, no estádio do Castelão. Quem não se lembra da memorável final da Eurocopa no ano passado entre estas duas seleções?

Dizer que a Itália bloqueou o esquema tático usado pela Espanha nesse jogo seria mentira, até porque foram os espanhóis quem deitaram e rolaram para cima dos italianos. Com o seu fascinante, mas às vezes enjoativo, toque de bola, os jogadores da Fúria chegavam com facilidade e quando queriam ao gol de Buffon, não à toa a Espanha conquistou seu segundo título, ganhando por 4 a 0.

Pensar que a Squadra Azzurra está mordida com aquela é muito fácil, nenhum jogador gosta de perder. O elenco italiano e o técnico Césare Prandelli devem preocupar-se mais em como parar o meio-campo e o ataque espanhol.

Na partida de estreia no campeonato, o Uruguai foi com uma proposta para cima dos espanhóis errada, montando do meio campo para a defesa uma linha de cinco até seis jogadores e outra de quatro ou cinco jogadores, sempre alternando nesse esquema. Além de não encurtarem o espaço, deixavam buracos na entrada da grande área, e quando conseguiam roubar a bola, não tinham como sair rápido no contra-ataque porque todos os jogadores uruguaios estavam em sua defesa e a Espanha tem uma recomposição defensiva muito rápida.

A Itália tem em sua escola o forte poder de marcação. Uma tentativa de anular o meio de campo espanhol é adiantando o ataque e o meio de campo, usando marcação individual, mas marcação individual mesmo, não dando espaço, consequentemente forçando os defensores espanhóis a darem o famoso chutão. É cansativo? Talvez, mas esse humilde jornalista vê como uma disciplina tática e um meio de brecar Xavi, Iniesta e companhia.

Na parte ofensiva, Pirlo fica encarregado da armação, colocando os companheiros na cara do gol contra os fracos defensores Piquet e Sérgio Ramos e o rápido El Shaarawy costurando os zagueiros.

É incomparável o nível técnico que as duas seleções vivem atualmente, não é história da carochinha que a Espanha é a seleção a ser batida de uns tempos para cá. Ocupa o primeiro lugar no ranking da FIFA e encanta o mundo com o seu poder de envolver o adversário com o toque de bola e posicionamento dos jogadores. Hoje é dia de ver um clássico mundial entre essas duas seleções. Bom para o público, ruim para quem perder a partida.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ainda não acabou

O primeiro passo foi dado: o Executivo fez o "impossível", segundo o governador de São Paulo e o prefeito da capital, que era retroceder no aumento da tarifa. Tarifa, aliás, que o próprio Haddad, então um candidato "desconhecido" e que tinha como maior capital político o apoio do ex-presidente Lula, usou como maior bandeira de campanha ao prometer que não aumentaria.

Agora, que o objetivo foi alcançado, é necessário fiscalizar, de verdade, para saber de onde vai sair o dinheiro para que seja viabilizada a manutenção do preço, que já é alto. Ou alguém acha que os empresários do setor de transportes vão arcar com os custos?

Em todo caso, outras demandas urgem e merecem que os protestos prossigam: a saúde pública, que só não está na UTI por falta de vaga, a educação, esteio de qualquer Nação que quer ter futuro (o Japão pós-guerra foi reerguido tendo a educação como base), a PEC 37, de autoria do deputado Lourival Mendes (PT do B - MA), que, caso seja aprovada, tirará do Ministério Público o poder de investigar.

Sobre a Copa do Mundo, não adianta espernear sobre os estádios. Já foram construídos e o evento será aqui. O que não quer dizer, no entanto, que a sangria desatada do dinheiro público não deva ser contida. Na última sexta-feira, por exemplo, foi publicado no Diário Oficial da União o Decreto 8.028/13, que garante o pagamento de diárias aos ministros que quiserem assistir aos jogos da Copa das Confederações, assim, na faixa.

A farra também inclui os servidores que os excelentíssimos resolverem levar na nova versão do Trem da Alegria. Ou melhor, ou pior, o Voo da Alegria, já que poderão se deslocar utilizando os jatos da FAB. Ah, a mamata inclui os comandantes das Forças Armadas.

Tá bom ou quer mais? Não quer mais? Mas tem mais! O valor das diárias dos ministros pode chegar a R$581, ao passo que seus servidores preferidos terão os gastos cobertos em até R$406,70. Mas calma, que aqui é como as facas Ginsu: o primeiro parágrafo do decreto determina que o governo possa pagar até o dobro do teto.

Numa conta rápida, se os 39 (TRINTA E NOVE!) titulares das pastas, além dos chefes das  Forças Armadas, resolverem ir às partidas, o governo bancará a bagatela de até R$48.818, por dia, isso sem contar os gastos com os seus asseclas e aspones. Fora as viagens em si, que não são baratas.

Ah, cada ministério será responsável pelo pagamento. Num português escorreito, é você, eleitor/manifestante/contribuinte/otário, principalmente otário, quem vai dar aquela coçada no bolso.

domingo, 16 de junho de 2013

A Fúria não voltou

CENA COMUM Pedro comemora o primeiro gol espanhol (EFE)
Ao fim do jogo de estreia da Espanha na Copa das Confederações, a vitória sobre o Uruguai por 2 a 1, uma frase se espalhou feito fogo em palha seca: a Fúria voltou. Afinal de contas, o time de Vicente Del Bosque, comandado em campo pelo gigante Iniesta, passou como um trator sobre o atual campeão sul-americano, apesar do escore apertado.

Que bobagem! Como é possível dizer isso se os atuais bicampeões europeus e campeões mundiais nunca viraram o fio? Possivelmente, a ideia de que os espanhóis não eram os mesmos deve-se ao fato de o Barcelona ter tido uma temporada ruim, apesar do título nacional com a melhor campanha da história.

HÁBITO Iniesta foi o termômetro da Fúria
 em campo (Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Os detratores do futebol-egoísta-que-quer-a-bola-só-para-si se esqueceram de observar um detalhe: o Barcelona pode ter mudado, a Espanha, não. A máquina catalã de jogar bola sofreu com a queda de rendimento de seu principal jogador, Lionel Messi (muito por causa dos problemas físicos que La Pulga tem sofrido), além da troca do treinador e os problemas de saúde do atual, Tito Vilanova. A seleção espanhola, por sua vez, continua sob o comando do já mítico Del Bosque e, como nunca contou com o craque argentino, não teve nenhuma influência por causa dele.

Ou seja, para desespero do resto do mundo, a melhor seleção do planeta ainda tem lenha para queimar e, de antemão, é a maior favorita ao título não só da Copa das Confederações (que não vale lá muita coisa, mas é o único que falta em sua sala de troféus), como da próxima Copa do Mundo. Não concordam?  Basta ver o confronto entre os campeões da Europa e da América, quando o enredo foi o mesmo que já nos acostumamos a ver: um time tinha a bola e o outro era o Uruguai.
RESIGNAÇÃO Oscar Tabarez, técnico uruguaio, apenas observa
 o passeio da 
Espanha de Del Bosque, ao fundo (AFP)

A onda e o cheiro do bode

Acho legítimo o direito de promover manifestações. Quaisquer que sejam elas. Independentemente dos motivos. E concordo com a que serviu de gatilho para as demais, que teve como mote não o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, mas a falta de subsídio para o seu barateamento. Só não acontecerá porque envolve os interesses de muita gente graúda (o pessoal de Santo André que o diga).

Sempre fui ácido quanto ao comportamento bovino do brasileiro, que normalmente abaixa a cabeça e aceita tudo o que lhe é imposto, passivamente, a não ser que a questão seja seu time de futebol. Aí, e somente neste caso, o brasileiro se coça.

Eis que, de uma hora para outra, o povo resolveu colocar as mangas de fora, sair para a rua e reclamar como se deve. Claro que existem os mais exaltados. Afinal de contas, não se trata de procissões, mas de manifestações. Também há oportunistas e a molecada que vai só para causar, e é preciso ter cuidado para não virar massa  de manobra de partidos políticos e movimentos sócio-políticos que aderiram à causa, qualquer que seja.

Faixa exibida por manifestantes que questiona as prioridades do governo 
do país sede da Copa do Mundo de 2014. (Dassler Marques/Terra)
No entanto, existe o risco da grita virar "carne de vaca". A molecada se mobiliza e vai pra rua protestar sabe-se lá pelo quê. É o manifesto pelo manifesto. Raso, tende a sumir conforme a onda passar. Será que sairão dos passeios e tomarão o asfalto para voltar a lutar pela causa indígena na demarcação de sua terras? Honestamente eu duvido.

Agora tomam as ruas por causa dos gastos para a Copa do Mundo e a das Confederações. Chiam por conta da falta de investimentos em saúde e educação, como se isso fosse novidade. Só que foi decidido em 2007 que o Brasil seria sede do Mundial de 2014 e, por conseguinte, da Copa das Confederações de 2013, e ninguém falou nada. Em vez disso, fizeram festa, regada a muito dinheiro público e apoio da Globo, dona dos direitos de transmissão (e da alma de muitos).

SEIS ANOS DE ATRASO Protesto contra a realização da
 Copa do Mundo no Brasil
 (Evelson de Freitas/AE)
O ex-jogador Ronaldo saiu em defesa da FIFA, alegando que o brasileiro estaria interessado na festa e não se importaria com o atraso das obras e com o consequente estouro orçamentário. Como ele é blindado pela boa vontade do torcedor, as bobagens que tem dito não repercutem como deveriam.

Parece até que dormimos sem a Copa e acordamos assustados com o bode na sala. Só que ele tá aí faz tempo, e fede. Nós é que não nos incomodamos com o cheiro antes.


sábado, 15 de junho de 2013

Mais que vinte centavos

Este blog é contra qualquer manifestação que acabe em violência, independentemente do meio ou motivo. No entanto, o que aconteceu na última quinta-feira, em São Paulo, foge completamente do tolerado até por pessoas como o editor, taxadas de reacionárias, digamos assim, muitas vezes por quem sequer sabe o significado do termo. A pancadaria partiu de quem deveria zelar pela ordem pública, que não estava ameaçada até o momento em que a polícia resolveu agir.

Há muito tempo não se via uma manifestação tão espontânea, que tenha partido da iniciativa popular. Qualquer que seja o motivo, o direito pelo manifesto é sagrado e inalienável. Já passou da hora da grande imprensa perceber que a bandeira foi levantada não por um bando de moleques de classe-média desocupados (mesmo que alguns sejam) por causa de R$ 0,20. É mais que isso.

É pelo dinheiro público jorrando pelo ladrão (e pelos ladrões) para obras e ações de cunho populista, como os estádios para a Copa e tudo o que cerca o evento, enquanto o que deveria ser provido pelo Estado, como saúde, educação e segurança, não encontra o subsídio necessário para tal. Vai ver é porque essas necessidades não nos causam a sensação de bem-estar e, consequentemente, transformam-na em voto.

Quebrar paradigmas, alterar o status quo e subverter a ordem das coisas dá trabalho e, quase sempre, vai de encontro aos interesses de quem é agraciado pelas benesses do que está estabelecido. Basta saber até onde vão essas ações (finalmente) populares. Que continuem sem ideologias ou bandeiras políticas. A única bandeira deve ser a do povo.

sábado, 8 de junho de 2013

Tragam mais milho!

por Vinicius Carrilho*


“Ouvi dizer que este é um país de ladrões. Que Ali Babá se babava de inveja de nós. Quem é que já viu tantos ladrões, alegremente, roubando outros tantos ladrões? Ouvi dizer que aqui se rouba beijo, rouba cena, rouba grana...”.

Os versos iniciais deste texto são os mesmos cantados na música “A baba do Ali Babá”, gravada por Zé Geraldo, um dos grandes cantores deste país, que, talvez por fazer música de extrema qualidade, não tem o reconhecimento que merece. A canção não é nova – bem como as falcatruas feitas por aqui -, mas serve muito bem como tema para os acontecimentos recentes envolvendo os “legados ilegais” construídos para as competições esportivas.

O mais novo caso é o do Estádio Olímpico João Havelange, o popular Engenhão. Seis anos após sua inauguração, descobriu-se que o estádio é frágil como um Galho Seco e precisará passar por reformas que durarão cerca de um ano e meio. Sim, o estádio, construído para os Jogos Pan-Americanos de 2007, que custou cerca de 380 milhões de reais aos cofres públicos, durou menos que seu homenageado (com todo o respeito que o distinto senhor não merece).

Rachadura na cobertura do Engenhão. Estádio custou
R$ 380 milhões
e está interditado (Marcelo Sayão/EFE)
Esse é mais um daqueles fatos que Nem Pink Floyd Explica, mas que infelizmente são corriqueiros por aqui. Engana-se quem pensa que o Engenhão é o único “legado inútil” deixado por essas bandas.

Para o mesmo Pan-Americano foi construído o Velódromo. Orçado em 134 milhões de reais e com pompas de o “melhor e mais moderno do país” - papos corriqueiros do Terceiro Mundo -, o local nunca mais foi utilizado para nenhuma competição e, para encerrar sua história com chave de ouro, acabou demolido não Muitos Janeiros Depois de sua inauguração. A justificativa é simples: as instalações não eram adequadas para a utilização nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Entre os inúmeros problemas, figuram coisas bizarras como número insuficiente de lugares, inclinação inadequada e colunas que bloqueiam a visão de árbitros e público.

BONITINHO, MAS ORDINÁRIO Velódromo foi demolido
por ser construído fora dos padrões
Outro local que vive em obras é o Estádio do Maracanã. Vira e mexe ele  é fechado para a realização das chamadas - Abre Aspas - “obras de modernização” – que, até a última reforma, não haviam resolvido o velho problema do campo de jogo em dias de chuva. A tal “modernização”, neste quesito, nunca foi Nada Além de Um Sonho -. Para a realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2014, o local passou por novas reformas e o custo, sempre de verbas públicas, ultrapassou – e muito – o valor de 1 bilhão de reais.

O interminável Maracanã: estádio novo em folha, mas que precisará ser 
reformado para os Jogos Olímpicos de 2016 (Cristophe Simon/AFP)
Como desgraça pouca é bobagem, no último mês de abril, em um excelente trabalho de reportagem feito por Gabriela Moreira e Eduardo Tironi, da ESPN Brasil, descobriu-se que o “Novo Maracanã” não atende as exigências do Comitê Olímpico e necessitará de novos ajustes para as Olimpíadas. O governo do Rio de Janeiro nega que uma nova reforma irá acontecer, mas, como sabemos, neste país qualquer estrangeiro endinheirado usa a boa e velha tática do Ou Dá ou Desce, e nós, como em uma cena entre O Pastor e o Rebanho, aceitamos tudo.

Maracanã, Velódromo e Engenhão são só alguns capítulos dessa novela, aparentemente eterna, que vivemos neste país. Diante dos fatos, a projeção para o que acontecerá pós Copa do Mundo e Jogos Olímpicos só pode ser a pior possível: a gastança de dinheiro público em inutilidades continuará desenfreada; os bolsos dos poderosos continuarão se enchendo; e o povo continuará aqui, neste Mundo ‘Véio’ Cansado, acreditando em toda aquelas Promessas de um Idiota às Seis da Manhã feitas por quem quer – ou precisa – tapar o sol com a peneira.

A grande verdade é a que o Cidadão, verdadeiro financiador de todas essas obras – e que provavelmente nem perto destes locais irá passar durante os eventos–, continuará passivamente assistindo todo esse Banquete de Hipócritas, enquanto se ocupa em atividades, para muitos, mais importantes, como, por exemplo, dar Milho aos pombos.


Ps: Todas as partes grifadas são nomes de canções gravadas pelo genial Zé Geraldo. Ele, ao contrário de todos os fatos citados no texto, é uma das coisas que o brasileiro deve se orgulhar. 


* Vinicius Carrilho tem 22 anos, é jornalista, 
morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida 
fazendo humor, mas escreve melhor do que conta piadas.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Símbolo de uma geração

* por Fabio Venturini

Luis Fabiano é expulso por reclamação após o fim do jogo no empate
contra o 
Arsenal (ARG). O atacante desfalcaria a equipe por quatro jogos
na Libertadores 
de 2013 (Marcelo Machado de Melo/Foto Arena)

Marcos Teixeira, o editor do Bola de Bigode, provocou-me um dia após a eliminação do São Paulo Futebol Clube na Libertadores de América 2013 a escrever sobre o avançado Luís Fabiano, futebolista muito amado e igualmente contestado nas arquibancadas do Morumbi.

Fui obrigado a aguardar para não deixar a emoção do momento (estava puto mesmo) me induzir a injustiças. Depois de algumas semanas vamos direto ao assunto: o camisa 9 tricolor é sim pipoqueiro e o artilheiro dos gols inúteis. Ponto.

Quem quiser discordar, por favor, relembre um único jogo grande em que Luís Fabiano Clemente foi fundamental para a vitória. Por outro lado poderia mostrar milhões de contusões a lá Valdívia, suspensões estúpidas, expulsões cavadas e apatia associada a icterícia no São Paulo, no Porto, no Sevilla e na Seleção Brasileira.

Juro, torci muito por ele e tentei ser paciente na última década, mas desisti. É o que este rapaz construiu em mais de dez anos de carreira, não apenas em 2013. Mas também devo ser justo: ele é apenas mais um numa geração inteira de pipoqueiros de brilho em partidas inúteis.
 

Contra o River Plate, outra vez após o final do jogo, nova expulsão. 
O jogador não pode bater o pênalti na decisão, e o São Paulo seria
eliminado na Copa Sul-Americana de 2013 (Marcelo Ferrelli/Gazeta Press)


Desde quando a bola se tornou redonda sobre os gramados brasileiros, as gerações de craques se sucederam, conheceram-se e ajudaram os novos talentos que surgiram posteriormente. Leônidas conheceu a geração de 1950, que conheceu Pelé, que conheceu Rivelino, que conheceu Zico, que conheceu Careca, que conheceu Romário, que conheceu Ronaldo, que conheceu Kaká, Robinho, Adriano, Ronaldinho, Diego e Luís Fabiano, que não conseguiram conhecer ninguém.

A um ano da próxima Copa do Mundo, em casa, o mister Luís Felipe precisa remendar um time cujo protagonista é um rapaz tão habilidoso no futebol quanto nos saltos ornamentais, de apenas 21 anos e sem nenhum experiente para dar respaldo, dividir experiência dentro do relvado e chamar a responsabilidade.

Pelé e Garrincha foram para a Copa de 1958 para serem reservas.

Os veteranos, aqueles que seriam o elo de ligação entre Romário, Ronaldo, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos com a geração de Neymar, Oscar, Lucas e Leandro Damião estão todos em uma espécie de aposentadoria ativa sem terem em seus currículos grandes e decisivas atuações. São tão ricos e competitivos quanto Rubens Barrichello.

O único desta geração com poder de decisão, mas que jogou a carreira (de futebol) fora foi Adriano. Os demais têm, no máximo, uma atuação decisiva quando ainda tinham alguma ambição.

Robinho decidiu a final do Brasileirão de 2002, e vive das pedaladas sobre Rogério até hoje.

Kaká foi protagonista em uma partida contra o Manchester United na UEFA Champions League de 2007 e, por ser educado e disciplinado, tem mais reconhecimento pelo título do que os experientes e decisivos Seedorf, Pirlo, Shevchenko, Nesta, Maldini, Dida, Gattuso e Cafu.

Ronaldinho decidiu contra a Inglaterra na Copa de 2002 e nada mais fez nos onze anos seguintes a não ser imitar uma foca com a bola contra adversários pequenos e sumir na hora agá.

Diego decidiu um jogo ganho nas semi do Brasileirão de 2002.

Luís Fabiano, por azar (ou mérito) conseguiu ser inútil em absolutamente todas as decisões que disputou, isso quando o fez, por isso é mais perseguido até pela própria torcida da camisa que defende.

Todos eles saíram brigados dos clubes que os revelaram, cuspindo nos pratos que comeram.

O merecido azar de não possuir no currículo aquele solitário embate que faz seus defensores terem um mísero argumento para apoiar a sua defesa fez com que, injustamente, Luís Fabiano Clemente sofresse sozinho pelo rótulo de pipoqueiro.

Em vez de ser reconhecido como o artilheiro dos gols inúteis deveria ostentar o cetro real de majestade e símbolo de uma geração talentosa, rica, idolatrada, mimada, ingrata e inútil.

* Fabio Venturini é jornalista.